Jeju Island VII
Acordei com o J-Hope gritando Hey Mama! em meus tímpanos no volume máximo que o celular podia suportar. Não ousei abrir os olhos e me permiti aproveitar os últimos minutos na cama até que MAMA terminasse de tocar.
Fiquei de pé ainda com os olhos fechados, dessa vez temendo abri-los e ver nada além da ausência de SN em cima da cama. Acendi a luz e por fim tratei de olhar: ela estava lá, as pernas emboladas entre cobertas e o cabelo um tanto desgrenhado sobre o rosto.
Pela janela, ainda dava para ver estrelas no céu; o relógio marcava um pouco mais que quatro e dez da madrugada.
Quando saí do banheiro, praticamente pronta, decidi dar uma última chance às meninas e ir acordá-las.
No outro quarto, as três camas estavam ocupadas. Tudo o que se podia ouvir era um respirar profundo após outro, além dos ronquinhos de Sofia. Se eu conseguisse acordar Pietra, ela com certeza daria um jeito de tirar as outras duas da cama.
— Ei… — Chacoalhei seus ombros estreitos o quanto pude. — Acorda!
Era impossível, estavam completamente desmaiadas. Vanessa e Sofia só cheiravam a gelo seco e soju. A Louca sequer tirara os saltos para dormir, já a Fofa, tinha um cílio postiço grudado na sobrancelha.
Quando voltei ao outro quarto convencida de que iria sozinha, SN estava de pé, parada feito um zumbi, esfregando os olhos com o punho de seu pijama de mangas grandes.
— Não tem que ir só por causa de mim. — Passei por ela, pegando minha bolsa de praia para colocar algumas coisas que precisaria. — Fica e dorme.
— Ani, eu vou — disse arrastando a voz. — É que eu chamei o Jung Kook… Tudo bem, né?
⚪⚫⚪⚫⚪
Pietra era realmente uma esbanjadora. Me certifiquei disso após confirmar três vezes com o guia de que aquele enorme e luxuoso iate atracado bem na nossa frente era mesmo o que estava reservado para nós.
Logo Jeon Jung Kook e Kim Tae Hyung apareceram, animados. Nem parecia que estavam farreando até há poucas horas atrás.
Nos apressamos para entrar, pois o primeiro raio solar nasceria às 5:30.
O iate era branco e brilhava, cheio de detalhes em madeira. O comandante vestia um uniforme e, ao nos levar até à sala onde ele pilotaria a embarcação, Kim Tae Hyung logo quis mexer na roda do leme, tocar a buzina e gritar "Todos à bordo!".
Após uns quinze minutos navegando, paramos no meio de toda aquela água. Nos restava apenas esperar.
Aos poucos, o tom azul profundo do céu foi clareando e clareando; as estrelas perdendo o brilho… Logo a linha extremamente retilínea do horizonte ficou nítida às nossas vistas. E quando todo o céu se tornou claro o suficiente, os primeiros tons rosados apareceram. Poucos minutos depois, o início do círculo do sol surgiu, lá no fim do mar, no limite de onde nossos olhos conseguiam enxergar. Era como se o sol dormisse dentro d'água, e o espiássemos acordando. Gradativamente, ele foi subindo, e subindo… Sem que percebêssemos, sua circunferência já flutuava totalmente naquele céu cheio de nuvens disformes e amareladas pelo seu brilho.
A embarcação voltou a navegar logo depois que tomamos o café da manhã.
Ficamos os quatro observando o mar que ia ficando para trás à medida que pegamos velocidade. O vento se intensificou, e eu fechei os olhos para senti-lo melhor. O cabelo voava livre para trás.
E foi aí que senti duas mãos em minha cintura.
— Abra os braços, Rose!
Era Jeon Jung Kook, brincando ou se aproveitando da situação, não se sabe ao certo.
Quando olhei para SN, sua expressão decepcionada era mais que evidente.
Arranquei os braços do garoto da minha cintura.
— Ya! O que é isso? — falei séria.
— Titanic! — disse sorrindo.
Sem saber o que fazer, apenas saí do meio de todos, e voltei à mesa do café da manhã dentro do iate.
— Aigoo, o que deu nela? — Jeon perguntou confuso, enquanto SN ainda não conseguia disfarçar sua desilusão e Kim Tae Hyung analisava a situação, pensativo…
⚫⚫⚫
— E o que vão fazer nos últimos momentos antes de irem embora? — Kim Nam Joon perguntou à Vanessa, enquanto tomavam o café da manhã já às vésperas do almoço, no restaurante do resort que ficava logo em frente à praia.
— Ah, não. Eu quero só dormir a tarde toda… — ela respondeu, massageando as frontes com a ponta dos dedos. — Por que nunca me lembro da ressaca quando vejo álcool…? — balbuciou.
— O plano seria visitar a caverna, mas não sei se as garotas conseguem… — Pietra explicou, dando um gole em seu suco de pitaya.
