Capítulo Um (Os anjos de Julieta)

Don't you remember

You once knew a boy,

You loved him more than the world.

— Golden Lights, The Smiths


🎭


Roseville, 2008

O parque de diversões deixou a cidade.

Pela primeira vez em anos, as luzes bonitas e os sorrisos infantis que enchiam Roseville de alegria não estavam mais ali. Não havia crianças felizes com seus prêmios de consolação, muito menos casais de mãos dadas trocando olhares afetuosos na fila para a roda-gigante, existia apenas o vazio e a terra batida do lugar que em algum momento esteve cercado de boas lembranças.

Ainda me recordava com exatidão da antecipação que acompanhava a primeira quinzena da estação, lançando uma fagulha de felicidade no ar, e daquele gosto de expectativa que sobrevivia ao calor e incinerava o ócio dos jovens à espera do parque, memórias com resquícios daquela poeira cinzenta que gruda nos dedos quando reviramos objetos abandonados.

Mesmo depois de todos aqueles anos distante de Roseville, minha mente vasculhava, em seu catálogo de detalhes microscópicos, todas as partes daquele lugar: a arquitetura precária de cidadezinha litorânea, o comércio local limitado a uma única avenida com meia dúzia de lojas de produtos domésticos, uma sorveteria, um supermercado e um salão de beleza quase sempre vazio. Era verdade o que me diziam, Roseville havia mesmo parado no tempo.

Tinha os dedos apertados contra o couro do banco do carro enquanto o motorista de Joe avançava para dentro da velha cidade, os sapatos faziam meus pés latejarem e o rádio sintonizava a FM local, que anunciava a previsão do tempo: céu azul com nuvens esparsas e baixa probabilidade de chuva. Clima típico de cidadela do litoral. O meu recente estado de subordinação já ganhava nuances de pesadelo. Joe contornava meus compromissos e agenda com seu terno cinza apertado — as manchas de suor cobrindo a região das axilas cada vez maiores, como um animal preso dentro de pedaços de pano — e sua agilidade repetitiva, entre ligações e negociações de meio minuto. Marcando e desmarcando. Me olhando de canto a cada vez que mencionava meu nome com a desculpa ensaiada: "Juliet precisa se ausentar por questões de saúde. Sim, precisa de repouso, mas não é nada sério".

A claridade cegante causava incômodo; mal passava das dez da manhã e o Sol já estava a pino.

O Cinema Hook continuava com a mesma fachada antiga, com letreiros em acrílico que anunciavam algum filme de pôster desbotado que há meses já não estava mais em cartaz, e com a placa decorativa no topo da construção, brilhante, com sua luz azul, que eu costumava ver pelas janelas do meu quarto — e que por muito tempo foi o mais perto que estive das luzes mágicas de uma cidade grande — junto ao velho maquinário do parque capenga, naquela parte industrial de Roseville, que se iluminava duas vezes ao ano. O Hotel Seaside havia perdido a tonalidade azul Tiffany das paredes externas, dando lugar a um tom laranja-siena suntuoso que parecia mais requintado sob a luz do Sol, havia se atrelado à magnitude ridícula de um resort precário, dadas as proporções de uma cidade pequena que vivia de turismo de veraneio.

A maresia tinha, sutilmente, corroído a parte frontal de uma boa parcela dos casarões em Sunset Ville, deixando-os com um aspecto atemorizante de abandono, valendo o título de terra de ninguém, embora alguns vestígios de vida humana ainda pudessem ser facilmente percebidos, como um jardim de orquídeas bem-cuidadas tomando a frente de uma delas, um carro estacionado diante do muro de pedras elevado e uma placa de venda recém-instalada, com os números ainda brilhando em verde-vivo.

O cheiro típico de mar, da ressalga litorânea, ultrapassava a blindagem dos vidros parcialmente baixos com a aproximação repentina do carro pela área costeira, trazendo o odor em uma brisa áspera, como perfume de adolescência. A cintilação do sol, refletida gentilmente pelas ondas, faiscava, parecendo, a uma distância relativamente pequena, um mar ardendo em chamas.

Mas o gosto residual em minha boca só denunciava uma ressaca alcoólica, sentimental e moral, denunciava o quanto eu havia fodido com o meu limite, com a verdadeira motivação, e denunciava o resultado desastroso da noite passada e da minha tentativa de calar meus próprios sentidos madrugada adentro em algum bar vagabundo nos confins de West Hollywood; a ressaca dava seus sinais. Eu sentia a acidez da bílis subindo pelo meu esôfago depois de ter aniquilado um desespero silencioso que agora dava pistas claras de retorno. O mesmo sabor familiar de inferno.

Se eu tivesse a chance de escolher, jamais colocaria meus pés nesta merda de lugar outra vez.

Um retorno por vontade própria seria injustificado de muitas maneiras. No fundo, nunca tive a mínima intenção de estar aqui. Teria mantido Roseville enterrada, como havia prometido, sem revirar as covas em busca do que ocultei para reafirmar a existência da cidade nem brincar de adivinhar o que eu ainda sentia sob o efeito de um reencontro forçado. Suponho que eu reduziria o ritmo frenético com a realidade me atravessando ao meio.

Mentiria o meu nome, a idade, o local de nascimento. Inventaria uma versão romântica para a partida precoce dos entes queridos e negaria todo e qualquer vínculo com este lugar. E era exatamente o que venderia se eu não fosse tão covarde. Roseville existia no mapa e nos artigos não autorizados sobre a minha história; sobre o buraco de onde havia saído, quem eu era, como havia ficado famosa em um curto período de tempo. Os mistérios de uma jovem Bird mentirosa que não manteve contato direto com os pais.

Contudo, a cegueira temporária proveniente da luz artificial não durou o tempo estimado. Bastou um flash ou dois. O amargor do ódio que a fama proporcionou depois daquela doçura ácida. Um pico da agulha que perfura a carne e encontra a veia com seu veneno. Então esfreguei os olhos, anulando o efeito da cegueira por completo; a névoa de lavanda se dissipou em meio à fumaça, um novo incêndio engoliu os arredores, e eu já inalava fuligem.

