Capítulo Doze (Você era uma chama perigosa e eu me deixei queimar)

He's so tall and handsome as hell,
He's so bad, but he does it so well.

— Wildest Dreams, Taylor Swift.


🦋


Roseville, 1996.

Acho que naquela noite só cedi porque estava sozinha.

Foi pouco tempo antes do meu décimo sexto aniversário, — uma semana e meia antes daquele fatídico 22 de julho que deu início a tudo —, quando o meu segredo inconfesso, aos poucos, começou a me consumir lentamente.

Estava guardado sob algumas camadas densas, seguras de inexpressividade, cheias de dobraduras feito um delicado origami, mas existia, como um tesouro esquecido; uma peça perdida de um quebra-cabeças, o peão de um jogo de tabuleiro que escorregou para baixo do estofado ou uma carta sem resposta esquecida nos fundos de uma gaveta. Poderia ignorar sua existência, se quisesse, mas ela ainda estaria lá a cada vez que ousasse olhar para dentro.

Após os acontecimentos do 4 de Julho havia decidido, de forma unilateral, me manter afastada de Jungkook. Meu desaparecimento durante as festividades gerou uma suspeita em Taehyung, que sempre esteve acostumado a me ler bem, interpretar meus sentimentos antes que eu mesma me desse conta da profundidade deles. Com o martelo batido de sua desconfiança e a sua iminente intimação, aos poucos, se mostrando cada vez mais próxima, sentia que precisava, a qualquer custo, manter tudo longe da superfície. Tinha medo de ser descoberta, ainda não estava pronta para confrontar o que sentia. Estava decidida a não ceder.

Mas o amor, por si só, não dependia de mim para nada.

Jordana talvez suspeitasse que algo estava diferente com as minhas mudanças súbitas de rotina nas últimas semanas, minhas fugas calculadas e meu passo errático, o meu medo de cruzar com Jungkook após os ensaios no clube de teatro, tomando uma rota oposta, sem atravessar o jardim de Padre Stane, evitando a casa nos fundos do terreno ou o carro de lataria preta estacionado no pátio após seu horário de trabalho.

Dana, de alguma forma, desconfiava sobre os acontecimentos recentes; Christopher Cody com olho-roxo e mais quieto do que nunca, tinha pedido desculpas pela lista publicamente, antes do ensaio, durante a hora do microfone aberto: quando cada ator e atriz podia se sentir livre o suficiente para expressar seus sentimentos sem julgamento. Na maioria das vezes, Patrick tinha algo a dizer de si mesmo, se vangloriar de algum feito inútil ou recitar poemas de Byron.

Alguns olhares recaíram sobre mim quando Cody enfatizou o seu pedido de desculpas: "Isto aqui é principalmente para a Sofi, me desculpe! Foi só uma brincadeira, de qualquer modo. Era uma lista ridícula!", e o de Jordana foi um deles.

Não poderia culpá-la por orbitar ao redor do segredo; eu queria acreditar que havia sido incansavelmente persuadida, vencida pela força da insistência, a uma promessa infalível de nunca contar para ninguém sobre o que vinha sentindo nas últimas semanas sobre a proximidade de um garoto proibido. Temendo a penitência dos rosários rezados de joelhos, das mãos unidas diante do peito e da laboriosa oração orquestrada em busca de indulgência imediata que seriam impostas a mim pelo voto de silêncio quebrado.

Contudo, Jungkook não havia me pedido nada, porque, de fato, não existia nada para ser pedido.

Não existia nenhum indício que pudesse me valer de uma confissão. Mas sabia que se contasse o que sentia, precisaria ir a fundo para recapitular mentalmente todos os acontecimentos de sua aproximação como um excitante passeio secreto numa ala proibida de um lugar sagrado. Sem registros. Sem provas concretas. Só a minha palavra. E depois disso, teria que confrontar uma suposição universal de que aquilo tudo poderia não passar de um grande passatempo e a dimensão de minha tolice seria medida pela força que me atingiria: talvez nunca tenha significado nada para ele.

Todavia, naquela tarde, na metade de Julho, quando os alunos do clube de teatro reuniram-se para o primeiro ensaio geral da peça teatral de volta às aulas, algo pareceu diferente no ar, como se tivesse adentrado uma atmosfera modificada.

A música tocava alto nos bastidores do auditório, a trilha-sonora da peça seria adaptada por canções famosas dos Beatles, introduzidas como um toque contemporâneo da releitura que o Sr. Min havia feito, então todos tinham recebido fitas com canções mixadas para ouvir durante a semana; e durante os testes, ele havia exigido um elenco que também pudesse cantar, por conta disso, havia sido confrontada pela emissora de uma verdade secreta em um futuro distante.

Após o ensaio, Emmaline se aproximou no banheiro, tinha um pirulito com cheiro enjoativo, jogando-o de um lado para o outro na boca. Me examinou com cautela, o pé apoiado no banco exibindo sua polaina cor-de-rosa, amarrou os cadarços do seu coturno. Sabia que o problema dela comigo ainda envolvia o teste para interpretar Wendy Darling e o fato do seu namorado, Jack Patrick, ser escalado para Peter Pan, enquanto ela havia assumido o papel de substituta. Ela havia descoberto, assim como o resto do elenco, sobre a cena do beijo entre Peter e Wendy. O desespero já havia me engolido no momento em que me dera conta de que o meu primeiro beijo seria com alguém como Jack Patrick.

Quando a cena foi lida em voz alta, alguns risinhos ecoaram em um pequeno grupo.

"Boa sorte com a bruaca, Jack", um dos garotos falou.

Christopher então deu uma cotovelada no braço do amigo e as risadas pararam de modo automático. Seu rosto ainda era um lembrete recente, marcado em linhas disformes de arranhões causados pelas peças plásticas de seus óculos de sol vagabundos e das manchas arroxeadas decorando os olhos como a máscara de um Le Bal Masqué. O clima opressivo no silêncio que dominou o palco a um simples gesto parecia vivo e destruidor, deixava claro que, no fim das contas, todos sabiam a motivação do que havia baixado a guarda de Cody depois de ter sido incansavelmente especulada. E ela estava sentada bem ali, no círculo do amor do clube de teatro.

