Capítulo Vinte e Sete (Sob o armistício de estrelas cruzadas)


Words from the mouths of babes

Promises oceans deep

But never to keep

 Peter, Taylor Swift.


🦋


Roseville, 1997.

Foi o Padre Stane quem descobriu primeiro.

Naquela tarde, logo após o Ano Novo, Jungkook havia passado pelo jardim e sussurrado discretamente duas ou três palavras para mim antes de cruzar o pátio da igreja em direção à sua casa, avisando sobre o bilhete deixado entre as fendas do confessionário. Naquela época, nossas habilidades em trocar mensagens se tornavam cada vez mais sofisticadas. Nunca assinávamos nossos próprios nomes, nem deixávamos pistas explícitas sobre locais e situações. No entanto, eu ainda estava corroída pelo medo de ser pega e não me sentia suficientemente segura nem mesmo sob o véu de um pseudônimo banal; levamos uma ou duas semanas para elaborar métodos ainda mais aprimorados de comunicação; uma densa e inexprimível dedicação de nosso tempo livre para criar pequenos bilhetes e cartas de amor devidamente codificadas. Passamos a trocar trechos de livros com páginas e parágrafos selecionados em uma sequência tripla; uma Bíblia pessoal com versículos amaldiçoados, ilegíveis aos olhos de um deus diferente daquele ao qual servíamos levianamente. Era uma religião feita para dois, com um evangelho particular que propagava as boas novas de nosso amor.

Os bilhetes começavam com a indicação necessária de uma leitura que precisávamos ter à mão. Jungkook havia me enviado uma mensagem com um trecho de "As Virgens Suicidas". As indicações seguiam uma combinação trabalhosa: uma página, um parágrafo e uma posição grafêmica. Às vezes, incluía um capítulo inteiro, caso não tivéssemos acesso à mesma edição. Era necessário caneta, papel e paciência, um trabalho suscetível a muitos erros.

Um sopro escuro de memória me coloca em passo errático até aquela tarde de clima ameno, o ruído se repetindo no estalido das madeiras compensadas da paróquia, Stane acompanhando Jungkook do lado de fora com olhos atentos, enquanto os meus desviavam para qualquer outro lugar, longe o suficiente para não levantar suspeitas. Uma embriaguez doce de paixão que nos tirava o senso de sutilidade.

Fui flagrada, é claro.

— O que esses bilhetes significam? — o terror que me atravessou talvez tenha sido a resposta que Stane tanto buscava para explicar a estranheza do meu comportamento e a proximidade anormal de Jungkook, que vivia enfiado nos corredores da igreja, tal qual uma carola, um papa-missas, sempre que eu estava por lá cumprindo minhas obrigações.

— São só indicações de leitura, padre. — A sensação esquisita preencheu meu estômago.

Stane observou o papel antes de me entregá-lo. O bilhete codificado parecia apenas uma série de numerações aleatórias escritas à mão.

— Sabe que não é o primeiro que vejo, não é? Vocês não estão sendo discretos como pensam.

— Não é nada demais.

Stane caminhou por entre os bancos, me obrigando a acompanhá-lo. Atada ao seu calcanhar, aguardava o veredito das acusações ministradas no silêncio impaciente por baixo de pequenas mentiras, acima dele somente a verdade incontestável que não parecia aborrecê-lo.

— Sei que você e Jungkook estão se encontrando escondidos. Achou que eu não perceberia o jeito que vocês se olham, sempre saindo dos mesmos lugares quando ninguém está vendo?! E o Jungkook rondando a igreja como se fosse um anjo tonto...

Permaneci em silêncio, como se tivesse sido pega ocultando um pecado diante de meu inquisidor, enquanto Stane abria a porta da sacristia.

— Veja bem, não acho que isto seja adequado. As pessoas já tratam o pobre rapaz como um maldito, imagine se seu pai descobrir que vocês andam de namoro pelos cantos?! Além disso, dentro da paróquia. Não acho que isto esteja certo.

A preocupação de Stane recaía mais sobre Jungkook do que sobre mim, vendo nele o elo mais fraco. Ele sabia que as consequências de nosso caso afetariam a parte mais vulnerável. Jungkook não era bem-vindo e vivia ali de favor, sempre destinado a ser agradecido e obediente. Colocar minha honra em risco, dentro daquele pequeno enredo de Roseville, significava também colocá-lo sob os olhos de um escrutínio ainda maior por ser o responsável pela minha ruína.

Ali, em sua mesa na sacristia nos fundos da igreja, organizando suas pastilhas de antiácidos, arquivos numerados e uma agenda com seus horários e compromissos do dia, Stane ocupou a cadeira vazia enquanto dobrava com cuidado sua estola após a missa. Tinha nas mãos a verdade, também a chance de encerrar os encontros, colocar um ponto final no risco. Até hoje me pergunto o que fez Stane optar por manter nosso segredo ao invés de incentivar o nosso afastamento, deduzo com uma percepção adulterada pelos anos e minhas próprias expectativas, por ter agora alguns anos a mais que padre Stane naquela época, e a sabedoria de uma vida vivida e experimentada que nos dá algum discernimento que não envolve o poder o mágico de uma batina, mas uma intuição aguçada, que talvez ele soubesse que aquela pequena trégua de tempo era tudo que o destino nos permitiria ter.

— Por favor, padre. Por favor, não diga nada a papai. — Lembro dos olhos azuis bondosos de Stane, os sulcos ao redor dos olhos repuxados me encarando do outro lado da sala. Ele não esboçou nenhuma emoção excessiva.

— Por que eu diria? Você sabe exatamente as consequências desse envolvimento, não sabe?

Assenti. E mantive os olhos baixos, encarando os cadarços soltos de meus sapatos manchados de terra. Não queria que me visse chorando, aquela parecia a resposta mais primitiva de meu emocional posto à prova, encurralado. Um silêncio cruel de respostas que ainda não tinha, justificativas que não precisavam existir, ou que ainda não havia acessado até então. Estava apaixonada, o que mais poderia fazer?