A pouca tecnologia que havia chegado a Roseville se limitava a antenas de TV a cabo e a um cybercafé que carregava o sobrenome Kim nos letreiros modernos, assim como a antiga loja de conveniência da família e o Cinema Hook. Mamãe havia comentado uma vez, ao telefone, que Taehyung assumiu os negócios da família após a formatura, pois o Sr. Kim não andava tão bem de saúde há uns anos, já passava da idade em que buscava descanso, e Taehyung sabia disso. Vivia em Roseville nas férias de seus plantões médicos e não se parecia em nada com o garoto tímido e franzino que dividia comigo o posto de criador do Clube Kokomo, no porão da casa da família Kim, quando tínhamos doze ou treze anos.

Taehyung tinha trinta agora. Trinta. Um número perfeito e redondo. Era um homem. Um homem casado e feliz. Foi o ímpeto que me trouxe de volta a esta cidade tanto tempo depois, arrastada por um compromisso inadiável.

Penso nisso enquanto releio o e-mail impresso por Stela três dias atrás, o papel marcado ao meio e gasto nas pontas a ponto de desbotar com o suor de meus dedos guardava o sufoco, o motivo do retorno, sendo enfiado e retirado dos bolsos do casaco para ser relido na última meia hora. Repetia mentalmente cada palavra disposta ali. Releio as palavras outra vez.

Urgente! Leitura do testamento do padre Louis Philipp Stane

Taehyung Kim <[email protected]> 28 de maio de 2008, 08:51

para mim

Olá.

Peço desculpas por contatá-la por meio de um e-mail profissional, mas falar com você não é mais tão simples como antes. A Sra. Séraphin me disse que geralmente você tem acesso mais rápido por meio deste endereço eletrônico, então fico feliz se essa mensagem chegar até você, Sofi (se é que ainda posso chamá-la assim).

Não sei dizer se você soube das notícias recentes, mas o padre Stane faleceu no dia 20 de abril. A saúde dele já não andava boa nos últimos anos, então, de certa forma, nos preparávamos para o pior há algum tempo. O velório aconteceu no dia 27, aqui mesmo, em Roseville, como um último pedido dele, e pelo título do e-mail você já deve saber do que se trata, certo?

O testamento deixado por padre Stane ficou sob minha responsabilidade e, como é solicitado judicialmente, precisa ser, de maneira obrigatória, lido na presença de todos os herdeiros na sexta, dia 12.

Imagino que precise de tempo para vir a Roseville, um espaço na agenda ou algo do tipo, entendo seus compromissos e sua rotina agitada entre uma gravação e outra, então estou avisando com antecedência. É de suma importância que todos estejam aqui, então espero que você possa se juntar a nós também.

Atenciosamente,

Dr. Taehyung Kim.

Meu coração estava pulsando no meu corpo inteiro. Podia senti-lo em qualquer parte, ouvi-lo latejando em minhas orelhas, dentro da minha cabeça, em todo e qualquer lugar que ousava tocar. Meu estômago revirava como se eu pudesse vomitar toda a bebida da noite anterior e expurgar os sentimentos ruins de meu corpo, exorcizando os intrusos.

Havia recebido o e-mail de Taehyung há uma semana. Sete dias do mesmo ponteiro pulsando na tela, aguardando ansiosamente uma resposta sobre a minha presença obrigatória na leitura do testamento. Sete dias de idas e vindas até aquele ponto que me separava minimamente de um passado não revisitado enquanto afundava no sofá do apartamento em Brentwood, fumando maconha e bebendo vodca importada até pegar no sono.

Padre Stane havia partido. Estava morto e enterrado.

Havia recebido uma carta dele há sete meses, mas não tive sequer coragem de abri-la, mantive-a guardada em algum lugar no fundo da gaveta de peças íntimas e, nos últimos dias, lutei contra a vontade de descobrir o conteúdo dela. Apenas adicionei uma dose extra de culpa à minha coleção pessoal, causando uma vertigem que me dilacerava quando visitava esse pensamento. Era a inércia familiar que me abatia.

Parecia mais perverso abandonar um amigo morto depois de lhe dar as costas, o sombrio acordo que só oferecia distância.

Não pude sequer me despedir de um amigo, não pude olhar uma última vez para o seu rosto amado, nem tive chance de dizer que talvez, só talvez, algo nisso tudo tinha dado certo: um de nós dois conseguiu escapar desta cidade amaldiçoada.

Na internet, joguei o nome de Stane em uma página de busca e encontrei duas matérias sobre o seu falecimento em um blog local, a foto que ilustrava um dos artigos mostrava um homem frágil, de postura curvada e cabelos grisalhos, evidenciando o agir do tempo em sua totalidade. Era um mero resquício da figura imponente que foi um dia. Que metia medo nas garotas mais novas e aterrorizava os veteranos que escapuliam da aula da Srta. Sybil para beber gim de pêssego no jardim lateral da paróquia. Embora aqueles olhos, os mesmos olhos amorosos e de um azul quase translúcido, não tenham sido alterados pelo tempo, eles agora refletiam os vestígios de um amor exausto, de quem passou por muito. E eu sabia que era verdade. O laudo, apontado no fim da matéria, indicava a causa de sua morte: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica.

Imagino o que Stane teria dito ao receber o prognóstico, rindo para aliviar o clima sério. Não teria parado de fumar. Não se envergonharia do vício.

Passei a madrugada relendo matérias, artigos acadêmicos e tudo o que podia sobre o assunto. De alguma forma, tinha a sensação de que poderia fazer alguma coisa, uma tentativa ridícula de alterar o irremediável, mesmo quando já era tarde demais.

Fiquei me perguntando se durante todo o suplício, Stane pensou na carta que nunca teve resposta. Se também pensou que eu tinha lhe dado as costas.

Tomei mais calmantes do que o necessário naquela noite e adormeci sem que me desse conta.

No fundo, eu sabia que ser arrastada até Roseville seria como abrir uma fenda no tempo, inalterada, e revirar a ferida. Abraçar os resquícios da velha vida que ainda estavam tão presentes em cada mínimo detalhe, enfrentando uma tempestade de memórias de uma forma cruel. Sem poder escolhê-las.