Mas Emmaline estava ciente sobre a causa e a motivação antes que qualquer um ligasse os pontos da figura oculta.

— Então, você e o sobrinho do Sr. Min estão trepando! — enfatizou ela, me olhando através do reflexo do espelho, no vestiário, enquanto eu lavava as mãos. Não respondi uma palavra, mas percebi a atenção das outras garotas voltadas para nós, aguardando uma confirmação dos rumores que começavam a se espalhar pela escola. — Não me admira você ter conseguido esse papel tão rápido.

Naquela época ainda me sentia nervosa quando era confrontada, principalmente quando se tratava de uma outra garota que enxergava a um grau de superioridade elevado — meninas mais velhas e muito mais bonitas exerciam um poder de intimidação assustador —, como se nada do que pudesse pensar ou dizer fosse suficiente, ou se equiparasse ao que viria a seguir, no momento em que fechasse a minha boca e não fosse capaz de rebater uma verdade incontestável.

— Sei que o Chris levou uma surra por causa da lista, — Ela deslizou o pirulito na língua deixando um rastro vermelho de saliva pigmentada. — a sua lista.

Continuei lavando as mãos sem olhá-la diretamente.

— Não sei do que tá falando.

Emmaline puxou o short curto para cima, marcando os contornos de suas nádegas visivelmente, admirando-se no espelho. O ar pareceu mais denso com sua aproximação, seu braço cercando meu ombro, sussurrando contra a minha orelha.

— Claro que sabe! O cara quebrou o Cody só porque ele te chamou de feia. — ela riu — O que não é bem uma mentira. — Emmaline piscou de maneira dramática.

Encolhi os ombros.

Eu mal o conheço. — comecei — Além disso, outras garotas estão na lista também, deveria falar com elas. — Me perguntei se Emmaline abordaria desconhecidas na coxia, preocupada com a repercussão de uma lista maldosa, que ela fez questão de participar, ou se aquela ameaça ficaria ainda mais óbvia atrelada à frieza da razão: um papel principal que lhe foi negado.

— Ele jurou que se o Chris te intimidasse outra vez, cortaria o saco dele e o penduraria na torre da igreja para todo mundo ver.

Não quis checar meu rosto no espelho, mas o ardor na pele era um denunciante claro, a minha timidez estava sempre tão exposta em tudo, em cada detalhe, como uma tatuagem de fogo.

— Jungkook já passou o pau em metade da escola. — ela disse, erguendo as sobrancelhas — Ele tem uma fama por aqui e não é de hoje. Vê a Sharon, não tem sequer um mês que ele a chutou e já está te cercando feito um abutre! Quer saber como o chamamos por aqui?! — ela riu antes de tocar o laço no meu cabelo e centralizá-lo. — Colecionador de cabaços.

As outras garotas riram, compartilhavam um segredo em comum.

Senti meu estômago se contrair com a nova informação absorvida, a falta de remorso por sentir uma felicidade premente com a notícia pareceu puro egoísmo. Ter satisfação com a tristeza alheia não era lá um sentimento muito cristão. Sharon nunca havia feito nada de mal para ninguém e parecia mesmo gostar de Jungkook, — mas todas pareciam sempre rendidas a ele, os outros garotos não tinham sequer uma chance —, algo que, por um tempo razoavelmente longo, me incomodou ao ponto de causar repulsa.

Contudo, a ideia que pairava sob a motivação do término fez meu coração se acender.

— Não temos nada. — respondi — E mesmo se fosse o caso, isso não seria da sua conta, Emmaline. — A resposta tirou o sorriso fácil do seu rosto. A minha euforia temporária havia dado margem para uma coragem escondida; jamais teria sido incisiva e retaliatória em outra ocasião. Sempre estive em uma posição amena, na margem, como uma observadora de cenas que eram reproduzidas para mim: a vida de todos em frames e roteiros mal elaborados, atuações medíocres que eu podia apenas assistir ou trocar de canal caso não estivesse satisfeita. Eu nunca fui a protagonista, nunca me coube esta função em nada. E esse foi o motivo da fúria de Emmaline Doherty.

— Olha aqui, sua vaca, só vou te avisar uma vez: se der em cima do meu namorado, ou roubar meus papeis de novo, você tá morta! — Ela puxou meu cabelo pela nuca, empurrando meu rosto contra o espelho sujo, onde havia um pênis desenhado com caneta colorida na base do azulejo."Eric Adler tem o pau pequeno!", dizia o rabisco, a pele de minha bochecha raspou contra a inscrição, apagando metade da pichação grotesca.

— Ou então o que, Emmaline? Você vai me bater? — A pressão contra o meu crânio me fez querer chorar. Me arrependi antes mesmo da frase ter sido finalizada.

Sabia que se ela fosse misericordiosa, eu levaria somente alguns socos e teria que mentir durante uma semana inteira sobre as marcas na pele, em outro caso, um cenário pior que parecia mais prosaico, seria perseguida até o fim dos meus dias de ensino médio, tendo minha cabeça enfiada na privada uma vez ao dia. Mas para minha surpresa, Emmaline não fez nada. Não naquele dia, nem naquela semana, nem naquele mês, mas onze anos depois, de forma totalmente cruel e irredutível, arrancando o meu segredo de mim — com direito a algumas histórias inventadas —, por alguns cifrões de um cheque gordo pago por uma emissora de tevê.

Emmaline Doherty fez da existência de Jeon Jungkook uma nota de rodapé insignificante na história da vida de Juliet Bird.

Cuzona! — ela sussurrou contra o meu ouvido, antes de soltar as mechas do meu cabelo e apanhar sua mochila no banco do vestiário. — Tá avisada.

