Capítulo 8

A traição sempre machucou o amor. Era por isso que Louis estava sentindo dor, ele sentia fisicamente a traição e a falta de confiança de Harry. Era como se todo o seu corpo estivesse se partindo em milhões de pedacinhos, como se todos os átomos que o constituía estivessem se desintegrando aos poucos.

Ele nunca estivera tão enfermo. Ele saiu de sua casa cambaleando como um bêbado. Era como se ele fosse alguém que bebera para esquecer suas desgraças e por conseguinte não conseguisse se manter em pé ou se lembrar de quem era.

Suas asas mal ficavam abertas da forma que era necessário para que ele pudesse voar. Por isso ele mal conseguia se sustentar com elas quando voou até o Olimpo.

Ele se sentia o próprio Ícaro quando encostara perto demais do sol e perdera a capacidade de voar. Louis se sentia em queda livre, prestes a desabar em meio ao mar. E pronto para se afogar no oceano de sua decepção e perder o ar sufocado pela mágoa.

E lá no fundo de seu ser ainda existia o medo que corria se espalhava pelo seu sangue feito veneno. Ainda que Harry tenha o machucado, ele não queria que a visão de sua face tenha prejudicado o reconhecimento das duas almas gêmeas.

Louis chegou ao Olimpo e se manteve escondido de qualquer deus ou ninfa que pudesse lhe encontrar no caminho até o palácio de Afrodite. Ele não passava muito tempo naquele lugar porque o seu trabalho o obrigava a conviver com os mortais. Logo, existiam milhares de criaturas por ali que iriam querer lhe encontrar e bater um papo para matar a saudade. Mas ninguém tem saco para bater papo quando o coração estilhaço, sendo assim era compreensível que Louis não quisesse ver ninguém.

Afrodite pode parecer a pior mãe de todos os tempos e talvez ela seja. No entanto, pertencia a ela o lugar que Louis considerava o refúgio dele. E apesar de ter muito tempo que não voltava para ali, ele sabia que sempre que precisasse poderia ir até lá que sempre seria bem recebido.

Ele nunca se esquecera da aparência do palácio de sua mãe e enquanto se aproximava ia se recordando de cada sensação que o lugar lhe transmitia. As paredes de diamante roxo, embora fossem chamativas, passavam sensação de conforto e guardavam milhões de memórias de sua infância. Nenhum outro lugar o deixava com tanta sensação de segurança.

Louis caminhou pelo jardim de rosas e revirou os olhos assim que viu as pombas brancas voando para todos os lados. Elas ainda o incomodavam e faziam com que ele se lembrasse de ter pedido que Afrodite as substituíssem por cachorrinhos. Seu pedido não fora atendido, porque os humanos já haviam escolhido as pombas como animais de sua mãe. No entanto, nada tirava da cabeça dele que cachorros eram mais agradáveis.

"Mãe." Louis chamou enquanto abria as portas e entrava no palácio de Afrodite. Ele tropeçou pelo tapete que se estendia das portas até o trono dourado. Estava tão silencioso, exceto pelo som do violino e a voz de Louis ecoou por todo local

Ele não precisou chamá-la mais de uma vez, visto que a encontrou sentada em seu trono de diamantes. Afrodite estava com máscara de pepino no rosto e dois querubins fazendo suas unhas, enquanto uma touca térmica prendia seus fios de cabelo para hidratá-los. Ela parecia tão em paz que Louis não queria atrapalhá-la, entretanto ele sabia que não tinha muita escolha porque precisava da mãe.

Assim que a viu, Louis chegou ao máximo de sua exaustão. Por isso, ele não conseguiu se manter em pé e precisou de apoio. Ele encostou suas costas em uma das colunas de arquitetura jônica feita de diamante roxo como o resto das paredes. Essa ação chamou a atenção da deusa que já estava achando estranha demais a visita inesperada dele. Ela estalou os dedos, afastando os querubins porque sabia que tinha algo errado com Louis.

"O que houve, Eros?" Afrodite perguntou preocupada, assim que viu o rosto contorcido de dor do filho e o corpo fraco não se sustentando sozinho. "Como você se machucou?" Ela levantou do trono e mudou sua aparência.

De uma hora para outra ela já voltava a ser a mulher exuberante de sempre. Seus cabelos castanhos caíam brilhosos sobre suas costas e ondulavam no mesmo ritmo dos seus quadris largos e das suas passadas ensaiadas. Qualquer modelo sentiria inveja da sua beleza e do seu jeito de andar. Ela parecia planar sobre o chão com a graça de um beija-flor sugando o néctar das flores.

Não era atoa que ela tivesse surgido dentro de uma concha. Pois a sua aparência deixava evidente que ela era preciosa como uma pérola. Mesmo em uma situação preocupante, ela não estava menos que perfeita. Principalmente, por estar dentro de seu palácio que, assim como ela, brilhava em esplendor.

Afrodite caminhou até ele, mas antes que chegasse muito perto ao ponto de tocá-lo sentiu seu coração partido. A deusa era capaz de enxergar o estado do coração de qualquer um. Ela via e sentia a aura dos seres e era capaz de dizer se eles estavam apaixonados, amargurados ou se ainda não estavam prontos para amar. Ela também era deusa do amor, afinal. Logo, era uma ótima conhecedora do sentimento, embora não parecesse.

Da última vez que tinha sentido a aura do filho, ela lembrava de sentir a aura esverdeada de quem ainda não tinha encontrado seu par. Mas naquele momento, ela podia sentir o amarelo indicando que coração de Louis estava partido. Nem fazia tanto tempo que eles haviam se encontrado, por isso ela se perguntou o que teria acontecido em tão pouco tempo.