— Você gosta dele, não é? — A voz doce de Stane ecoou, sua mão tocando meu ombro.

Engoli o choro, limpando o nariz com a manga do casaco.

— Muito.

Me ofereceu o lenço azul que mantinha enfiado no bolso de sua batina, com seus maneirismos sempre gentis.

— Tome, só tentem ser mais cuidadosos. Se eu percebi, outras pessoas também vão perceber uma hora ou outra. Não quero que uma tragédia aconteça diante dos meus olhos. Vocês são muito jovens, Sofia. Sei que o amor não escolhe ninguém pelos motivos, mas é importante que se mantenham nos caminhos designados por Deus.

Com a proximidade, sentia o aroma de limão de sua pomada para dores musculares, seu ar cansado de homem adulto. O mesmo que enxergava no papai e também no Sr. Kim. Um cansaço que tinha cheiro de vida arruinada e excesso de cafeína, e parecia escapar dos poros, vindo da alma.

E se ele for o meu desígnio, padre?

Stane suspirou, preenchendo a sala vazia de ruído. Os braços despencaram pelo excesso de cansaço.

— Então penso que Deus o colocou nas mãos certas.



Meu trabalho laborioso durou quase a noite toda caçando palavras, mas lá estava a pequena mensagem anotada em meu diário.

As Vir. Suic; (34, 2, 5.)

Meu

( 59, 5, 6.)

anjo

(67, 9, 4.)

Me

(41, 7,3)

ligue

(79, 3, 13)

amanhã

(88, 9, 20)

sem

(86, 3, 22)

falta.

Meu anjo, me ligue amanhã, sem falta!


A execução das chamadas exigia ainda mais segurança. Eu ia até o Pinks, usava o telefone da lanchonete e discava o número da Oficina dos Kent pelo auxílio à lista, embora soubesse de cor os números: 555-4321. A voz quase sempre embriagada do Sr. Kent respondia do outro lado da linha.

— Oficina Kent, como posso ajudar? — as palavras se misturando aos suspiros bêbados.

— Jungkook está?

Então uma pausa letárgica.

Ei, Jaykey, é pra você!

O barulho de ferramentas e risadas invadia a chamada; eu podia ouvir o rádio, Tanner cantarolando alguma piada sexual até Jungkook mandá-lo ao inferno.

— Na escuta!

Meu "oi" tímido o fazia sorrir. Seu tom de voz masculino e altivo mudava para um carinhoso "olá" em troca. Conseguia imaginá-lo segurando o aparelho telefônico com a mão ainda suja de lubrificante de motor, a flanela de estopa enfiada no bolso como um Bruce Springsteen, recostado contra o vidro do velho escritório, usando seu uniforme gasto, o macacão já desbotado nas coxas e nos braços com seu nome bordado no bolso chanfrado.

— Achei que não havia recebido a mensagem.

— Estava tentando te ligar, você queria falar comigo? — A indiferença era ensaiada no espelho como um trunfo de charme, os diálogos nos filmes antigos. A voz distante, a frieza e a lentidão nas respostas, o grau de desinteresse medido a conta gotas. Nada correspondia à realidade do sentimento. Nem como estava disposta e ansiosa em me oferecer.

— Estou com saudades, estava pensando se você não quer passar a noite lá em casa hoje. Tio Min vai ajudar no bingo da igreja, o hyung não está na cidade.

Senti o coração saltar outra vez. Apertei os olhos e comprimi os lábios, a felicidade parecia contagiar cada célula com aquela expectativa.

— Então seríamos só nós dois na sua casa?

— Só nós dois. — Ele repetiu, enfatizando a ideia que envolvia mais intimidade, o sentimento que envolvia meus ossos, a ideia me atingiu tão forte que me fez ver estrelas.

— Mamãe jamais deixaria que eu dormisse na casa de um rapaz assim, — analisei a possibilidade de contar a verdade, pedir uma autorização formal para dividir a cama com rapaz cuja índole era digna de anátema.— só se eu pedisse a Taylor para dizer que passaria a noite lá.

— Não quero arrumar problemas para você, Monroe.

— Darei um jeito de ir.

Ele conteve uma risadinha de animação.

— Então passo na casa da Taylor para buscá-la às dez, combinado?

— Combinado!

— Não vejo a hora de te ver.

Ele cochichou e eu empurrei o telefone de volta ao gancho, tentando me manter imune aos seus efeitos, aturdida. Estava com o rosto afogueado, uma tentativa desleal de voltar aos eixos antes de deixar a cabine e encarar o rosto curioso de Taylor, que sabia muito bem com quem eu havia falado.

— Diga logo o que quer, conheço esta cara.

O plano foi contado em seus pormenores, e Taylor não se opôs à ideia, disposta a me ajudar com a condição de que cedo pela manhã eu estivesse de volta à sua casa, parecia feliz que pela primeira vez estava me abrindo a um pouco de rebeldia que julgava necessária para fortalecer o caráter. Também repassou todos os cuidados que eu deveria ter ao dormir na casa de um garoto, com uma cautela quase maternal e expectativas mantidas em camadas suaves de proteção, um desejo súbito poderia se apoderar de mim a qualquer minuto. Um cliente se aproximou do balcão pedindo um chocolate quente cortando o clima da conversa, e então se afastando até a mesa e se espremendo nos bancos estofados.

— Não faremos nada, Jungkook só me beija, nunca fez nenhuma daquelas coisas que você disse que faria. — argumentei.

Taylor riu.

— O desejo sempre nos pega desprevenidas, bonequinha. E quando ele vier, não terá ninguém para te proteger dele.

Taylor não estava desdenhando de minha ingenuidade ao pensar que os planos de Jungkook em me levar para sua casa beiravam as arestas de algum divertimento inocente, estava sendo sincera. Nunca havia sido lançada até a dimensão de ser desejada daquele jeito, muito menos de ter um sentimento retribuído; pensar sobre aquilo me causava medo e uma ansiedade que me acendia por baixo do vestido. Gostava de imaginar o que poderia acontecer se eu o deixasse fazer algo que estava pensando e como me sentiria se fosse tocada por ele além dos limites de nossas peças de roupas.