Emmaline não se importava com Jack Patrick ou com a lista extensa de garotas que Jungkook havia transado, o que feria seu orgulho era mais profundo e visceral. Para ela, o teatro era o seu reino; um regime absolutista e de amplos poderes, comandado por suas vontades.

O único lugar seguro e de atenção ratificada, onde ela poderia ceder seu próprio corpo a outra vida por algumas horas e esquecer os malefícios da sua. Os dramas pessoais que vivia.

A dramaturgia era seu ritual antropofágico, onde sua carne era o alimento dado em sacrifício, hoc est enim corpus meum, um receptáculo para ser habitado pelas criaturas devoradoras trazidas à vida em pantomima.

O que ninguém sabia sobre Emmaline Doherty era que por trás da personalidade intimidadora de menina má, — com itens de primeira necessidade, como as Cherry-Colas sempre a mão, os pirulitos açucarados e as chokers de couro ao redor do pescoço com suas iniciais —, cujos boatos corriam pelas salas, laboratórios e vestiários como a garota que havia "deixado um veterano pegá-la por trás, comer sua bunda", era que não havia absolutamente nada que a diferia de qualquer uma de nós; também alimentava mágoas corrosivas e ódios autodestrutivos.

Emmaline também era só uma garota insegura e triste, assustada com a possibilidade de perder o seu posto, o seu reinado e o seu lugar.

A densidade do ar se dissipou junto às feições ameaçadoras do grupo de meninas que a acompanhava, sem entender a motivação de Emmaline não terminar o que havia começado. Mas, de fato, não havia terminado ali.

Fiquei isolada no vestiário por mais de uma hora e chorei. Não sabia bem explicar se a adrenalina misturada ao medo tinham sido os causadores do sentimento, mas aquele foi somente o primeiro rasgo na bolha da boa menina, deixando o ar de um novo mundo penetrar. Eu queria uma justificativa para o que tinha feito, como se tivesse saído do papel para o qual tinha sido escolhida. Aquelas emoções não pareciam minhas. A necessidade de negá-las pareciam necessitar sempre de tanto afinco. Fingir sempre pareceu tão mais difícil do que apenas ser.

Fiquei ali até Jordana aparecer.

Naquela sexta à noite teríamos festa do clube de teatro que comemorava o nosso primeiro ensaio com o roteiro definitivo e trilha-sonora escolhida e não fazia ideia do porque havia me obrigado a comparecer, talvez pela insistência de Dana, visando uma oportunidade de socializar — e com a promessa de que passaríamos só alguns minutos enquanto nos preparavamos no vestiário.

Minha boca ainda estava ensebada de batom cor-de-vinho que ela mesma havia aplicado em uma camada generosa e uma maquiagem escura que, segundo seus conhecimentos básicos adquiridos em revistas adolescentes, destacava a cor dos meus olhos.

— Vai ser muito divertido, você vai ver! — ela falou, a animação contagiante que era uma característica primária de Dana estampada em seu rosto — É nossa primeira festa com os veteranos do clube de teatro, e você, você é a protagonista do musical de volta às aulas, é a estrela, vai ser bom se entrosar. — ela soltou as ondas do meu cabelo, deixando a camada loura de cachos cobrisse minhas costas. Quase nunca os deixava soltos por odiar o volume exagerado.

— Olhe só para você, Wendy Darling. Está linda. — começou — Deveria usar mais os cabelos soltos, você parece mais velha assim.

Dana apoiou o queixo em meu ombro, me olhando através do espelho, cujo reflexo de uma criatura loura, de olhos pintados de delineador preto, me encarava de volta. Me senti mentirosa. Aquele era o rosto de alguém que escondia a verdade. Por um impulso quase contei a Jordana sobre ele, as palavras quase se formando na ponta de minha língua, a contorção da boca na tentativa de formar a primeira sílaba de seu nome condenado feito uma anátema, a inflamação de um espinho na carne que voltaria a sangrar, trazendo muito mais força aos sentimentos que já carregava comigo desde o início do verão, ditos em voz alta.

— Eu queria ser bonita como você. — disse, e Dana fez que não com a cabeça. Era verdade, a beleza de Jordana era encantadora e delicada. Sem esforços. Era quase indolente o modo como tudo parecia estrategicamente feito para ressaltar cada detalhe dela, mesmo sem precisar.

Dana havia me emprestado um vestido de chiffon preto com estampas de rosas vermelhas, um modelo de alças finas e costas nuas; uma peça mais ousada do que tudo que havia em meu armário. Nem mesmo assim consegui me sentir bonita o bastante. 

— Você é única, essa é a melhor parte: ninguém pode ser como você. — Ela disse.

Mas eu não acreditei.



Ao longe, as luzes do parque Cottonland se alastraram pela faixa de areia que separava o grupo animado ao redor da fogueira, de uma distância segura do mar. A entrada de ferro brilhante e de letreiros acesos piscavam e os brinquedos se moviam sem parar a uma distância segura como um sonho cinemático — com barras de metal acesas rodopiando no ar, suspensas por outras ainda maiores e mais assustadoras; gigantes com braços de cobre erguendo pessoas dentro de uma gaiola.

Emmaline não parava de me encarar desde a nossa conversa no banheiro, estava sentada no colo de Jack Patrick que sugava a pele de seu pescoço como um vampiro.

Enquanto todos bebiam um licor de cereja de cheiro forte, ali, reunidos ao redor da fogueira e jogavam suas roupas na areia, prontos para serem engolidos pelo mar em um ritual shakespeariano de iniciação dramatúrgica, me sentei longe dos amplificadores que tocavam em repeat uma canção do Oasis, entoada pelo grupo de garotos como um hino.

Estava destoando do grupo reunido como uma peça errada de um quebra-cabeças.

Vasculhei pelo livro que havia enfiado em minha mochila pela manhã, Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, de Pablo Neruda. Havia surrupiado da caixa de doações de Taylor, na semana passada, quando ela enviou seus donativos ao evento da paróquia para arrecadação durante a festa da colheita, entre eles, os discos do Kiss e do Black Sabbath, que imaginei que seriam descartados por Stane pela causa religiosa da quermesse.