Foi então que ela se lembrou da sua última visita no dia que Louis estava em seu jardim. Na época, ela não prestara atenção suficiente. Contudo, era perfeitamente capaz de se lembrar do que a aura de Louis transmitia. Ela era rosa! Conviver com o mortal tinha deixado a aura de Louis rosa como a de uma pessoa apaixonada. Afrodite não era capaz de conceber tamanha desgraça.

Pouco crédula da própria conclusão que tirara, ela tocou o rosto de Louis e encarou seus olhos afim de descobrir o que tinha acontecido. As imagens de todos os momentos que Harry e Louis compartilharam passaram pelos olhos dele como um filme. Em poucos minutos, Afrodite ficou a par de tudo o que acontecera. E ela seria capaz de despedaçar todas as colunas que sustentavam seu palácio apenas com o ódio que sentia.

A verdade é que ela sempre desconfiara que Louis se apaixonaria e temera em igual intensidade o dia que isso aconteceria. Ele era Eros, a personificação do amor e por isso sentia tudo de maneira diferente. A existência e o corpo de Louis, diferentemente dos outros deuses, estavam diretamente ligados ao sentimento que ele representava. Enquanto o amor que ele sentia vingava e se fortalecia, ele também ficava mais forte. No entanto, quando esse amor era traído ou corria o risco de não se manter vivo, Louis ficava como estava naquele instante: fraco, machucado, definhando.

A dor que ele sentia era tão forte que irradiava por toda parte. Afrodite conseguia sentir a intensidade da dor dele. Toda a preocupação que sentia se convertera em ódio e ela estava pronta para vingar o sofrimento do filho. No entanto, conhecedora da miséria que ele padecia, se calou acerca de seus planos e optou por ajudá-lo primeiro.

Ela sempre parecera um pouco amarga demais para ser a deusa da beleza e do amor. Mas isso é porque ninguém sabia mais que ela como o amor poderia ser um sentimento cruel algumas vezes. Talvez por isso ela sempre tenha detestado Camões e sua pretensão de afirmar que 'o amor é uma ferida que dói e não se sente'. Qualquer um que visse Louis saberia que não funcionava bem assim.

"Eu não acredito que um mortal foi capaz de fazer isso com você." Falou e seus olhos se fecharam em fendas, enquanto ela apertava as mãos até seus dedos ficarem embranquecidos. Sua voz deixava óbvia a raiva que ela sentia por ver seu filho, um deus, padecendo por culpa de um mero mortal.

A diferença de deuses como Louis e deusas como Afrodite era o contato com os mortais. Por Louis passar muito tempo entre os humanos, ele aprendeu a vê-los como iguais. Já Afrodite, por ficar o tempo todo no Olimpo e não ter muito contato com pessoas, tendia a acreditar que deuses eram muito superiores aos humanos. Ela se esquecia que nós dependemos do culto dos humanos para existir. Por isso, era ultrajante que Eros, um dos deuses mais poderosos, estivessem sofrendo por uma criatura tão desprezível quanto Harry.

Era um fato que os deuses mais poderosos são Zeus, Poseidon e Hades. Eros sempre fora considerado um deus menor. Entretanto, ele era o deus do amor, o sentimento mais valorizado e cultuado por todos os humanos. Ele nunca era esquecido e mesmo com o passar do tempo era cultuado mais que qualquer outro deus, principalmente, nas comemorações de San Valetin.

Louis era cultuado nas músicas, poemas, livros e produções Hollywoodianas. Ele estava estampado em qualquer produto posto à venda. Ele era lembrado e idolatrado a todos os momentos. Nem mesmo Dionísio, o deus dos vinhos e dos prezes, conseguia tal feito no Carnaval.

Era inaceitável que alguém com tal poder e influência fosse afetado pessoa como Harry. Mas o amor era como uma flecha, uma vez atirada, poderia acertar qualquer um sem qualquer distinção. Afrodite entendia isso, mas nunca gostara da forma que o amor funcionava.

"Eu sempre soube que não estava imune." Louis disse com um sorriso amargo enfeitando seu rosto. Era visível pelas suas feições contorcidas a dor que ele estava sentindo, mas que tentava mascarar.

As palavras de Louis não melhoraram a situação porque Afrodite ainda tinha vontade de gritar e destruir tudo o que via pela frente. Ela respirou fundo e tentou se concentrar no que era importante, que era o bem-estar de seu filho. Ao invés de arrasar a primeira coisa que ver pela frente. "Vamos até seus antigos aposentos. Não é bom que você fique aqui." Ela falou passando seus braços pela cintura dele e o ajudando a caminhar até seu quarto.

Afrodite estava sobretudo temerosa com a situação de Louis. O bem-estar do Cupido era crucial para que a humanidade soubesse o que era o amor romântico. Se ele sucumbisse, quem seria responsável por fazer as almas gêmeas se encontrarem e se apaixonarem?

Eles caminharam devagar até o quarto e Louis foi colocado na cama. Ele se deitou enquanto Afrodite abria as janelas e deixava o ar limpo do Olimpo entrar acompanhado pelo cheiro das flores do jardim. Ela foi para cama e se sentou ao lado de Louis, encarando seu corpo fragilizado e se sentindo imponente por não ter como ajudá-lo.

Louis encarou as paredes de seu quarto vendo que nada parecia com o que ele havia deixado séculos atrás. Primeiro porque estava tudo mais moderno e todos os seus itens pessoais haviam sido levados junto com ele quando ele partira. Ele tentava focar em banalidades para esquecer a dor que sentia. Mas não estava surtindo muito efeito. No fim, sua mente o traía, ele acabava perdendo a concentração e voltava a focar na sensação constante de seu corpo se partindo em mil pedaços.