Era fácil me deixar contagiar pela ideia. E me deixei fantasiar durante toda a volta para casa.

Às nove e meia da noite, rumei para a casa de Taylor depois dos avisos cautelosos de mamãe sobre como me comportar. A ordem restrita dos talheres, a postura, cotovelos longe da mesa, obrigada e por favor antes e depois de qualquer pedido. Ela repassava as regras como um mantra. E então enroscava o rosário de contas peroladas em meu pulso.

— Não esqueça de ajoelhar e rezar antes de dormir. E escovar os dentes também.

— Tá bem, mamãe. Boa noite!

Desci a rua em minha bicicleta, desaparecendo na esquina da casa Taehyung até as mansões bonitas e a parte florida do bairro residencial onde Taylor vivia, cruzando a Adobe Road e então a Lou Hoover até o gramado da casa de Taylor. Ajustei os cadarços dos meus tênis antes de subir as escadas até a porta da frente e tocar a campainha. Taylor me recebeu com seu copo de uísque e gelo e seus brincos de plástico coloridos que faziam barulho conforme ela andava. Tinha as unhas dos pés pintadas de vermelho e aquele ar despreocupado com a vida que era relaxante de observar. Me convidou para entrar com um meneio de cabeça.

Lovefool do The Cardigans tocava no rádio no meio da sala. Ela movimentava o corpo seguindo o ritmo da batida.

"That I ought to stick to another man, a man that surely deserves me, but I think you do. So I cry and I pray and I beg..."

Taylor apoiou o copo contra a mesinha de centro, me avaliando dos pés à cabeça.

— Você está linda! — disse — Comeu alguma coisa? Não faça nada de estômago vazio.

— Sim, mamãe me fez comer antes de sair de casa.

— Eu guardei frango frito pra você na geladeira.

Ela riu.

— Duvido que esteja com fome.

— Estou bem. — Administrava o nervosismo como uma atriz, alguns sorrisos, olhares que não se perdiam para longe, sempre atenta ao que dizia.

— E para quê essa bolsa?

Ela apontou, esticando a lateral do couro para ver o que havia dentro.

— Um pijama limpo, meias e minha escova de dentes.

Taylor mexeu os ombros, cantarolando o refrão da música.

— Um pijama é a última coisa que precisará essa noite. — Chacoalhou as pulseiras barulhentas. — Mas tente aproveitar o momento, será mais divertido se aproveitar. Vai descobrir o quanto pode ser divertido não precisar de um.

Tentei não demonstrar o quanto estava tímida, a ideia do que poderia acontecer naquela noite, em uma sexta-feira aleatória de inverno no início de um novo ano causava uma rigidez cruel, uma paralisia.

Seu aperto em meu ombro, seguido de um beijo no topo da minha cabeça, parecia uma maneira honesta de me manter mais tranquila. Fiquei ali, verificando a estridência de meu batom vermelho nos lábios a cada crispar diante do espelho da sala, esfregando os nós dos dedos contra as coxas na tentativa de me dar algum conforto, encarando o relógio de ponteiro na sala que indicava as horas iniciais de meu escrutínio. Em um movimento de sacrifício, cedendo minha rainha de bom grado para um bispo devorador de peões.

Ouvi o barulho do motor ruidoso de Jungkook cruzando a rua e meu coração acompanhou os movimentos mecânicos e a vibração da lataria potente. Taylor enfiou uma azeitona na boca antes de me olhar de soslaio, uma risadinha cúmplice com sobrancelhas erguidas antes de caminhar até a porta.

E lá estava ele, em seu carro, brilhando com sua luz própria como um sol fora de sua eclíptica habitual. Quente, brilhante e disposto a queimar. Tinha um cigarro pendurado no lábio, um braço livre esticado para fora do carro e fez um aceno educado para Taylor, que retribuiu.

Vagarosa e meio grogue do efeito ansioso de sua presença, me despedi de Taylor com um beijo antes de caminhar até o carro. Seus olhos me acompanhavam em todo o trajeto. Cheirava como uma bala excessivamente açucarada, atraindo moscas e formigas. Estar próxima de Jungkook ainda me deixava estremecida, narcotizada, assim como olhá-lo de perto daquela maneira, oferecendo os lábios para um beijo, parecia balançar as estruturas de minha bondade. Lembrava das palavras de Irmã Christine durante a sabatina, que os olhos puros trazem bendições ao corpo inteiro. Tinha um par de carpelos repugnantes, recebendo aquele pólen oculto com perfume de desejo que envenenavam as rosas da carne.

Ele soprou a fumaça para longe antes de tocar minha nuca com a mão livre. Os cabelos úmidos denunciavam o banho recente, assim como a fragrância doce de sua colônia que parecia impregnada no carro, no oxigênio. A quentura do couro da jaqueta raspou contra a minha coxa nua.

— Tá pronta?

Assenti.

Ele arrancou com o carro deixando fumaça para trás, os dedos apoiados sobre a minha mão no caminho de volta até a igreja. Passei o trajeto curto em silêncio, estranhamente consciente sobre sua mão sustentando a minha enquanto a outra guiava o volante rumando algum paraíso falso.

Quando chegamos, as luzes frontais da casa estavam acesas, mas a calmaria do primeiro cômodo, que entrei com receio, revelava a ausência dos outros moradores. Tudo parecia em seu devido lugar. Um relógio tiquetaqueando na cozinha, a TV ainda sintonizada na MTV, como se tivesse saído às pressas para me buscar; imaginei a pressa em calçar as botas, o ajuste minucioso da jaqueta diante do espelho pendurado ao lado da porta, o trajeto até o carro, atravessando o pátio, até os meus braços.

— Vem, vamos colocar suas coisas lá no meu quarto.

Parecia uma desculpa ainda mais ridícula para motivar nossa saída de cena, as testemunhas ocultas e silenciosas da casa; móveis e decoração, esperavam a saída teatral para fechar as cortinas. Os mensageiros ocultos, pequenos querubins munidos de arcos e flechas, legiões despencando de alturas imaginárias, — nuvens pintadas que prometiam céus coloridos e outros poderes —, sussurravam seus desejos em coro aos nossos ouvidos.

