• Trinta

— Não acredito que ainda não falou pra eles.. — Liv me olhava com indignação, soltei um suspiro fraco e abaixei a cabeça.

— Eu te disse que vou falar, não disse? Então.. calma tô esperando a hora certa.

— Nunca vai ser a hora certa Babi, você tá com medo da reação deles, mais uma vez.

— Eu juro que ia falar, no jantar. Mas Yasmin falou sobre outro assunto e o clima ficou estranho depois.

— Uma hora você vai ter que contar..

— Eu sei! — retruquei seca.

Eu e Lívia estávamos ficando, já faz um tempinho.

Ela havia comentado com o irmão, com seus amigos e até seus pais já desconfiavam do nosso rolo.

Ela ficou chateada em saber que quase ninguém da minha família sabe, exceto Yasmin. Que era a única que eu sabia que não iria me julgar, eu confiava em dizer as coisas pra ela.

Nosso lance está evoluindo aos poucos, mesmo sem a gente perceber. Nos vemos com frequência, amo o tempo ao seu lado, ela é especial e sabe disso.

— Vamos com calma, tá tudo tão bem entre a gente. Não quero estragar as coisas. — insisti.

— Foi mal, só queria que todos soubessem da gente. E em como estamos felizes. — murmurou com a voz mansa.

— Na hora exata todos vão saber, prometo. — sorri.

Liv assentiu relutante, com um sorrisinho fraco.

Eu odiava que ela se sentisse assim, é ruim esconder um sentimento tão incrível, tínhamos certeza do que queríamos.

Após conversarmos bastante em sua cama, ela tirou uma foto rápida e tremida nossa. Ficou fofa, e é raro postarmos algo.

Então, publicou nos melhores amigos do Instagram.

Eu encarava o meu novo "chefe", engolia seco e senti minhas mãos suarem de nervosismo. Eu nunca havia trabalho em nada antes, não sabia como funcionava direito.

A única coisa que reparei, foi em como o escritório é bonito e silencioso. Havia lustres, e mármores pelas mesas e paredes, tudo muito bem decorado.

O tal do estágio tinha realmente vingado, pois para ter uma carreira valorizada e com boas indicações, é meio que necessário eu estar aqui.

Já que os estágios curriculares são obrigatórios nos últimos semestres. Ou seja, não tinha muita opção.

A carga horária será de quatro horas semanais, vou entrar às 14 e sair às 18. Nada mal. E o salário não é alto, mas não é tão péssimo assim.

— Bom, muito prazer, Yasmin né? — o homem que aparentava ser bem mais velho que eu, estendeu as mãos em forma de cumprimento. — Prazer, Ivan.

O cumprimentei com um sorriso de canto.

— Sim. Prazer em conhecê-lo.

— Recebi boas recomendações sobre você, sou amigo de longa data do Ulisses e do Leandro! — se referiu aos pais de Isabel.

— Ah, fico contente. Eles são ótimas pessoas!

— Acho que já recebeu algumas informações antes de vir. Posso confiar em você? Espero que faça um ótimo trabalho.

— Com toda certeza, irei dar o meu máximo. — sorri fraco, assentindo.

— Espero. — sorriu de volta. — Vem, por aqui.. vou te mostrar sua mesa.

E lá estava o lugarzinho que eu ia passar as minhas tardes, tudo bem organizado. Coloquei minha bolsa num bidê e tirei o meu casaco.

Eu ia atender clientes, fazer projetos de interiores, participar de reuniões pra consultoria e até montar maquetes físicas. Na verdade, era de tudo um pouco.

Após me acomodar ali, coloquei meus óculos de grau e liguei o computador.

— Boa tarde.. — ouvi uma voz feminina ecoou atrás de mim. Me virei calmamente.

— Olá..

— Prazer, Giovanna! Soube que é a nova estagiária. — falou simpática, com um sorriso largo.

Tem os cabelos cor de mel e os olhos escuros, o seu porte é alto. Vestia roupas charmosas e deu pra ver que era bem formal e discreta.

— Prazer, Yasmin. Sim, sou eu.. tô meio nervosa.

— Sei como é. O primeiro dia parece ser um bicho de sete cabeças! — riu.

— O Ivan, ele costuma ser tranquilo? Ou eu devo me procurar? — questionei de imediato, temendo com a reposta.

— Não se preocupe, ele é bem prestativo e gente fina. Quase nunca da bronca em ninguém. É só fazer tudo direitinho que tá tudo certo.