Mas o livro de poemas que lembrava o inominável H., estava marcado com citações pessoais e letras de canções nas bordas das páginas. Era delicado e íntimo. Como ler o coração de alguém em uma condensação poética.

"Tão curto é o amor, tão longo é o esquecimento."

Havia lido aquele trecho em algum outro livro de romance uma vez, lembro de ter rabiscado a lápis um destaque para não esquecê-lo e vez ou outra me pegava retornando aquela frase grifada na página 64; achava curioso como o autor generalizava a causa e efeito do amor, como se todos nós estivéssemos fadados a descobrir aquele lado sombrio de um sentimento: amar, sem, de fato, esquecer.

Ali, no Poema 20, da coletânea de Neruda, a versão surgia em sua totalidade. Muito mais profunda e consolidada, justificando a razão da promessa.

Por alguma razão era naquela mesma frase que pensava quando observava Dana e Yoongi. Seus olhos acendiam com um brilho incomum na mera menção de Blue, como costumava chamá-lo. Dana falou sobre a relação que aos poucos se desenvolvia de forma tão casual, como se o sentimento fosse tão óbvio e inegável que não fosse necessário uma explicação mínima, era como se ele já estivesse ali, florescendo de forma silenciosa e rudimentar, antes de qualquer iminência de revelação.

E orgulhosa, contava e recontava sobre as noites longe da cidade, ou no topo dos letreiros do cinema Hook, distante dos olhos curiosos — ouvindo canções de ídolos mortos, no topo do mundo invertido fora da bolha que era Roseville; acessando, em primeira mão, as partes dolorosas do coração de um garoto misterioso cujos demais eram exageradamente rasos para arranhar a profundidade oculta.

Como a própria Lei da Inércia, sabia que o sentimento seguia como uma constante que os empurrava sempre na mesma direção, nunca o oposto; um sistema isolado que se mantinha no mesmo ritmo.

Jordana agora era uma nova versão da garota que conheci a vida inteira: com olhos delineados e fumando cigarros com essência de canela, deliberadamente apaixonada. O começo de sua inacessibilidade emocional, que só assistiria, de fora.

Mas desejava que fosse feliz, a vida havia sido cruel demais com ela.

— Ei, você não vem? — Dana perguntou, já retirando a camiseta que usava como o restante das garotas ao redor da fogueira.

— Acho que não, o tempo parece estar esfriando e preciso me poupar de um resfriado até o fim do verão. — disse.

— Vai ficar bem aqui? — Dana depositou um beijinho em minha bochecha.

— Não se preocupe!

Ela sorriu, tão desinibida e bêbada, correndo em direção ao mar, onde as ondas escuras aos poucos engoliam todos eles: com seus gritos eufóricos e as risadas ecoando alto, uma ode a Dionísio. Todos se tornando pequenos pontos distantes dentro da maré alta. Sacrifícios em alto mar.

Pensei em como tudo costumava ser diferente há alguns meses e aquilo talvez soasse como loucura para a vida ocasional e correta que vivíamos. O fim de uma era.

Cody trouxe Schnapps de pêssego servido em um copo para mim.

— Um brinde aos nossos votos de paz? — ele ofereceu.

Aceitei somente por educação.

— Um brinde. — respondi, antes de tomar um gole ardido da bebida; a sensação adstringente provocou uma queimação suave no meu peito. Um ardor sutil. E gostei do que senti.

Cody riu, virando o seu copo de uma vez só. — Se quiser mais, pode vir com a gente. — ele apontou para o grupo de garotos reunidos ao redor da picape e com as garotas de cabelo coloridos, fãs de rock progressivo da cidade grande. Roseville ainda estava lotada de turistas do norte do estado e rostos estranhos tremulavam por trás das chamas da fogueira.

Cody estava atemorizado o suficiente para forçar uma aproximação, garantir que eu esqueceria os comentários maldosos e passaria a vê-lo como o cara legal que se esforçava para me enturmar. Mas daqui a uma semana, talvez um mês ou dois, eu ainda seria a filha do professor de cálculo, a idiota, puxa-saco do Sr. Min, como estava pichado na porta do meu armário.

— Obrigada, Cody. — respondi, erguendo o copo que havia sido preenchido até a borda. O segundo gole pareceu um pouco mais suave, o terceiro, muito mais gostoso. Me servi pelo menos duas vezes.

A atmosfera da praia parecia sintética, tal qual uma projeção cinematográfica do cenário real; uma Roseville de brinquedo se erguendo atrás de nós, as luzes das casas de telhados idênticos, pais e mães se preparando para dormir, iluminações rosadas das televisões ligadas no mesmo canal dos programas semanais de auditório, outras vidas se ajustando ao horário, a rotina de um cidadão da Flórida.

Theo se aconchegando em sua cama pequena, abraçado ao seu dinossauro favorito, Taylor chutando algum cliente abusado para fora do Pink's, Taehyung com seus preparativos para a faculdade, ocupado com a sua vida de recém-adulto, todos se encaixando em seus devidos lugares, seus destinos predestinados, imutáveis, e suas vidas felizes, enquanto me sentia deslocada do mundo.

Algo parecia sempre tão desleal dentro de mim mesma, um desperdício vulgar dos meus dias com pessoas feitas de borracha e seus sentimentos irritantemente inadequados como itens colecionáveis de bonecas caras que não servem. Garotas roubando maquiagens em lojas de conveniência somente para parecerem legais ou garotos induzindo o pior um no outro, em prol de algo que nunca verdadeiramente acreditaram, que nunca fará com se sintam melhores, nem que seus pais passem a notá-los ou que seus corpos pareçam mais adequados. Reforçariam a ideia de que uma vida não é tão medíocre se existir uma ainda mais trivial em seu lugar. Tudo só servia para aliviar o tédio momentâneo como um banho frio que espanta o calor enjoativo em um dia quente. Aquela parte quebrada, errada e escondida permaneceria lá, assombrando-o e crescendo como uma massa densa conforme o tempo passava, e em algum momento, devoraria você.

