Lágrimas
Harmeoni: Avó;
Eomeoni: Mãe;
ARC: Cartão de Registro de Estrangeiro (em inglês, Alien Registration Card);
Joesonghaeyo: Desculpe;
Mwo?!: O quê?!
Acordei cedo para trabalhar e a primeira coisa com que me deparei foi uma mensagem de texto vinda de um número desconhecido. Entretanto, não era o mesmo número que vinha mandando caracteres, e que eu sabia que se tratava de Kim Nam Joon.
Selecionei a notificação.
"Oi, aqui é o Tae Hyung-ssi
Onde você mora? Preciso do endereço"
— Fala sério... — suspirei, jogando o celular na cama e indo me organizar para o trabalho dali a pouco.
Quando peguei o aparelho de novo, alguns minutos depois, havia outra mensagem, uma foto.
— Que?! — estranhei completamente. Afinal, não tinha nenhum sentido que ligasse meu ARC* à Kim Tae Hyung.
E então, uma lembrança repentina ganhou atenção em minha mente: o momento em que a bolsa deixou que todos os meus pertences pessoais passeassem por debaixo daquela mesa.
Sentei na cama, e comecei a digitar...
"Vamos nos encontrar em algum lugar
Pode ser daqui a 1 hora?"
Sua resposta veio há exatos três minutos depois.
"Só tenho tempo à noite, só não sei exatamente quando
por isso não posso marcar um horário
Se me der o seu endereço passo na sua casa"
Fiquei um bom tempo pensando em outra alternativa.
"Não pode pedir para alguém?"
"Aniyo"
Respondeu logo em seguida.
— E essa agora...
Levantei as vistas até o canto superior do celular, me assustando com o avanço do tempo e antecipadamente temendo pelo atraso.
Encarei novamente aquele chat, e digitei logo o endereço.
🌧️🌧️🌧️
A chuva forte que não fora detectada pela previsão do tempo, caía descontrolada lá fora por mais de quarenta minutos ininterruptos.
Dez da noite; meus olhos começavam a pesar, sendo forçados a se distraírem com um artigo sobre a evolução da moda na tela do notebook. Diante daquela chuva, tinha certeza de que Kim Tae Hyung não apareceria. Mas eu estava errada...
— Omo, olha pra você! — exclamei assim que abri a porta.
Estava completamente encharcado; tinha um capacete na mão, um desânimo no rosto, sua moto estacionada na rua e o barulho da água, mais forte do que antes.
— Não tinha que ter vindo numa chuva dessas — falei séria, dando passagem para que entrasse.
Ele tirou seus sapatos molhados, colocou o capacete no chão e lhe entreguei um par de calçados.
— Espere um pouco.
Saí, e logo voltei com uma toalha, jogando em seus braços.
— Tira a roupa.
— MWO?! — Abraçou a felpuda, usando como um escudo.
Pisquei lentamente, sinalizando sem vontade para o quarto de hóspedes, que tinha a porta aberta.
Kim Tae Hyung apenas me encarava de olhos arregalados.
— Aish... está molhando a sala toda. — Mostrei, fazendo com que ele abaixasse a cabeça e lentamente checasse o chão ao redor dos pés, depois todo o espaço entre a porta de entrada até onde ainda estava completamente parado, com gotas pingando sem parar. — Vou trazer roupas secas — avisei, indo ao meu quarto.
No closet, encarei por um tempo aquela gaveta fechada — sempre fechada. Suspirei o mais fundo que pude, e a abri bem devagar. A camisa polo intercalava listras grossas, uma off-white, outra verde-esmeralda; a calça de brim costumava ser bem azul quando ainda era usada, mas o tempo a desbotou. Um arrepio me invadiu por completo, dos pés à cabeça, quando deslizei os dedos, sentindo o macio tão aconchegante daqueles tecidos velhos. Se eu puxasse bem forte o ar, ainda dava para sentir, mesmo que tão distante, mesmo que tão perdido no meio daquele cheiro de roupa guardada e naftalina, o perfume musk que ele sempre usava...
Bati na porta do quarto de hóspedes, que se destrancou devagar e uma fresta milimétrica foi aberta.
— Vão ficar folgadas — avisei, empurrando as peças pelo espaço ridículo. Ele se escondeu ainda mais atrás da porta e só depois abriu, apenas o suficiente para que se passasse as roupas. Pôs a mão para fora e às cegas, foi apalpando, primeiro meu braço, depois as tais. Apalpou ainda umas duas vezes a mais, procurando o melhor jeito de segurá-las. Então, enfim as levou, fechando a porta o mais rápido que pôde, rodando a chave até o limite e se certificando, por forçar a maçaneta, de que estava devidamente trancada.
Fui para o sofá, e um pouco depois, o envergonhado saiu.