E nos beijamos.

Era tudo que fazíamos. Tudo que eu queria fazer.

Nos beijamos enquanto subíamos as escadas, um beijo a cada degrau abençoado até o céu, nas quinas do corredor estreito, rodopiando nos pés um do outro feito passos de um tango ensaiado, com Jungkook me guiando por puro instinto, embebido no risco. Na porta de seu quarto. Em sua escrivaninha. Em sua cama. Nos desfazendo das roupas como se elas fossem tão desnecessárias quanto moléculas de pele morta. Ele se livrava da jaqueta e da camiseta com uma facilidade quase prosaica e ritualística, os polegares sustentando a gola, seu rosto engolido por um monstro feito de tecido, e então liberto do lado oposto, livre de qualquer obstrução àquela maciez perigosa.

Não me despia de nada, nem havia insistências. Me livrava de um cardigã ou um par de meias, como se a mensagem estivesse clara nas entrelinhas: ainda não estava pronta, nem sabia direito o que fazer. Mas não havia mal algum. E ele me exibia um vislumbre de tudo que me esperava quando estivesse. A distância generosa dos seus quadris pressionados no centro de minhas coxas, seus beijos quentes, e tudo que se enroscava na sua boca com alguma doçura misturada a maledicências que costumavam chacoalhar meu corpo quando pronunciadas como mel derramado aos ouvidos.

Aquela noite prometia um rumo diferente às escolhas, abraçada à minha mochila munida de peças de roupas desnecessárias esperando a resolução de uma comum noite do pijama na casa de Taylor, com guloseimas açucaradas, filmes antigos em fitas de VHS e as histórias infames sobre a banda. O prefixo da noite aguardava outra finalidade, menos banal, um pouco mais inédita.

Jungkook fechou a porta, abrindo o armário que exibia suas camisetas penduradas em cabides idênticos, a paleta que quase nunca transacionava dos tons de preto, as cores esquálidas dos pares de jeans azuis e mais livros enfiados entre os itens pessoais.

— Você não quer tirar esse vestido e ficar mais à vontade? — Estendeu a camiseta do Eagles em minha direção, o seu perfume impregnado vindo junto ao tecido. Queria dizer que tinha um pijama, um par de meias e calcinhas extras na bolsa. Mas sua gentileza era estagnante. Seus planos eram outros, era minha primeira vez tendo acesso a ideia deles.

Agarrei a camiseta como quem abraça uma nova ideia de conduta, agarrando o livro de novas fábulas morais, os manuscritos proibidos.

Jungkook desviou até o toca-fitas, revirando a caixa de fitas de um lado para o outro enquanto lia os títulos, e eu retirava o vestido, acompanhando seus movimentos pelo canto do olho. Ele não se virou em minha direção sequer uma vez, e quando o fez, usava aquela discrição habitual, a naturalidade adquirida por excesso de experiência que cabia em nossa diferença insignificante de uma volta solar. Não havia a má intenção explícita que habita o olhar de um homem cuja uma mulher ele pega desprevenida e seminua.

Dobrei o vestido junto à bolsa em um canto qualquer, o diário ainda estava enfiado lá, esperando o momento certo para a devolução junto a um pedido de desculpas. Morrer de vergonha de assumir o que havia feito, a estranheza da apropriação de algo tão íntimo como uma espécie de perversão.

Eu lembro da escuridão do quarto e do gosto do perigo. Lembro das batidas ocas de um velho relógio no andar de baixo, dos rostos sombrios de seus ídolos à meia luz de um abajur antigo. O som da TV penetrando as paredes vindo da sala, e a sua voz calma ressoando em meus ouvidos.

Sentado na ponta do colchão macio, livrou-se do jeans desbotado e das meias. Eu continuava parada ali, acanhada, como uma amenidade em seu quarto, ao lado da escrivaninha, me esforçando para cobrir o restante do corpo com um pedaço de tecido que mal tocava as coxas magras.

O porta-retrato acima da mesa de cabeceira exibia o rosto delicado de uma menina segurando uma rosa junto ao coração.

— Quem é ela?

— É a minha eomeoni, — traduziu a pronúncia — minha mãe.

 Conheço algumas palavras por conta de Taehyung. Sei o que significa pai, mãe e irmã mais velha.

— Ela era linda.

Olhando a foto com mais cuidado, notava algumas semelhanças inegáveis e a força de sua herança genética. Havia herdado as sobrancelhas argutas da jovem Joohyun, a doçura do olhar, a delicadeza dos lábios, — enquanto os da mãe despencavam para baixo com aquela constituição melancólica, Jungkook havia herdado a mesma boca com um aspecto invertido, os cantos mirando o alto, mas o mesmo queixo delicado. Deduzia que o nariz vultoso fosse um presente avulso paterno.

— E o seu pai?

Ele moveu os olhos pelo quarto, alcançando uma lata de biscoitos amassada e tirando de lá a pequena foto em tom de sépia, junto a um punhado de cabelo cortado amarrado com fitas e cédulas estrangeiras. Era uma versão moderna do próprio pai, com seu nariz longo e olhos imensos estridentes. O formato do rosto esculpido à mão, as feições delicadas que Jungkook havia herdado também.

— Ele era bonito. Bonito como você.

Parecia uma vida distante, da qual não se conectava mais. Aqueles dois jovens, que tinham pouco mais que nós dois naquela época, três ou quatro anos mais velhos, haviam colocado uma prole no mundo e desaparecido dele pouco depois que Jungkook havia completado sua primeira década. Em vias de alcançar o segundo decêndio da própria existência, teria vivido mais tempo sem eles do que sob sua tutela.

Tocar no assunto era delicado, sentia que perfurava a ferida mal cicatrizada de luto tardio.

— A lembrança que tenho dele é diferente, mas olhando essa foto também o acho parecido comigo.