"Fique aqui o tempo que precisar. Você sempre será bem-vindo, minha casa também é sua. Descanse e se cure." Afrodite disse, tirando os fios de cabelo suados da testa de Louis. "Eu tiraria sua dor se eu pudesse. Mas nem Apolo seria capaz de te curar." Ela admitiu em sussurros.

"Eu sei. Está tudo bem, não se preocupe." Louis disse afim de sossegar Afrodite. Suas palavras foram acompanhadas pelo sorriso débil de quem estava satisfeito com a própria miséria. Porque a verdade é que ele não se arrependia de nada que vivera com Harry e passaria mil vezes por tudo aquilo, mesmo sabendo que a consequência seria aquela dor excruciante. Ainda assim, ele odiava ser o motivo da expressão frustrada da mãe, não gostava de vê-la assim porque não combinava com quem ela era.

"Os outros Erotes estão por aqui. Vou pedir que eles venham ver você." Afrodite falou, se levantando e fazendo com que Louis se sobressaltasse.

"Mãe, por favor, não deixe que Anteros machuque Harry." Ele implorou. Afrodite já estava na porta do quarto, mas se virou com os olhos brilhando em fúria. Ela não queria acreditar no que ouvira, por achar aquele pedido inadmissível.

"Eu não posso impedir o trabalho dele, Eros. É tarefa dele vingar o amor não correspondido." Ela espremeu os olhos e suspirou alto, enquanto falava calmamente como se Louis já não soubesse daquilo. Ela tinha vontade de dizer que Louis estava sendo ridículo e que ele não deveria estar preocupado com Harry quando não era Harry que estava machucado.

"Mas Harry me corresponde." Louis estava com medo do que Afrodite poderia fazer. Primeiro porque ela já tinha um histórico de raiva de Harry pela aparência dele. Mas principalmente porque ele conhecia a mãe muito bem e sabia que ela estava irada com o que acontecera. Ele não duvidava que Afrodite já estivesse com um novo plano de vingança e que usasse seu irmão, Anteros, dessa vez.

"Então não há com que se preocupar. De qualquer forma, seu irmão vai estar ocupado cuidando de você. Ele não terá tempo de ir atrás do seu mortal" Afrodite falou e saiu pela porta do quarto. Alguns minutos depois, Anteros entrou pela porta e ficou olhando para Louis na cama como se não acreditasse no que estava vendo.

Louis, assim como todos os deuses, tinha a mente de um adulto quando nascera. No entanto, sua aparência era de criança. O problema era que Louis não crescia, o tempo passava e ele continuava com o físico infantil. Isso se devia ao fato de que o amor não cresce sozinho, ele precisa ser correspondido para se desenvolver. Em virtude disso, Afrodite e Ares tiveram Anteros para fazer companhia a Louis e para que ele pudesse crescer. Como disse o poeta francês, Charles Baudelaire, o amor é um crime que não se pode realizar sem um cúmplice.

Eros e Anteros eram muito apegados, por passar tanto tempo juntos. Contudo, eles perderam o contato depois que Louis finalmente se tornou um adulto e saiu pelo mundo para flechar os mortais. Sendo assim, tinha muito tempo que Louis não via o irmão, por isso ele sentia saudades. No entanto, só se dera conta disso nesse momento. Ele ainda achava que era estranho não ficar tanto tempo com Anteros como outrora.

"Eros, os querubins me contaram que você finalmente você voltou para casa." Anteros falou, enquanto andava em direção ao irmão para abraçá-lo. Era estranho olhar para Anteros depois de tanto tempo, principalmente quando ele mantivera sua aparência infantil. Ainda assim, Louis sentiu seu peito se aquecer em carinho ao ver o irmão e ao sentir-se rodeado pelos seus braços pequenos.

Os cabelos loiros como palha, um metro de altura, os olhos azuis e o sorriso imenso cortando o rosto faziam Louis ter vontade de sorrir também. A aparência era tão inocente que nem parecia se tratar do deus da desilusão, antipatia, desunião e aversão. Tampouco o deus responsável por vingar o amor não correspondido.

Anteros sentou na cama em cima das próprias pernas e começou a contar sobre tudo o que havia acontecido desde que Louis fora viver com os mortais. Embora Louis só tivesse voltado para a casa da mãe pelo trágico motivo de seu coração partido, ele sentia que não seria tão ruim aproveitar a companhia de seu irmão.

Enquanto Anteros conversava com Louis, Afrodite pediu para os outros erotes, Himeros e Photos, buscarem algum emplastro para amenizar as dores que Louis sentia. Talvez Apolo tivesse algum remédio para mitigar, já que a cura efetiva para um coração partido ainda não existia.

Tendo certeza de que Louis seria bem cuidado, Afrodite se sentiu livre para ir se vingar de Harry. Ela faria tudo com suas próprias mãos, visto que terceirizar o trabalho, mandando Louis dar um jeito no mortal só tinha piorado a situação. Era hora dela resolver tudo por si mesma.

Afrodite estava com raiva de Harry, mas também com raiva de si mesma. Isso não era algo que acontecia com frequência para alguém com o ego como o dela. Entretanto, a deusa não deixava de se culpar por ter sido a responsável pelo encontro dos dois. Por isso, ela estava pronta para consertar o erro que cometera. Já que Harry era uma pedra no scarpin de Afrodite, ela faria questão de tirá-lo de seu sapato e esmagá-lo até que ele virasse pó.

💘

Harry foi para Florença quando percebeu que Louis não iria voltar. Porque ele não aguentava olhar para os cômodos da casa e conviver com as lembranças do que vivera com Louis, tampouco saber que perdeu tudo por sua culpa. Além disso, ele não achava justo morar em uma casa que não era sua. Tudo aquilo pertencia a Louis, então não era seu direito viver ali. Principalmente, porque Louis estava deixando claro que não queria estar em sua presença.