— Ufa! Fico mais aliviada. — respirei fundo e ela riu do meu gesto.

— Vem de qual faculdade?

— Da UFSC. Tô na reta final..

— Ah sim, é uma ótima universidade.

— E você? Também é estagiária?

— Quem dera fosse tão novinha assim..— brincou. — Mas não, sou formada já. Trabalho como secretária na parte administrativa.

— Ah tá, e você gosta de trabalhar aqui?

— Claro, vai adorar conhecer todo mundo. O pessoal no geral é bem acolhedor, bom.. sempre tem uns que tentam te passar a perna, mas é normal.

— Bom saber disso, esse é meu primeiro "trabalho" e sou praticamente inexperiente nessas coisas.

— Tá tudo bem, todo mundo já passou por isso. No fim do dia, nós costumamos tomar um cafezinho lá na cafeteria do térreo.. se quiser, vai lá com a gente.

— Ah sim, ótimo! Vou tentar ir. — assenti.

Começamos a conversar brevemente, ela se mostrou bem disposta a me ajudar quando eu precisasse. Ela devia ter uns 26 anos por aí, mas seu rosto era jovial e suas vestes também.

Fiquei menos tensa ao falar com ela. E nem parecia que era o meu primeiro dia. Consegui cumprir tudo antes de terminar o expediente, e sinto que vou me adaptar rapidamente.

Ao sair de lá, passei rápido no café. Conheci o resto do pessoal, são simpáticos como Giovanna, eles me deram vários conselhos e rimos bastante.

Aquela alegria toda tinha um motivo; era sexta feira e todos estavam ansiosos pra irem embora. Esse foi um ótimo dia para começar o expediente. Porém, eu nem demorei muito. Logo me despedi e fui rumo ao estacionamento.

Estava com o carro parado no sinal, até que vi uma nova notificação na tela do celular. Abri um sorriso.

Era Dado, perguntou se eu estava a fim de fazer algo hoje. Respondi brevemente que estava cansada, mas que poderia abrir uma pequena exceção.

Ele riu e falou que ia me buscar em casa mais tarde.

Achei até bom, já que eu estava bem desanimada pra poder dirigir. E hoje estou com uma baita fome, logo pensei em comer um lanche depois.

— Oi mãe! — disse rápido, passando pela sala.

— Ah! Oi! E como foi o primeiro dia? — ela se virou, com um ar "falso" de interesse.

Era óbvio que ela não gostou da ideia, eles queriam a todo custo que eu me dedicasse a Bayer. Mas sabiam que isso não iria ser possível.

— Foi ótimo! — dizia com certa pressa. Indo pra o meu quarto.

— Espera.. não vai ficar para o jantar?

— Não, vou dar uma saída. Já já tô em casa.

— Ah. — suspirou um pouco incomodada.— Tudo bem então.

Depois de um banho rápido, procurei vestir alguma coisa confortável. Escolhi um shorts de linho bege e um top faixa branco de tricô.

Penteei os cabelos e borrifei muito perfume, calcei as rasteirinhas e passei meus pertences pra outra bolsa menor.

Coloquei algumas bijuterias e sentei na penteadeira de frente pro espelho, com os olhos fixos no celular.

Não demorou muito pra ele anunciar que já estava lá em baixo me esperando. Levantei e me prontifiquei.

Encostei o carro na calçada, abaixei o som e esperei ela descer. Olhei as horas no relógio de relance, e ao levantar os olhos, notei ela vindo na minha direção.

A filha da mãe estava gata como sempre, só que hoje eu percebi que estava mais entusiasmada. Era como se quisesse entrar logo no carro, ela vinha em passos apressados.

— Ei! Oi.. — falou ao abrir a porta, seu perfume doce ficou instalado no ar. Adoro esse cheiro.

— Oi linda.. boa noite. — a cumprimentei com dois beijinhos no rosto, mas queria mesmo era na boca.

— E aí, pra onde a gente vai? — colocou os cintos e eu logo iniciei a partida.

— Lá pra casa, o que acha? A gente pode passar no mercado e comprar algo pra poder comer.

— Acho uma boa! — sorriu concordando.

— Quê foi que tá toda felizinha? Achei que estava cansada hoje.. — falei em tom brincalhão e ela riu.

— Consegui um estágio! — anunciou. — E de bônus, acho que vou sair finamente da casa dos meus pais!

