• Quarenta e nove
Dias depois, lá estávamos nós tomando um chá da tarde. Já faz tempo que não fazíamos coisas assim, confesso que senti saudades da Bebel.
— Tá.. mas e aí? Você sente que ele é do bem? — ela questionava.
— Acho que sim. Parece ser.
— Acha?
— Não dá pra confiar 100% do dia pra noite. Mas não acho que ele seja uma pessoa ruim.
— Pelo menos ele é um gato, né?— brincou e eu ri.
— Quê? Ele é meu meio irmão, eca!
— Ué, é meio só.. não inteiro. — deu uma piscadela.
— Vou fingir que não ouvi isso. — rolei os olhos e ela riu mais ainda.
— E o Dado? — mudou de assunto. — Ainda não se falaram? Vão continuar nessa bobeira?
— Pensei até em mandar uma mensagem.. mas dia desses Babi me disse que viu ele num bar com uma loira.. aposto que devia ser a Sabrina.
— Mas ela viu como? Eles se beijando?
— É, meio que estavam bem próximos.
— Ah.. deve ser só mais uma qualquer que ele tenha ficado. Nada demais.
— Que seja Bel, não vou me humilhar pra ele. Nem deve estar lembrando da minha existência. — soltei um longo suspiro.
— Quero ver ele te esquecer tão de boa assim, deve estar se contorcendo pra não vir atrás.
Apenas neguei fraco, tomando mais um gole do chá de hortelã. Sei que ela pode falar isso só para eu me sentir um pouco melhor, e tá tudo bem se for.
— Mas porquê esse orgulho todo? Não entendo isso.
— Ele sempre foi assim, nunca foi de ficar indo atrás. Bernardo que o diga. — bufou. — Ele sempre prefere se isolar e se distanciar.
— Talvez ele queria que eu tomasse alguma atitude dessa vez. Sei lá.
— E você quer tomar algum tipo de atitude?
Balancei a cabeça, não dando uma completa certeza sobre o que queria. Ela só abriu um sorriso de canto.
— Quer sim, né? Eu sei.. pode falar.
— Ele vai me ignorar, não vai dar a mínima. Ainda mais se tiver entretido com essas meninas. — o meu peito começou a arder só de imaginar o que ele pode estar fazendo com elas.
— Bom, mas tem o vizinho gato, qualquer coisa! — ela me tirou do transe rápido. — É uma ótima opção caso a carência bater.
— Você ouviu a parte que ele é a cara do Dado? Eu não vou conseguir pensar em outra coisa, não vai dá pra encarar.
— Isso deve ser só impressão sua, só fechar os olhos e ir na fé, boba! — brincou.
— Ele é um bom amigo, mas não acho que teríamos nada além disso.
— E a assombração do Rafael? Deu notícias? — era incrível como mudávamos de assunto rapidamente.
— Ele me mandou centenas de mensagens depois que voltei. Respondi algumas, mas sem interesse. — apoiei meu punho no meu queixo sob a mesa. Não sei qual situação da minha vida tá mais caótica.
— Será que ele não vai desistir nunca? Puta merda.
— Só vai desistir quando eu voltar com ele. Que aí ele volta a ser um completo cuzão e para de fingir.
— Falando nisso, você juntos é o maior sonho dos seus pais né? Puff.. isso é piada. — riu sem humor.
— O sonho deles é dar um futuro bom pra empresa. E eles acham o máximo se eu me casar com o Fael e coordenamos tudo isso. O que é loucura.
— Em que séculos eles estão? Tenha paciência!
— E pra fechar com chave de ouro.. eles não gostam do Dado. — soltei um riso de ironia.
— Ah, era só o que faltava mesmo. — negou fraco. — Tudo indo de mal a pior.
— Mas e aí, cê acha que mando alguma mensagem então? Ou continuo deixando quieto?
— Acho que deveria ir até a casa dele. — disse como se fosse a coisa mais normal a ser feita.
— E dar de cara com alguma mulher sem roupa? Tô fora!