Foi por isso que Harry trancou a casa três dias depois que Louis partira. Ele ficou em um hotel de baixo orçamento em Florença, enquanto tentava conseguir emprego. O sonho de Harry ainda era trabalhar organizando festas de casamento, entretanto não era possível realizar esse sonho no momento. Sendo assim, ele se contentou em trabalhar como garçom em um restaurante enquanto reconstruía sua vida.

Harry tentava fingir que estava tudo bem, tentava ficar feliz por ter dinheiro suficiente para se manter, por conseguir um emprego e, finalmente, estar conseguindo dar um rumo em sua vida. Havia dias, inclusive, que ele se orgulhava de conseguir se levantar da cama e de não ser esmagado pela saudade.

Quando tudo se tornava muito difícil e ele só tinha vontade de chorar e se encolher entre cobertores. Além disso, ele gostava de fingir que estava de férias e saía pelos pontos turísticos de Florença para esquecer o que estava sentindo e enganar a si próprio. Isso porque ele sempre lera que esquecer era importante para seguir em frente. No entanto, ele não contava com a inquietação que sentia.

Cada pedra da cidade atiçava a saudade e a aflição de Harry. Porque a ausência de Louis se assemelhava a falta de um cobertor no inverno, e causava a sensação de que algo estava errado. Harry sentia que sua vida era um quebra-cabeça que outrora estava montado, até que alguém embaralhou todas as peças. Além do sentimento latente, de que ele precisava encontrar algo, que o atormentava.

Harry amava Florença de tal modo que acreditava que nenhum lugar do mundo poderia ser mais bonito. Ele passeava pela cidade sempre que tinha tempo livre e sempre ficava encantado porque cada canto da cidade parecia ter sido cuidadosamente planejado. Não importava quantas vezes ele já tinha ido ali, pois ele sempre agia como um turista em sua primeira viagem.

Nos primeiros dias, ele visitou os Jardins de Boboli que ficavam ao redor do Palazzo Pitti. Mas as aleias com roseirais, ciprestes, cercas-vivas e fontes lembravam o jardim de Louis e os dias que eles fizeram piquenique por lá e se beijaram sob o sol morno da primavera. Por isso, não demorou muito para ele perceber que ir ao jardim não o ajudava a esquecer.

Então, ele resolveu ir às catedrais e às igrejas porque ele amava observar a arquitetura milenar e admirar as decorações com afrescos e mármores e as cúpulas ornamentadas. Harry visitou a Catedral de Santa Maria del Fiore e a Basílica de Santa Croce. E ficou animadíssimo pensando que amaria visitar novamente os túmulos de Michelangelo, Galileu e Maquiavel com Louis, já que ele dizia amar esses personagens italianos. No entanto, Harry nem sabia se veria Louis novamente e a perspectiva disso não acontecer fez com que as bonitas capelas, estátuas e afrescos perdessem seu encanto.

Quando anoitecia era um pouco mais fácil porque era o horário que ele estava ocupado trabalhando. Isso porque se concentrar em levar pratos e pedidos de um canto ao outro, impedia que ele pensasse em qualquer outra coisa como Louis e corações partidos e não cicatrizados. Dormir era sempre surpreendente porque havia noites que o cansaço vencia e ele caía no sono rapidamente. No entanto, também tinha algumas horas que as memórias rondavam sua mente e o impediam de relaxar. Nessas noites, Harry chorava até dormir porque as noites tinha sido feitas para ele e Louis, era sempre o momento deles. Não o ter por perto nessas horas era mais doloroso que em quaisquer outras.

Algumas vezes, ele sonhava com o rosto de Louis. A lembrança vaga e frágil que escorria pelos seus dedos feito água se transformara em um sonho rápido e triste. Talvez fosse por causa da saudade, da mente atormentada pelo sentimento de culpa. Harry via o rosto de Louis quase de forma nítida e então ele ia desvanecendo até sumir. E Harry gritava, chamando por ele, mas Louis não ouvia e não atendia seu pedido. Ele sempre acordava assustado depois dos pesadelos e se afundava na cama querendo sumir entre os lençóis quando se dava conta de onde estava.

Harry estava decidido a superar, porque ele já não era mais alguém que desistia fácil. Ele estava muito decidido a deixar tudo para trás, já que ele não tinha noção do paradeiro de Louis e não podia encontrá-lo e pedir perdão. Como resultado, ele resolveu estudar arte para preencher a mente e se distrair. Por isso, saía do hotel nas manhãs, em que a noite anterior a elas havia sido conturbada.

Ele ia aos museus admirar a arte renascentista e tentar esquecer da própria vida. Gastava algumas horas absorvendo cada detalhe do Davi de Michelangelo na Galleria Dell'Accademia ou ver as obras de Botticelli, Caravaggio e Leonardo da Vinci na Galleria Degli Uffizi. Entretanto, as esculturas gregas e romanas, as pinturas do século XVIII e as obras renascentistas não tinham importância quando a saudade que ele sentia de Louis parecia que ia dividir seu coração em dois pedaços.

O único lugar que ele não ousava visitar era a Ponte Vecchio porque ele sabia que não suportaria o clima extremamente romântico que pairava sobre o lugar, já bastava o resto da cidade. Embora fosse uma construção grandiosa, as pequeninas janelas dão um ar melancólico. E de melancolia já bastava a que Harry sentia, ele certamente não precisava de mais.

Florença emanava amor por todos os cantos: as comidas tinham gosto de amor, os acordes se reuniam e transmitiam amor, o cheiro era de amor, tudo o que havia para ser visto transbordava amor. Florença era sinestésica como o amor, como Louis. Tudo por ali era poesia pura como os livros na estante de Louis e as mil formas de falar sobre aquele sentimento, que estava no conteúdo daquelas páginas.

