• Nove
— Qual é.. Babi, foi um selinho de amigas. Para de tanto drama! — Alexandre dizia enquanto comia o seu hambúrguer.
— Não sei.. foi tão de repente, sei lá. Eu só assustei.
— Mas pensando bem, meu gaydar apita muito pra aquela garota! — soltou um riso e eu rolei os olhos.
— Que porra de gaydar, isso é patético!
Estávamos num Mc Donald's próximo a minha casa, saí do barzinho e fui direto comer algo. Chamei o Alê pois soube que estava num rolê ali perto.
E sim, depois que Lívia me deu um selinho do nada eu juro que travei. Não tive reação, mas é óbvio que não levei a sério. Até porquê somos apenas amigas.
— E pra onde ela foi? Porquê não veio com a gente? — bebia seu refrigerante.
— Não sei, acho que ela nem me viu ir embora. E cê acredita que encontrei a Yasmin lá?
— Hã? Mas ela não era uma santa que mal saia sem o namorado? — exclamou irônico.
— Pois é, eles terminaram. Só vamos ver até quando isso vai durar. Ela estava conversando com o irmão mais velho da Lívia.. eu nem sabia que ela tinha um.
— E era bonitinho pelo menos?
— É.. você iria gostar.. — sorri de canto.
— Então é gato. Ufa, até que enfim Yasmin se livrou daquele embuste.
— Quem disse que ela se livrou? Eles sempre fazem isso, terminam por um tempo e logo depois acabam voltando. — dei de ombros.
— Deve ser um karma. Só pode. — pegou uma batata e mordiscou.
Estava tentando ocupar minha mente um pouco. Era difícil tentar pensar em outra coisa, mas eu teria que encarar os fatos algum dia. Preciso admitir toda essa explosão que vive aqui dentro, fugir não vai adiantar.
É insuportável viver essa angústia. E tenho tido isso a alguns anos, quando esses sentimentos estranhos começaram a surgir eu os ignorei.
Mas porra.. não sou mais uma criança, preciso parar de me olhar no espelho e sentir repulsa. Repulsa por não conseguir ser como toda as outras meninas, não é minha culpa, nunca foi. Acredito que nasci assim.
Nunca senti um pingo de atração pelo sexo oposto, e por mais que eu tentasse, não sentia nada. Era quase inevitável, sempre achei que tinha algo de "errado".
Desde que entrei na adolescência, a cobrança por ser hétero e por começar a beijar os meninos aumentou. Acho que eu sou a única garota que ainda não beijou e ainda é virgem em plena vida acadêmica.
Isso é vergonhoso pra mim.
— Alô! Tá ouvindo o que tô falando Babi? — Alê me fez sair do transe rapidamente.
— Ô Alexandre.. — hesitei. — Você acha que eu sou lésbica?
Falei tão imediatamente que ficamos em silêncio por alguns segundos, ele arregalou seus olhos e abriu um sorriso tímido e sem jeito.
Fiquei com medo da sua possível resposta e mordi os lábios inferiores, com um ar de aflição.
— Quê? Mas é claro Bárbara.. que dizer, eu acho que sempre achei. — resmungou abaixando o tom de voz.
— S-sério mesmo? — franzi o cenho.
— Amiga.. — pegou em minhas mãos sobre a mesa. — Não tem problema nenhum em ser, e a gente não escolhe. Você acha mesmo que escolhi ser gay? Acha que sempre quis sofrer bullying desde a infância por ser efeminado? Se eu tivesse opção.. não seria.
— Nunca tive culpa de me sentir assim, parece algo que nasceu comigo.. sinto que tô sufocada. E é uma sensação péssima. — choraminguei, tentando falar sem ficar emotiva.
— Eu sei bem como é essa sensação. Tive isso por muitos anos antes de me assumir.
— Mas porquê cê nunca me disse que eu parecia ser lésbica? Você sempre achou e nunca me falou nada.
— Porquê isso não sou eu quem digo. Somente você poderá dizer, nunca quis te deixar constrangida.. por mais que eu achasse isso.
— Qual é, era tão claro assim? — suspirei.
— Mais claro que a luz do dia, honey. Acredite.
— Pelo menos você me entende.. é um alívio. Não faz ideia, tentei falar sobre isso com a minha terapeuta e não consegui, era como se tivesse uma enorme trava.
— Acho que deve falar, faz bem se abrir com outras pessoas. Você vai se sentir melhor depois disso, e eu falo por experiência própria.
— Os meus sentimentos nunca ficaram tão aflorados quanto hoje! Meu coração acelerou tanto que pensei que iria infartar.
— Isso se chama tensão. É sempre assim quando a gente sente uma enorme atração pela primeira vez.
— Peraí.. então foi isso que eu senti? Uma "atração"pela Lívia? Quê? — balancei a cabeça rapidamente.
— Sim. Mas também, ela é uma grande gostosa, até eu se fosse bi sentiria.. — soltou uma risada nasal.
— Terapia. Preciso ir na terapia. Só umas sessões de terapia e tá tudo resolvido! — respirei e ele riu mais ainda.
Yasmin estava aflita, o seu ex namorado havia ligado e ela pareceu ter ficado nervosa pra cacete do nada.
Estávamos do lado de fora do bar, Bernardo trocava carícias com Isabel sentados perto da gente, eu acho que nem estão notando a nossa presença.