Fiquei sabendo que ele já tinha se mudado, e que tá morando num apê agora. O que é menos mal, já que eu morria de vergonha de ter que encarar seus pais toda vez.
Mas por um lado, receio que ele transforme aquilo ali num puteiro. Não gosto nem de imaginar cenas como essas.
— Hoje tem um eletrônico na Vitrine, e caso queria aparecer por lá eu amaria. Certeza que ele vai estar.
— É pode ser. — respondi pensativa. — Não que lá seja o melhor ambiente pra ter uma conversa, mas certamente é melhor do que brotar na casa dele do nada.
— Perfeito então! Vai bem gata, trate de deixar esse homem louco! — dizia toda empolgada e soltei uma gargalhada.
Não sei se é a melhor das ideias, mas de toda forma eu queria ter a única chance de tentar esclarecer as coisas antes dele ignorar de vez a minha existência.
Se ele quiser continuar com isso ou não, problema é dele. Eu só não quero deixar nenhum mal entendido entre nós, queria me sentir leve em relação a isso.
— Quê? Caralho! Sabrina tá representando.. — Benê dizia enquanto jogávamos truco na sua varanda.
Já era fim de tarde, ele tinha nos chamado pra assar uma carne e tomar umas cervejas. Nada demais, foi só entre nós mesmo.
— Porra. Sacanagem jogar contigo! — Léo falava se referindo a ela, com indignação.
— Não tenho culpa se vocês são os piores no truco. — ela se vangloriava, rindo.
— Mas e aí? Hoje vai todo mundo comparecer lá na Vitrine, né? — Ítalo mudou de assunto.
— Eu tô indo com a Bebel pô, já fechei camarote pra gente. Vamos? — Bernardo exclamou.
— Não sei, não tô muito animado. — falei tomando mais um gole da cerveja.
— Ah vamos! O bom é ir todo mundo! — Layla dizia.
— Vamos sim filha da puta! Tu não se manda não! — Bernardo ordenou e eu ri.
— Ele vai sim, tá só fazendo charme. — Layla passou às mãos em minha nuca, rindo.
Me levantei pra checar a churrasqueira, em seguida fui na cozinha de dentro pegar mais sal grosso. E no que me virei de novo, dei de cara com Sabrina.
— E aí.. — murmurei fraco, passando por ela.
— Peraí Dado! Calma..— pegou em meus braços, me impedindo de sair.
— O quê foi? Aconteceu alguma coisa?
— Não, é que.. eu só queria saber como você tá.
— Ah! — cocei a nuca. — Eu até que tô bem..
— Tem certeza? Depois daquele dia não te vi mais e fiquei preocupada, e sei que estava bêbado mas não quero que fique mais naquele estado.
Desviei o olhar, um pouco incomodado com aquele assunto novamente. Só queria evitar essa conversa.
— Tá tranquilo Sasá, e eu reconheço que passei dos limites aquele dia. Você não tem nada a vê com isso.
— Quero que se sinta bem. — ela passou às mãos de leve em meu peitoral por cima da camiseta. —Você é um cara incrível. Merece alguém tão incrível quanto.
— Valeu. E me desculpa mais uma vez, eu tô contigo para o que precisar tá? — sorri de leve e ela assentiu.
Senti que ela aproximou devagar, e me deu um beijo no rosto, quase próximo à boca. Tentei esquivar mas foi sem sucesso.
— Também tô contigo pro que precisar. — sussurrou e mais uma vez deu um beijo molhado no outro lado do meu rosto. Retruquei com um sorriso fraco.
Não quero iludir ninguém.
Mas a Sabrina era quase que indomável, ela mesma se deixa levar por tudo que nós já vivemos e acabava se empolgando.
E por mais que ela fale que não, eu sinto que ainda não superou tudo que passou. A gente vivia junto e de uma hora pra outra tudo mudou, é estranho pra ela fingir que nunca tivemos anda.
Mesmo ela me vendo grudado com a Yasmin lá no Rio, sei que ainda poderia nutrir alguma esperança.