A chuva começou de maneira sutil, como quase todas as chuvas de verão começam, com gotas grossas e pesadas que logo se tornaram uma tempestade, umedecendo as páginas livro de poesia, batizando meu drinque com um orvalho divino, e depois de alguns goles, — até o fundo do copo se tornar um túnel — as luzes do parque a distância pareciam cada vez mais lentas e hipnotizantes, em uma dança invertida. Tinha vontade de rir, sem razões específicas.

Os raios começaram a clarear o Céu, como esporádicos feixes de luz do Sol à meia-noite, a força da chuva fez com que boa parte do grupo reunido ao redor da fogueira se dissipasse para direções opostas. Apanhei minha mochila e meus sapatos, antes de caminhar pela areia fria, em direção ao acostamento. Estava zonza e nebulosa demais para encontrar Jordana no meio das ondas iluminadas pela claridade elétrica dos relâmpagos, enquanto todos corriam em direção aos carros.

Como uma peregrina, descalça e borrada, fiz a rota de volta para casa, o tecido úmido e fino de meu vestido emprestado já estava colado ao corpo, os cabelos ensopados escorriam pelos seios, as rajadas de vento frio, da brisa marítima cortante rasgando a pele, enquanto a ideia de estar perdida ali parecia circundar cada vez mais minha mente.

Bastou um passo em falso, uma inversão de ângulos na nebulosidade do meu pensamento mágico — um pouco de álcool no meu corpo de pássaro, causando um efeito letárgico como anti-histamínicos em excesso, multicoloridos, deixando-me tonta —, bastou somente a eficácia primária para que eu despencasse no asfalto, esfolando os joelhos no atrito contra o piso rochoso. A ardência incomoda me fez tocar a ferida aberta, à prova distinta de uma noite errada, sangrenta, e ali, sentada na rodovia, ri sozinha de mim mesma.

Não fazia ideia para onde deveria ir.

Mas ainda era Roseville. A cidade que estava marcada em meu corpo como um mapa. As ruas desenhadas em cada linha de minhas mãos. As estradas formando rotas novas e curvas traiçoeiras ao redor do meu quadril, subindo pelo meu umbigo, contornando a cintura, como os campos macios de algodão, enveredando pelas coxas, até o Oceano. Cada pedaço gravado sinuosamente em minha pele.

A claridade dos faróis de um carro fumegante iluminaram meus pés descalços sobre o asfalto, os joelhos arranhados e em seguida a transparência de meu vestido, denunciando minha roupa íntima ainda tão infantil, contornada debaixo da peça molhada. Apoiei a mão contra a testa na tentativa de enxergar um ponto em foco, mas o carro diminuiu a velocidade, mesmo que não fosse capaz de identificá-lo à primeira vista.

Uma cabeça pendeu para fora da janela e aos poucos, meus olhos se ajustaram a claridade dos faróis, foram capazes de identificar suas feições cobertas pela fumaça costumeira, o cheiro aditivo de sua nicotina entranhada em cada maldito lugar no rastro de sua passagem.

— Monroe? — ele disse — O que faz aqui? — Parecia que estava sempre à espera, à espreita nas coxias, aguardando a sua entrada, o seu momento de triunfo.

— Estou indo para casa. — ele seguiu a direção apontada.

— Mas Roseville é para o outro lado. — Jungkook apontou com o queixo, antes de me olhar, mesmo na escuridão. Calculei a minha rota mentalmente, as luzes do parque estavam para o lado oposto, a direção que havia tomado me levavam até os limites de Breakers Beach e a costa de Rhiannon ficava só a alguns quilômetros. Estava perdida.

O som de um trovão rasgou o céu e encolhi os ombros na tentativa de amenizar o frio.

— Acho que me enganei.

— Você está bêbada, Monroe?

— Não, eu só... só estou um pouco tonta. — cruzei os braços contra o corpo na tentativa de ocultar meus mamilos pungentes no tecido.

Ele sorriu.

— Não?! Você parece bem alterada. — tragou o cigarro antes de soprar a fumaça pelo nariz uma última vez e jogar a ponta pela janela.

— Vem, entra aqui, eu te levo em casa. Você tá ensopada! — Jungkook esticou a mão até a maçaneta, abrindo a porta; mas não me movi.

— Não quero arrumar problemas com a sua... — a palavra simplesmente relutava em sair — com a Sharon. — Suas sobrancelhas se contraíram.

— Entre no carro, vai acabar doente desse jeito. — ele esticou o corpo para fora da janela — E você tá machucada.

Olhei para os meus joelhos e o rastro de sangue vertia até os meus tornozelos. A tontura me fez ceder. Relutar seria um erro. Sempre foi.

Dei a volta na lataria superaquecida, as luzes frontais iluminando os pingos grossos de chuva despencando como pedaços de granizo, enquanto sentia a aspereza do asfalto sob meus pés.

Entrar em seu carro era uma sensação tão nova que sequer consegui detectá-la inicialmente. O couro macio dos bancos, um cheiro particular identificável de arsênio, o seu perfume levemente tropical, uma canção tocando no rádio; Mary Jane's Last Dance. Noções básicas de um novo mundo que começava a me inserir de forma subserviente

Jungkook subiu os vidros antes de acender a luz cortesia no teto do seu Maverick e começar a tirar as próprias roupas. Primeiro sua jaqueta de couro e em seguida, a camisa xadrez de flanela que usava por baixo dela. Restou apenas a camiseta do Motorhead de sua coleção pessoal de bandas de rock.

Fiquei imóvel no banco, sentindo uma alteração notável no peito, um nervosismo crescente, que corria o corpo inteiro.

— O que está fazendo? — Minha voz pareceu sustentada por um fio, um cochicho, com medo de interrompê-lo em sua tarefa.

