Expresso Polar Solitário
Won: Moeda da Coreia do Sul;
Tteokbokki: Snack coreano de rua, feito com massa de arroz. O sabor mais popular é o molho picante. (Fonte: Mundo Delicioso);
Japchae: Prato coreano feito de macarrão de batata-doce. (Fonte: Aminoapps);
MICHIYEOSSEO?: "Ficou maluco?";
Auto-tune: Criador de áudio usado para disfarçar imprecisões e erros na voz, permitindo que muitos artistas possam produzir mais precisamente suas músicas. (Fonte: Wikipedia);
Envolvida num shorts desleixado e curto, acompanhando uma regata velha de malha barata, era como sempre me sentia confortável para descansar, dessa vez lendo no sofá durante as poucas horas que me restavam antes de dormir, e assim reiniciar o ciclo da rotina.
— Onde parou... — murmurei, procurando a página do livro em inglês, que apresentava uma abordagem bem desenvolvida sobre coloração pessoal.
Abaixei o livro no colo após ouvir a campainha, mas permaneci na mesma posição por um momento, torcendo para aquele som ter sido apenas um engano, ou crianças brincando, alucinações...
Quem sabe da próxima.
Depois de muito custo, levantei, arrastando os pés calçados com meias pelo piso claro da casa, resmungando vários porquês e indo em direção ao visor da câmera. Suspirei de olhos fechados…
— O fato de terem o meu endereço não significa que podem ficar vindo aqui. Ainda mais sem avisar — abri a porta pela metade, despejando o verbo sem alterações na voz.
Após o choque inicial da surpresa — talvez pelas minhas palavras, talvez pelos trapos que vestia, com toda certeza impróprios para receber sete rapazes coreanos tão “puros”… não se sabe ao certo —, ficaram passeando olhares aleatórios, até que Jung Ho Seok cutucou Park Ji Min com o cotovelo:
— Você me deve vinte mil won*.
O outro respondeu só com uma careta de desprezo.
— Estavam apostando?!
Jung Ho Seok arregalou os olhos de susto; em contrapartida, o devedor da tal aposta apenas sorria.
— Joesonghaeyo... A gente queria fazer uma surpresa — Kim Nam Joon explicou com tamanha suavidade, retirando a máscara do rosto. — Chegamos há poucos dias da nossa última viagem e… Aigoo, não liga para esses bestas! Trouxemos comida… — barganhou, e junto com ele, Min Yoon Gi e Kim Tae Hyung ergueram sacolas. Até achei que por ali surgiria alguma bandeirola branca ofertando paz.
Mirei nas tais sacolas, mas não decifrei o conteúdo, tirando o fato de estarem abarrotadas.
— Que... comida? — investiguei, cruzando os braços, como alguém que sequer se importava.
— Hum, aqui tem tteokbokki*, japchae* e refrigerante — citou, apontando para as respectivas sacolas. — Você já comeu?
Ergui uma sobrancelha, e deixei que entrassem.
— Só tem seis aqui — comentei, após fechar a porta.
— O Jung Kookie… — Park Ji Min iniciou dizendo, mas teve que parar para prender o riso.
— Ele não pôde vir… — Kim Nam Joon continuou, após bater no braço do Park, disfarçando.
— Tão constrangido… — Jung Ho Seok balbuciou, também tentando não rir tão descaradamente.
— Aigoo! Não é isso… — o líder voltou a contestar. — Ele pede desculpas, mas é que teve que trabalhar numa música…
— Nosso golden maknae é muito esforçado… — Kim Seok Jin acrescentou.
— Wa! A sua casa é muito linda! — Jung Ho Seok elogiou, olhando dos arredores até o teto, com as mãos na cintura.
Agradeci, me sentando no sofá, ao lado de Kim Tae Hyung. O encarei a ponto de ver meu reflexo se perdendo no meio de suas íris escuras e dilatadas, me questionando se ao longo de todos esses dias, ele estaria se sentindo um pouco melhor…
— Ne, eu estou bem — disse de repente, num tom óbvio, como se estivesse ouvindo em alto e bom som, a voz dos meus pensamentos.
Continuei encarando, mas dessa vez completamente desacreditada, sentindo as sobrancelhas franzirem sem minha permissão:
— Eotteokhe... Como é que você... Q-quer dizer... — Desviei o olhar ao chão, levando os dedos à nuca. — Que bom.
— Aqui… — Me estendeu uma sacola diferente das de comida. — Obrigado pelas roupas. — Esticou os lábios.
Conferi o conteúdo, e fui para o quarto, aproveitando a oportunidade para me trocar…
— E aí, quem vai falar? — Jung Ho Seok perguntou, enquanto tiravam a comida para fora, colocando tudo na pequena mesa de centro.