O que me dói muito, pois não sei se conseguiria ter algum tipo de retorno com ela. Depois de tudo, não sei se a química seria a mesma.
— Gostou desse? Não animal print demais? — me olhava no espelho com um conjuntinho de zebra.
— Eu amei. Ficou muito gata! — Babi exclamava.
Enquanto se debruçava sobre a minha cama.
Ela tinha vindo aqui em casa, pedi que me deixasse na Vitrine com o carro da minha mãe.
Não queria ter que voltar dirigindo depois. Pois eu certamente estaria bêbada demais pra isso, melhor evitar.
— Não achou muito exagerado?
— Achei. Mas eu amei mesmo assim! — brincou e eu gargalhei sem jeito.
— Fala sério Babi.. tô em dúvida.
— Vai logo com esse Yasmin! Tá gata, vai chamar a atenção de todo mundo. — dizia apressada.
— Já que está dizendo.. — rolei os olhos. — E quê foi que tá toda com pressa hoje?
— Fiquei de ir pra casa Liv, não quero chegar tarde.
— Anw! Eu amo tanto vocês duas, sabia né? — falei com uma voz fofa e ela riu. — Tão namoradinhas..
— A gente também te ama.
— Queria tanto estar nesse mood hoje. Ficar em casa de chamego com alguém, sem festas ou bagunças.. — suspirei pensativa.
— E porquê não tá? Opções não faltam!
Apenas neguei fraco com a cabeça, desconversando.
— Ah! Eu já entendi.. você queria estar com alguém bem específico, né? — riu, maliciosa.
— Até você Babi? Parou! — a repreendi.
— Nunca pensei que te veria tão gamada desse jeito. E graças a Deus não é pelo ex embuste! É, os tempos realmente mudaram..
— Quê? Dá um tempo garota.. eu hein. Levanta, já tô quase pronta!— joguei uma almofada na sua direção, indo atrás dos meus saltos.
@yasvascon
Curtido por babivaxx e outras mil pessoas.
Night out 🖤🤍🦓
@belgarcia: Que paty mais gata ❤️
@josepaulo: Lindona Yas..
@layla.veloso: Essa it girl tá demais 😍
@giovanaribeiro: Maravilhosaaa!
¥
— Beijos, se cuida viu? — dizia tirando os cintos e dando uma última olhada no espelhinho.
— Eu que te digo. Se cuida Yasmin. — retrucou com uma voz autoritária e eu gargalhei. Acho que hoje os papéis se inverteram.
Ao sair de vez do carro, me deparei com uma fila de gente em frente o local. A sorte era que Isabel tinha colocado meu nome na lista do camarote e graças a isso não precisaria ficar ali.
Ao entrar, a muvuca de gente só aumentou. A parte do camarote fica suspenso e dava pra ter quase que uma visão panorâmica de tudo.
Avistei o bar e logo pedi uma gin tônica pra molhar a garganta, fiquei perambulando procurando por Bel e por um rosto conhecido.
Nesse percurso, já comecei a ouvir cantadas idiotas e ignorava todas. Até que avistei Layla, caminhei até lá e ela sorriu ao ver.
— Oi! Que bom que chegou! — me abraçou forte.
— Ei, amei esse look! — Isabel surgiu de repente no meio dela, exclamando alto.
— Oi amiga.. ah, comprei faz um tempinho já. — ri.
— Faz dias que não te via. Tá tudo bem? — Layla se achegava, puxando assunto comigo.
— Tá sim. E você? Como anda?
— Ando bem, senti sua falta nos rolês. Trate de vir mais vezes!
— Vou tentar aparecer mais..
— Até porquê se eu beber além da conta eu acho que vou querer te pegar de novo. — falou humorada e eu soltei uma risada.
— Ah nem vem! Hoje eu vou ficar mais controlada!
Começamos a conversar brevemente, aquela luz e o som alto atrapalhava um pouco. No meio delas tava o resto do pessoal que tinha ido pro RJ.