Eu sabia que uma lembrança gasta e corroída jamais poderia se equiparar à realidade em primeira mão, tão viva e colorida. Uma memória poderia facilmente incendiar, perder a cor, se perder em alguma parte dentro de nós, se tornando indistinguível, indizível. E eu não me lembrava de muitas coisas da mesma maneira, eram só borrões e puro ruído branco no fundo de minha mente, como imagens que há tempos se apagaram. Mas da realidade, do que era visto e podia ser tocado, não tinha como fugir.

Joseph só via tudo aquilo como uma oportunidade. Seu olhar enxergava vantagens ali, uma desculpa barata que usaria para me manter afastada e dentro dos eixos. Ele achava que me reconectar com o passado talvez fizesse os meus dias menos sombrios. Depois da overdose e do vício em pílulas coloridas de emoções falsas, o que mais eu poderia escolher para mim mesma? Estava em um patamar de incapacidade ou alguma merda do tipo. Me afastaria dos holofotes por um tempo para manter minha imagem dissociada dos vícios, das fraquezas e de qualquer coisa que me fizesse parecer um pouco mais humana.

Entendia que depois do que aconteceu há seis meses tudo ainda era um risco, muito fresco e vivo, como tinta recém-pintada em uma tela. Revistas saíam no soco por uma confirmação de que eu estava me encaminhando inevitavelmente para a autodestruição, como boa parte dos jovens atores que, segundo eles, não aguentam a pressão da fama. Eu parecia ter cedido à pressão.

Me dopar até perder a noção da realidade e adormecer na banheira parecia uma inocente ideia de relaxamento depois de um dia estressante se eu não tivesse um pico de heroína depois de ter engolido mais de trinta pílulas azuis e vermelhas de ansiolíticos com a ajuda de um copo de uísque para garantir o efeito rápido e devastador que procurava: simplesmente me livrar de tudo. Aniquilando cada sentimento, enfiando a faca e então a girando. Me livrando de cada vestígio de vida que ainda restava no meu corpo falso.

Em alguns momentos me sentia como uma tempestade que provocou uma maré alta, como aquelas que invadiam as casas por entre os seixos ao redor das habitações em Santa Mônica e traziam consigo emaranhados de tudo que o oceano expulsava, nesses momentos em que o mar se recolhia novamente e o que sobrava ficava visível aos olhos de todos, como algas podres presas em soleiras, portas e escadas.

Contudo, eu deveria sorrir e controlar o meu humor, Joseph repetia em voz alta. Não apenas para manter minha carreira intacta e me livrar dos boatos maldosos, mas também pelo meu status de mulher comprometida — o novo animal de estimação de James Wood-Parker, o novo hobby para livrá-lo do ócio diário na pausa entre as garotas bronzeadas da Califórnia e os dias na casa de praia na costa oeste — e pela estúpida candidatura ao senado de meu noivo.

Devido à minha função de boa garota, seu cachorrinho obediente e fiel, eu deveria varrer toda a sujeira para baixo do tapete, voltar para Roseville e me afastar por um tempo, como os contratos exigiam que eu fizesse, pelo número de dias que fosse necessário. Era isso ou a clínica de reabilitação outra vez.

— Hoje mesmo pretendo lançar uma nota à mídia para justificar sua ausência na reunião de leitura do roteiro. Você terá algumas semanas até o início das gravações do filme em Vancouver, então toma um sol, aproveita esse clima de cidadezinha suburbana e vê se não me apronta nada. — O olhar de Joseph oscila entre a tela brilhante do celular e as anotações em minha agenda.

— O bom tempo não me fará ficar milagrosamente curada, acho que deveria parar de comemorar antes do tempo — digo enquanto ele digita alguma mensagem de texto, desmarcando compromissos que até uma semana atrás pareciam inadiáveis.

— Pelo menos vou te manter longe de problemas. Você sabe que não pode se dar ao luxo de se meter em mais um — ele disse, balançando meu queixo entre os dedos. — Já não basta toda a sujeira que seu noivinho me arrumou no ano passado? Ainda tô tendo que lidar com toda essa merda de burocracia, então é melhor ficar por aqui e tratar de se comportar, entendeu?

Sujeira. Era assim que Joseph rotulava a irresponsabilidade de James e a vida perdida de uma modelo no meio dos jogos violentos dele.

Dessa vez era uma acompanhante de luxo de vinte e poucos anos, vítima de uma overdose de heroína em uma de suas festinhas privadas. Joseph, como sempre, assumindo o papel de babá número um, conseguiu impedir qualquer conexão entre o ocorrido naquela madrugada e James, ou o nome do clã Parker. Tudo se transformou em mais um caso que se perderia nas anotações de rodapé, um nome a mais na seção de obituário de um jornal de quinta categoria, referente a mais uma garota viciada que morreu precocemente. Sujeira era um termo vago para descrever o que acontecia na casa de verão e nas orgias orquestradas pelo primogênito dos Wood-Parker. E se aquelas paredes pudessem falar, confirmariam as minhas quase certezas assombrosas sobre James.

— Essa cidade fede a merda — diz Joe assim que abaixa os vidros do lado oposto para olhar ao redor, entre as casinhas de tons pastel perto da rodovia. Embora ele me instigasse a falar algo, permaneci em silêncio, apertando entre os dedos o papel com o e-mail que havia recebido, como se aquelas palavras, agora transcritas na minha pele, pudessem responder todos os outros questionamentos que eu tinha a respeito de tudo.

Durante quase uma década inteira, me mantive afastada de Roseville, negando convites para as festas de Natal e Ação de Graças de mamãe e papai com compromissos inventados; enviava presentes grandes e bonitos nas datas comemorativas, mas nunca aparecia de fato.

Havia perdido toda a infância de Theo, que agora já não era mais um menino. No fim do verão já estaria na faculdade. E eu simplesmente não conseguia associar faculdade àquela criança que carregava em meu colo até a cama quando adormecia no sofá da sala. Havia sido aceito em Yale. Parecia um grande passo para a família inteira, algo que deixava papai morrendo de orgulho. Um orgulho profundo e verdadeiro de quem compartilhou o mesmo sonho. Sabia disso. E fiz questão de pagar todos os custos necessários, não com o intuito de comprar o seu afeto — embora isso tenha, de alguma forma, me passado pela cabeça —, mas porque queria vê-lo em qualquer outro lugar, criando raízes longe daqui. Fincar os pés em Roseville e envelhecer cercado das ruínas de um pesadelo jamais teria que ser uma opção.