Correu os polegares no rosto jovem do pai. Não falava muito sobre ele, não como falava sobre Joohyun.

Contava sobre sua mãe suicida com a facilidade de quem reconta a primeira queda embaraçosa de bicicleta, sobre tê-la encontrado agonizando no banheiro da casa onde moravam, de ouvir a deflação de seu corpo e o último fôlego como as preces de despedida, agarrado aos seus pés descalços como os devotos abraçam o manto das santas e imploram por um último milagre. Ficou lá até os paramédicos chegarem com sua mansidão fúnebre, e o corpo da mãe fosse retirado do fio que a atava ao teto, arrumou seus cabelos para longe do rosto uma última vez, à imensidão negra de fios que ainda cheirava a água de rosas e suor mortuário. Odiou a jovem Joohyun por tê-lo deixado sozinho em uma vida miserável com um homem cruel, que desapareceu deixando Yoongi e ele para trás, como se tivesse ido ao inferno no encalço da alma da mãe em vias de garantir que a tortura prosseguiria seus ritos. Soube apenas depois de adulta e muitos anos depois daquela conversa que Joohyun estava grávida, o feto de apenas algumas semanas era um pequeno nada criando raízes em seu ventre, e imaginei que a ideia de ter o filho do homem que mais odiava foi perturbadora o suficiente para confrontar a própria morte como a solução mais eficaz. Preferia libertar Jungkook a amaldiçoar uma terceira alma ao imbróglio daquela vida; ela era o cordeiro sacrificado em nome de sua salvação.

Colocou o porta-retratos de volta ao lado da cama.

— Dela eu gosto de lembrar assim, feliz.

Pensar sobre aquela proximidade imediata e conexão honesta com Jungkook me assustava, o mundo se tornou outro e pessoas param na cama de estranhos na noite em que se conhecem; ele era um estranho, de todo modo, mas um estranho que esteve na minha vida há mais tempo do que podia me recordar com precisão de datas. Um dia acordei e aquela criança mais velha e de olhos tristes estava lá, com seu rosto ferido, seus cabelos sem corte, usando as roupas herdadas de outro garoto, cuja troca de dentes de leite pude acompanhar, temendo uma represália de desconhecidos que não falavam seu idioma, e os adultos diziam que ele era órfão. A palavra era tão proibida quanto uma obscenidade, correndo risco de gangrenar a língua caso repetida em voz alta. Um adjetivo que resumia Jungkook a maldosa palavra, e também o prefixo dela.

Pobre menino órfão.

Quando olho para o passado, vejo aquela criança. Encaro o presente enquanto Jungkook, que ainda não era homem, não teve tempo o suficiente de viver sua meninice. Vivia pendurado entre os mundos. O que era e o que nunca foi.

— Vem, deita aqui comigo. — Estendeu a mão em minha direção, abrindo espaço dentro da manta xadrez que tinha cheiro de uso diário e colônia. Falava baixinho, aos sussurros.

Foram dois passos longos até sua cama de solteiro, cabendo perfeitamente no espaço acanhado do colchão fino e confortável, as nuvens prometidas de outros céus cujas histórias ouvia em lendas, memórias roubadas onde me infiltrava pelas fendas sem ser percebida reiterando meu posto de figurante em uma narrativa alheia, e reassistia com o coração quebrado, preenchendo de detalhes inventados o que não me cabia saber.

Olhos no teto, as estrelas mudavam de cor diante da luz da rua. Nossas mãos se tocaram no escuro, a conversa mudou de tópico. Jungkook me perguntou sobre a escola, a rotina, os meus pais e Theo. Sutilezas do dia-a-dia. E os meus sonhos, os mais ambiciosos. Me ouvia falar deles com uma atenção redobrada.

— Você brilha diferente quando fala disso...

— Eu não consigo falar sobre eles para muitas pessoas, todo mundo meio que sabe que gosto de atuar como um hobby, mas são sonhos muito distantes, eu sei disso. Talvez eu devesse realmente estudar biologia como papai sempre diz e ter uma vida comum, não alimentar essa tolice de ser atriz...

— Não, não diga isso. São sonhos lindos.

— São lindos na teoria. Na prática ainda me falta muito.

— Se todos fossem fáceis assim, não seriam sonhos.

— Você realmente acha que consigo?

Ele assentiu.

— Você estará beijando o DiCaprio em um filme romântico daqui uns anos e eu vou morrer de ciúmes. — disse.

— Duvido que isso aconteça.

— Mas mesmo desolado, prometo assistir todos os filmes que você estrelar e pensar "ela sempre foi talentosa!". Vou escrever uma carta malcriada para cada cena de beijo que tiver no roteiro, mesmo que você seja famosa demais para lembrar de um garoto fracassado que conheceu em Roseville.

Fiquei em silêncio, absorvendo as palavras.

— Eu não quero esquecer de você.

Jungkook chacoalhou a cabeça.

— Tudo bem se me esquecer, não sou lá grande coisa que mereça ser lembrada. — Ele sorriu como se as palavras não tivessem lhe ferido de morte, uma ordem de sua abnegação compulsiva, legada. Forçado por tempo demais a nunca significar nada, não ser ninguém.

— Mas me prometa que nunca vai desistir disso, do seu sonho, não importa o que aconteça. Você promete?

— Prometo as duas coisas.

Desejei ter recebido as cartas desaforadas e as promessas de ciúmes de um futuro incerto, dos filmes que nunca vieram e do viés do seu sonho brilhante para a minha vida adulta. Cumpri minha promessa sacrificando tudo que estava ao meu alcance. Ele jamais cumpriu a dele.

— Como você sabia que eu queria ser atriz? No dia que você voltou do reformatório — corrigi a frase, tremendo ao usar a palavra errada — No dia que você me ajudou com as flores, disse que sabia que eu queria ser atriz, como?

Jungkook suspirou.

— Eu te conheço desde sempre, você estava em todas as peças que Tio Min preparava. Acho que só poderia deduzir o óbvio, que você nasceu pra isso. A primeira vez que te vi, você estava vestida de anjo, com um par de asas feitas de papel na peça natalina.