— Nam Joon hyung! — Kim Tae Hyung exclamou, e ao ouvir seu nome, o mais velho deixou cair Coca-Cola no chão. — Você é o líder!
— Eu não... Aish! Olha o que você fez… — esbravejou, sacodindo a mão molhada pela bebida, conferindo o tamanho da sujeira espalhada no piso claro. — Aigoo, tenho que limpar isso antes que ela volte — murmurou, procurando ao redor algo que pudesse salvá-lo.
— Então fala você Hobi hyung! — V continuava tentando eleger um representante que pudesse interceder em nome de todos. — Ela te respeita mais!
— Respeito?! — Jung Ho Seok soltou uma gargalhada. — Nem morto! Eu já tive a ideia, o que vocês querem mais?
— Então, Ji Min-ah, você fala! — Kim Seok Jin sugeriu.
— EU?! — Apontou para si mesmo. — Eu sou o menos levado a sério aqui, posso ver ela rindo da minha cara... — desconversou, sentando no sofá, em seguida se esticando para perto da comida e procurando pelos jeotgarak, fazendo barulho nas sacolas de plástico.
— A verdade é que ela não dá a mínima para nada disso — Min Yoon Gi argumentou, sentado de pernas cruzadas no outro canto do sofá. — Então se querem fazer isso, o jeito é aceitar o risco e se preparar para levar! E aí, quem é o mais qualificado?
— VOCÊ!! — disseram em uníssono, apontando para Suga.
— Ne... Sou o único corajoso mesmo... — consentiu, mas não antes de revirar os olhos.
Saí do quarto, vestindo uma chemise de manga japonesa marsala, de viscose e seda. Porém, nenhum tecido de fibra natural se comparava às minhas peças velhas e desleixadas quando se tratava de conforto dentro de casa...
— YA! MICHYEOSSEO*?! — nem me ouvi gritando, pois tudo que via na minha frente era o quadro de Kim Nam Joon agachado, limpando Coca-Cola com o meu pano de prato bordado novo em folha, que eu sequer usava para secar as mãos. — Aish… — me aproximei esbravejando, e o garoto se encolheu, sentando no chão. — Será que não sabe a diferença entre… — desisti de perguntar, apenas tomando da sua mão e indo direto para a lavanderia antes que aquelas manchas horrorosas se fixassem no delicada trama de algodão.
Quando voltei, Kim Nam Joon ainda estava sentado no mesmo lugar, segurando um copo descartável com as duas mãos, todo desconfiado.
— Ah não, Ana-ssi! — Park Ji Min choramingou. — Por que trocou de roupa? Você estava ótima…
Fingindo surdez, me sentei no chão, pegando os jeotgarak e o que haviam deixado do japchae.
Mesmo com a atenção totalmente voltada à comida, era impossível não notar os cochichos rondando pela sala depois de um tempo.
Levantei as vistas para pegar mais refrigerante, e todos encaravam Min Yoon Gi.
— AIGOO, QUE DROGA! — ele trovejou, colocando sua porção de tteokbokki em cima da mesinha da sala. — Nem me deixam comer em paz! É o seguinte, Ana-ssi, esses frouxos querem fazer uma proposta mas estão todos com medo. Então eu vou logo esclarecer a coisa.
Ergui os ombros, voltando a encher a boca do japchae que estava esfriando.
— Esses caras ficam reclamando que queriam te conhecer melhor, conversar, sei lá... Parece que você nunca olha as mensagens…
— Ya! — Kim Nam Joon interveio —, eu não estava reclamando disso, quer dizer, a gente só estava conversando sobre...
— Continuando... — Suga interrompeu a "explicação" do outro. — Foi aí que o gênio do Ho Seok deu a ideia de sairmos com você, um de cada vez, durante sete dias. Pronto, satisfeitos?
Ouvi toda a proposta, ainda comendo minha porção, calada. E só depois, quando havia restado apenas um pouco do delicioso molho adocicado no fundo da tigela descartável, foi que resolvi levantar as vistas àqueles garotos.
— Isso é algum tipo de encontro? — lancei a pergunta despretensiosa, raspando os últimos momentos daquela porção de macarrão.
Kim Seok Jin cuspiu um pouco do que bebia.
— Não é nada demais — Kim Tae Hyung tranquilizou, enquanto o outro secava a boca com o punho da camisa. — No início achei essa ideia meio estranha, mas depois vi que ia ser bem legal.
Sem expressar nenhuma reação, analisava, tentando de todos os ângulos, calcular as probabilidades daquela "ideia genial" resultar em confusão.
— E aí, no final dos sete dias, você pode finalmente escolher seu bias... — Park Ji Min deu seu arremate pessoal.
— Cala essa boca cara... — Min Yoon Gi brigou.
— Sério, por que não consegue guardar esses comentários só para você? — o líder se juntou às advertências.