Ele era só um menino quando fui embora deixando um bilhete colado ao seu pijama, pedindo que fosse um bom garoto e dizendo que a partida seria temporária, que em breve eu voltaria para buscá-lo. Mas em vez disso, o enchi de todas as coisas fúteis que o dinheiro pode comprar para preencher os anos e compensar a quantidade de promessas quebradas e nunca apareci para levá-lo embora, como prometido. Ou apenas para que soubesse como me importava.

Me pergunto em que momento parou de acreditar que eu retornaria. Se é que um dia acreditou. Àquela altura não sabia mais nada sobre ele. Se tinha se apaixonado, se gostava de viver ali, se era feliz em Roseville.

Era só uma completa estranha tentando invadir seu território a todo custo.

No último Natal, havia enviado celulares de última geração para todos, pelo menos assim mamãe poderia me contatar quando necessário e eu não me sentiria tão culpada por negligenciar os anos que não teria como tomar de volta àquela altura. Um paliativo da culpa, um consolo que não me deixaria viver com o assombro da ausência me cercando por tanto tempo. As desculpas que eu sempre dava pareciam ter se adequado à rotina daquela família, como velhas conhecidas, e eles agora aguardavam uma negativa imediata sempre que se mostravam dispostos a me ver.

Me perguntava se ainda me reconheceriam debaixo de toda esta tintura de cabelo, das roupas caras e da atitude arrogante que, aos poucos, adquiri por necessidade, como um escudo. Eles procurariam Sofia e receberiam uma intrusa em seu lugar. Apática, sem viço, com alguns quilos a menos e um profundo desvio de caráter.

O tempo não foi meu aliado.

Tinha me tornado uma outra mulher, com apenas uma vaga similaridade à menina que viveu aqui, infiltrada nesta mesma pele. Sentia como se ela tivesse abandonado meu corpo há mais tempo do que me lembro e, às vezes, nem tenho certeza se ela de fato existiu. Mas parece ter levado consigo o que ainda restava de bom em mim, a parte pura, como a maré alta recuando outra vez, arrastando consigo o que não era forte o suficiente para se prender à superfície.

Embora essa definição de "estrela" nunca tenha combinado muito comigo e eu nunca tenha sentido, de fato, que pertencia a esse posto, eu ainda era uma.

Eu saí daqui como uma desconhecida e estava retornando com meu rosto estampado em outdoors, cartazes e revistas, com um nome inventado e proferido por cada boca como se pudessem evocar a presença de uma criatura celestial entre o resto dos habitantes de Roseville. E quem estava de volta era Juliet Bird. Não de carne e ossos, como todos os outros, imbuída em seu significado, mas materializada com a mesma substância de que são feitos os ídolos e os sonhos.

Lembro-me da inocência com que meus olhos brilhavam ao pensar na ideia da fama, nos sonhos cheios de cor, no horizonte além de onde meu olhar alcançava pela janela do quarto, ignorando os telhados idênticos que cobriam todas as casas do subúrbio de Roseville como se eles também fossem parte de um cenário meramente figurativo e temporário, observando o letreiro do Cinema Hook queimar em néon noite adentro, feito um sinal do destino, uma resposta às preces devotas feitas toda noite ao pé da cama. Um dia atravessaria aquela cidade e nada mais seria capaz de me manter aqui.

Em algum momento, eu amei a arte. Amei a ideia de ser atriz. De poder ser milhares de garotas e, ao mesmo tempo, ser uma só. Ter mil vidas e retomar a minha quando o take fosse cortado. Esse foi o motivo inicial de todas as outras escolhas. Mas nunca pensei na possibilidade de ser posta num altar para ser adorada como uma figura inalcançável diante dos olhos do mundo, como agora. Talvez eu seja louca, paranoica e narcisista o bastante para ter o privilégio de me autossabotar por estar cansada de tanto glamour, de tantos holofotes, de tanta expectativa, ou talvez Joseph esteja certo sobre isto: o tempo só me transformou em uma mulher sombria.

Eu vejo os pares de olhos curiosos através dos vidros escuros quando o carro se aproxima, alguns rostos familiares de que, mesmo com o efeito do tempo, ainda me recordo. Assim como a velha rua por trás de Sunset Ville, que não mudou quase nada. E a nossa casa, ainda pintada em tons de azul, revigorada com uma demão de tinta fresca.

Ao longe, vejo a mamãe de pé na porta, com sua postura de mademoiselle sempre elegante, ainda usando os mesmos vestidos com estampas de poás próprios para ir à igreja, como ela dizia. E papai com aquele cardigã azul do uniforme dos professores do St. Mary's High School, revivendo a atmosfera da partida. Um portal interligando a realidade ao passado.

Mas Theo não estava lá.

Eu imaginava se estava evitando minha presença depois de tudo, como sabia que eu vinha fazendo nos últimos anos. Não atendia as ligações. Não respondia aos e-mails. Relutou até mesmo em aceitar meu dinheiro para a faculdade, mas eu lhe enviei antes que tivesse a chance de dizer não.

Não tinha controle sobre o meu próprio corpo há anos, isso incluía até mesmo a maneira como eu deveria exibi-lo para o mundo. Algo parecido com ter as cordas de uma marionete.

— Cadê o sorriso lindo? — Joseph diz, sarcástico, antes de me deixar sair.

Eu estava acostumada com os sorrisos falsos, mais um não seria um esforço.

Quando abro a porta do carro, os rostos se contorcem em felicidade, os vizinhos no gramado ao lado acenam, as crianças dão pulinhos animados e escuto meu nome com entonações felizes, parecia que a tensão da minha espera havia acabado, e por mais que por fora estivesse radiante, por dentro eu estava gritando.