A cidade era o paraíso para os amantes. Entretanto, era uma desgraça para alguém que se sentia como Harry. Olhar para todos os lados e ver o sorriso e o brilho dos olhos dos apaixonados despertava um sentimento insuportável de nostalgia, embora Harry nunca tenha ido a Florença com Louis. Mas aquela cidade, em qualquer época do ano, era igual ao amor de Harry por Louis: agradável como as ruas floridas na primavera; tranquilo como a cidade no outono; quente e animado como a temporada do verão; forte e bonito como o inverno.

Harry se sentia sozinho na maioria dos dias porque não conhecia ninguém em Florença. Ele passava a maior parte do tempo em silêncio por não ter com quem conversar. E, na maioria das vezes que falava, era sempre algo impessoal e comercial. Foram semanas sem nenhuma conversa boba ou que denotasse intimidade. Por vezes, ele acreditava que iria enlouquecer.

No entanto, voltar para a vinícola seus pais não era uma opção. O que ele diria a sua família pouco compreensiva? Falaria que tinha se separado? Sabia que se voltasse para a vinícola com uma notícia como essa deixaria sua mãe abalada. Ele, o caçula dos Styles que tanto demorou para casar e que tanto fora recusado, tinha sido abandonado pelo único namorado que tivera na vida. Além disso, ele culpava sua família por tê-lo influenciado a tirar a máscara de Louis. A verdade é que ele não tinha vontade de voltar para vinícola.

Se Harry pudesse escolher qualquer coisa para ter em sua vida, ele com certeza pediria para ver Louis mais uma vez. Dessa maneira, ele mal percebeu quando começou a desejar que isso acontecesse todas as noites antes de dormir como uma oração de um fiel desesperado. Apesar de nunca ter sido muito religioso, ele rezava e pedia para qualquer força maior existente que lhe desse a chance de ver seu amado, ao menos, mais uma vez.

Nenhum pedido de um mortal é em vão porque nós sempre escutamos. Entretanto, não é sempre que atendemos, até porque ninguém aqui é gênio da lâmpada. No caso de Harry, uma deusa em especial estava ouvindo seus apelos. Afrodite até estava triste com a situação de Louis, mas também estava satisfeitíssima em assistir o tanto que Harry estava sofrendo e em ouvir os seus clamores.

Embora ela soubesse que o sofrimento de Harry não fora causado por Louis de maneira proposital e que seu filho não tinha a mínima intenção de seguir suas ordens e se vingar, ela estava um pouco satisfeita com o desfecho de tudo. De qualquer maneira, ela conseguiu o que queria, que era ver Harry padecer de amor. Por Zeus! Era difícil acreditar que essa mulher era a deusa do amor. Não gosto nem de pensar em como seria se ela fosse deusa da guerra ou da vingança. Sinceramente, nunca imaginei que eu fosse agradecer pela existência de Ares e Nêmesis.

Afrodite estava em êxtase pela situação de Harry. Ela tinha raiva porque Harry não sofrera por tentar derrubar a hegemonia dela de ser mais bonito do universo. E, como se não fosse o bastante, ele ainda fizera o filho dela sofrer e o traíra. Por isso, a vontade de fazer Harry pagar por tudo crescia em seu coração como uma trepadeira, se enroscando em tudo o que encontrava. Ela não perdoava o mortal por ter magoado o seu filho. Por isso, Harry precisava pagar.

Em um dos dias em que a solidão de Harry estava quase insuportável, ele resolveu caminhar pelas ruas estreitas da cidade. Até que ele ficou muito cansado e achou que era uma boa ideia sentar uma das praças, ler algum livro de romance ou apenas observar os turistas transitando ao pôr do sol.

Ele escolheu a Praça Santa Maria Novella, sentou em um dos banquinhos perto da fonte e ficou admirando a fachada da igreja em mármore branco e verde. Enquanto ele se distraía com o movimento dos turistas, uma mulher desceu de um carro e sentou em um bando de frente ao dele. Ela era a mulher mais bonita e elegante que Harry já vira. Seu olhar exalava superioridade, como se todas as pessoas do mundo não fossem dignas sequer que a ver.

Ela encarava Harry como se ele tivesse feito algo de muito ruim para ela. Mas se ele bem se lembrava, nunca tinha visto aquela mulher em sua vida. E ela tinha um rosto difícil de esquecer. Os minutos passavam e Harry já não aguentava aquele escrutínio, tanto que ele se mexia no banco mudando de posição frequentemente. Além disso, ele passava a mão no seu cabelo e conferia se tinha algo sujo na sua roupa. Porque aquelas eram as únicas justificativas que ele encontrava para a atitude da mulher.

Quando Harry estava quase se levantando e indo embora devido aos olhares da mulher, ela finalmente disse algo. "Boa tarde." Sua voz era firme e combinava com sua postura altiva e ela continuava fuzilando Harry com olhos.

"Boa tarde." Harry respondeu, sentindo um arrepio gélido percorrer a sua espinha, embora o clima estivesse quente. A presença da mulher o incomodava sobremaneira e fazia o corpo de Harry ficar em estado de alerta como se ele estivesse próximo de perigo.

Ela não disse mais nada e Harry continuou olhando para a mulher e esperando que ela falasse algo. Porém ela continuou o encarando como se ele fosse o mais desprezível dos seres. "Você quer alguma coisa? Posso te ajudar em algo?" Ele perguntou, receoso e com as mãos inquietas por não saber como agir. Tinha medo de fazer algo errado e deixar a mulher mais irritada do que ela parecia estar.

"Você é muito presunçoso, não?" Ela perguntou retoricamente, erguendo as sobrancelhas e soltando um risinho de escárnio. Depois revirou os olhos e encarou Harry de uma maneira que parecia que ele era muito burro e por isso não estava entendendo a piada do século.

