O Ajudante

Irineu Lobato já não sabia mais como impedir a falência da pousada.

Nos últimos meses, já cortara todas as despesas que podia: reduzira as frutas e os frios do café, aumentara o preço do almoço e do jantar, dispensara uma das duas cozinheiras e algumas das faxineiras...

Pouco adiantou.

Irineu estava acostumado a dificuldades. Afinal, montara a pousada do nada, com o pouco que o pai deixara; mas ele sentia que estava acima de suas forças resolver o real problema da pousada: falta de ocupação.

Nos últimos meses ele vira os hóspedes minguarem. Na proporção inversa, vira a violência crescer no bairro.

Quem iria querer se hospedar num bairro violento? Irineu pensava. Ele mesmo não já pensara mais de uma vez em se mudar? Voltar pro interior? A cidade tinha crescido demais, ao menos pra um homem como ele, que gostava de ordem, de regramento. Desde jovem, dormia e acordava no mesmo horário, estabelecia rotinas que jamais descumpria, calculava o tempo a gastar em cada tarefa de modo a evitar surpresas em sua agenda. Mesmo à beira da falência, ele continuava assim.

Se ainda havia alguma esperança para pousada, era só por causa de Mateus. O rapaz de 20 anos trabalhava por dez. Fazia um pouco de tudo, e sempre com esmero. Em troca, ganhava só um salário mínimo, moradia e alimentação. Era o ajudante que qualquer um gostaria de ter.

Daí o desespero de Irineu quando o jovem morreu.

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Ninguém nunca soube ao certo o que ocorrera.

O motorista que atropelou Mateus disse à polícia que o rapaz estava no meio da pista, de joelhos, a alguns metros da pousada. As luminárias dos postes da rua estavam quebradas, e o motorista só o enxergou, com os faróis, quando era tarde demais.

A necropsia mostrou que Mateus estava embriagado. A polícia descobriu que as luminárias dos postes haviam sido quebradas de propósito, na noite anterior.

A descoberta mais surpreendente foi a de que os tênis de Mateus estavam entrelaçados um a outro pelos cadarços. Os policiais levantaram a hipótese de que ele tropeçara na rua por causa disso.

Irineu nunca mencionou nada à polícia, mas ele sabia, nos últimos dias antes da morte, que havia algo de errado com Mateus.

O rapaz começara a atrasar as tarefas. Atendia a ligações e saía em seguida, para só retornar de madrugada, com hálito de bebida. O dono da mercearia aparecera, para reclamar de que Mateus não saldava as contas no fiado.

Irineu nunca descobrira com quem Mateus falava ao telefone.

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Os dias seguintes à morte de Mateus foram de desespero.

Sem o rapaz, Irineu teve que pôr mãos à obra nas atividades: cortar a grama do quintal, limpar a piscina, alimentar e dar banho nos cavalos — que alugava para os hóspedes.

Em algumas semanas, ele estava esgotado. Já tinha 60 anos, não conseguia mais trabalhar tanto assim.

Ele pregou na porta da frente um anúncio escrito, com a oferta de vaga.

Ninguém apareceu. Todos ali sabiam que ele estava perto de falir. E que o salário de Mateus nunca fora muita coisa.

As contas chegavam e Irineu não tinha dinheiro para pagá-las. A luz estava atrasada há dois meses. A água, idem.

Foi durante uma semana das mais difíceis, quando não havia nenhum hóspede e ele se vira forçado a dar folga para a equipe, que um rapaz entrou na pousada.

Irineu jamais o vira antes.

Ele tinha a altura de uma criança. Vestia calça brim e boné vermelhos, e uma camiseta branca. Tinha pele negra e cabelos pretos encrespados. Mancava da perna direita ao andar.

— Quer um quarto, garoto? — perguntou Irineu.

— Quarto, não. Emprego, sim.

— Qual seu nome?

— Sávio.

— De quê?

— Pereira.

— Nunca te vi por aqui.

— De muito longe venho.

— O que há com a perna?

— Acidente na linha de trem — ele levantou a aba da calça, deixando à mostra uma perna mecânica de madeira.

A visão da perna amputada enterneceu Irineu. Ele decidiu naquele momento que iria contratá-lo.

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Para surpresa de Irineu, Sávio trabalhava tão bem — ou até melhor — que Mateus.

Não bastasse isso, também sabia cozinhar. Tão bem que Irineu dispensou a cozinheira.

E não só isso. Sávio também parecia entender do negócio de pousada. Melhor que o próprio Irineu.

O rapaz apresentava uma sugestão atrás da outra. Seu Irineu, e se o senhor divulgasse a pousada na interne? — é barato. Que tal abrir o restaurante pro público? aí o senhor depende menos dos hóspedes. E esses cavalos? que tal alugar eles pras crianças andarem lá no parque?

Irineu seguiu os conselhos.

Com o restaurante e os cavalos, ele teve um fôlego financeiro.

Com o anúncio na internet, os hóspedes aumentaram. O boca-a-boca atraiu outros hóspedes, que atraíram outros, e outros — até que a pousada passou a lotar.

O negócio voltava a dar lucro.

Irineu queria guardar o dinheiro na poupança.

Sávio demoveu-o:

— Use pra melhorar a piscina, o jardim, os quartos. Aí cobre mais caro.

Irineu seguiu o conselho. Além de melhoras de estrutura, implementou um serviço de quarto. Também contratou mais pessoal.

Em alguns meses a pousada continuava lotada, e o lucro, maior.

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Após meses de lucro, Irineu decidiu colocar o dinheiro na poupança.

De novo, Sávio demoveu-o:

— Trabalhar, trabalhar... Há quanto tempo o senhor vive assim?