— Vou tentar excluir isso da minha memória, vai ser melhor para mim, e para você — respondi séria, colocando a embalagem vazia sobre a mesa.
— E então, garota? — Min Yoon Gi quis agilizar o processo.
— Por acaso me pareço com uma acompanhante de aluguel ou algo do tipo? Já imaginaram os boatos que podem sair dessa brincadeira? — raciocinei, organizando a bagunça que haviam feito naquela pequena mesa.
— Não é nada disso! E ninguém vai descobrir… — Kim Tae Hyung assegurou novamente. — A gente tem uma vida normal… — Crispei os olhos em sua direção. — Tá, quase normal… O que eu quero dizer é que somos como qualquer pessoa, a gente sai para fazer compras, para comer, se divertir, e até posso dizer que é muito difícil alguém me reconhecer se eu estiver bem disfarçado…
— É impossível não encarar tudo isso como uma desculpa barata para que cada um de vocês possa ter um encontro.
— No nosso dia, você pode encarar como quiser… — e lá se foi mais uma das provocações de Park Ji Min.
Abaixei a cabeça, colocando os dedos entre os cabelos:
— No que eu estou prestes a me meter… — murmurei, e ergui o rosto a seguir. — Decidam que dia vai ser quem. Escolham lugares decentes, não me matem de tédio... Vão ter que vir me buscar e deixar, não vou gastar um tostão furado e...
— OMO, ela aceitou! YES! — Park comemorou, se levantando do sofá por impulso.
— Ya, Park Ji Min-ah, vai ser melhor para você não vir com gracinha — ameacei, e ele se sentou, fazendo bico.
— Quando começa isso? — Fiquei de pé, juntando as coisas para levar até a cozinha.
— Amanhã, querida — Aquele garoto realmente não se intimidava com nada…
Ao voltar da cozinha, os meninos que estavam no chão se juntaram aos do sofá, e haviam se apossado também da televisão, brigando pelo controle.
— Vamos mostrar nosso último lançamento! — Jung Ho Seok gritou.
— Acho que temos que apresentar nosso melhor trabalho… — outro argumentou.
— Então põe DNA! — Kim Seok Jin sugeriu.
— Ani, Ani! Eu estou mais bonito em Mic Drop! — Kim Tae Hyung contrapôs.
— Bonito onde? — Min Yoon Gi zombou.
Me aproximei, assistindo a tal discussão de braços cruzados.
— Ana-ssi! E então, pronta para se apaixonar? — Park Ji Min jogou o controle para cima, entusiasmado, mas antes que voltasse em suas mãos, Kim Tae Hyung foi mais ágil e o tomou ainda no ar. — Ya! — Começaram a brigar, como duas crianças…
— Nossa visita também tem outro objetivo… — disse Jung Ho Seok. — Viemos te transformar numa Army!
— É o que?!
— Se quiser pode simplesmente encarar como uma divulgação do nosso trabalho… — provocou Min Yoon Gi.
— Podemos usar sua TV? — Kim Nam Joon veio perguntar.
— Hol, eles até têm educação para pedir… — ironizei, e Kim Tae Hyung escondeu o controle no mesmo segundo.
— Hum… — Kim Nam Joon disfarçou. — Qual seu estilo de música favorito?
— Não me importo com estilo, desde que a música tenha uma mensagem decente e economize no auto-tune*.
— Exigente… — Park Ji Min balbuciou.
— Então ela vai se apaixonar por Mono — Kim Nam Joon até encheu o peito para falar.
— Ya... E dar todo o crédito só para você?!
Foi assim que a discussão ganhou mais altura...
Caminhei à passos lentos até o sofá, tomei o controle da mão de Kim Tae Hyung e acionei a barra de pesquisa do YouTube, na televisão. Ao digitar "BTS", o vídeo no topo dos resultados era intitulado "Spring day". Selecionei e me sentei no chão, de costas aos sete escandalosos que dividiam espaço e gritos no sofá.
— Ah, ela já escolheu... — reclamou Jung Ho Seok. — Sem graça...
— Qual é esse? — Min Yoon Gi perguntou.
— Coloquei o primeiro que apareceu.
— Tá ansiosa? — Kim Tae Hyung interrogou com tamanha animação, e a logo da Big Hit Entertainment aparecia na tela.
— Nossa, completamente.
E então o MV começou...
— Uh, ela pôs Spring Day...
Nunca havia tido uma pouca curiosidade para ver qualquer videoclipe do gênero. Apenas a melodia não me era estranha por tocar a todo momento nas ruas e lojas por onde andava…
Mas à medida que prestava detida atenção, absorvendo aquela atmosfera tão fria e nostálgica do ambiente em que se passava o clipe, à medida que Kim Nam Joon corria por entre locais completamente diferentes separados pelo simples abrir de uma porta, tive mais certeza de que, como aquele expresso polar solitário, eu também só queria fazer o tempo correr, sempre me perguntando quanta neve ainda teria que cair, quanto tempo mais faltava para toda aquela invernia deixar que ao menos algumas cerejeiras florescerem.