"Desculpe? Você me conhece?" Ele perguntou passando a mão pelos cabelos e soltando um riso nervoso. Visto que a atitude dela era extremamente rude e não parecia com a dos italianos que geralmente eram muito hospitaleiros. Isso deixava Harry cada vez mais temeroso e confuso.

"Eu sou Johannah Tomlinson." Afrodite falou, se levantando e estendendo sua mão para que Harry apertasse. Era óbvio que ela não falaria quem era de verdade, até porque Harry não acreditaria. Além disso, desde a instauração do cristianismo como religião oficial do Império Romano, os deuses greco-romanos já não se comunicavam com os mortais assumindo sua verdadeira identidade.

Harry cumprimentou a mulher com o aperto de mão, embora tenha ficado um pouco receoso, devido a forma rude que ela lhe tratava. Porém, qualquer apreensão que ele tinha foi deixada de lado quando ele escutou o sobrenome dela.

"Tomlinson? Desculpe a pergunta, mas você conhece algum Louis Tomlinson?" Ele não conseguiu segurar as palavras porque estava deslumbrado demais com possibilidade de ver Louis mais uma vez.

"Sim. Ele é meu filho." Ela respondeu, enquanto um sorriso malicioso tomava conta de todo o seu rosto. Os olhos dela brilhavam ante a possibilidade de Harry cair em sua armadilha. Afrodite sabia que havia jogado uma isca e que Harry cairia, porque as pessoas apaixonadas não costumam ser racionais. Poucas pessoas entendem de pessoas apaixonadas como Afrodite.

"Você sabe onde ele está? Eu queria muito vê-lo." Harry não conseguia se conter, pois parecia que seu coração iria explodir igual a fogos de artifício. Ele se sentia como um polo de um ímã sendo atraído para outro, convivendo com a necessidade de encontrar a outra parte. Em nenhum outro momento, essa sensação esteve tão forte. Um sorriso gigante dividiu seu rosto e o furo das covinhas ficaram visíveis, seus olhos brilhavam como os de uma criança olhando um carrossel.

"Sei. É claro que eu sei onde meu filho está." Afrodite revirou os olhos mais uma vez e bocejou. Ela agia como se Harry fosse a pessoa mais idiota que ela já tinha encontrado. O que era uma mentira já que ela convivia com os olimpianos. Ainda assim, ela estava se divertindo em ser debochada e em humilhá-lo. Entretanto, Harry não parecia se importar, tampouco perceber a atitude pouco cooperativa e pouco simpática dela.

"Por favor, me leva até ele?" Ele implorou e sua linguagem corporal deixava claro que ele estava perto de ajoelhar para fazer seu pedido. Seus olhos se encheram de lágrimas e todo sentimento que ele tentou conter e ignorar estava próximo de sair pelos seus olhos. Exatamente como uma barragem que não é mais capaz de segurar toda a água.

A mera possibilidade de ver Louis tirava todos os seus sentidos do eixo. Harry só queria pedir desculpas e sentir o corpo quente de Louis em um abraço, mesmo que fosse o último. Ele também não se perdoava por não ter aproveitado mais o som da voz de Louis, o cheiro de seu corpo, o calor do seu abraço e o doce dos seus beijos.

Nada do que os mortais fazem parece suficiente e, ante a perda, eles sempre pensam que poderiam ter aproveitado mais. Mesmo quando não há muito o que se possa fazer. Mas a efemeridade deixa essa impressão que causa arrependimento. Da mesma forma que os humanos sempre acham que poderiam ter comido mais em alguma situação e se lastimam depois que fazem digestão pela crença de que aguentariam comer nem que saiba só mais um docinho. Entretanto, a realidade é que eles estavam mais que satisfeitos e ingerir mais alimento só faria com que eles se sentissem mal. É uma analogia pobre, mas a falta ilude as pessoas bem assim: elas sempre acham que poderiam ter mais do que tiveram. Por isso, Harry não se perdoava por não ter aproveitado tanto a presença de Louis. E a antecipação de encontrá-lo fazia seu coração bater como um tambor.

"Você acha que é bom o suficiente para meu filho? Você traiu a confiança dele e o perdeu. Assim como ele lhe disse que aconteceria." As palavras dela pingavam veneno e fizeram com que Harry engolisse em seco. Os olhos de Afrodite tinham um brilho fervoroso de ódio e as mãos delas estavam fechadas com tanta força que seus dedos ficaram embranquecidos.

Os olhos de Harry se arregalaram e ele começou a mexer a cabeça de um lado para o outro em sinal de negação. A angústia de não ser bom o suficiente para Louis lhe corroía como ácido. Aquela possibilidade nunca havia passado pela sua cabeça antes daquele momento. Mas seria difícil não se atormentar com isso depois de ouvir aquelas palavras.

"Eu amo Louis. Isso não é o bastante? Eu faço qualquer coisa para vê-lo novamente." Ele falou desesperado com a voz rouca e um pouco falha, enquanto as lágrimas desciam pelos seus olhos como uma torrente. Essa era uma afirmação perigosa para ser dita a qualquer um. Ainda mais, para dizer a alguém que lhe odeia e estava contando com seu desespero para se vingar.

Esse era a típica aflição dos amantes, aquilo que Afrodite esperava despertar em Harry para completar sua vingança. Harry estava realmente pronto para fazer tudo por Louis, assim como Ariadne fez demais por Teseu, como Medeia abandonou tudo por Jasão e como Orfeu foi até o Hades em busca de Eurídice. Eram as loucuras de amor que geralmente terminavam em tragédia.