— Voltei! Toma aqui Du.. — Sabrina voltou com duas longnecks nas mãos e me entregou uma.
Tomei um gole generoso e suspirei.
— Não vai beber mesmo, Yasmin? — ela questionou.
— Vou sim, depois.. tô tranquila por enquanto! — respondeu sem nem olhá-la.
— Sério? Porquê não parece.. — riu fraco. — Tá com uma cara de angústia, aconteceu alguma coisa?
— Tá tudo bem, acho que é só impressão sua. — ela forçou um sorrisinho, tentando não entrar muito em detalhes.
Comecei a notar que o celular dela não parava de chegar mensagens e ela hesitava em respondê-las.
— Cê não tá bem, né? — a encarei e ela negou fraco.
— Ignorei as ligações do meu ex. Nos vimos mais cedo num jantar de negócios e sei lá, não tô muito bem com isso.
— Se quiser eu posso guardar de novo o seu celular, e aí você não verá mais ele hoje!— eu falei num tom de brincadeira e ela sorriu fraco.
— Não vai precisar. Mas obrigada pela ajuda!
Sasá nos olhava interagir e eu logo notei um olhar enciumado surgir, peguei em sua coxa e ela apenas negou fraco com a cabeça, tirando minhas mãos de forma delicada.
— Vou ao banheiro, já volto. — ela levantou rápido, pegando sua bolsa e seu celular.
— E como vão vocês dois, aliás?
— Creio que vamos bem. Nada demais. — desviei o olhar.
— Porquê ainda não a pediu em namoro? Desistiu da ideia?
— Não quero mudar o que temos. Decidi continuar assim.. sei lá.. — dei de ombros.
— Tá certo. Ás vezes penso que seria muito bom eu nunca ter me relacionado.. evitaria tanta coisa, sabe? — indagou reflexiva, com os olhos voltados pro chão.
— Evitaria decepções.. stress.. noites mal dormidas.. — peguei o meu isqueiro e acendi mais um cigarro.
E antes que pudéssemos falar algo, Bernardo entrou no meio da conversa.
— Bom pessoal.. vou dar uma voltinha com a Isabel, nos vemos depois.. — os dois se levantaram.
— Mais tarde eu te ligo amiga, a gente vai bem ali. — ela falou com um sorriso malicioso e entrelaçaram as suas mãos.
— Aí.. por Deus..— Yasmin sorriu de canto e apenas negou fraco.
— Quê foi? — traguei o cigarro levemente.
— Você não percebe? Eu nunca pego ninguém, desde que terminei meu namoro não fiquei com ninguém.. qual é meu problema? — dizia com indignação.
— Bom, acho que devia tentar chegar em alguém pô! Eu te dou a maior força.. — falei humorado.
— Não sou boa nisso.. nem vem. Eu quase nunca vou atrás dos caras nas festas.
— Como que ninguém chegou em você? Porra.. tu é gata.. — hesitei, tentando medir as palavras pra isso não soar estranho.
Ela gargalhou da minha fala repentina.
— Acho que eu sou muito fechada. Nunca fui aquelas garotas que beijam vários numa noite, talvez pensam que eu posso dar um fora..
— Posso? — chegou perto da minha cerveja e assenti dando permissão.
Ela bebeu uns goles e pareceu ter se refrescado. Acho que o clima de tensão até tinha passado.
— Tá bom, vou tentar ser menos fechada, tá vendo o loiro de short verde e boné? — apontou um cara que bebia em pé com alguns amigos, um pouco longe de nós.
— Uhum.. tô vendo sim. — forcei a vista.
— Me deseje sorte! — arrumou o cabelo rápido e eu quase cheguei a duvidar de que ela iria mesmo até lá.
Fiquei observando ela se levantar, mas é inevitável não reparar no seu corpo, é escultural e meus olhos quase se perderam um pouco.
Me xinguei mentalmente por estar pensando assim, Sabrina iria me matar se estivesse aqui.
Foi então que eles começaram a se beijar, balancei a cabeça positivamente. Tentando forçar um sorriso, e claramente fiquei sem jeito vendo ela daquele modo.
Desviei o olhar, e continuei fumando e bebendo sem querer voltar a olhá-los.
Não vi a hora em que eu estava xavecando aquele garoto desconhecido. Mas foi no impulso, eu acho que preciso parar de pensar tanto no Rafa, isso tá matando todas minhas energias.
— Yasmin.. puta nome bonito hein? — ele sorriu já pegando na minha cintura de leve.
— É.. o seu é Hugo, né? — reforcei e ele assentiu.
Confesso que fiquei trêmula, dentre todas as vezes que fiquei solteira, jamais cogitei na ideia de pegar outra pessoa.
— Quê foi princesa? Chega mais perto vai.. — notei a sua boca se aproximar da minha, desviei rápido e ele beijou meu rosto.
Olhei de longe e Dado olhava aquela situação cômica como se fosse um telespectador. Ele balançava a sua cabeça, como se tivesse adorando ver.
Eu o encarei sem pestanejar e peguei em sua nuca, selando nossos lábios de uma vez por todas.
E foi aí que começamos a nos beijar rapidamente, foi um pouco estranho no começo, só que eu não hesitei em parar. Tinha gosto de cerveja e aquilo era de fato muito bom.
Continua..
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