Um dos versos da música dizia que nenhuma estação poderia durar para sempre, e o videoclipe terminava com um fio de esperança pairando no ar, mas, fora daquela tela, eu ainda pressionava minhas estações, por obrigação; seria melhor para a primavera que não viesse, melhor para as flores que não florescessem...
O painel estava escuro, com um símbolo de "reproduzir novamente" no meio.
Continuei como estava, sem nada a dizer, apenas sentada no chão, com as pernas entrelaçadas, sem piscar.
— Wa... Essa foi muito fácil! Achei que iria demorar pelo menos uns três MVs para você se apaixonar! — Park Ji Min exclamou.
— Até perdeu a fala de tanto amor... — ouvi Kim Tae Hyung dizer. — Está tudo bem?
— Qual… o próximo… — murmurei ainda de costas para o sofá e peguei o controle do chão.
A imagem de Young Forever entre as sugestões chamou a atenção, me fazendo selecioná-lo.
Quando acabou, assisti outro, mais outro, e um terceiro… sem me dar conta do tempo, muito menos lançar qualquer comentário no ar.
Após assistir um grande bocado daqueles MVs, até havia esquecido de que não estava sozinha, no entanto fazia um bom tempo que somente a batida das músicas propagavam naquela sala.
Olhei para trás, estavam cochilando.
— EI, ACORDEM! Vão dormir na cama de vocês! — gritei, batendo palmas enquanto me levantava do chão.
Alguns começaram a abrir os olhos devagar.
— Ah... Posso dormir aqui? Só eu? Deixa? — Park Ji Min bocejou, se espreguiçando.
— Perdemos a hora! Não vi que já era tão tarde... — Kim Nam Joon esfregou os olhos. — Desculpa Ana-ssi, aposto que você trabalha amanhã e a gente também tem treino cedo... Vamos embora molecada! Yoon Gi-yah, acorda! — Chacoalhou os ombros do garoto, sem obter qualquer resposta. — Aish, quem vai acordar ele?
— Tô fora! — Jung Ho Seok avisou, indo rumo à saída.
— Te vira! — Kim Tae Hyung o acompanhou.
— Qual o problema em acordar a Bela Adormecida?
— Fighting! — Kim Seok Jin encorajou, simplesmente saindo e indo atrás dos outros que já esperavam do lado de fora.
Ele respirava lenta e profundamente, sentado no sofá com a cabeça encostada no braço do estofado.
Me ajoelhei frente ao seu rosto:
— Ya, Min Yoon Gi-ssi! Seus amigos te deixaram! Trate de acordar e ir atrás deles — exclamei, sacudindo-o.
— Tem tanto medo assim? — perguntou com voz sonolenta, as pálpebras ainda seladas.
— Medo... de?
— Não resistir… — Abriu os olhos, sorrindo de soslaio.
— Ah, me poupe...
— Só saio se me disser o que achou dos MVs.
Quando abri a boca, prestes a ameaçá-lo com uma ordem de despejo, seu dedo indicador veio na minha cara:
— Só manda o que realmente achou, sem gracinha. Senão vou dormir aqui mesmo… — aconchegou a cabeça no macio do sofá, com o olhar fixo. — Não tenho pressa de esperar…
— Provavelmente… — sussurrei. — Eu esteja curiosa para ouvir seus outros trabalhos.
— Mais alguma coisa?
— Sim, saia do meu sofá antes que babe nele de novo.
Fui ignorada com um sorriso.
— Se contar para os outros vai se ver comigo.
— Ah, é?! E vai fazer o quê…
O encarei por exatos seis segundos, e foi ali que conheci as bochechas vermelhas de Min Yoon Gi.
— Levanta daí, os caras tão doidos lá fora de tanto esperar.
O garoto se ergueu de supetão, e foi para fora.
— Aish, que foi isso?! — Kim Tae Hyung esbravejou assim que apareci na porta. — Por que demoraram tanto?
— Pronto… ele já acordou, o que estão esperando para irem embora?
Assim que saíram, corri para a sala e assisti todos os MVs disponíveis, sem me importar com horários, trabalho ou qualquer compromisso que pudesse me obrigar a ir para a cama.
— Espera aí… Será que estou me tornando uma… NÃO!
Oi!
Obrigada por ler até aqui!
😃😃
Agora me conta, como você fica quando assiste um MV de lançamento?
Os meus olhos ardem porque não consigo piscar!
🤣🤣🤣
Se você gostou, mô, deixe sua estrelinha linda antes de passar para o próximo cap!
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