— A Caverna Manjanggul? — Jung Ho Seok contestou. — Lá é muito chato…
— Mesmo? — perguntou Sofia.
— Ne… Não que seja de todo ruim, mas é que você caminha muito, apenas para ficar vendo as mesmas pedras. Quando eu fui, fiquei entediado na metade do passeio.
— Omo, e agora? — Sofia questionou às meninas.
— Bem, o que acham de um passeio menos cansativo? Eu quero visitar um museu — disse Kim Nam Joon —, e depois, podemos caminhar no parque.
Os olhos de Sofia logo brilharam:
— Ne, ne! Quando é que nós vamos?
— Se quiserem, podemos ir daqui a pouco. Almoçamos alguma coisa na cidade… — o garoto propôs.
⚪⚪⚪
Apesar de tentar disfarçar, SN estava um pouco desanimada desde que saímos do iate.
Quando chegamos no hotel, as meninas estavam devidamente acordadas e apressadas, se arrumando ao mesmo tempo que deixavam um rastro de bagunça pelo caminho.
— Aninha! SN! — Sofia trombeteou assim que entramos. — O Nam Joon chamou a gente para ir no museu com ele! Ai, nem acredito que vou tirar uma daquelas fotos conceituais ao lado de Kim Nam Joon! — entrou no quarto comemorando.
— Então vou me arrumar! – SN se apressou.
— Estão fazendo de novo… — comentei apenas. Logo Pietra arregalou os olhos para Vanessa, como se tivessem deslembrado, mais uma vez, o que era aquela viagem e das tantas "promessas" que tinham feito.
— Sei que o plano não era esse, porém o Ho Seok disse que a caverna é muito…
— Só estejam aqui a tempo de arrumar essa bagunça — interrompi as justificativas de Pietra, chutando uma calcinha que estava jogada no chão, tirando do caminho. — Não vou perder o vôo por causa de atrasos — disse simplesmente, e dei meia-volta, saindo.
Depois de almoçar, eu tinha mais algumas horas daquela tarde ensolarada para aproveitar. Peguei o meu livro de emergência, que sempre carregava comigo para o caso de situações desse tipo.
Voltei a caminhar pela larga calçada de pedras lisas e claras, procurando o lugar perfeito para ler aquilo.
Na praia, havia uma sombra mais que convidativa, a areia abaixo daquela palmeira estava fria e fresca. Era ali que eu desfrutaria dos últimos momentos em Jeju.
— Annyeong…
Ergui as vistas para quem se aproximava.
Era Kim Tae Hyung.
Simplesmente voltei a ler, e ele sentou ao meu lado.
— Já entrou na água?
— Ani — respondi com a atenção voltada à página.
— Vai entrar agora?
— Ani.
— Como você viaja para um resort e não se molha nem um pouquinho?
Desistindo de reaver a concentração, elevei o rosto em sua direção: — Não significa que eu não tenha aproveitado a viagem só por que não encharquei o cabelo de sal. Quando você vai num museu, só por que não pôde tocar nas esculturas significa que sua experiência lá não foi boa? Existem vários jeitos de aproveitar as coisas.
— Então por que não quis ir no museu?
— E você?
— Fiquei pra te fazer companhia… Não quis ir por causa da SN? — Franzi o cenho em resposta. — Porque ela gosta do Jung Kook e naquela hora, no iate, ele…
— E-eotteokhe? — Fechei o livro, marcando a página com o dedo, só para olhar fixamente o rosto de Kim Tae Hyung. — Quem te contou isso?
— Ninguém. — Deu de ombros.
— E o Jung Kook? Ele…
— Tshh, é bem provável que ele seja o último a perceber isso — disse rindo. — Que história está lendo? Um romance?
— Ah, não é nenhuma história… — Abri o livro. — São só algumas técnicas que quero me aprofundar mais. Meio que me inspirando e estudando...
— Que técnicas? — perguntou em tamanha curiosidade, tomando o livro das minhas mãos.
— Ãn, técnicas mais avançadas de drapeado, pences mais elaboradas, em um nível mais criativo, conceitual… — tentei explicar, e o garoto ergueu as sobrancelhas, ainda de olho nas fotos do livro, como se entendesse plenamente tanto as minhas palavras quanto o conteúdo.
— Wa, você pensa em trabalhar com isso? — interrogou, folheando depois de marcar, também com o próprio dedo, o lugar em que eu havia parado a leitura. — Jinjja, faz todo o sentido: você sabe costurar, dá para ver que você ama, tem um ateliê na sua casa e até desfilou por aí em um tapete vermelho com um vestido de gala que você mesma idealizou e fez com as próprias mãos… O que mais falta para se tornar uma estilista? É esse o nome? Isso que é o seu sonho, certo? — Devolveu o livro, me encarando com um profundo interesse. — Quando surgiu essa paixão?
Apoiando o cheio de páginas nas pernas, fitei o mar azul e suspirei.