— Precisa secar esse cabelo ou vai acabar resfriada. — Ele se aproximou com a camisa flanelada erguida na mão, seus dedos tocando as mechas úmidas, suavemente apertando-as com um cuidado excessivo. A rota estrelada de seu prenúncio tinha cheiro e ficaria preso em mim por dias.

— Vista a jaqueta. Vai te aquecer até chegar em casa. — Jungkook mantinha os olhos nos meus, sem desviá-los, enquanto meus braços se enfiavam lentamente dentro da camada de camurça que revestia o interior da peça. [A peça Nº 02 dentro da caixa]

— Primeira experiência com álcool? — ele perguntou, puxando o couro sintético entre os dedos para a parte frontal do vestido, subindo o zíper. Minha mão tocou a dele, de raspão, na tentativa de desviar o seu toque; a transparência óbvia deixava um seio à mostra, causando um constrangimento imediato. Não queria que ele me visse dessa forma.

Fiz que sim com a cabeça.

— Era a festa do clube de teatro, tava tentando me enturmar. — disse, o lábio tremendo pelo choque da quentura do aquecedor.

— Bem selvagem — ele esboçou um sorriso, os olhos ainda fixos na estrada à frente antes de dar partida no carro. — A festa não estava legal?

— Começou a chover e todo mundo correu. — Ele esticou a mão até o porta-luvas, com o carro ainda parado, enquanto o motor pulsava. Jungkook enfiou a mão na cavidade do painel, acima dos meus joelhos, enquanto eu tentava me manter afastada do seu caminho. Puxou as fitas para fora.

— Uma pena. — Jungkook encaixou a fita escolhida na boca, enquanto empurrava as outras de volta para o compartimento. Ele tinha os olhos baixos, checando-as, e lá fora os clarões continuavam rasgando o céu em terminações de intervalos cada vez menores, iluminando-o parcialmente pelo vidro frontal. Sinais de alerta codificados. Perigo. Um lembrete claro dos malefícios de estar naquele lugar por vontade própria.

Smiths. — Ele ergueu as sobrancelhas, encaixando a fita escolhida no dispositivo moderno do carro. O ruído da gravação rompeu o silêncio e a voz de Morrissey ressoou como um mantra.

Panic on the streets of London, panic on the streets of Birmingham, I wonder to myself, could life ever be sane again?

Suas mãos batucavam no revestimento do volante, em sintonia. Em trinta anos, nunca encontrei alguém que amasse os Smiths como Jungkook amava, relacionando-se de forma tão íntima com aquelas letras como se elas fizessem parte de seu material genético, como se toda noite, despisse cada uma delas e fizesse amor com os acordes, as melodias, os riffs mágicos de Marr; todas tinham um pouco dele e de sua história, e ao fundo, além dos instrumentos, da base de mixagem, a voz fantasmagórica dele cantava. Outros tempos, outras histórias.

Mas os anos passaram e a mente brilhante de um Morrissey poético e irritadiço que liderava uma ode à poesia foi arruinada; às vezes ele soava como um decrépito falador de merda.

Todavia, ali, no carro do garoto que passaria a amar com toda a força do meu coração de menina, — a maior que já tive —, era somente a trilha-sonora mágica de uma noite de fuga.

Não havia nada de errado sobre Jungkook e sua índole. Eu pensava. O risco que envolvia um contato direto parecia sempre um ato sórdido, digno de olhares de soslaio e julgamentos precipitados, criaturas expostas à radiação. Ele ainda era um enigma, de todo modo, tinha uma personalidade ilegível como um charme barato. Mas as atrocidades prometidas a Cody não pareciam ter sido proferidas pela mesma boca que despejava doçuras; o garoto de fala mansa, dócil e aveludada que se preocupava com resfriados sazonais e cantarolava canções sobre eu-líricos de coração partido. Não estava acostumada com a meticulosidade de seus movimentos, a presunção de suas vontades que não se rendiam diante de nada. Nem mesmo do embaraço. Não fazia o tipo tímido. Estava longe de se ater ao título banal de rapaz rogado.

Todavia, buscava nele esses sinais nítidos de perversão que todos pareciam encontrar com uma destreza incomum dos boatos; que nenhuma garota jamais dormiu em sua cama, que a frieza do seu coração mantinha todos a uma distância segura e inacessível, mas não impedia de despir as roupas das meninas de boas famílias, — que escreviam as iniciais dele em suas calcinhas —, no chão do seu carro, erguendo suas batas brancas da catequese no fim das missas em prol de prazer temporário e que todas elas pareciam dividir o mesmo segredo risível, como as promessas feitas durante os acampamentos bíblicos, cujas atividades — jogos de tabuleiros, dinâmicas religiosas e um incentivo massivo a castidade, o ponto alto de um verão ensolarado e da promessa de um céu distinto —, eram proibidas de serem repassadas aos colegas nos fins de férias. Os olhares trocados, por pura empatia, mantinha os segredos em um mundo único e somente deles.

Passamos pela praia; a fogueira fumegava, apagada e os vestígios de uma festa que acabou em fuga continuavam pela areia: toalhas de piquenique, garrafas vazias e peças de roupas esquecidas. As luzes do parque, de perto, eram como um caleidoscópio mágico. Os brinquedos iam, um a um, se desligando, adormecidos.

— Para onde vamos? — perguntei, quando Jungkook desviou para uma rota oposta à avenida principal da cidade, enveredando pela Van Buren.

— É melhor cuidar desses ferimentos antes que infeccionem, tenho um kit no trabalho. — Os faróis do carro iluminaram a grade da oficina na rua silenciosa, o sobrenome da família Kent pintado de azul e preto destacava-se no portão vermelho. O motor do carro rompeu em um barulho insuportável até ser silenciado quando as luzes se apagaram no espaço claustrofóbico da oficina.