— Você veio! Nem consigo acreditar que está aqui, minha menina. — A voz suave de mamãe ao me ter no conforto dos seus braços faz com que todos os meus pensamentos sejam silenciados. Não sabia o quanto sentia falta dela até estar de volta. De alguma forma, é como se o tempo nunca tivesse passado. Ela ainda tem o mesmo cheiro confortável de roupa limpa, sândalo e lima, como colônias pós-banho. Suas mãos ainda têm a mesma maciez, seu toque ainda remete ao amor. Algo que há tempos não sentia.

— Eu prometi! — Minhas promessas nunca podem ser levadas a sério, assim como nada que envolvesse retornos indesejados a lugares como Roseville. Talvez eu tivesse perdido minha chance de ser uma pessoa melhor quando quebrei as promessas que fiz a mamãe durante quase dez anos e retornei ferrada e quebrada para os seus cuidados como uma última saída para me livrar de vícios, forçada por um motivo maior que envolvia pessoas do passado e o testamento do padre Stane. Jamais pensaria na possibilidade de frequentar um grupo de ajuda, nem na ideia de ficar presa a algum lugar contando minha vida para estranhos ao redor de um círculo no auditório de uma igreja. Se eu vasculhasse a fundo dentro da minha alma, traria à tona todos os malditos fantasmas e os traumas do passado, soterrados em algum lugar a que evitava retornar com frequência, coisas intocáveis que sequer partilham o mesmo universo destes sentimentos.

Joseph considerava humilhante me submeter à reabilitação. Para ele, experimentar outra vez o anonimato era suficiente para quaisquer que fossem os efeitos colaterais dos meus vícios, era como unir o útil ao agradável. Aos olhos dele, provavelmente tudo aquilo era mera futilidade de uma garota mimada, entediada demais com a vida no topo do mundo.

— Aproveita que está longe do seu noivo, trepa com alguns caipiras daqui e volta feliz para Los Angeles — ele disse poucas horas antes de entrarmos no avião, um comentário idiota que fazia jus ao completo babaca que ele sempre foi, nada que fizesse tanta diferença agora.

Joseph foi quem me descobriu logo que fiz minhas primeiras pontas em filmes de baixo custo, ele abriu as portas desse mundo para mim, rumo às grandes produções e àquele lugar ao Sol onde todos os aspirantes querem estar. Investiu em minha imagem, em minha carreira e fez com que o título de "a garota de um milhão de dólares" viesse nas entrelinhas de meu nome; me colocou num posto tão alto que às vezes nem mesmo eu era capaz de alcançar.

Tudo com um preço muito alto a pagar, indesejado e sujo demais.

Mas eu sabia que seria um pesadelo se alguém soubesse que por trás do sorriso bonito e do ar de pureza constante estava aquela versão minha. Ninguém está disposto a tocar nos estilhaços de vidro, catar os pedaços minúsculos que restaram de mim ou descobrir que por trás dos óculos de sol caros — escondendo as olheiras escuras pelas noites maldormidas e os vícios em emoções encapsuladas — existia um vazio que ecoa. Um labirinto escuro que ninguém suportaria adentrar. Nem mesmo eu.

— Você está tão diferente com essa cor de cabelo... — papai disse, me avaliando da sala de estar. — Nem parece a minha garotinha.

Ainda consigo me encaixar no seu abraço, envolvendo seu dorso inteiro dentro dos meus braços. Daria tudo para ser novamente apenas a sua garotinha, pai.

O tempo estava passando e eu observava de perto os resultados daquele avanço; papai também estava envelhecendo, com seus cabelos grisalhos arrumados em um topete — marca registrada do professor Séraphin — com menos fios, como posso ver de perto, e com o mesmo aspecto frágil de padre Stane.

— E provavelmente você continua botando medo nas garotas do St. Mary's, não é? — comento e ele sorri, tímido, antes de esticar a mão para cumprimentar Joseph, julgando as mechas mais claras no cabelo castanho de meu agente.

— E o senhor é...? — papai pergunta, olhando-o da cabeça aos pés.

— Joseph Mortensen, o responsável por fazer o brilho da sua filha inigualável. — Uma frase ensaiada e ridícula, mas ao menos parecia a versão de Joe que eu conhecia, a mais artificial possível, segurando a mão do papai com as duas mãos.

— Hmm, e o senhor fica para o jantar, Sr. Mortensen?

— Oh, não! Infelizmente, preciso voltar ainda hoje para Los Angeles, preciso desmarcar todos os compromissos da Sofi. Quero que ela descanse bem nas próximas semanas e resolva todas as pendências possíveis. — Ele sorri, jogando aquele olhar de falsa preocupação enquanto se despede de papai e mamãe.

Ao menos, me manter longe dele por um tempo seria um benefício do qual eu não abriria mão.

— Que pena! Pensei que ficaria conosco — mamãe diz, educadamente.

— Eu gostaria muito de passar mais tempo nesse lugarzinho tão adorável, Vivian! Mas, infelizmente, tempo é dinheiro!

— Então boa viagem, Sr. Mortensen — mamãe continua, e Joe caminha para me dar um abraço. Sei que isso também é um aviso indireto, assim como o olhar que ele me lança e as batidinhas amigáveis que deixa no meu ombro.

— Descanse, minha querida. Quero te ver bem em breve.

E você pode ir para o Inferno, seu filho da puta!

— Claro, Joe! Não se preocupe, todo esse ar puro me fará muito bem.



A casa permanecia com a mesma aparência de que me lembrava: a sala de jantar bonita, com os móveis em mogno, como mamãe sempre adorou, e a sua tapeçaria cara, utilizada apenas em eventos especiais. Provavelmente a minha vinda era considerada um evento raro e um bom motivo para usá-la. Tudo continuava do mesmo jeito e o mesmo cheiro de cânfora e lustra-móveis ainda estava impregnado em cada canto daquele lugar, proporcionando um retorno imediato a todos os dias de minha adolescência, em que aquele era o espaço sagrado para os meus sonhos crescerem. A TV grande e moderna que enviei no último Natal preenchia o espaço na sala, assim como os jogos caros de Theo e toda a parafernália tecnológica que em algum momento substituíram a minha ausência.