Abri um sorriso sincero e surpreso. Pousei as mãos em suas coxas e a acariciei de leve, já que não podia abraçá-la pois estava concentrado no volante.

— Sério? Que notícia boa Yá! Como cê não me falou antes?

— Não queria contar pra ninguém, estava com medo de não dar certo, sabe? Mas deu! E agora tô tão feliz! — esticou os braços e fez um cafuné de leve em meus cabelos.

— Gosto de te ver feliz, que bom que deu certo. Acho que hoje, podíamos comprar um vinho e comemorar pô! — exclamei contente e ela assentiu.

— Sim! Hoje merece.. creio que o meu cansaço até diminuiu depois desse banho gelado.. — suspirou.

— Tomara. Porquê hoje tem. — brinquei com uma voz maliciosa e ela riu alto, negando com a cabeça.

— Ah é? Foi pra isso então que me chamou? Deveria desconfiar.. sexta feira e você querendo rolê em casa. — ela entrou na brincadeira e nós rimos.

— É.. e justo hoje meus pais não estão em casa, só a Lívia que tá enfurnada no quarto, mas não dá nada.

— E o resultado do concurso? Quando vai sair pra gente comemorar de novo?

— Semana que vem vão anunciar no site deles. E já tô ansioso pra caralho.

— Vai dar certo. Tô sentindo que vai.

A encarei de lado por breves instantes, mesmo que a sua amizade seja em meio a pegações, gosto de tê-lá por perto. Era contagiante, sei lá.

Chegamos ao mercado, devia ser umas oito horas, o movimento ainda era grande. Andamos por entre os corredores e vi que havia filas grandes pelos caixas.

— O quê quer comer? Quer que eu faça macarrão? É a única que sei fazer de melhor, juro. — ela propôs.

— Você cozinhando? Essa eu quero ver. — ri. — Vou dizer se está apta ou não para morar sozinha.

— É uma das poucas coisas que faço na cozinha, mas tirando isso eu sou um desastre.

— Ok, vou confiar em você. Vou ali escolher o vinho!

— Tudo bem, vou procurar o que preciso.. — foi se distanciando.

¥

Após analisar a sessão imensa de vinhos, escolhi um argentino. Comecei a procurar por ela pelo mercado.

Andei pelos corredores e pensei até em mandar uma mensagem, aquele mercado é imenso e tô rodando nessa porra sem parar.

Parecia até aquelas crianças que tinham perdido da mãe. Até que a avistei num corredor de chocolates e balinhas, estava de costas e visivelmente parada.

— Yasmin! — andei rápido e chamei pelo seu nome.

Ela se virou, eu juro que vi o próprio anti-Cristo na minha reta. O que aquele imbecil estava fazendo ali?

— Dado.. — ela me olhou quase que pedindo ajuda.

— E aí, vamos? Pegou tudo? — cheguei mais perto e a ajudei com algumas coisas que ela segurava.

— Consciência encontrar vocês aqui. — Rafael me olhou de forma ácida.

— E aí. — murmurei indiferente.

— É.. coincidência né? Bom, já estamos de saída.

— Ei, a propósito.. esse vinho é muito bom. — Rafael ignorou a fala de Yasmin e se referiu ao vinho que eu segurava.

— É, eu sei. Gostamos dele também. — rebati.

Aquela situação gerou um certo constrangimento.

E a minha vontade era socar a cara dele toda vez, o seu cinismo e ar de superioridade irritava qualquer ser humano.

— Vamos Dado, até mais Fael. — Yas saiu na minha frente, desviando bruscamente dele.

— Até mais amigão. Boa noite. — falei irônico e ele me fuzilou com raiva.

— É sério uma porra dessas? Caramba.. — Yasmin dizia irritada, andando rápido até o caixa. Ela fica bem sexy quando tá brava, e isso é estranhamente atraente.

— Pelo visto ele adorou te ver comigo. — neguei com a cabeça.

— Aposto que depois disso vai me mandar inúmeras mensagens falando merda. Típico. — rolou os olhos.

Rafael tinha mesmo que ter aparecido lá, parece que foi proposital. Pelo que eu saiba ele nem frequentava muito esse maldito super-mercado.

Ele até tentou ser simpático, mas quando viu Dado vindo por trás, notei o semblante mudar. E até sua postura se exaltou.

De repente ficou super sério.

Aquela cena ficou na minha mente, o exato segundo em que seus olhos tremeram de raiva. Não sei o que eu senti, só sei que meu coração deu uma acelerada.

