Capítulo 04 - Isla
Sério??? Jonny Hanton estava ali? Naquele mesmo momento eu tive certeza: estou demitida. Eu e aquele estilista não éramos amigos e muito menos qualquer coisa de foro íntimo, apenas colegas de trabalho e provavelmente fiz algo que não o agradou, será que ele escutou quando eu reclamei do arame de sustentação que fazia a roupa pesar uns bons quilos? Provavelmente o costureiro ouviu e abriu a boca. Tantas hipóteses poderiam ter levado aquele desfecho.
— Desculpa pela demora, eu cheguei o mais rápido que pude. — Explicitei, assim que me sentei na cadeira ao lado de Jonny. Em uma tentativa de comunicação sem palavras, sorri para o estilista, que retribuiu o meu gesto, mas com uma demonstração mais singela e contida.
— Sem problemas, podemos começar a reunião agora, certo, Jonny? — Carolina fechou as revistas que estavam na sua frente antes de pegar um envelope branco, do tamanho de uma folha de ofício e colocar bem no meio de sua mesa. De repente, eu não sentia mais que aquela reunião era minha demissão, mas algo bom poderia vir dali.
— É o seguinte, eu não sou sua chefe e não tenho palavras bonitas para enrolar você aqui o resto da tarde, então... — Jonny basicamente interrompeu Carolina, que mal tinha aberto a boca naquele momento. Ele se virou em minha direção e seu olhar focou no meu, como se pudesse ver meu interior e aquilo fez com que eu engolisse seco ao mesmo tempo que minha respiração se tornou um pouco mais instável. Agora, naquele ambiente completamente iluminado pela luz do dia, pude perceber que os olhos dele eram azuis e intensos, qualquer um se perderia naquela imensidão oceânica e eu não estava imune aquele efeito.
— O desfile de ontem não teve modelos escolhidas ao acaso, todas vocês passaram por um teste e sequer sabiam. — Seu sorriso presunçoso me fez arquear as sobrancelhas curiosa sobre sua atitude, aquilo era moralmente correto? Nos submeter a olheiros sem nossas autorizações prévias?
— Eu não me lembro de ter assinado um contrato autorizando isso. — Seu sorriso, que antes era presunçoso, adquiriu um humor quase que irônico e desafiador. Mas aquilo, invés de me irritar completamente, apenas fez com que eu prestasse mais atenção em suas falas e trejeitos, ignorando minha agente sentada na outra ponta da mesa.
— Você passou, Isla. Quer saber qual o seu prêmio? — Aquela fala dele estava recheada de segundas intenções e meu corpo todo tremeu internamente, como se um calor invadisse cada poro. Carolina limpou a garganta, chamando nossa atenção para ela, que exibia sua típica feição séria de empresária e mulher de negócios.
— O Sr. Hanton está se preparando para abrir duas lojas, uma aqui em Nova Iorque e a outra em Paris. Um grande investimento, milhões de dólares, carreiras em jogo, Isla. — Carol levou uma caneta azul que segurava até do lado do envelope, colocando perfeitamente alinhada com a borda ainda que sua atitude não parecesse muito pensada, mas sim um instinto natural de deixar tudo perfeitamente arrumado.
— Eu quero você como minha modelo, Isla. Quero que represente minha nova loja Jonny Hanton. Ontem à noite, você estava perfeita na passarela, desde sua postura até o jeito que desfilava... Todos puderam sentir que você emanava poder e atitude, é esse tipo de mulher que eu quero representando minha marca, que as outras possam se inspirar, desde garotinhas até as adultas, porquê ao mesmo tempo que seus passos eram poderosos e firmes, havia uma sensualidade e feminilidade que encantaram, não só a mim, mas aos outros presentes.
Eu abri a boca o suficiente para deixar minha respiração passar, isso porquê minha mente estava em estado de choque para que eu reagisse de outra maneira. Até aquele momento, minha intuição dizia que eu ia ser demitida, mas Jonny estava ali, sentado à minha frente, oferecendo o que poderia ser a chance de minha vida. Um verdadeiro tiro no escuro, depositar minhas expectativas tão altas em um estilista cujo estrelato chegou rápido demais, mas podia se esvair da mesma maneira.
— Não sei nem o que falar para vocês dois, sério. Isso significa tanto para mim, Jonny... Vou ser bem sincera, achei que estava prestes a ser demitida e sem entender o motivo disso. Aí você chega e me fala que quer que eu seja uma inspiração para as outras mulheres e represente sua marca? Isso é mais do que eu poderia sonhar nos últimos meses.
Pelo canto do olho pude ver Carolina esboçar um sorriso tanto quanto irônico e perverso, o que aquilo significa? Sua atividade fez eu sentir que havia um ''mas'' ali, algo que tiraria um pouco o doce e suavidade daquela notícia.