Os cumprimentei rapidamente, e avistei Sabrina e a sua amiga Taís também. Mas elas não se mostraram tão simpáticas como o resto deles, ou talvez seja só a minha impressão.
E mal percebi, mas havia bebido o drink em questão de minutos, e tive que voltar pro bar pra pegar outro.
Antes de chegar no bar, vi Eduardo de longe. Ele ria e conversava com um cara que deveria ser seu colega ou algum conhecido.
Não dá pra ver daquela distância. Fui andando aos poucos;
Ao me aproximar mais, gelei ao ver quem era. Que porra ele tá conversando com meu vizinho? Fiquei sem reação por uns segundos, isso só pode ser um tipo de brincadeira. Sério.
Ignorar, vou somente ignorar essa situação e fazer apenas o meu pedido pro barmen.
Respirei fundo e segui.
— Oi, boa noite.. uma marguerita por favor! — falei discretamente e ele só assentiu.
Que caralhos eles tinham que se conhecer?
A cidade é tão grande e justo isso acontece? É, nada poderia ficar pior do que isso mesmo. Virei o corpo pra outro lado, até que escuto alguém chamar meu nome. Merda.
— Yasmin?
Me virei com dificuldade e forcei um sorriso.
— Oi? — murmurei. — Ah.. Valentin, coincidência te ver aqui! — eu me aproximei e no mesmo instante o semblante do Dado mudou ao me ver.
— Pô, eu não sabia que curtia eletrônico! — sorriu, vindo dar dois beijinhos na minha bochecha.
— Pois é, a vida é cheia de surpresas!
— Ah, desculpa não te apresentar. Esse é Dado.. um antigo amigo do ensino médio. — "apresentou" eu e ele, as nossas caras de c* eram impagáveis.
— Prazer. — ele teve a audácia de fingir que não me conhecia.
— Prazer.. — sorri cinicamente. Imbecil.
Seus olhos me fitavam e senti que tava visivelmente incomodado com aquila bela coincidência. Peguei o meu drink e fiquei bebericando.
— Você veio acompanhada? Caso queira carona pra ir embora, só me avisar! — Valentin se ofereceu.
— Ah.. se não for incômodo, acho que pode ser.
— Da onde se conhecem? — Dado perguntava como quem não quer nada.
— Ela é minha vizinha. Incrível, não? — dizia todo sorridente.
— Incrível mesmo. — Dado assentiu ironicamente.
— Pois é, não é todo dia que se tem uma vizinha gata dessas. — ele dizia brincalhão.
— Até parece! — ri, rolando os olhos. — Bom, eu vou indo.. a gente se esbarra!
— Claro, no fim da festa te encontro!
Saí o mais rápido que pude. Minhas mãos estavam suando frio, passei rápido no banheiro e retoquei a maquiagem com papel toalha.
— Caralho Isabel! O vizinho gato conhece o Dado! Tem noção? Eles são amigos! — cheguei dizendo a ela, que gargalhou de nervoso da situação.
— O quê? Tô chocada! Como isso?
— Nossa que ódio. — bufei.
— É amiga.. agora vai ter que escolher. Os dois não vai dar pra pegar.
— E quem disse que eu ia pegar o vizinho?
— Eu disse. Te conheço garota, não se faz não. — me olhou maliciosa.
— E pra piorar, ele me ofereceu carona pra casa.
— Acho bom. Assim Dado se situa um pouco, talvez fique mais esperto agora. — exclamou.
— Se ele já estava com raiva de mim, agora deve tá bem mais. — neguei fraco.
— Aí amiga, esquece. Abafa isso, vai beber.. que a única coisa que presta hoje é ficar bêbada.
Voltei pra perto das meninas e o eletrônico já havia começado. Algum tempo depois, fui me sentar num daqueles pufe brancos que ficavam espalhados pela festa.
Não aguentava ficar muito tempo em pé com esses saltos. Ao sentar, encarava a tela do celular e via as notificações com dificuldade pelo breu dali.