— Desde sempre, garoto.

— E curtir a vida? Não seria a hora?

Irineu replicou. Como assim, "curtir a vida"? Seu pai não o criara desse jeito.

Sávio replicou. Os filhos de Irineu já estavam crescidos, não moravam mais com ele; a esposa dele tinha boa saúde; os pais já haviam falecido. Ele não podia se permitir alguma diversão?

Irineu acabou por ceder.

Com o ajudante, passou a frequentar rodas de pôquer. Cassinos. Restaurantes de luxo. Shows. Até para cabarés Sávio o levou.

Irineu passou a acordar às 11h, 12h. Muitas vezes de ressaca. Passou a ter cada vez menos interesse cada vez menos na pousada. Deixava-a mais e mais sob comando de Sávio. Em alguns meses, o ajudante já tinha plena autoridade, demitindo e contratando quem quisesse.

O dinheiro começou a ir embora dos bolsos de Irineu.

Sávio, por sua vez, ganhava mais e mais. Negociava aumentos de salário. Até participação nos lucros conseguiu.

A esposa tentou alertar Irineu:

— Nós estamos afundando. E tudo começou com esse garoto.

— Não fala besteira, mulher.

Ela rebatia. Será que Irineu não conseguia ver como Sávio era estranho? Ninguém sabia quem eram os pais dele. Ou em que cidade ele nascera. E a calça e o boné vermelhos, que ele usava todos os dias?

Quando discutiam assim, Irineu se levantava, saía da casa, anexa à pousada, e ia para o quintal, por onde caminhava enquanto fumava um cigarro.

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Nas semanas seguintes, Irineu gastou, com prostitutas, restaurantes e jogos, todo o restante do dinheiro.

Sem recursos, ele teve que cortar os anúncios na internet. Também teve que diminuir a quantidade e a qualidade das refeições, a ração dos cavalos, a limpeza da piscina. Cancelou o serviço de quarto.

À medida que o dinheiro se esvaía, assim também sua saúde. Sentia-se cada vez mais cansado. Perdera peso. Tinha insônia.

Já Sávio, parecia ter ficado mais jovem do que já era. A musculatura se tonificara, a pele adquirira mais cor.

Aos poucos, os hóspedes sumiram. Irineu teve que demitir a equipe, um a um, até que só restava Sávio.

A esposa de Irineu não escondia sua irritação, com o marido e com Sávio. As discussões entre o casal se tornaram rotina.

Não bastasse isso, a tranquilidade doméstica passou a ser abalada por estranhos acontecimentos. O cachorro vomitava por ter comido algo que não podia. Os cavalos viviam exaustos, como se alguém estivesse correndo com eles. Roupas apareciam embaixo do sofá, produtos de limpeza nas gavetas de roupas. Açúcar aparecia no saleiro, e o sal no açucareiro.

O desarranjo doméstico, a falência, as discussões — tudo isso foi demais para a esposa. Um dia, quando Irineu voltou de um bar — um dos poucos que ainda lhe vendia fiado — descobriu que ela havia ido embora.

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Nos dias seguintes, Irineu caiu doente.

No posto de saúde, o médico não conseguiu dar um diagnóstico.

— A impressão, seu Irineu, é que o senhor teve um esgotamento. Dos fortes.

O médico prescreveu medicação.

Não adiantou.

De cama, o celular sem linha porque ele não pagara a conta, Irineu pediu que Sávio procurasse pela esposa e pelos filhos. Ele precisava de dinheiro para consultar médicos.

Dias se passaram.

Ninguém apareceu.

Irineu não conseguia nem se erguer da cama.

Gritava por Sávio.

O ajudante sumira.

Sem comer e beber, ele perdia, dia a dia, suas forças.

Uma noite, no quarto às escuras, Irineu se assustou ao ver alguém de pé, a seu lado.

Sávio.

O ajudante o fitava. Na boca, um sorriso. À mão direita, um cachimbo acesso.

— Quem... — perguntou Irineu, cada palavra como um peso de toneladas que tivesse que erguer — ...quem é você?

— Nomes, eu tenho vários.

— O que você quer...de mim?

— O que eu queria você já me deu. Mateus tive que matar para conseguir.

— Não...entendo....

O rapaz sorveu o fumo, baforando em seguida a fumaça.

— Do caos, da desordem e da desgraça alheias eu tiro minha energia.

— E o que... acontece comigo?

— Morrer, é o que acontece com você. Voltar pro meu mundo, é o que acontece comigo.

— Seu filho de uma... — Irineu sentiu uma pontada no estômago. — Por que não continuou por lá?

— Banimento. Tive que vir pra cá. Viver como um de vocês. Minha energia tenho de volta, graças a você. Nem preciso mais dessa perna.

Reclinando-se, ele retirou com a mão esquerda a perna de madeira, que jogou ao chão.

Mesmo numa perna só, conseguia se equilibrar como se em duas.

A criatura que se dizia chamar Sávio aspirou o fumo mais uma vez, antes de dizer, ao mesmo tempo em que expelia a fumaça:

— Adeus.

Então, o rapaz, charuto à mão, boné e calça vermelhos, girou sobre si próprio. Uma, duas, três, várias vezes — até se tornar um redemoinho, que se deslocou para fora do quarto e desapareceu com um clarão.

Irineu mal teve tempo de pensar sobre o que acabara de ver. A visão dele se turvou. Os batimentos cardíacos diminuíram. As últimas forças se esvaíram de seu corpo. A escuridão em torno dele ampliou-se, envolvendo-o, engolindo-o, até finalmente absorvê-lo.






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