— Aquelas roupas que você vestiu na minha casa, quando pegou uma chuva… Se lembra de eu ter dito que elas eram do meu pai? A minha mãe fez para ele. Na minha antiga casa, no Brasil, minha mãe tinha um ateliê todo decorado, uma das paredes era pintada de coral, com um punhado de desenhos de moda grudados em um mural. Era onde ela criava e produzia os mais diversos tipos de roupas, simplesmente porque amava fazer aquilo. Muito do que eu sei, aprendi com ela.
— Então esse é realmente o seu sonho, Ana-ssi… Quando conseguir realizar, sua eomeoni vai ficar muito orgulhosa — encorajou com um sorriso, porém, não havia nada em meu rosto.
— Espero que sim. — Voltei a conferir o impresso em minhas mãos.
O garoto, parecendo ter entendido o desconforto que surgiu da minha parte à partir daquele momento, mudou de assunto: — Ana-ssi! Tem alguma coisa que você sempre, sempre quis fazer, mas ainda não teve a oportunidade?
Voltei a fixá-lo, e imediatamente me veio uma resposta na mente: — Sempre que penso na praia, me imagino correndo por toda sua extensão, o mais rápido possível, de olhos fechados e braços abertos... — Logo sorri por imaginar a cena da tal situação que me faria parecer no mínimo uma desvairada.
— E por que até agora não fez isso? — perguntou como se tratando de um absurdo.
— Não conseguiria relaxar sabendo que tem desconhecidos me observando. Sem contar o risco de bater o pé em algum tronco, pedra, espinho, ouriço…
Ele se levantou de uma vez, deixando cair grãos finos de areia em meu colo.
— Kaja! O que estamos esperando? — Estendeu a mão.
— Mwo?
— Ana-ssi, não se preocupe tanto com o que pode acontecer de agora em diante, e deixa que eu cuido disso pra você…
Olhei em volta, e não havia ninguém. Talvez eu não tivesse outra oportunidade como aquela. Coloquei o livro na areia e fiquei de pé, rejeitando a ajuda que I garoto ainda dispunha com a mão estendida.
— O último a chegar na ponta da praia vai ter que se casar com o Ji Min! — gritou de repente e começou a correr.
— Quê?! Ai, droga…
Mesmo canalizando toda a minha força vital para as pernas, a fim de alcançarem Kim Tae Hyung ao menos um pouco, era inútil. Ele diminuiu a velocidade e começou a correr de costas, e ainda assim conseguia ser mais rápido que eu…
Fechei os olhos, abrindo os braços. O barulho dos restos de onda batendo nos pés formava um conjunto cheio de harmonia com sua risada satisfeita, e em nenhum momento, durante aqueles breves segundos, me preocupei com qualquer possibilidade de me machucar ou se outros pudessem ver aquela cena. Era uma íntegra representação do que poderia ser a liberdade.
Abri os olhos, ainda correndo de braços abertos, quase cruzando a linha de chegada. Quando dei por mim, Kim Tae Hyung tinha parado de correr, e apenas me observava com o mesmo sorriso, até esse tempo, pregado nos lábios; seu olhar era semelhante ao de alguém que acabava de fazer alguma descoberta extraordinária.
— Ya, noiva do Ji Min! Você perdeu! — gritei, apoiando as mãos nos joelhos, cansada da corrida.
Quando cheguei de volta ao quarto para arrumar a mala, as meninas já estavam lá. Ao lembrar da negligência delas, procurei dentro de mim aquele sentimento de decepção, mas não havia mais nada. Eu as tinha perdoado sem ao menos perceber. Talvez a corrida com Kim Tae Hyung tivesse extravasado aquela pendência para fora…
No momento em que fechei o zíper da minha mala, algo repentino veio na memória: não vi aquela maldita pulseira durante toda a viagem...
Comecei a caminhar de um lado a outro do quarto, tentando resgatar a última lembrança em que aquele objeto estava presente. Entretanto, ela não se encontrava em nenhum dos lugares mais óbvios, e comecei a procurar nos lugares mais improváveis possíveis.
— Alguém viu a minha pulseira? — saí perguntando, sem nem perceber o leve desespero que se apossava do meu tom de voz.
As garotas foram negando uma a uma, até que chegou a vez de Pietra: — Aquela sua… joia de compromisso? — atacou, fingindo descaso.
— Você achou!? — comemorei de antemão.
— Se isto é assim tão especial, não deixe jogado — advertiu num tom de zombaria, e jogou o acessório para que eu o aparasse no ar.
As outras três, se juntando à zoação de Pietra, começaram a gritar.
— Eu a tinha encontrado em cima da cômoda do seu quarto. Além de achar mais seguro guardá-la no cofre, bem, confesso que ansiei desde o começo ver esse seu rostinho atormentado e aflito, pensando ter perdido sua tão preciosa pulseirinha…
— Ei! Vão perder o vôo para ficarem falando besteira?! Vamos embora!
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