Comecei a sentir um pouco de euforia pela bebida e notei a visão ficar mais turva. Eu tinha bebido mais uns dois drinks depois da marguerita, os destilados sempre tem efeito mais rápido pra mim.
E então, senti alguém sentar ao meu lado. A sua mão pegou firmemente em meus braços e só olhei rápido.
— A gente precisa conversar. — Dado me olhou com os olhos vermelhos e embriagados. É a primeira vez que ele me dirigia a palavra depois de horas.
— Quê? — o som era tão alto, que é impossível falar algo sem ter que gritar.
— Eu disse que a gente precisa conversar.. — ele se achegou mais e tirou meu cabelo do ombro, falando ao baixo ao pé do meu ouvido.
Me retraí um pouco, tentando esquivar do seu toque e evitar qualquer arrepio inesperado.
— Não tem onde a gente conversar aqui. — olhava em volta.
— Tem sim. — levantou rápido e estendeu as mãos em minha direção, mesmo relutante; eu as peguei.
O segui no meio do povo, até que ele entrou em um banheiro único que ficava mais longe da muvuca, é exclusivo pra funcionários do bar.
— É sério isso? E se virem a gente?
— Não vai entrar ninguém. — insistiu, já entrando.
Ao fechar a porta, o barulho diminuiu bem mais. E só dava pra escutar o eco da música lá de fora.
Respirei fundo, encostando na beirada da pia. Ele se sentou na tampa do vaso e esfregou o rosto. Nisso eu apenas fitava o chão esperando que ele disse-se algo.
— Sei que fui um babaca e agi de maneira escrota. — murmurou. — E não espero que me perdoe.
— Eu não consigo entender, porquê quis agir dessa forma? Você mal falou comigo e..
— Eu sei lá, tá legal? — me interrompeu. — Pensei que o melhor jeito fosse me afastar.
Assenti fraco, e ele continuava sem me encarar.
— Você tirou suas próprias conclusões sobre tudo e tacou o foda-se. Acha mesmo que isso foi certo?
— Não Yasmin, não acho isso certo. — ele respirava fundo. — Desculpa porra, eu não tive outra reação.
— Precisa parar de fugir das coisas. — disse direta.
Ele ergueu o rosto e me encarou vagarosamente. Os nossos olhares se cruzavam e tudo parece que tinha ficado no modo câmera lenta.
— Porquê tem tanto medo? — insisti, angustiada.
— Porquê nunca senti essas paradas antes. Quando vi que as coisas estavam indo longe demais quis me manter distante. Não sei o quê deu em mim.
— Você nem quis saber o que rolou naquele jantar.
— E nem quero. Eu sei que vocês ficaram e tá tudo bem, até porquê a gente..
— Eduardo! — o cortei rápido. — Me escuta só uma vez, por favor! — disse com a voz firme.
— Fala. — ele se levantou, ficando de frente.
— Aquele cara é meu irmão! — respirei fundo.
— Quê? — murmurou confuso, soltando um riso.
— Ele é filho do meu pai biológico. E calhou dele me encontrar ali, foi um choque. Jamais poderia pensar que poderia ter um meio irmão!
— Que porra é essa? C-como assim? Tá maluca?
— Eu sei que parece loucura, mas ele provou que era verdade. E não tinha nenhuma segunda intenção, eu só não sabia como encarar aquilo ali de repente.
— Caralho.. caralho.. — ele dizia sem parar, dando voltas naquele banheiro minúsculo.— Era a última coisa que eu poderia imaginar.
— Eu sei. É difícil acreditar. — abaixei a cabeça. — Me desculpa não ter te contato na mesma hora..
— Não tem que se desculpar porra, eu que fui idiota e não quis te dar ouvidos naquele dia.
— Tá tudo bem. — sussurrei.
— Não Yasmin, não tá tudo bem. Tem noção que eu meti o louco pra cacete depois?
— Posso imaginar. — torci o nariz.
— Eu ando ficando com centenas de garotas, nunca fui de ficar fazendo isso. — riu sem humor.
— Então porque começou?