— Essas ficaram um tanto folgadas mesmo — Riu fraco, e assenti. — Mas… Por que você tem roupas masculinas se... Por acaso... você... — Parou de falar, arregalando os olhos.
— Como assim... — Acabei rindo.
O garoto veio e se sentou ao meu lado.
— Você namora, Ana-ssi?
— Eram do meu pai... — Olhei para o chão. — É só uma recordação.
Ele ficou um tempo calado, mas depois disse baixo.
— Joesongheyo*.
— Não tem que se desculpar.
— O... que aconteceu com ele?
— Morreu — respondi apenas, ainda olhando o chão.
— Aish... Eu sinto muito — disse constrangido. — É melhor eu parar de perguntar...
— Também acho — cruzei os braços, fazendo com que o rapaz não soubesse em que lugar esconder o próprio rosto.
— O garçom entregou logo depois que você foi embora — mudou o assunto, estendendo o ARC com minha foto virada para cima.
— Muito obrigada, Kim Tae Hyung-ssi — Abaixei a cabeça em agradecimento, pegando o cartão com as duas mãos. — O que aconteceu com Jeon Jung Kook-ssi?
— Ah... — Sorriu. — Ele está bem... Acordou sem saber nem o próprio nome, mas... nós meio que contamos as novidades. — Esticou o sorriso um pouco mais.
— Quanta maldade. — Balancei a cabeça. — Bebe chá? — Antes de ouvir sua resposta, saí para a cozinha.
Quando voltei, segurando uma bandeja sob duas xícaras com chá quente pela metade, Kim Tae Hyung estava de cabeça baixa, e assim que percebeu minha presença, passou as mãos em volta dos olhos e no nariz, fungando disfarçadamente.
— Gwaenchanayo? — perguntei, colocando a bandeja na mesa de centro da sala.
Ele apenas concordou com a cabeça, olhando para baixo.
— Pegue... — Entreguei a xícara, e sentei em seguida.
— Obrigado — Tomou um pequeno gole. — Me desculpe ter vindo tão tarde. Tive um dia difícil... — As lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto, sem que as controlasse. — A minha harmeoni* faleceu e eu passei o dia com a minha família, por isso não tive tempo… — falava com dificuldade, o choro invadindo as palavras.
— Sinto muito… — foi o que consegui dizer, paralisada pela sua tristeza.
— Desculpe por chorar assim… Minha eomeoni* estava tão triste e desesperada… Eu só pensei em ser forte para apoiá-la e não consegui chorar na frente dela…
— Você… quer ficar um pouco sozinho?
Somente balançou o rosto, negando.
Kim Tae Hyung chorava sem impedimentos, e tão pouco parecia intimidado, o que era invejável… Apoiava os cotovelos nas coxas, olhando os próprios pés, e não permitia que suas lágrimas passeassem pelas bochechas vermelhas.
Apenas o observava, sem reação nem para tentar disfarçar, quem dera dizer qualquer coisa; mas me lembrei do chá esfriando dentro da xícara em minhas mãos, e comecei a tomá-lo, sem fazer barulho, sem saber o que fazer.
Durante o último gole, uma umidade se encostou no meu ombro. Olhei para o lado e era o seu rosto, implorando por consolo.
Um tanto sem jeito, apoiei a xícara vazia nas pernas e contornei o braço pelas suas costas, até que chegassem no seu ombro, onde desferi leves tapinhas descompassados como uma tentativa ridícula para confortá-lo.
E gradativamente, sua respiração ficava mais leve, e aquelas mãos enormes, que tanto secavam as bochechas, aquietaram sobre suas pernas.
Inclinei o pescoço para ver melhor o seu rosto, pois desconfiei de que dormira. Seus cabelos lisos tampavam os olhos, que estavam fechados. Fui retirando com cuidado os fios macios da frente, até que a ponta do meu dedo triscou em sua pele úmida.
Tirei a mão dali num reflexo, assim que ele abriu os olhos.
— Tenho que ir — disse, após arrumar a postura. — Minha família está me esperando…
O branco dos seus olhos estavam vermelhos, e as pálpebras, miúdas.
Fiquei de pé, e fui pegar as roupas encharcadas.
— Eu realmente precisava muito disso… Obrigado — declarou, pegando as peças da minha mão.
— Eu é que devo agradecer pelo favor que me fez.
— Então mereço um abraço? — Apesar da sugestão repentina e um tanto situacionista, sua expressão ainda era de uma tristeza evidente.
O encarei; entendia plenamente sua dor, pois sabia bem o que era aquilo…
— Tome cuidado com a estrada molhada… — orientei sinceramente, e ignorando seu pedido de afeto, ergui o braço, dando mais dois tapinhas leves em seu ombro.
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