— Você se lembra disso?

— Uhum. E lembro de pensar que seu cabelo era como o de uma valquíria, igual ao livro de mitologia nórdica que tio Min tinha. Não conseguia ler as palavras ainda, mas lembro das figuras e do seu cabelo louro lindo que flutuava igual no livro.

— Eu pensei que você nem sabia da minha existência, estava sempre tão ocupado com as outras garotas. Sempre quis saber isso, você se apaixonou por todas elas?

— Não sei dizer se era paixão, mas eu senti algo em algum momento, desejo, tesão, ou era só divertido...

— E a Sharon? Você a amava?

Jungkook fez que não com a cabeça.

— Eu preciso te contar uma coisa. — Sentei na cama, tomando fôlego e coragem antes de ir até a bolsa para buscar seu diário. Devolvi o caderno e morri de vergonha ao contar a verdade. Bisbilhotei suas memórias como uma intrusa porque queria ler mais do romance que estava escrevendo. Ao invés disso, li suas memórias e suas aventuras com Sharon Marie.

— Eu peguei algo escondido e li coisas que não devia, minha intenção não era ler suas memórias, eu só queria...

— O quê?

— Há um tempo você me emprestou sua jaqueta e havia um texto seu escondido em um pedaço de papel no bolso sobre duas garotas, Nabi e Therese, eu li e gostei tanto, me desculpe. Quando vi as coisas que escreveu no seu diário, eu só, só fiquei tão curiosa.

Jungkook segurou o diário, reabrindo as páginas.

— Pra ser sincero, eu sabia que você tinha pego o diário, mas não me importo que tenha lido.

— Não?

Negou com a cabeça.

— Você gostou do que leu?

Assenti.

— Fiquei imaginando como deve ser a sensação de ser tocada daquele jeito. — Limpei a garganta, ergui a voz um grau acima do sussurro, fragmentada como um vapor quebrado, sem força o suficiente. — Se é tão bom quanto você descreve...

Jungkook ocupou um espaço na ponta do colchão, seu tamanho agigantado fazendo aquela cama de criança parecer inapropriada para suas dimensões físicas de adulto.

— É bom, se quer saber. — Respondeu. — Posso te mostrar como é, se quiser.

Parecia um pedido inofensivo, seus dedos percorrendo para dentro do tecido de minha camiseta, a mão traçando um caminho de minhas costelas, até o meu seio. Lembrava da quentura da pele, da força aplicada em um aperto firme em minha cintura, desenhando uma linha invisível até o quadril. Dedos tatuados, boca santa, sussurro sujo. Eu estava arruinada.

— Você não precisa ter medo de mim... — Sussurrou.

As promessas se derramavam no queixo encostado ao ombro, seus dedos correndo livre para dentro de minha calcinha, minhas mãos tentando ajustar a realidade pressionando um colchão gasto, cada nervo aceso, cada fibra do corpo trêmula, preenchidas de vida. Era tão diferente ser tocada por uma outra pessoa.

Pensava em mamãe e papai. Corroída de culpa.

— Você faz isso sozinha, não faz? — Cochichou contra o meu ouvido, a pergunta não tinha nenhum tom de constrangimento, mas outro, que ainda era novo para mim. — No que você pensa?

Ergui a cabeça e vi seus lábios pendurados em meu pescoço, os olhos turvos de desejo, éramos muito jovens, nossos corpos ainda resplandeciam aquele impulso desgovernado e sem filtro onde algo maior se apodera da cena, uma mão ferro, já a sua, pousou aberta contra o meu peito, sentia-o vibrar desritmado e nervoso debaixo da palma quente, então para baixo, levando o rumo da noite com ela. Não devidamente despida, mas parcialmente desvendada como quem espia através da coxia.

— Penso em você. — A frase se alojou entre os dentes e a língua mais rápido que a minha dosagem de honestidade. Era uma confissão, mas também era um segredo indevido, um torvelinho nas entranhas, regurgitando verdades.

Seus dedos se movimentavam com uma lentidão traiçoeira, um ponto ininterrupto de pulsação feito uma comunicação óptica. Podia sentir as ondas sonoras em minhas orelhas, em meu estômago, no centro das coxas; um vislumbre da condensação que escorria entre os dedos, as dobras de minha genitália, fechando-se ao redor de um ser desconhecido, sentindo o saboroso gosto de pele nova.

— Então fecha os olhos, se concentre em mim, — murmurou — pense no meu cheiro, no gosto da minha boca, — sua mão livre correu pela minha nuca provocando arrepios, mantendo o cabelo afastado da pele onde sua boca se alojou — no som da minha voz, no meu toque...

Era um pânico ilógico, que derretia conforme eu ficava vergonhosamente úmida, já Jungkook não se curvava à timidez, aquela cena não parecia inédita para sua experiência insólita e todo o prazer que havia conhecido nos poucos anos de vida. Seus olhos acompanhavam meus movimentos regados de constrangimento e prazer. Ainda estava decidindo qual parte minha deixaria guiar o destino.

Uma resistência tão falha quanto um vidro termofixo que se estilhaça sob altas temperaturas. Mal conseguia manter os olhos abertos, revirando como um vórtice esparso — esclera que engole íris — , encarando a porta e o rosto amigável de um jovem Morrissey em preto e branco que acompanhava a minha corte amorosa. Jungkook, como um trovador dedilhando sua lira, e eu, sua dama e instrumento. Servo e senhora, em nossa consonância de sete sílabas poéticas.

Obedeci suas ordens com a letargia de meu ardor recém-descoberto, procurando seus olhos por entre a escuridão do quarto, o despojamento das luzes que exibiam somente fragmentos de braços e coxas, uma criatura maldita de duas cabeças e quatro braços; e encharcada do seu hálito morno, do seu cheiro de doçura e sal que vinha não sei de onde, queimando as feridas até causticá-las, molhada o suficiente para nunca mais ter coragem de olhá-lo nos olhos depois que o desejo abandonasse o cômodo. Ele levou os dedos até a boca, lambendo todo o excesso de meu entusiasmo como um novo sabor favorito.