Os porta-retratos com fotos da minha infância e adolescência ainda preenchiam a estante ao lado da sala de jantar, junto a alguns recortes de revistas e fotos que Joseph provavelmente enviava juntos aos presentes, guardados em um lugar especial ao lado dos cartões de Natal dos últimos anos em que não apareci, como tinha prometido. Uma das fotografias me mostrava caracterizada como Brianna, na série de TV produzida pela The Archer. Lembro-me daquela sessão de fotos como um borrão, estava completamente dopada e, embora não seja perceptível nas fotos, eu tinha chorado uma madrugada inteira por conta de James.

— Quer tomar um banho e vestir algo mais confortável antes do jantar? — mamãe pergunta, retomando minha atenção. O modo como me olha me faz pensar se ela imagina que sou algum tipo de aparição que desvanece caso ela pisque forte demais ou respire além do permitido. Tudo reforça o estrago devastador que minha ausência nos últimos anos causou, nem mesmo fui questionada por fugir de casa, como se aqueles assuntos fossem agora intocáveis simplesmente para garantir que eu não sumiria outra vez por aquela porta por mais uma infinidade de anos, como a grande filha da puta que sou.

— Claro, mamãe! — respondo com o mesmo ânimo com que ela me questiona.

— Fiz torta de frutas vermelhas para a sobremesa, era a sua favorita, lembra?

De alguma forma, eu esperava que, depois de eu ter fugido de casa e aparecido dez anos depois arrastando uma mala de problemas não resolvidos, ela fosse agir com frieza e me repelir, mas ela me trata com a mesma doçura de sempre, e por alguma razão, isso também dói.

Havia me preparado para levar chutes porta afora, ouvir alguns sermões sobre ingratidão e o quanto eu a tinha magoado quando parti. Mas nada disso acontece. Nenhuma dessas cenas clássicas de reencontro de filmes que fiz e refiz ao longo dos últimos anos. Nada. Nem mesmo um relance de amargura ou de ódio alimentado.

— Sim, mãe. A sua ainda é a minha favorita, as pessoas em Hollywood são artificiais até na cozinha! — digo, e ela sorri daquele jeito meigo que apenas Vivian Séraphin saberia. Um vestígio da mulher linda que sempre foi, recoberta por uma camada de poeira fictícia que parecia absorver a casa inteira conforme me dava conta de que nada era tão vivo e brilhante como nas memórias que ainda tinha. Mesmo que, de algum modo, tudo pareça o mesmo, sei que já não é mais. Nada, há muito tempo, é como antes.

Subo as escadas levando as malas com a ajuda dela, mamãe havia mantido meu quarto da mesma maneira que eu o havia deixado, a mesma cor delicada nas paredes, os pôsteres de James Dean, Marilyn Monroe e Rita Hayworth ao lado dos meus recortes de ídolos dos anos 90, o rosto desbotado de Leonardo DiCaprio ao lado de River Phoenix e Keanu Reeves, recortados e mal colados ao redor de meu espelho, minha coleção de borboletas ainda intacta, resguardada em caixas de acrílico, as marcas de esmaltes coloridos, os vidrinhos vazios entulhados em minha penteadeira, e os ursos de pelúcia continuam intactos; sentia como se tivesse aberto uma porta diretamente para o passado, sendo apenas a mesma Sofi que abraçava aquelas criaturas de rostinhos sorridentes antes de dormir.

— Deixei exatamente como você gostava!

— Manteve até os livros, sabe que não precisava, não é? — Dou uma última olhada na estante ainda repleta de bons livros, uma coleção com temáticas infanto-juvenis na prateleira de baixo e alguns romances clássicos amontoados na parte superior. Imagino as crianças do St. Mary's ou até mesmo da igreja felizes por terem meia dúzia de romances na biblioteca improvisada da cidade, se é que ela ainda existia.

— Queria que se sentisse em casa quando quisesse voltar — ela responde, e sei que um tapa ardido no rosto doeria menos do que ouvir aquilo. Me atire desta janela, me diga o que quiser dizer, mas, por favor, não me perdoe desse jeito. Não mereço seu perdão imediato. Fui cruel e egoísta, mamãe, então me trate como mereço!

Evito olhar outra vez em seus olhos, porque uma mistura de ansiedade e angústia aos poucos se revira em meu estômago. Agradeço mentalmente por ter escondido um maço de cigarros no meio das minhas peças íntimas e por ter uma reserva de maconha escondida dentro de uma meia — evitei que Joe a encontrasse na última revista feita antes de virmos para cá —, isso me salvaria por alguns dias ali dentro.

— Eu agradeço muito, mãe. — Mesmo que minha intenção fosse nunca mais colocar meus pés nesta merda de cidade de novo. E quando digo isso, só estou presente pela metade, como se a outra parte de mim tivesse escapado para evitar um confronto, uma resposta patética que, inconscientemente, me perseguiria depois.

Mamãe fecha a porta atrás dela e caminha até mim, quase pronta para revelar um segredo.

— Mas e o seu noivo, hein? Ah, que homem magnífico! Ontem mesmo ele estava na TV, estou tão orgulhosa de você, ma petite.

Mamãe havia caído no truque de James, como a maioria das pessoas, caído naquele feitiço estúpido de beleza e carisma que ele parecia dominar bem. Os olhos dela brilham, parecem feitos de luz, provavelmente acredita que eu estou apaixonada por ele também. Sei disso porque ela segura minha mão — com aquele anel que provavelmente valia mais que nossa própria casa — e parece fascinada com a ideia do sobrenome Park brilhando ao lado do meu.

— Ah, mãe, ele é... diferente de tudo o que já conheci.

— E ele te trata bem?

Não.

— Ah, bom, James é um cavalheiro. — Sorrio com esforço. — Mas acho melhor eu ir tomar banho, não quero atrasar o jantar. — Ótimo momento para escapar daquela conversa desconfortável; além de ter ido embora e retornado anos depois, eu ainda a enchia de mentiras.