— Antes de aceitar, tem que saber de algumas coisas, Isla. — Jonny esticou a mão, alcançando o envelope e retirando o que agora eu sabia ser o contrato. Depois disso, ele me entregou as folhas de ofício para então Carolina assumir o controle das falas.
— Se você aceitar a proposta dele, deixa de ser representada por nossa agência. Isso significa que vai cumprir os trabalhos já agendados e depois disso, nosso vínculo acaba oficialmente. O Senhor Hanton está disposto a pagar a taxa de rescisão contratual e assumir qualquer despesa legal decorrente desse ato.
Claro, Carolina jamais me deixaria trabalhar exclusivamente para um único cliente e aquilo estava na cláusula do meu contrato quando o assinei pouco mais de um ano atrás. Com minha cabeça completamente a mil, dividi minha atenção entre os dois presentes, abrir mão da Boss não era meu plano até então porque a pouca estabilidade do último ano era fruto do meu trabalho naquela agência; Contudo, Jonny e sua proposta são tentadoras ainda que nubladas.
— Comigo você vai fazer mais do que desfilar e ser um rosto bonito nas revistas, Isla. Eu quero transformar o mundo da moda, me inspirar em mulheres reais e não em manequins, o que significa que você vai ter uma pequena contribuição na parte criativa da coleção, que a propósito apresentaremos na Paris Fashion Week, que acontecerá em...
— Exatos quatro meses. Você quer fazer uma coleção completa e digna de ser exposta na Semana de Moda em apenas quatro meses?? Isso é loucura, Jonny. - Arregalei os olhos, incrédula com a ambição do homem, mas me sentindo atraída pelo o que ele oferecia. Uma chance de viver a vida que sempre sonhei e Deus... Isso é êxtase puro, uma corrente de energia atravessando todo meu corpo de uma vez, só com a possibilidade de se realizar.
— É um desafio, e nunca fujo de um. Por quê viver a vida esperando que as coisas melhorem magicamente, Isla? Sem ofensas, Carolina, mas desde ano passado qual foi o progresso que sua modelo fez? Sua agência não dá chance de elas realmente brilharem, tem o que, umas centenas de modelos aqui lutando por qualquer evento?
— Elas escolheram essa vida, Jonny. — Pude sentir que Carolina ficou ofendida pelos comentários de Jonny, que atacavam diretamente seu modo de direção e agência. Só que ele estava certo, desde que entrei na Boss, minha vida estabilizou e só isso, nada de fama ou no mínimo qualquer reconhecimento. Antes que os dois pudessem travar qualquer discussão que não levaria a nada, tirei a tampa da caneta que estava disposta na mesa e procurei todas as linhas marcadas com ''x'', que esperavam minha assinatura em uma atitude um tanto quanto impulsiva.
— Eu agradeço por tudo que você me oportunizou, Carol... Mas está na hora de arriscar mais. Eu quero mais do que tenho e estou apostando que Jonny pode me proporcionar isso.
— Você vai se arrepender, Isla. Trocando uma agência séria com 30 anos no mercado por um cara que está tendo seus 15 minutos de fama? Realmente achei que fosse mais inteligente quando te contratei.
Aquela fala de Carolina foi o empurrão que eu precisava para assinar a última linha do contrato, ela não tinha planos de me fazer mais do que uma modelo qualquer. Encarei seus olhos, empurrando a caneta em sua direção e sorrindo com toda a ironia que podia, mesmo que no meu interior eu fervesse de raiva por estar sendo tão subestimada por uma mulher que nunca saiu de trás da mesa.
— Considere essa reunião como o meu encerramento oficial, está bem? Por que a única coisa que me arrependo é de ter demorado tanto a assinar o contrato do Jonny.
Levantei da cadeira com um movimento abrupto, sendo seguida por Jonny que abriu a porta para que eu pudesse seguir meu caminho. Ao colocar o pé no elevador, uma onda de alívio me atingiu como se eu tivesse tirado um peso dos ombros, ao mesmo tempo que a realidade fez meu estômago embrulhar de nervoso. Apostar em Jonny é algo incerto, mas sua postura animada e sorriso convencido fazem com que eu me sinta viva, além disso, eu também estou apostando em mim e em todo meu potencial.
— Bem vinda ao time Jonny, Isla.
Como em um reflexo, segurei a mão do estilista, apertando levemente e sorrindo completamente extasiada pela oportunidade. Um novo capítulo da minha vida está prestes a se iniciar, e eu nunca estive tão certa de que isso é o que quero. Antes de sairmos do elevador e eu me deparar com um mundo novo, pergunto.
— Quando começamos?
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