Algo me incomodou, de algum modo, estar naquela posição me deixou desconfortável. Por mais que eu não tenha sentido "pena" dele.

Certeza que Fael vai me infernizar depois disso. E já estou esperando pelo pior, como sempre.

— No que tá pensando? — Dado me tirou do transe, enquanto chegávamos em seu condômino.

— N-nada. É que, aquela situação.. foi..

— Bem bosta. — me interrompeu, curto e grosso.

— É. — assenti rápido.

— Mas tá tudo bem? Cê ficou quieta do nada.

— Sim, tá tudo bem. Só não queria que ele estragasse essa noite..— resmunguei.

— Quê? Ignora isso, ele não estragou nada. Não vale a pena se importar.

— Eu sei que não. Mas odeio essa sensação.

— Que sensação?

— De tensão.

A tensão de estar fazendo algo "errado" na visão do Rafael, me deixava desnorteada, era horrível sentir essas coisas.

— Esquece tá? Já passou, foda-se ele. Entendeu?

Ele adentrou pela cancela e fomos até a sua casa, na velocidade quase mínima. Aos poucos fui tirando os cintos e pegando as sacolas de compras, assim que o carro estacionou.

— Eu sei, não vou me importar. Sério. — suspirei, e ele se aproximou e deu um beijinho na minha testa.

Sorri fraco com o gesto. Ele até que era carinhoso quando queria, mas nem tanto. Gosto disso. Acho bonitinho ser surpreendida com afetos assim.

Sua casa tá bem limpa, tudo no devido local. Fomos até a cozinha e íamos ligando as luzes pelo caminho.

— Fica à vontade! A casa é sua. — falou assim que colocamos todas compras em cima da bancada em formato de ilha.

— Você vai me ajudar? Ou vai ficar só olhando? — soltei um riso nasal.

— Os dois. Você que manda.. — pegou duas taças de vidro e me ofereceu uma. Abriu o vinho e nos serviu.

— Valeu. — sussurrei.

Ele aproveitou a deixa e veio chegando mais próximo à mim, com um sorrisinho malicioso de canto. Nosso silêncio foi crucial, após o assunto se encerrar eu me vi encarando sua boca.

Tomei um gole do líquido e ele fez o mesmo. Então deixou o copo em outro lugar, apoiando as mãos ao redor da bancada, me prendendo ali.

— Quê foi que tá me olhando assim? — falou de uma forma engraçada e melosa, sorri.

— É que tu tá gato hoje, né? Aí não consigo parar de olhar.

— Eu? Tu tá me elogiando? Que milagre é esse? — brincou e eu ri.

— Para vai, tu sempre tá gato. Nem preciso dizer.

Sua mão pousou em minha nuca, me levando até a sua boca, que já estava entreaberta e sedenta. Pus a taça ao meu lado, nossos lábios se juntaram como um imã.

O beijo tem sabor adocicado de uva, senti as nossas línguas se entrelaçarem, acariciei os seus fios curtos de cabelo, e notei sua nuca se arrepiar ao meu toque.

Suas mãos apertaram a minha cintura me trazendo mais pra perto do seu corpo. E uma onda de calor e desejo inundou aquele lugar.

Mordisquei seus lábios inferiores e ele murmurou uma dorzinha, o beijo foi ficando enérgico e foi me gerando tremores.

A sua língua calorosa procurava por espaço, aquela porra era viciante. Não quero parar de beija-lo nem por um segundo, desejei ficar aqui até não aguentar mais.

Até que perdemos o ar, e tivemos que nos afastar por um minuto. Paramos o beijo com selinhos molhados e prolongados.

— O macarrão.. vou fazer o macarrão! — resmunguei com a voz falha, tentando recuperar o fôlego. — Acho melhor pararmos.. antes que..

— Antes que a gente transe nessa cozinha e isso vire um filme pornô. — exclamou humorado.

— Quê? Tá louco! — gargalhei, corando de vergonha pelo modo inculto que ele se referia à essas coisas.

Me desvencilhei dos seus braços, ajustando minhas vestes e meu cabelo. Se alguma alma viva aparece-se aqui, eu não saberia onde enfiar a cara.

— Argh! Porquê me atiça desse jeito? — esfregou os olhos, com um ar de indignação.

— Foi mal, não foi minha intenção. — retruquei com ironia e ele negou com a cabeça.

— Você vai me deixar louco. — falou baixinho ao pé do meu ouvido, me abraçando fortemente por trás.