— Porquê não queria me render. Desde que aquela nossa amizade colorida começou, pensei que não ia passar daquilo ali. Isso era minha zona de conforto.
— Só propus aquilo porquê pensei que fosse enjoar de mim alguma hora, talvez quisesse ter um pouco mais de "liberdade".
— Quem te disse tudo isso? Eu jamais iria enjoar do que a gente tava tendo! — dizia num tom irritado.
— Quer saber? Esquece tá? Já foi.. já passou.. não vai adiantar ficar remoendo isso.
— Você deve estar com nojo de mim. E tá tudo bem, eu também teria agora. — negou fraco.
— Eu também fiquei com outras pessoas lá no Rio.. e isso não significou nada pra mim.
— Dia desses eu até.. — hesitou.
— Até o quê?
— Eu até fui atrás da Sabrina. Mas foi um momento de carência e eu tinha enchido a cara, nem sei como fui capaz de fazer isso.
Meus olhos semi arregalaram, fiquei um pouco sem reação e abri um sorrisinho sem jeito. Tentando não expressar sentimentos algum.
— E.. v-vocês.. ficaram? — comecei a gaguejar sem querer.
— É.. meio que sim.. sei lá. Eu não lembro de muita coisa, só sei que fui embora rápido. — ele tentava se justificar.
— Ela deve ter adorado. — funguei um riso irônico.
— E o que você tem com o Valentin? Vocês dois já ficaram? — retrucou, desviando o assunto.
— Não. — falei de imediato.
— Não? Ele pareceu ser bem íntimo de você.
— Só somos vizinhos. Nunca ficamos.
— E vai voltar pra casa com ele?
— Não sei, talvez sim. — dei de ombros.
— Esquece isso. Eu vou te deixar em casa. — falou de imediato e eu ri sem humor.
— Fala sério. Não sei o que nós nos tornamos Dado, isso é patético. Não está vendo?
— Eu também não sei. — se aproximou. — Só sei que não consigo mais te desconhecer e nem te desbeijar.
— É, seria um alívio se conseguíssemos fazer isso. — cruzei os braços.
Ele me olhava aflito, e então veio até mim rápido.
Me mantive parada, ainda de braços cruzados. Então ele passou as suas mãos pesadas pela minha cintura, e me trouxe mais pra perto do seu corpo.
Não desfiz meu semblante, e o encarei seriamente.
— O quê a gente faz.. hein? — ele sussurrou com os olhos fixos nos meus lábios.
— Me diga você.
— Quer dar um tempo nisso tudo?
— O que você acha?
— Acho que seria uma tortura. — soltou um riso.
— O quer fazer então? Continuar beijando eu e mais outras cem garotas? — impliquei.
— Para não eram tantas assim, talvez umas 60. — ele brincou e eu desviei o rosto, sem rir da sua idiotice.
— Se for assim, acho melhor mesmo dar um tempo. — retruquei, ainda presa em seus braços.
— Mas foi você quem começou com essa coisa. Não sei porquê tá tão irritada.
— Eu sei, mas saiu do controle. E foi por sua culpa.
— Minha? Foi por sua culpa também.
— Foi sua, só porque eu tive um maldito "encontro".
— Os relacionamentos podem começar assim.. e eu tive medo que algo a mais surgisse.
— Quê? Claro que não. Era só um simples jantar.
— Como eu ia saber?
— E aí, achou melhor mostrar seu pênis pra todas as mulheres do Rio e de Santa Catarina? Ótima ideia.
— Não, não foi bem assim. Nós dois erramos, e não vem dizer que é só minha culpa.
— E agora quer que eu fique como? Feliz por saber que você não aguenta ter uma desavença, que já vai correndo procurar outras mulheres? Foda-se que a ideia inicial foi minha, não tinha que continuar!
— Eu sei que errei. Não deveria ter feito isso, eu só queria.. sei lá.. tentar te apagar um pouco da minha mente. — sua voz era embriagada e mansa.
— Sim, pelo óbvio. Pelo seu medo, sua covardia.. e..