Jungkook caminhou para fora, acendendo as luzes esbranquiçadas que aos poucos iluminaram cada canto do lugar. Havia um carro sem os pneus e com parte de sua estrutura frontal, decapitada, erguida por barras de metal na parte superior.

Caixas amontoadas em estantes suplantadas nos fundos, ferramentas de todos os tipos penduradas em um painel laranja e o cheiro forte de óleo de motor parecia entranhado em todo lugar.

No pequeno armário vermelho, ao lado da porta da garagem e de uma mesa de atendimento, atolada de papéis, separada do restante do espaço por um acrílico grosso, Jungkook alcançou a maleta branca de primeiros-socorros, minúscula em suas mãos, na magnitude de seu tamanho masculino e precoce, caminhando de volta até o carro.

Abri a porta e tentei caminhar para fora, mas a ardência parecia ainda mais predominante com os joelhos dobrados, a pele inexistente mostrava a carne ferida, viva e vermelha, sob a luz, ainda suja de calcário.

Fiquei de pé, do lado de fora. Meus pés ainda cheios de areia e réstia de sangue, assim como uma parte do vestido de Dana também parecia arruinado pelo meu desastre.

— Acho que sujei seu carro, — revelei, o rosto queimando de vergonha — desculpe!

Os poucos homens que conhecia, com suas obsessões por carros, eram exageradamente cuidadosos a cada mínima substância nos bancos: molhos de tomate, esmalte, areia da praia, sempre zelosos com as manchas mínimas nos carpetes, no couro, na lataria, e estariam empenhados em deixarem seus carros flutuarem caso a possibilidade fosse oferecida.

— Você está sangrando e ainda está preocupada com a droga de um carro?! — Jungkook sorriu, desinibido.

— Vem cá, — ele sussurrou, a aproximação, meio despretensiosa e repentina me deixou sem ar. — deixa eu dar uma boa olhada nisso.

Suas mãos cercaram firmemente minha cintura, erguendo-me em direção a lataria de seu carro, apoiando meu corpo sob o capô aquecido. Seus dedos se enroscaram no chiffon úmido do vestido, delicadamente, como quem toca uma superfície de vidro, um cristal delicado, algo precioso demais. Como se eu pudesse me desfazer ao mínimo toque.

Ele puxou a base da luminária articulada que estava pendurada acima de nossas cabeças, direcionando-a para os meus joelhos, observando-me como um experimento científico. Suas mãos apoiadas de cada lado dos meus quadris, uma sensação semioculta do meu corpo queria apenas afastá-lo.

Ele pode ouvir meu coração, eu pensava. Ele pode ouvir tudo aqui dentro, ainda ressoando, como uma canção de amor em que nos encaixei.

— Não é nada grave, talvez fique uma pequena cicatriz. — Sua mão deslizou para baixo do meu joelho, tocando a linha pontilhada da poplítea, puxando-a para cima. Seus dedos estavam mornos, mas foi a primeira vez que me dei conta da textura de sua pele, áspera. — Vai ser sua lembrança de uma noite agitada.

Meu corpo inteiro tremulava como se tivesse sido exposto a um gesto obsceno.

— Pelo menos terei algo legal para lembrar no meu aniversário. — ri, sem graça. O meu reflexo no vidro do carro pendurado mostrava o meu estado: a maquiagem escorrendo pelos olhos e o cabelo quase totalmente seco, com volume descontrolado.

Meus lábios estavam gelados pelo vento frio da costa, o batom havia ressecado na boca, uma parte dele permanecia nos lábios fazendo jus a promessa de durabilidade na embalagem, embora tenha esfregado a mão contra ela centenas de vezes na tentativa de me livrar dos resquícios, continuava tingida pela cor.

— Por que você fez aquilo com o Cody? — perguntei, enquanto ele, cautelosamente, limpava o ferimento com um pouco de soro fisiológico — Não precisava ter me defendido, uma hora ele esqueceria.

Jungkook continuou limpando os ferimentos, os dedos se movendo minimamente, limpando o sangue endurecido ao redor.

— Eu só quis mostrar minha opinião sobre a lista... — Ele vasculhou pela maleta e encontrou o Neosporin¹ de cor avermelhada, como mercúrio, abrindo a embalagem — Isso aqui vai arder um pouco.

— Com os punhos? — Observei melhor o que estava fazendo. Nossas testas quase coladas.

— Sabe o que dizem... — ele sorriu — Todo mundo tem uma opinião formada até levar um soco na boca.

Jungkook aplicou uma quantidade significativa do remédio nos arranhões como um pintor executando os detalhes finais de sua obra, provocando um ardor imediato, mas, curvado sobre meus joelhos, ele soprou delicadamente os machucados.

— Tá ardendo muito? — Seus olhos se ergueram minimamente entre as minhas pernas, os cílios escuros batendo um contra o outro, o contraste entre o ardor e o alívio durava o segundo necessário que Jungkook respirava, retomando a tarefa delegada a ele. Eu nunca havia sido tratada daquela forma, como se merecesse amor.

Seu movimento permitiu que eu visse, pelo tecido de sua camiseta, as cicatrizes rosadas em suas costas, talhadas na sua carne. Eram recentes.

— Acho que consigo suportar. — Afirmei, apoiando a mão em seu ombro de novo.

Jungkook orquestrou um curativo desajeitado, feito com gaze, colando as pontas com um esparadrapo amarelado.

— Posso perguntar uma coisa? — ele começou, colocando os itens de volta na maleta de primeiros-socorros. — Por que você tem medo de mim?

A hesitação era palpável; poderia agarrá-la pelos ombros, se erguendo entre nós dois, e arremessá-la para longe.

Eu... eu não tenho medo de você.

Ele correu os dedos pelos cabelos, puxando-os para trás. Amava a observação perspicaz que tinha dele, assim, tão de perto, como uma adoração silenciosa e beatífica.

— Você sempre foge quando estou por perto, acha que não percebo?!

Engoli em seco.

— Suas aproximações me confundem.

— E por quê?

