Capítulo 19 - Isla
— Eu não sei que gracinha é essa, mas eu estou realmente ocupada... Então se você me dá licença, vou voltar a trabalhar.
— Espera, por favor! Você é a ex namorada do Laurent Bellini, não é? — Meu corpo automaticamente trava, o que Laurent aprontou? — Eu só preciso que você me escute, pode ser por alguns minutos, eu vim do Japão até aqui...
''Não existe mensagem no Japão?'', penso. Afinal, se ela me achou pessoalmente, encontrar meu perfil seria uma tarefa fácil. Respiro fundo, sentindo todo o meu corpo sofrer com uma descarga de ansiedade e curiosidade, ainda que receio do motivo de uma mulher ter me procurado do outro lado do mundo.
— Tudo bem, você pode entrar? Acho que vai começar a chover e realmente não quero estar aqui fora quando isso acontecer. — Se antes o céu era abençoado por um belíssimo céu azul e sol forte, agora nuvens pesadas começavam a se formar. Minha criança interior questionou se meu humor afetava o clima, ideia descartada rapidamente.
— Claro, só... Um minuto. — A passos leves e rápidos, Sayuri caminhou até o carro que estava parado no beco, e assim que abriu a porta consegui ver uma figura de pouco mais de alguns meses na cadeirinha, aparentemente dormindo tranquilo e alheio a qualquer coisa que estivesse acontecendo ao seu redor.
— Seu filho? — Pergunto, pousando meu olhar no pequeno ser indefeso. Sempre quis ser mãe, mas a vida me jogava para o outro lado a cada novidade.
— Akira. — Sayuri sorriu, orgulhosa pela pequena prole que carregava na cadeirinha. Encaro a criança por alguns segundos, tentando buscar alguma característica familiar, mas sem sucesso algum.
— Bem, podem me seguir. — Passar pelos corredores foi fácil, mas assim que voltamos para dentro do ateliê, todos os olhares curiosos se voltaram para nós, inclusive o de Jonny, que tentou se aproximar, recebendo apenas um gesto negativo meu. Como eu dividia o escritório com Jonny, resolvi levar Sayuri até a sala do café, onde algumas pessoas estavam sentadas.
— Pessoal, vocês podem me dar licença? Obrigada.
Assim que todos saíram, fechei as persianas e tranquei a porta, deixando um Jonny apreensivo do lado de fora. Logo em seguida, sentei no sofá, retirando os sapatos de salto e encarando a pessoa a minha frente, sem saber exatamente como começar a conversa com a desconhecida.
— Então..?
— Desculpe, vou me apresentar adequadamente. Meu nome é Sayuri Mori, sou natural de Tóquio...
Encaro a moça sem muito entusiasmo, estamos em uma entrevista de emprego?
— Por quê você está aqui, Sayuri? — Pulo direto para o assunto principal, sem querer saber os detalhes de sua genealogia.
— Porque Laurent Bellini é o pai de meu filho e eu preciso da sua ajuda para provar que ele está enganando a justiça.
A notícia sobre a paternidade de Laurent me deixa sem chão, porque de fato ele nunca me falou nada disso. O que estou sentindo? Frustração? Confusão? Irritação? Qualquer uma dessas coisas se encaixa. Com a garganta em chamas, não por tristeza, mas de raiva, consigo pronunciar as seguintes palavras.
— Acho que você deveria procurar um advogado.
— Eu já fiz isso mas o Laurent tirou todos os bens do nome dele, disse que não tem nada e está desempregado, por isso não pode ajudar a criar nosso filho. Ele me ofereceu 100 dólares americanos, isso não paga nem alguns dias de despesa com uma criança! — A voz de Sayuri se alterou, claramente ela estava se sentindo impotente e vulnerável.
— Isso é mentira, ele tem uma casa de praia em Malibu e apartamento em Paris, como pode dizer que não tem nada? — Cerro os olhos, confusa com a atitude de Laurent. — Ele nunca me disse sobre vocês, na verdade, parecia bem disposto a voltar comigo assim que regressou aos Estados Unidos. Espera, você é a ''oportunista atrás de dinheiro''?
— É assim que ele está me chamando? Eu só quero o que meu filho tem direito, mas o Bellini me culpa por ter perdido o emprego...
— Como assim? — Indago, mas a criança começa a chorar, o que faz Sayuri perder o foco da conversa por alguns segundos, que na minha cabeça se parecem horas de tanta curiosidade.
— A empresa em que trabalhávamos tem uma política de relacionamento muito restrita, relacionamentos entre empregados são aceitos somente depois de passarem pelo RH e, por fim, devemos assinar um termo de responsabilidade. — E então, um sorriso ressentido se apossou das expressões de Sayuri enquanto ela embalava o bebê em seus braços. — Laurent não quis fazer isso, dizia ser uma besteira, invasão de privacidade e o que tínhamos era muito maior do que uma burocracia, mas assim que eu engravidei, a empresa notou e eu não podia mentir sobre quem era o pai então...
— Ele te culpou. — Concluí sua fala, sem precisar estar em sua cabeça para saber o resultado daquele ato. Enfiei meu rosto nas mãos, tentando respirar fundo. Laurent era tão ruim assim? Ganancioso? Por quê eu nunca enxerguei isso? — Mesmo que ele sempre insista em transar sem camisinha.
— Comigo... Ele... — Sayuri gaguejou, o que atraiu meu olhar. — Não vi quando ele tirou a camisinha, quando percebi, já era tarde demais. Não tomo pílula porque acredito fazer mal, e a do dia seguinte falhou.