Poderia dizer que voltei infeliz e de maneira forçada, que há dias não tinha uma noite com mais de uma ou duas horas de sono, que havia tentado resolver isso tomando uma dose a mais dos ansiolíticos num copo com conhaque, o suficiente para me apagar de uma vez e para sempre, e que se não fosse James me encontrando desacordada e sem cor na banheira e enfiando quatro dedos em minha garganta, provavelmente ela não teria a chance de me ver novamente com vida. Não, o sorriso foi a melhor escolha naquele momento.

— Mãe, por que não me contou sobre o padre Stane? — A pergunta paira entre nós duas e ecoa no meio de um ruído branco. — Tem mais de um mês desde o velório e eu não soube de nada, se não fosse o e-mail do Taehyung, provavelmente não iria saber nunca.

— Ah, meu bem, foi tudo muito rápido... — ela começa, puxando os cabelos para trás da orelha. Estava nervosa. — E imaginei que você estaria ocupada demais para vir, eram aborrecimentos desnecessários que você não precisava ter.

Permaneço em silêncio, olhando fixamente para ela, absorvendo o máximo que posso de suas palavras.

Padre Stane foi importante demais para mim e agora, nesta versão ridícula de minha vida, estava categorizado como um "aborrecimento desnecessário". Como se me encher de uma rotina estúpida e me cercar de coisas fúteis fizesse com que aqueles que de fato fossem importantes perdessem o posto em minha vida. Mas eu evitaria conflitos de qualquer tipo, não estava em posição de questionar algo quando não havia oferecido absolutamente nada em troca, quando não havia feito nada para provar um ponto contrário. Tinha feito exatamente o que eles imaginavam que eu faria: abandonado todos aqui.

— Essa coisa toda do testamento foi muito inesperada, mas não pretendo aceitar absolutamente nenhum tipo de herança, nem sabia que o padre Stane tinha algum bem para repassar a outra pessoa, ainda mais a mim — digo enquanto removo as botas desconfortáveis que estou usando, sem desatar os nós dos cadarços.

— Dana também está na cidade, veio visitar o pai, e acredito que o sobrinho do Sr. Min também apareça, pelo menos foi isso o que o Taehyung me adiantou na semana passada. — Meu coração pulsa com tanta força que tenho medo de que mamãe perceba o quanto pareço surpresa com a notícia. Dana está aqui. Dana está aqui. Dana está aqui. A frase ecoa dentro de mim e desaparece no vórtice interno de minha própria ansiedade. Então ela também havia sido mencionada nessa droga de testamento, e não faço ideia do que mais faltava para completar aquele pesadelo em que parecia presa, como uma rápida visita ao Purgatório para reaver toda a culpa carregada nos últimos anos e pagá-la em pequenas parcelas pelos próximos dias.

— E o Sr. Min? — Os olhos de mamãe vagueiam pelo quarto até os meus outras vez, como se calculasse minimamente tudo o que estava prestes a dizer. Se Yoongi, que era seu sobrinho legítimo, havia sido mencionado, talvez ele também fosse.

— Não sei dizer, mas sei que ainda vive no mesmo lugar, apesar da mudança do diretor. Depois de tudo o que aconteceu, duvido que alguém da comunidade tenha coragem de tirar o pobrezinho de lá. É o lugar dele. São as únicas memórias que ele tem.

Não fazia ideia de como o Sr. Min estava. As lembranças da última vez que o vi eram apenas borrões sem continuidade, lapsos e cenas difusas, incompletas. Tudo ocorreu há mais de dez anos; naquela época, ele era um homem de meia-idade. O professor Min nunca nos oferecia um sorriso, mesmo quando jurava estar feliz. Ele amava Cecília Min e cuidava dos sobrinhos como se fossem seus próprios filhos, mesmo nos momentos mais difíceis, e era como um irmão para Stane. Não consigo me imaginar como uma herdeira dos bens de Louis Stane quando o Sr. Chungho Min supostamente está fora do testamento. Tudo isso simplesmente não parece fazer sentido.

— Entendo — respondo antes de receber seu olhar orgulhoso, pronta para sair do quarto.

— Apesar de tudo, estou muito feliz que você esteja de volta. — Sua mão afaga meus cabelos e ela deposita um beijo em minha têmpora. Eu a vejo caminhar para fora do quarto, ainda radiante. — Se precisar de qualquer coisa, é só me chamar.

A porta se fecha atrás dela, e eu me vejo mergulhando em um silêncio pesado, como se houvesse uma expectativa no ar que eu não ousava quebrar. Eu havia me habituado a esconder as emoções ruins, a usar uma máscara tão bem ajustada que se tornara parte de mim. Sofia, a menina ingênua e tola que vivia em algum lugar em minha memória, parecia tão distante agora... Juliet Bird — a mulher que se apresentava como atriz, noiva e uma ilustre menina de sorte — precisava manter a boca fechada, sufocando o orgulho que insistia em borbulhar. Era como um mantra repetido incansavelmente dentro de mim, uma verdade que eu tentava cravar na carne: lágrimas não resolvem nada.

Penso nisso ao me levantar novamente, meus olhos vagando pelo quarto. O pequeno altar improvisado, com a imagem da Virgem Maria cercada por anjos, ainda fazia parte daquele cenário de pureza que parecia tão distante de mim. Eu me sentia como uma peça fora do lugar, desajustada naquele espaço sagrado.

Ajoelho-me diante do altar, as mãos unidas contra os lábios em uma prece devota. Quanto tempo se passou desde a última vez que rezei? Não consigo recordar quando fiz isso pela última vez.

Evitei igrejas e tudo que cheirasse à santidade, figuras religiosas se tornaram um eco distante. Não havia mais vestígios daquela menina que se perdia pelos corredores da escola, sempre pronta para ajudar o Sr. Min nas aulas de teatro. Essas lembranças só traziam à tona um passado que eu preferia enterrar, uma dor que ainda pulsava. Sabia que alguns pecados eram como sombras, impossíveis de serem expurgados, e o peso daquela culpa eterna se tornava mais pesado a cada escolha errada que eu fazia.

— ... Vos consagro neste dia meus olhos, meus ouvidos, minha boca, meu coração e todo o meu ser. E já que sou vossa, ó, incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como filha e propriedade vossa.

Amém.