"Você tem gosto de paraíso."

Fui ferida de morte e sangrava, meu suor vertia rubro e ele era meu cruel algoz. Rastejando no lençol, como quem escapa de um sonho perigoso e excitante dos quais usava para alimentar minhas fantasias, minhas mãos nas suas em elos de dedos encaixados como peças de montar, minha alma dependurada no abismo.

Os beijos que começaram nos tornozelos, subindo pelo traço de quentura das pernas nuas, seguiam a fonte de calor entre as coxas.

— Vai doer? — Perguntei.

Ele ergueu os olhos, sem descolar os lábios da pele, movendo a cabeça em negativa.

A escolha ridícula de calcinha parecia motivo para a vergonha, o padrão floral imperceptível no tecido branco e úmido, com seu elástico frouxo que foi puxado para baixo com tamanha facilidade fazendo daquela percepção distante uma via unicamente minha. Jungkook ansiava por outras finalidades com as mãos enfiadas na peça, no ímpeto de livrar-se dela. Os músculos trêmulos de minhas coxas, as mãos impulsivas correndo para cobrir as partes desnudas, nenhuma de minhas façanhas de mistério e empenho o mantiveram longe o bastante. Um beijo em minha cintura, uma travessura a mais em minha alma, querosene na ponta dos dedos, rastros de fogo ardendo na pele, grumos queimados que despencaram sobre o colchão. A estridência de seu cheiro, dos seus lençóis, de sua cama, tudo impregnado daquele odor masculino, adolescente, como flores que persistem em preservar seu aroma póstumo.

Você vai se sentir no céu.

Afastando minhas pernas com delicadeza, enquanto o mundo colidia com seus movimentos quase sentimentais e meu mecanismo de defesa quebrado, tudo parecia excessivamente erótico, e de fato era, respirava seu odor exaltado de anseio. Me lançou um último olhar antes de se enfiar no meio delas; os seus cabelos macios tocando a pele nua, como um devorador de mundos, sua boca alimentava-se do suposto paraíso que eu escondia entre as coxas.

A sensação era insuportável. Durante aqueles poucos anos, fui mimada por pequenos prazeres da vida: mergulhos gelados na piscina de Taylor em dias quentes, sorvetes de blueberry roubados da loja dos Kim, um primeiro beijo que me fez sentir nas nuvens. A intensidade dessas pequenas alegrias, tão facilmente acessíveis, desapareceu diante da sensibilidade agonizante e prazerosa do meu corpo sendo tocado pela primeira vez.

A idolatria era um pecado grave, aprendi isso cedo no catecismo. Padre Stane sempre alertava sobre os falsos ídolos e suas potestades. Não sabia dizer se o pecado permanecia intacto quando a criatura erguida sobre o altar era eu; mas Jungkook me adorava com sua boca, como se meu corpo fosse um templo. Podia ouvir suas orações vibrando na carne úmida, a língua ricocheteando fogo. Mal podia olhar para ele ali, com a boca embevecida e rosada, marinando na fonte do meu entusiasmo. Minha mão perdida em seu cabelo buscava direção e oferecia bênção, enquanto a outra enterrava os gemidos que pareciam escapar da minha garganta por vontade própria.

Mantive os olhos fixos nas estrelas de papel lamê no teto do seu quarto; azul, lilás, amarelo, que pareciam chamuscadas pela luz suave do abajur, banhando o prateado estático da falsa constelação. Senti o calor crescente queimar entre minhas pernas, subindo pelo ventre até o peito, enquanto Jungkook me devorava de olhos fechados. A cena era tão sensual que mal conseguia olhá-lo.

O orgasmo me tomou com suas contrações milagrosas. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Uma meada de saliva escapou de sua boca quando ele finalmente me soltou, os olhos bem abertos. Podia ver a minha umidade brilhante em seu queixo, uma contaminação tracionada na pele vermelha da qual ele não se ateve em limpar.

Ainda sou virgem? — perguntei.

Ele riu. Aquela ingenuidade embebida de medo rastejava de volta ao seu lugar de culpa.

— Sim, você ainda é virgem.

Eu segurava aquela camiseta do Eagles contra o corpo, como se minha honra estivesse entrelaçada às fibras do velho tecido. Minha parcela de pureza intacta, minha sanidade justificada, o resto da minha nudez oculta. Mais um pouco de entrega e eu me perderia por completo. Não precisava de uma previsão para saber o que viria a seguir; já sabia o que me esperava. Com quanta delicadeza Jungkook beijou meus lábios, sorrindo contra a minha boca, compartilhando o resquício do meu gosto agridoce perdurando em sua língua, a recompensa do seu trabalho árduo, que não tinha gosto de paraíso, mas de pureza. Deixando as ideias tomarem formas mais concretas, estéreis de qualquer culpa. Nada disso parecia persegui-lo como uma mordaça pressionando seus pensamentos.

— Não sei porque estou chorando, eu nunca senti nada assim, tão bonito. — Seus lábios tocaram minha pálpebras.

Tocando meus cabelos, ele me olhava de perto, quase nas fendas da pele.

— Acho que nunca gostei de alguém assim, do jeito que gosto de você — disse Jungkook. Afastei a camada de seus cabelos para longe do seu rosto, ele parecia flutuar acima de mim. Os olhos mergulhados nos meus olhos, secando as lágrimas que escorriam sem parar.

Não fui capaz de respondê-lo à altura, retribuir o sentimento com palavras bonitas, estava atravessada de emoções novas, descobertas paralisantes, mas desejei ter dito que gostava tanto dele que não conseguia verbalizar. Talvez se sentisse menos, fosse capaz de falar mais.

O toca-fitas ainda estava rodando, a música se dobrava e então se despencou sobre nós, não havia sussurros, só respiração descompassada e aquele cheiro reincidente de corpos suados, hormônios fervilhando, quentura amorosa. E eu era sua garota.

Posso tocar você também? — a pergunta inofensiva o colocou de pé, diante dos meus olhos. Úmido de suor. Molhado de amor.