— Eu sinto muito, Sayuri. — Foi a única coisa que consegui dizer. Enquanto para os homens retirar a camisinha é algo normal e que visa apenas o próprio prazer, a mulher se sente violada, agredida e sem o direito de escolha. Como Laurent escondeu essa faceta de mim? Porque comigo, sempre foi muito carinhoso e apesar de querer transar sem proteção, respeitava minha decisão de usarmos a camisinha ou qualquer outro método para evitar a gravidez e doenças.
— Está tudo bem. Eu engravidei três meses depois que ele foi morar no Japão, era a assistente pessoal dele e a empresa disse que, dependendo do contexto, poderia ser enquadrado como assédio sexual, fizeram ele assinar a carta de demissão assim que nosso filho nasceu. — Seus olhos estão marejados, consigo ver daqui. — Ele tentou me convencer a dar o Akira para adoção, mas eu me recusei, então ele voltou para cá algum tempo depois...
— Como se nada tivesse acontecido. — ''Você foi tão burra, Isla!'', meus pensamentos me levavam diretamente a noite do meu aniversário, ele aparecendo com a cara mais lavada do mundo, como se tivesse voltado para mim... Por mim.
— Mas eu consegui localizá-lo, ameacei processar para conseguir a pensão mas ele foi mais rápido, e enfim, estou aqui, torcendo para que uma completa estranha me ajude. — Sayuri se aproximou com Akira nos braços. Por algum motivo, estendi meus braços, pegando com todo o cuidado possível o neném, que parece ser tão frágil quanto um boneco de porcelana. Extremamente sonolento, Akira abriu seus olhos, me proporcionando a sensação de familiariedade que procurei mais cedo: ele tem os olhos do pai, um pouco mais puxadinho e contrastando com as mechas escuras da mãe, mas é inegável a presença de Laurent em seu DNA.
— Você fez o certo... Em não dar o Akira para adoção e vir me procurar. — Sei que não tenho voz nenhuma no assunto, Akira não é nada meu, mas sinto que tenho que ajudar aquela família. — Porquê eu vou te ajudar a conseguir tudo que merecem.
Como o plano envolve minha aproximação a Laurent novamente, esperei que todo o ateliê se esvaziasse, com exceção de Jonathan, que foi chamado a nossa pequena reunião e escutou tudo que Sayuri tinha a dizer com toda a atenção possível. Ele já não gostava de Laurent, e a cada coisa que ouvia, sua mão apertava a minha, tentando controlar as emoções.
— E como exatamente vocês pretendem alegar que o Laurent está cometendo fraude?
— Comigo, Jon. Isso significa que eu vou me reaproximar dele, fazê-lo gastar dinheiro em nome próprio, dar forças para que se descuide e deixe claro que ainda tem fontes de renda mais do que suficientes. — Pude ver na mesma hora que Jonny não gostou da ideia, realmente, seria difícil me ver socializando tanto com um ex-namorado, provavelmente ganhando presentes e muitas das coisas que caberiam a ele me dar. — Cartões de crédito, fotos, documentos e por fim... Vou testemunhar no tribunal contra ele.
— Não tem outro jeito? — Sua voz não está chateada, e sim apreensiva.
— Eu já tentei de tudo que está a meu alcance. — Esgotada emocionalmente, Sayuri apertou as têmporas.
— Não se preocupe, Sayuri. Eu vou contratar o melhor advogado para você, vamos conseguir tudo que seu filho merece e tem direito. — Por mais que as intenções de Jonny fossem as mais nobres, ele também estava fazendo isso para me afastar de Laurent o mais rápido possível, eu simplesmente conseguia ouvir seus pensamentos.
— Muito obrigada, vocês dois. Sei que estou pedindo muito mas... — Ela começou, sendo interrompida por um choro agudo de bebê. Pude perceber que o olhar de Jonny se demorou na criança, e aquilo foi uma luz de alerta em minha cabeça, será que ele pretendia ter filhos logo? Sem dúvidas tínhamos que conversar sobre isso assim que o clima estivesse mais leve.
— Sayuri, o Laurent não pode sonhar que você está aqui por algum tempo, o suficiente para eu me reaproximar sem gerar desconfianças, está bem?
Sayuri e seu filho seguiram para uma pousada ali perto, prometendo que ficaríamos em contato. Jonny e eu demoramos para fechar o ateliê, mas assim que entramos no carro, eu segurei sua mão, sabendo que tudo entre nós dois está tudo bem.
Por mais que meus pais estejam em meu apartamento, mando uma mensagem pedindo desculpas e dizendo que dormiria na casa de Jonny essa noite, afinal, está tarde e eu cansada. No local, que está completamente vazio pela ausência de Matthew, tomo um banho demorado antes de me jogar na cama que Jon está deitado. Coloco minha perna em cima do corpo dele, sentindo seus braços me envolverem em um abraço apertado que diz muito sobre o jeito que ele se sente.
— Vai ser difícil te ver com ele.
— Eu sei.
— Sabe? — Ele indaga.
— Sim, mas eu tenho outra certeza.
— Qual?
— Que não é com ele que desejo passar todas as noites ao lado, que me faz acordar e dormir sorrindo, cria borboletas em minha barriga e derrete todas as minhas defesas com um simples beijo.
Jonny sorri, aliviado com minha resposta.
E eu tenho mais uma certeza, que dessa vez deixoescondida em meu peito: O amor é um precipício e eu estou pulando voluntariamente.
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