Era por essas coisas que eu sempre achei o amor perigoso e cruel demais. E era nesses momentos que eu entendia porque Afrodite era a deusa do amor e porque Louis saía por aí atirando flechas para fazer as pessoas se apaixonarem. O amor não me parecia confiável e a simbologia deixava isso bastante claro.

"Não, não é suficiente. Louis não é uma pessoa qualquer. Você precisa provar que é bom o bastante para ele. Mas isso não vai ser um problema para você, não é? Você acredita que pode ser bom para ele." Ela deu de ombros, sem nenhuma preocupação de como Harry receberia suas palavras e como seu sofrimento seria ampliado. E ele já sofria muito por se tratar da perda de sua alma gêmea.

Harry não sabia sobre a existência de almas gêmeas e era muito cético para acreditar na possibilidade de serem reais. Entretanto, mesmo sem saber, ele sofria muito mais do que em qualquer caso de paixão comum. Isso porque ele foi separado da pessoa que, ainda que não soubesse, passara a vida procurando.

"O que eu preciso fazer?" Harry perguntou, endireitando a postura e estufando o peito. Ele enxugou as lágrimas que escorreram quando ouviu as maldosas palavras da sogra e tentou reunir um pouco de dignidade.

Ele se lembrou do que Louis lhe dissera mais de uma vez, das palavras de incentivo para que Harry começasse a ir em busca do que queria. Louis lhe disse que ele não deveria deixar que os outros ditassem o que aconteceria em sua vida. E, se Harry teve força suficiente de fazer isso para tirar a máscara do rosto de Louis, ele também tinha para conquistar Louis de volta.

Ele já estava cansado de não ter controle sobre sua própria vida. E Já havia passado tempo demais de viver aceitando tudo o que o destino lhe mandava, sem lutar pelas suas vontades. Tudo seria diferente a partir de então. Além do mais, ele prometera para si mesmo que não perderia a oportunidade de reconquistar Louis, caso ela aparecesse.

Afrodite sorriu maliciosa porque era exatamente isso o que ela queria ouvir. Ela se levantou altiva do banco sorrindo da mesma forma que uma vendedora de imóvel mal-assombrado em filme de terror. Harry estava determinado, mas ainda não era o suficiente para conseguir encarar Afrodite, por isso ele desviou o olhar e encarou a igreja. Nesse momento, Afrodite estalou os dedos e o carro que a havia deixado voltou e estacionou perto da praça.

"Gosto da sua coragem, garoto. Vamos comigo que eu digo o que você tem que fazer, já que está tão determinado." Ela saiu caminhando a passos firmes até o carro e fez sinal com os dedos para que Harry a seguisse.

Ela andava confiante e de cabeça erguida, exalando ostensividade e presunção. Já Harry a seguia de forma retraída e nervosa, fazendo com que eu acreditasse que tudo terminaria em tragédia. Na minha opinião, essa seria mais uma história de desgraça causada por amor. Por isso, eu já estava roendo todas as minhas unhas e temendo pelo que poderia acontecer. Até porque Afrodite era um trator e Harry, um carrinho da Hot Wheels.

Contudo, eu não poderia mais intervir e interceder pelo mortal. Porque eu já havia me intrometido demais nos assuntos de outros deuses. E, talvez, fosse necessário que Harry aprendesse a se virar sozinho.

Eles entraram no carro e, logo que se acomodaram, o veículo saiu em alta velocidade pelas ruas de Florença. Harry ficou com um pouco de medo tanto de que acontecesse um acidente quanto da mulher estar mentindo e não saber onde Louis estava. No entanto, ele achava que era difícil algo assim acontecer porque ninguém sabia da sua história com Louis. Nem mesmo sua família sabia que eles tinham se separado. Portanto, não tinha como uma desconhecida saber e mentir sobre Louis.

Não demorou muito para Harry notar que eles estavam chegando na parte rural do município. As construções ficaram mais esparsas e a paisagem começou a ser dominada pelo verde e pela vegetação típica do lugar.

A viagem foi silenciosa porque, ainda que Harry estivesse determinado a se provar merecedor de Louis, Afrodite o deixava meio receoso. Entretanto, o silêncio não foi incômodo, principalmente, porque eles não demoraram a chegar no seu destino.

Harry não entendeu porque eles pararam no meio do nada. O lugar era cercado por capim e só havia uma construção antiga. Era um celeiro medieval feito de pedras de tamanho e formato irregular. Era comum encontrar vários daqueles pela Toscana, mas a maioria deles não eram mais utilizados. Isso porque as pessoas já não estocavam comida como faziam no século passado.

Só depois que eles desceram do carro que Afrodite falou. "Eu só vou permitir que você veja meu filho novamente se cumprir com essa tarefa. Não é nada demais." Ela disse, enquanto caminha com Harry até o celeiro.

Afrodite abriu a portinha e entrou no lugar escuro e abafado. Já Harry continuou a seguindo silenciosa e obedientemente. Suas sobrancelhas se franziram em confusão ao ver o lugar tomado pro uma pilha de grãos e alguns utensílios para usar em plantações e colheitas.

A pilha de grãos deveria ter quase a altura de Harry. E o mais esquisito é que tudo estava misturado. Os grãos de trigo, cevada, feijões e lentilhas era inúteis para consumo por estarem todos juntos. Era muito sem sentindo que alguém tivesse deixando-os assim deliberadamente.

"Você só terá que separar esses grãos até amanhã de manhã." Afrodite disse apontando para pilha como se fosse a coisa mais simples de se fazer. Assim que ela disse, Harry só faltou desmaiar.

O sol já estava perto de se pôr. Apolo passaria com a carruagem do sol e Ártemis chegaria com a carruagem da lua em alguns minutos. Portanto, era impossível fazer aquele trabalho em uma noite. Na verdade, era improvável que Harry cumprisse aquela tarefa em um mês. Por Zeus! Nem Deméter, que é deusa da agricultura, iria querer fazer algo como aquilo. Mesmo que para cumprir a tarefa, ela só tivesse que estalar os dedos.