— Você nunca me notou e agora, — desviei meu olhar do seu, tão incisivo. — Em todo lugar que olho, lá está você.

— Isso te incomoda? — ele se curvou um pouco, a luz parecia eclipsada por trás de sua silhueta, ocultando os olhos, mas sua postura era inquisitiva. — A minha aproximação?

Poderia dizer com todas as letras que, silenciosamente, adorava e esperava por aquilo; a cada passo dado na direção oposta, esperava dois movimentos em minha direção.

— Eu só não entendo o motivo. — Enfiei as mãos para dentro do couro da jaqueta, sentindo a camurça levemente desfiada dos pulsos afagarem minha pele.

— Você desperta minha curiosidade, eu não sei. — Seus dedos roçaram contra os meus. Senti um arrepio percorrer o corpo inteiro. — Acho que é um motivo válido.

Ele alcançou minha mão, retirando do bolso o anel do humor que havia comprado da hippie no 4 de Julho e encaixando em meu dedo indicador. O mesmo que havia jurado que não aceitaria.

— Queria saber interpretar melhor o que você sente. — Sua mão correu pelo meu cabelo, afastando uma mecha para trás do ombro. O choque da realidade, tão similar ao que já havia imaginado, um filme de final previsível, agitava tudo por dentro como a rebentação de uma maré. Incansavelmente eu procuraria sua delicadeza em outros homens, o mesmo som da risada, a voz, o cuidado, os detalhes — os seus dentes frontais levemente proeminentes, os seus cabelos negros, longos, recaindo sobre os olhos, o véu do meu paraíso; o repuxar charmoso do seu lábio inferior durante a fala, mordiscado ao sentir prazer; a curva sutil do seu nariz tão especialmente adorável que se alongava para baixo como um ponto de exclamação —, o coração, particular demais para ser replicado em outros corpos, outras almas, mas ainda amaria cada um como se fosse o dele. Porque, inegavelmente, todo amor que conheceria, viria da mesma fonte, ainda suplantada em minha carne, — você.

A resposta era óbvia e não precisava de uma interpretação minuciosa, uma leitura nas entrelinhas, significados dúbios, substituídos: estava, lentamente, me apaixonando por ele.

Olhei para a pedra outra vez e o espectro de cor permanecia inalterado: ainda o misterioso tom de lilás. Meu coração apertou.

— Jungkook, — falei, e ele se aproximou, sua respiração suave tocando meus cílios. — eu acho que preciso ir para casa.

A quebra de expectativa foi como o ruminar de algo maior, em modo silencioso. Minhas mãos buscaram amparo em seus ombros quando ele me ergueu outra vez, apoiando meus pés no chão com cuidado.

— Tá ficando tarde mesmo, — enfatizou. Não quero deixar sua eomeoni preocupada.

Ele caminhou até o armário, depositando a maleta de volta em seu lugar de origem. Tentei tirar o excesso de areia acumulada no banco, empurrando para dentro de minha mochila, como uma idiota. As luzes se apagaram, lentamente, como um sensor de proximidade enquanto ele voltava para o carro. O barulho ruidoso do motor me assustou.

Os portões automáticos da garagem abriram outra vez e em poucos minutos, estávamos cruzando a rua silenciosa de novo, não era mais do que onze e meia e Roseville repousava; os letreiros do cinema Hook acesos, brilhavam em néon. Tudo em seu devido lugar.

Jungkook cortou pela rua da casa de Taehyung, as luzes do quarto dele, no primeiro andar, ainda estavam ligadas. As árvores passando, disformes, pela janela. Sombras escuras e folhas barulhentas e úmidas.

Cruzamos a Harriet Lane, até a Grace Coolidge, e já podia ver o salgueiro balançando de um lado para o outro no jardim.

— É aqui, não é? — ele perguntou. Assenti. As luzes da varanda ainda estavam acesas. Mamãe estava acordada.

O motor desligado gerou um silêncio tímido entre nós.

— Bom, troque os curativos sempre que puder... — Jungkook enfatizou, batucando no volante — Talvez doa um pouco na hora do banho.

— Vou tentar ser mais cuidadosa. — Meu coração antecipava uma despedida. A esperança corroendo por dentro, feito arsênico nas veias. — Muito obrigada pela ajuda, não sei onde teria ido parar se você... — Tudo parecia atropelado e sem sentido, seus olhos estavam tão fixos em mim que ele podia ver através da pele. — Se você não tivesse me encontrado.

Ele riu.

— Tente descansar, vai ser bom para você. Boa noite!

Concordei, abrindo a porta do carro agarrada aos meus pertences como um escudo: uma mochila coberta de areia e um par de tênis úmidos. Fiquei de pé na grama gelada do jardim, observando-o ali.

— Ei, Monroe, não sei se alguém te disse isto essa noite, — ele começou, curvado sobre o banco do passageiro. — mas você estava linda!

A frase curta agarrou-se à memória, tomada por uma compreensão sobrehumana, desesperada, cuja entonação permaneceria assombrando-me pelo resto da vida.

Seu motor rompeu-se em barulho outra vez, com o pé fincado no acelerador, ele disparou pela rua deixando um rastro de fumaça para trás, desaparecendo. Naquele segundo, de olhos fechados, eu imaginei que aquela era a sensação de ser uma das garotas que estavam suscetíveis a serem amadas, no clímax do meu próprio filme e, silenciosamente, foi tudo que desejei. 


❀ ༄ ઼° ○ ❀ °○ ❀ ༄ ઼°○ ❀


#garotosmiths


N/A: Olá, olá!

Estão todes bem? O tanto que passei nervoso escrevendo essa cena dos joelhos ralados, não tá escrito! Hahaha.

Passando para desejar uma ótima semana e agradecer a quem tirou um tempinho para ler, votar e comentar o capítulo: muito obrigada!

No dia 13 e no dia 27 , teremos mais atualizações de Badlands, espero que estejam animades.

Até breve.

Com amor, Sô.



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