E que assim seja. A palavra se perde no infinito, entre meus lábios e os rostos dos anjos brilhantes pintados ao meu redor. Quando abro os olhos, encarando outra vez a Virgem Maria, seu olhar piedoso parece conhecer o rumo trágico que meu destino havia tomado. Ao contrário dos olhos curiosos e das câmeras com flashes ofuscantes que me perseguem diariamente, dela não preciso me esconder. Mesmo agora, quando pareço suja e errada demais.

Parecia que aquele lugar estava assombrado pelo espectro de uma menina morta e o fantasma era eu.

Talvez esta noite eu consiga dormir, talvez não me preocupe com o dia seguinte e tenha sua voz velando meu sono, me permitindo ter sonhos mais bonitos do que os últimos, onde ele sempre volta.

Ele. Talvez ele estivesse tão preso dentro daquele quarto quanto todas as outras coisas que um dia também foram minhas. Quando busco nas gavetas de minha mesa de cabeceira os meus antigos diários de páginas escritas com canetinhas com cheiro de fruta, vejo muitas lembranças gravadas ali, minuciosamente transcritas todas as noites, com datas gravadas na capa e entre as páginas, rabiscadas nos cantos do papel.

Não me esqueceria daquele ano mesmo se tentasse, quase posso rever tudo bem diante dos meus olhos: os dias felizes com Dana, as festividades do 4 de Julho, a praia bonita de Golden Rose Beach, as luzes do parque que tanto me fascinavam, e lá, entre uma página e outra, no meio dos cupidos mergulhando no papel e dos corações decorando as linhas, o nome dele, centenas de vezes.

Jungkook. Jungkook. Jungkook.

Repito seu nome como uma invocação, desejo que ele apareça, que tome espaço no ambiente, como costumava fazer.

Ele foi o garoto revestido de luz que esteve na minha vida há muito tempo, a criatura doce escondida por trás dos olhos tristes, a minha lembrança bonita. Vivia para a poesia, para os sonhos trancafiados dentro dele, e eu era devota a todas as suas partes, até mesmo àquelas que dedilhei com cuidado em sua alma quebrada.

Se fechar os olhos agora ainda posso vê-lo naquele lugar bonito onde as nossas memórias felizes se escondem, permanecem intactas contra tudo o que é ruim e superficial, assim como um dia aprendi que todas as coisas sagradas se mantêm. Jungkook foi uma dessas coisas sagradas demais, naquele lugar onde os primeiros amores permanecem para sempre, timbrados sob a pele como uma litania, o oratório imaculado guardado a sete chaves.

Tive a mesma facilidade em decorá-lo como as canções de sucesso que tocam nas rádios durante o verão, como as frases favoritas nos livros de poesia, nos romances ainda empilhados na estante do quarto, porque ele foi aquela frase grifada na página 64 do meu livro favorito, a junção de todas as coisas bonitas, boas e intensas que chamei de amor, como os seus cigarros com essência de menta, a sua camisa branca impregnada de perfume doce, as suas botas surradas e o seu jeans desbotado. Roubando minhas fitas de cabelo para uma coleção pessoal e secreta. Foram todas as coisas que eu não tive e quis ter, tudo o que nunca fui e tudo ao qual quis pertencer. Pela primeira e única vez na vida.

Em uma das páginas, um trecho de Jane Eyre, de Charlotte Brönte, está transcrito com uma letra cursiva bonita e delicada, em caneta brilhante.

"Cada sentimento bom, verdadeiro, vigoroso que tenho se reúne ao redor dele. Sei que devo esconder meus sentimentos: devo asfixiar a esperança; devo me lembrar de que ele não pode se importar muito comigo. Pois quando digo que sou de seu tipo, não digo que tenho sua força de influência e seu feitiço de atração, digo apenas que temos certas preferências e certos sentimentos em comum. Devo, portanto, repetir continuamente que somos para sempre separados; e, no entanto, enquanto respirar e pensar, devo amá-lo."

Consigo sentir a força da caligrafia marcada e ainda tenho em mente a mesma sensação daquele dia, depois de nosso primeiro beijo, quando escrevi isso em meu diário.

Como uma profecia de que iria amá-lo, um memorando futuro. Como a tatuagem eternamente marcada em minha nuca, o rouxinol de asas abertas feito numa noite inconsequente para me lembrar do quanto já fui feliz, diferente de agora, quando sobrevivo por meio de pequenos pedaços de um paraíso quebrado.

Deslizo os dedos pelas páginas como se pudesse sentir cada palavra escrita tomando forma dentro de mim.

Todas essas coisas começaram naquele verão, doze anos atrás, quando troquei seu segredo pelo meu.

Eu ainda me lembro disso tudo, de cada pequeno detalhe, do quanto me afetou.

Para sempre.


❀ ༄ ઼° ○ ❀ °○ ❀ ༄ ઼°○ ❀


N/A: Todos empolgados com Dynamite? Haha.

Então, desde já, agradeço a todos que estão relendo Badlands e também quem está chegando agora: sejam muito, muito, muito bem-vindes e muito obrigada por dar uma chance a esta história.

Para quem já deu uma passadinha por aqui, deve ter percebido algumas alterações não só no capítulo como em alguns personagens, como havia mencionado antes, alguns não farão mais parte da história e peço que compreendam que foi uma decisão pessoal necessária e que estou muito satisfeita com as mudanças, porque elas também foram essenciais. Nenhuma das alterações afetará a maneira como a história é contada, certo? Certo! Se estamos acertados sobre isso, podemos prosseguir.

Tentarei atualizar pelo menos a cada quinze dias para a frequência de capítulos ser bem constante, principalmente para capítulos novos: felizmente teremos muitas coisas inéditas para ler!

Peço desculpas por qualquer eventual errinho e ainda essa semana tentarei reler para corrigir, ok? A pedido do mentholcigaretJ lá no twitter, criei uma tag para Badlands que é #garotosmiths e não sei muito bem como funciona (espero não estar sendo pretensiosa demais criando tags, MINHA NOSSA!) , e também não tem problema se flopar (KKKKKKKK), só saibam que sempre vai ter um cantinho pra gente se amar aqui e lá no Twitter, certo?

Twitter: @/etthereal_ (Vestígios de Saturno)

- Com amor, S.

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