Suas mãos apalparam os meus seios com força e me arrepiei inteira, e como estou somente de top, senti que eles ficarão acesos e enrijecidos com seu toque.

— Ei.. aqui não Eduardo..— sorri de canto, tentando conter a tensão sexual que havia ali.

— Tudo bem.. parei.. parei.. — ergueu suas mãos em forma de rendimento, saindo de perto.

Tentei me concentrar no que ia fazer. Enquanto ele me encarava sentado na bancada. Bebericando seu vinho calmamente.

— Vai, corta isso aqui pra mim. — entreguei a tábua e uma faca, ordenhando que picasse o alho.

Ele assentiu, me obedecendo.

Pelo visto nós dois não temos muita experiência com a cozinha, ele fazia aquilo de uma forma tão ingênua que parecia estar esforçando pra sair tudo direito.

— Nunca fez isso antes?

— Só uma vez, mas faz tempo.

— Percebi.

— A água tá fervendo lá ó, para de cuidar daqui. — retrucou brincalhão e eu ri.

Abri o pacote de macarrão, e coloquei uma quantia razoável. Tudo que eu ia pedindo, ele ia fazendo. E terminamos bem mais rápido do que eu imaginava.

Até que não nos saímos mal, bastava saber o gosto que aquilo estava. E tô rezando pra que esteja bom.

— É, parece que tá pronto.. — anunciei.

— Ufa, tô brocado. — foi pegar os pratos e talheres, e arrumou a mesa ligeiramente.

Ao sentarmos na mesa, servi pra nós dois.

— E voá-la! Macarrão ao molho branco! O máximo que eu sei fazer.. então contente-se.

— A cara tá ótima!

Ele encarou o prato e pareceu ansioso pra provar, fiquei parada esperando a sua reação. Meus olhos acompanhavam seus movimentos minuciosamente.

Levou o garfo até a boca, mastigou devagar. Parecia até um jurado naqueles programas de master chef.

— E aí? O que me diz?

— Isso tá bom pra caralho! — disse ainda com a boca cheia. Vibrei.

— Aí que alívio! Tava até segurando a respiração! — pus as mãos no peito e respirei fundo.

— Prova aí.

— Hum.. sim.. — degustei com vontade.

— É Jasmine, você vai se sair bem quando for morar sozinha. Só espero que me convide quando fizer isso novamente.

— Claro que convido. E por falar nisso, tenho certeza que você também deve saber cozinhar alguma coisa.

— Miojo conta?

— Conta ué.

— Que bom, porque isso eu sei de letra.

— Como vai morar sozinho? Vai ter que aprender!

— Qualquer coisa eu te ligo por face time e você me ajuda com algo. Vou viver de comida congelada..

— É.. eu também vou. — concordei.

— Vamos morrer cedo, sabe disso né? Essas comidas são o puro câncer.

— Minha mãe sempre diz isso. É, eu sei.

— Sua mãe.. quase nunca fala dela..— mordiscou a comida, mudando de assunto.

— O quer saber sobre ela?

— Sei lá. Ela parece ser bem rígida contigo.

— Tirando o fato dela insistir mais no meu antigo relacionamento do que eu. — soltei um riso abafado. — Ela é normal.

— Eles acham mesmo que aquilo te fazia bem?

— Sim. Acham que somos almas gêmeas, e que vivo num conto de fadas..—disse sarcástica e ele segurou o riso.

— E você já contou à eles que a sua alma gêmea tá bem na sua frente? — abriu um sorriso e disse em forma de brincadeira.

E sem querer me engasguei. Bebi o vinho e limpei a garganta, dando uma tosse seca. Merda, porquê ele faz isso?

— Ah. — hesitei. — Ainda não, mas em breve eu irei contar. — entrei na onda e nós rimos.

— Acho bom.

Eu só torcia pro tempo passar bem devagar, ele nem fazia ideia do quanto iluminava minha rotina. Eu até esquecia de checar as horas, nem sequer tinha tirado o celular da bolsa.

— Come mais vai.. eu já tô cheia.

— Vou levar um pouco Lívia, ela deve tá com fome. — serviu em um prato e eu assenti.

— Quer que eu leve? Enquanto você tira a mesa.

— Fazendo favor. — me entregou a comida.

Subi as escadas e me dirigi ao seu quarto. Bom, zero barulho até agora. Dei duas batidinhas na porta, sem querer incomodar demais.

— Dado? — murmurou do outro lado.