Despiu-se de qualquer pudor junto a cueca embolada aos tornozelos e atirada para longe, conhecedor dos ritos, dos fundamentos e das ordens de todo processo, feito um Naga Sadhus que abandona qualquer vestígio do mundo material e se apossa da liberdade nua. Ergueu os olhos com doçura, garantindo que eu estava contemplando cada movimento e a lentidão de sua dança para dentro das cobertas, primeiro uma perna, então a outra, com a mesma banalidade de quem troca um breve olá com um desconhecido. Sua mão guiou a minha, me puxou para perto, acessando a pele nivelada de sua barriga debaixo do cobertor. Era uma criatura linda.

— Você tá com medo? — meu coração batia acelerado, a boca trêmula mal conseguia formar uma frase adequada que não fosse dissolvida pela minha eloquência fragilizada.

— Não precisa ter, vem cá, vou te ensinar como faz...

Vi muitos homens despidos ao longo de minha vida adulta. Por desejo ou trabalho. Cercada de uma equipe, diretores e olhos curiosos, ou em um quarto de hotel por vontade própria. Mas nenhum deles me exibiu tanta nudez quanto Jungkook naquela noite. Ainda penso na peça de roupa íntima enrolada nas coxas como um emblema erótico, o sexo arroxeado e bonito vista pela primeira vez, como se debaixo daquela pele existisse uma criatura que me era proibida, mas que continha todo meu desejo.

Ergueu a cabeça e me beijou nos lábios outra vez, um beijo como quem tranquiliza e experimenta, enquanto seus dedos guiavam a ordem de meus poderes para baixo, tocando a opacidade do ninho macio de pêlos espessos depois da curva do quadril. A sensação pegajosa me fez ter o ímpeto de afastar a mão para longe. Era quente. Firme. Às vezes pulsava, como se estivesse vivo.

Jungkook suspirou como um animal faminto, expelindo ar quente e regulação térmica.

Sua mão cobriu a minha, os dedos firmes em uma precisão clínica. Para cima e então para baixo. Uma pequena coreografia com movimentos ritmados e repetitivos. A projeção do seu quarto parecia diferente daquele ângulo, a cômoda distorcida, os livros pendendo em alinhamentos pouco usuais, a expansão daquele ambiente em dimensões universais. Estávamos a sós no mundo inteiro.

— Assim está bom? — cochichei em seu ouvido, tive medo de arruinar a magia, a estranheza da carne entre os dedos para mim, partia de seus lugares mais naturais. Se movimentava e não era capaz de doer, apenas provocar prazer.

Ele suspirou; os cabelos espalhados sobre o travesseiro em formato de resplendor, um nimbo negro, como uma figura iconográfica que atravessa o vale da morte e retorna, o espírito tomando as rédeas do corpo em um ritual liturgico.

— É, assim mesmo.

Experimentei a tentativa sozinha. Subindo e descendo um contorno macio de pele. Um empenho cuidadoso, sutil. Não queria machucá-lo, queria manter o ritmo ensinado, o olhar de sabedoria aprovada retribuído com um aceno letárgico. Sua mão continuava suspensa ao redor da minha, como um guia invisível, uma espécie de apoio imediato, mas seus olhos estavam fechados.

Eu lembro da expressão hipnótica; os lábios entreabertos, a língua úmida besuntada de saliva, as pálpebras relutando para se manterem imutáveis em algum ponto, pareciam rumar para cima, fazendo seus olhos se perderem dentro da esclera, rodopiar na alma. Dirigindo meu pulso por debaixo dos seus dedos com gestos rápidos

— Estou fazendo certo?

Ele umedeceu os lábios, preparou a resposta com muito esforço, mas não foi capaz de pronunciá-la.

Assentiu.

Meu corpo refeito à revolução, com os sentimentos lutando por espaço no meio da descoberta ingênua, do poder que havia me sido dado sobre o corpo alheio, de provocar tudo que quisesse com a benção das mãos. Era só uma breve introdução dos deslumbramentos masculinos ao toque, mas ainda não tinha consciência de meu próprio poder, do enlouquecimento da carne, do que mais seria capaz de fazer em breve.

Jungkook cobriu minha mão com a dimensão agigantada da sua, acelerando o ritmo, antes de agarrar a manta entre os dedos.

Obedeci.

Seus olhos não desviaram de minha boca enquanto o mundo ao redor parecia desaparecer feito poeira de sonho, esfarelando êxtase na ponta das mãos. Quis beijá-lo no ímpeto de sentir tudo ao mesmo tempo, da altura de meu poder de marionetista, movimentando as fibras das cordas que suspendiam seu corpo naquele transe. Jungkook se contorcia nos lençóis; cabeça para trás, gemidos baixos e lábio mordido, as palavras sujas se entrelaçavam com outras mais meigas em uma dança vocalizada. Não queria perder nenhum detalhe.

Afastou a manta, e viu as cenas finais da luta travada me olhando nos olhos enquanto gozava; o monstro vencido regurgitava seu veneno.

Esporrou todo líquido esbranquiçado e quente em minha mão, a camada de suor brilhante banhava o seu rosto relaxado, uma cortina de cabelo negro úmida cobria os olhos, deixando expostos uma boca sorridente, aliviada.

A memória foi guardada como um tesouro oculto, que logo começou a atrair assombrações.

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Olá, quanto tempo, como vocês estão? Obrigada pela espera, e agradeço por quem ainda tem aparecido para ler e comentar, isso me deixa muito feliz.

Aqui está a primeira das atualizações semanais de Badlands, isso mesmo: significa que a partir de agora teremos capítulos todos os domingos!

Então já deixem marcado aí nos calendários de vocês, semana que vem temos mais um capítulo.

Falando nisso, esse capítulo aqui faz conexão com outro, acredito que alguns de vocês vão conseguir conectar as memórias da Juliet lá do futuro, com este acontecimento. Vou deixar vocês pensarem um pouquinho.

Semana que vem tô de volta!

— Com amor, Sofi.

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