— Yasmin! Chega.. chega.. — descruzou meus braços e tentou me encarar melhor.
— Chega? Eduardo, olha pra mim. Você é um puta de um covarde! Tá escutando? Você não consegue demonstrar o que sente.. você só.. — comecei a me irritar.
No mesmo instante, antes que pudesse terminar os meus ótimos argumentos; ele selou os nossos lábios como num vulto. Pegou firme em meu rosto com as duas mãos e me beijou sedento.
Talvez seja pelo álcool, mas acabei cedendo. Tentei me esquivar mas eu não tinha forças suficientes pra sair dos seus braços mais.
Nossas línguas pareciam pegar fogo. Ele segurou em minha nuca enquanto passava suas mãos pela minha cintura firmemente, como se fosse afundar os dedos ali.
Não conseguimos parar o beijo, era mais forte que a gente. Nossas bocas pareciam ser um imã, e tudo se encaixava tão perfeitamente que me dava raiva.
Foi então que após uns segundos nós perdemos o fôlego e afastamos rápido.
Ele pegou nos dois lados da minha cabeça, fazendo com que nossos olhares ficassem fixos um no outro.
— Olha aqui pra mim.. — pediu.
— O que você quer de mim? — dizia relutante. — O que ainda quer Eduardo?
— Quero você. Quero ficar aqui, com você.
— É.. talvez queria só por hoje.. — tentei desviar o olhar mas ele não deixava.
— Quero hoje.. amanhã.. depois de amanhã.. e aí depois do depois de amanhã.. — ele dizia como se fosse uma ladainha, voltando a me beijar devagar.
Depositou selinhos prolongados, e eu não me movia e só torcia o nariz. Ainda em êxtase.
— Eu não sei. Como me garante que quer isso? Vai que amanhã você acorda e decide mudar de ideia?
— Porque não se sente segura? Tô falando sério.
— Porquê não dá. Nós estamos embriagados, não sei se é seguro fazer promessas nesse estado.
— Os bêbados dizem a verdade.
Respirei fundo por uns segundos, pensando em tudo que tinha acabado de escutar.
— Então, ainda quer mesmo continuar?
— Amanhã eu quero acordar, olhar pro lado e te ver dormindo com alguma roupa minha. E é isso que eu mais quero Yasmin. Nada importa agora, desde que cê esteja lá. — sua voz se arrastava.
— Isso foi bem específico. E ao mesmo tempo a coisa mais sincera que um bêbado poderia dizer. — dei um riso fraco.
— E você o que quer de mim? Quer isso também?
Meus olhos no mesmo momento se encham d'água. Eu odeio estar bêbada, fico mil vezes mais emotiva e insegura.
— O que foi porra, tá chorando? — tirou meu cabelo do rosto e tentou me encarar direito.
— Tô.
— Tá maluca? O quê aconteceu?
— Nada. Eu só não quero ter que ficar sem você. — o abracei fortemente, ele se assustou mais me abraçou de volta.
— Não chora doida.. para ou! — se afastou e limpou minhas lágrimas com o polegar. — Vai ficar igual um panda se continuar.
— Foi mal. Tá tudo bem, já passou. — suspirei. — Eu acho melhor a gente voltar, devem estar procurando por nós.
— Tem certeza? Pode ser, você que manda. — soltou um sorrisinho de canto.
— Eu que mando?
— É. O quê você decidir, tá decidido.
— Desde quando ficou tão obediente?
— Desde que você me deu um chá e..
— Ah, cala a boca! Vamos vai! — o interrompi e ele gargalhou, me dando mais um selinho prolongado.
Ele passou às mãos levemente por minha cintura e saímos do banheiro, andando no meio da multidão novamente.
Não sei o que será de nós depois de hoje.
Na real tudo ainda é uma grande incógnita. Poderia dar muito certo ou muito errado, e eu sabia que não teria meio termos no meio disso.
Todos nos olharam instantaneamente, por mais que nem estivéssemos de mãos dadas, notei que Sabrina revirou os olhos discretamente.
Continua..
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