No entanto, não era o intuito de Afrodite que Harry provasse nada. O que ela queria era que ele sofresse um pouco mais, que ele se sentisse inútil por ter perdido Louis e por não ter conseguido reconquistá-lo. Nada mudaria o pensamento dela de que Harry era desprezível demais para estar com Louis. Afrodite até poderia ser uma boa mãe algumas vezes. Contudo, era inegável que ela era uma péssima sogra. Que desgraça é maior do que ter uma megera dessas como sogra?

Harry queria muito perguntar para que aquilo serviria e como provaria que era merecedor do amor de Louis separando grãos. No entanto, achou que era mais prudente se manter calado. Estava óbvio que Afrodite não gostava muito dele, por isso era melhor não abusar da paciência dela.

"Tudo bem." Ele disse, evitando transparecer seu desespero. No entanto, sua voz saiu um pouco trêmula e seus olhos estavam arregalados.

"Eu já vou indo. Amanhã, estarei aqui para ver se você cumpriu a tarefa." Ela disse e voltou para o carro. Antes que Harry pudesse dizer qualquer coisa, ela entrou no carro e o veículo sumiu pela estrada.

Harry queria sentar e chorar, mas essa não seria uma atitude muito produtiva e ele tinha pouco tempo. Por isso, ele passou alguns minutos encarando a pilha de grãos e pensando em uma forma de separá-los. Era óbvio que seria impossível separar de um por um com as mãos, catar os grãos estava fora de cogitação devido ao tempo.

Ele precisava de alguma coisa que separasse os grãos de uma vez, ou pelos menos, que separasse grandes quantidades por vez. Algo como um vento passasse magicamente e colocasse cada tipo grão em uma pilha menor que aquela. No entanto, Harry não é um titã da brisa como eu, então não era possível que ele fizesse tal coisa.

E não seria eu quem ajudaria Harry dessa vez. Embora eu achasse Afrodite uma megera, a tarefa tinha que ser realizada por Harry. Ele tinha que provar que era merecedor de Louis, não eu. Até porque eu não tinha interesse nenhum em me provar digno do amor de Louis.

Harry continuou encarando os grãos e andando de um lado para outro, afim de conter seu nervosismo. Sua mente incessantemente pensava em separar, separar, separar. Ele se perguntava o que sabia sobre separar. Na maior parte do tempo, essa palavra o deixava melancólico porque lembrava da sua situação com Louis.

Ele nunca viu tanta comida reunida, nem mesmo quando entrava no estoque do restaurante. Foi então que Harry teve uma epifania. Pois ele se lembrou que, no restaurante, os cozinheiros colocavam o feijão na água para facilitar o cozimento. E, algumas vezes, os bagaços mais leves boiavam enquanto os grãos pesados iam para o fundo do recipiente.

A mente de Harry começou a trabalhar com rapidez. E logo ele se lembrou de uma de suas primeiras aulas de química do Ensino Médio. Ele começou a recordar dos métodos de separação de misturas heterogêneas.

Então, Harry se lembrou da levigação e das diferenças de densidades. E teve vontade de fazer uma dancinha, comemorando sua grande ideia. Se ele colocasse os grãos em um recipiente com água, alguns iriam boiar, outros iriam ocupar o meio do recipiente ou iriam afundar por completo. Tudo isso devido a diferença de densidade entre os grãos e a água. Depois, bastava que ele os pegasse com as mãos e separasse em pilhas diferentes. Da mesma forma como faziam para separar os feijões dos bagaços no restaurante.

Para que seu plano desse certo, ele precisava achar o recipiente primeiro. Portanto, ele procurou, por todo o galpão até encontrar uma bacia de tamanho mediano e uma lata velha e enferrujada. Harry pegou bacia e foi até a torneira que havia do lado de fora. Encheu o recipiente com água e carregou para perto das pilhas de grãos.

Ele pegou a lata e usou para transportar os grãos até a bacia. Depois de colocar os grãos ali, ele esperou que se separassem pela diferença de densidade e depois usou as mãos como peneira para retirá-los da água. Seria muito bom se tivesse uma peneira de verdade ali, mas ele não teve essa sorte.

Com o avançar da noite, a pilha de grãos misturados ia diminuindo e as novas que Harry estava fazendo aumentavam seu tamanho. No meio da madrugada, Harry terminou sua tarefa. Ele estava muito feliz, mas também estava cansado e faminto.

Não havia comida por ali, tampouco uma cama confortável e quentinha. Quando sentia sede, Harry bebia a água da torneira. Mas isso era tudo que ele tinha para colocar na boca, até porque os grãos estavam crus.

Em um canto do celeiro, havia uma pilha de feno. Era provável que ela provocasse coceira, no entanto, era muito melhor do que o chão duro e sujo. Por isso, ele deitou no monte de feno para cochilar pelo resto da madrugada.

O único problema é que todos os grãos ficaram molhados e iriam estragar. E Harry não tinha pensado nisso. Eu fiquei com pena de todo o seu trabalho ser em vão, caso Afrodite usa-se a conservação dos grãos como argumento para invalidar o que Harry fez. Foi por isso que eu soprei uma brisa muito levinha que era suficiente para secar os grãos, mas não para fazê-los voar.

Eu fiquei feliz não só porque meu casal iria ficar junto, mas porque essa foi uma das poucas vezes que Harry tentou conseguir algo que desejasse. Se ele não conseguisse reatar com Louis, ao menos conseguiria confiança para tentar realizar seus outros sonhos. E, apesar do cansaço e da fome, eu sabia que Harry também estava feliz consigo mesmo.

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