— Oi, é a Yasmin. Trouxe comida.

Não demorou pra ela abrir e me olhar curiosa, acho que estava em ligação. Pois se distanciou do celular.

— Ei! Você por aqui? — deu um sorrisinho.

— É, vim jantar com seu irmão.

— Advinha quem trouxe comida pra mim? — colocou o celular no ouvido novamente. — Aham, ela mesmo.

— Quem é? Babi? — franzi o cenho.

— Aham. — ela assentiu e eu sorri.

Pegou o prato das minhas mãos com gentileza.

— Obrigada. Parece estar uma delícia, pediram de qual restaurante?

— Na verdade, eu fiz e seu irmão me ajudou.

— Hã? Dado sabe não sabe nem ferver uma água. — me olhou incrédula.

— Pois é, ele só precisava de um empurrãozinho.

— Ele detesta tudo que envolve cozinhar..— riu. — Como convenceu ele a te ajudar?

— Ele não me pareceu tão mal assim. Nem precisei implorar.

— Ele deve ter fumado, costuma ficar bem inspirado quando fuma maconha. — deu de ombros, de forma natural.

Depois de a lavarmos todas as louças, fomos pro seu quarto assistir alguma coisa. Eu já implorava por um doce, mas certamente faria ele pedir de algum lugar.

— Mas já? Porra.. a gente acabou de comer. — ele me olhou abismado e fiz um biquinho pidão.

— Me deu vontade ué.

Ele bufou, mas mesmo assim pegou seu celular e fez o pedido pra alguma doceira do iFood. Me acomodei em sua cama e ligamos a televisão. Se aconchegou ao meu lado e não deu dois minutos pra estarmos numa posição confortável e com os corpos colados.

— Pô, foi mal Cauã.. mas acho que nem rola hoje. — disse baixo, gravando algum áudio.

— Quem é? — falei concentrada no filme que estava passando. Com o tronco encostado em seu peitoral.

— Um colega da faculdade. Me chamou pra ir no Bar do Boni. Mas disse que hoje não ia rolar. — bloqueou a tela do celular e o afundou na cama.

— Hum, interessante. O que tá tendo lá?

— O de sempre, música ao vivo. Acho que Bernardo vai colar também.. mas porquê? Tá pensando em ir?

— Ah. Sei lá, só se você fosse. — me levantei, ficando de frente pra ele.

— Não sei se tô muito afim, aqui tá tão confortável. — puxou meu corpo de volta, passando os braços ao redor das minhas costas.

— É, talvez mais tarde podemos dar uma passada lá. Quando for me deixar em casa. — insisti. Pois estava aguando por uma cerveja gelada, e certamente veria Isabel.

— E quem disse que tu vai dormir em casa hoje? — brincou e eu ri envergonhada.

— Eu disse.

— Tem certeza? Poderia dormir aqui.

— Melhor não, nem trouxe roupa e era pra ter me avisado antes.. — neguei fraco.

— Da próxima vez eu aviso com antecedência. Mas então, vamos esperar seu doce chegar e aí podemos ir pro Boni.

— Fechado. — me aproximei e selei os nossos lábios com um selinho molhado.

Mesmo relutante, concordou em me deixar em casa mais tarde. Até queria dormir aqui, mas sei que não posso ir longe demais com isso. Tá tudo muito bom, porém não quero levar isso a fundo demais.

Ainda carrego traumas, medos e inseguranças. Não sei se tô pronta para viver algo tão intenso de novo.

Por mais que eu confie no Dado e ache ele um cara legal, não dá pra confundir as coisas. Mesmo tendo ciência que estamos indo rápido demais com tudo.

Mas talvez pra ele isso aqui não seja nada demais.

E no fim das contas, tenho receio de ter sido iludida e pagado de emocionada por um cara que ama a ex namorada blogueira.

Sei que ele também deve ter esse bloqueio. E não tá errado, nós dois temos nossas limitações. Ainda não sabemos o ponto fraco um do outro, isso é perigoso.

Pois a minha fraqueza e dependência emocional me sabotam o tempo inteiro. Correndo o risco de voltar com o Rafael. Mas isso é algo que eu evito pensar na hipótese.

Nesse momento, já tínhamos ignorado o filme, o que mais importava é o nosso beijo. Nossas línguas eram ágeis e sedentas, e suas mãos percorriam por todo o meu corpo.

Essa foi a parte boa. E por um breve momento me esqueci de que tudo aquilo poderia ser passageiro.

Continua..

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