03. Tutoria Educativa

EU NÃO IMAGINAVA QUE NOSSA PRESENÇA CAUSARIA TANTO BURBURINHO.

E embora eu tenha ficado o tempo todo com um sorriso no rosto, tentando agradar, sentia-me numa situação desconfortável, pois percebi que todos os olhares estavam recaídos sobre nós enquanto serpenteávamos, com dificuldade, uma estreita viela de barracas rumo à entrada principal da residência da família Mestrinner. Mas esse sentimento parecia estar só mim, já que Carlito era só elogios.

— A Francine sabe mesmo fazer uma festa — ele disse.

— Eu não acho — refutei.

— Ah, não, guria! Não me diga que você vai ficar choramingando a noite toda! Foi pra isso que você saiu de casa?

— Carlito, pelo amor. Você acha que tá certo aglomerar esse povo todo na era das pandemias? Isso aqui tá do jeito que o covid gosta.

— Ai, Vick, entrega pra Deus!

— Tô tentando. Desde a hora que eu cheguei.

— Então se esforce mais.

Reagi espantada quando minha atenção foi fisgada por uma moto estacionada ao lado de um coqueiro.

— Carlito?

— Chora!

— O que a moto do Guto tá fazendo aqui?

Ele agiu com indiferença.

— Sei lá. O que te faz imaginar que eu sei a resposta?

— Não é por nada, mas será que Guto foi sequestrado pelas millernáticas?

— Por que sequestrado?

— Não sei. Talvez elas pretendam promover um novo ato do desapego bem aqui, esta noite.

— Não duvido. Essas malucas amarguradas são capazes de tudo.

— Acho que a gente devia ir embora.

— Embora? Você tá louca? A Fran não perdoaria a gente nunca se fizéssemos isso.

— Ela nem vai sentir falta da nossa presença.

— Pode crer que vai.

Então o choque.

— Ai, meu Deus! — meu coração acelerou quando vislumbrei Guto entre uma viela de barracas, a alguns metros de onde estávamos parados, interagindo de maneira amistosa com um grupo de garotas peculiares. Depois de um breve panorama, avistei uma placa sinalizando que aquele pedaço do gramado estava reservado, exclusivamente, para millernáticas estrangeiras. Isso justificava perfeitamente as razões das garotas ali aglomeradas vestirem-se de modo tão exótico.

Guto abriu um sorriso largo quando me viu.

— Vick! — acenou.

— Ih, alá! — Carlito falou.— Não é que o virgem de Taubaté veio mesmo!

Fiquei inquieta quando Guto começou a caminhar livremente de encontro a mim.

— Droga!

— Que foi?

— Ele tá vindo pra cá. Disfarça.

— É só impressão minha ou a presença do Guto deixou você mexida?

— Eu, mexida?

— É. Mas não julgo.

— Você tá louco, Carlito? Guto é passado. Virou fumaça.

— Relaxa, Vick. Eu entendo perfeitamente o seu lado. Não deve ser fácil estar na sua posição. Seu ex é uma delícia. Uma perdição.

Guto estava acompanhado de outros dois rapazes bronzeados e com o porte atlético quase idêntico ao dele, o que me fez pensar na hipótese de serem capoeiristas também. Um detalhe no trio me chamou atenção de imediato. Eles não vestiam pijamas. Pelo contrário, vestiam t-shirt escura, calça de sarja rígida e um par de coturnos militar, uma combinação de roupas que fugia totalmente do tema.

Guto se aproximou de mim sem cerimônias, me cumprimentando com um beijo no rosto e um abraço afetuoso, que julguei íntimo demais para uma ocasião pública como aquela.

— E ae, como é que cê tá?

— Tô bem.

Carlito, linguarudo que só, não poupou esforços para deixar aquele reencontro ainda mais constrangedor do que já era.

— Guto! Acho que não tive oportunidade de dizer antes. Bem vindo ao Vale!

Guto maneou a cabeça, sua boca amarrada numa linha dura.

— Ah, não, desmancha essa cara, Guto! — Carlito pediu. — Foi só uma brincadeira sem maldade.

Guto, após ignorar essa segunda fala também, se restringiu apenas em cumprimentar Carlito com um aperto de mão bem apertado.

— Nossa! — Carlito falou. — Que pegada forte você tem. Tá treinando todo dia?

— Chega, Carlito! — intervi.

— Chega nada. Guto deve ter muitas histórias boas para nos contar. Não é mesmo, Guto? Conta pra nós. Como anda a vida fora do armário da negação? Quais são as últimas? Qual é o babado do momento? Você e o professor de capoeira continuam bem íntimos ainda?

Um sorriso encabulado surgiu no rosto de Guto.

— Não que isso seja da sua conta, Carlito, mas eu e Alê continuamos sim, bem próximos. Mas a verdade é que essa não é a melhor novidade que eu tenho para contar.

— Qual é então? Tô louco pra saber.

— A Francine me procurou na semana passada para se retratar por tudo que fez comigo.

— Como é que é? Eu ouvi bem? A Fran se retratou com você? Tipo, ela foi lá e levantou bandeira branca, é isso?

— Exatamente isso. Inclusive, o gesto dela foi bem bacana até. Ela me procurou e lamentou o episódio ocorrido no estacionamento do supermercado em nome de todas as millernáticas. O pedido de desculpas me pareceu sincero e por fim fizemos as pazes e acho que nós nos tornamos amigos ou algo bem próximo disso.

— Não é possível.

— Pois é.

— E o que trouxe você até aqui hoje? — eu quis saber.

— Prestação de serviço. A Francine negociou com o Alê a contratação dos capoeiristas para trabalhar na festa hoje.

Os dois que estavam com Guto abriram a boca finalmente.

— Estamos prestando para as millernáticas uma espécie de serviço de segurança pessoal privada — esclareceu o capoeirista que tinha a pele marrom bombom. — Somos quase uma tropa de choque particular.

— Particular e de altíssima confiança — completou o terceiro do trio. — Claro, contando que a loirinha nos pague o combinado pelos nossos serviços.

Não conseguia disfarçar a minha incredulidade.

— Não acredito! Todos os capoeiristas estão aqui?

— Trinta e seis no total, espalhados por toda a festa.

— O Alê veio também?

— Sim. Ele tá lá no fundo dando uma de mecânico. O fusível da máquina de fazer bolhas de sabão que a Francine alugou queimou. Ele tá trocando. Daqui a pouco aparece. Muito bem, a conversa tá boa, mas se não importarem, a gente vai voltar para nosso posto. Estamos conferindo a carteira de vacina das millernáticas. Francine estabeleceu isso como regra de última hora.

— Fran que estabeleceu isso? É sério? Nossa! Fiquei positivamente surpresa agora. Afinal, um evento com este porte, com esse tanto de pessoas, o mínimo a se fazer é exigir comprovação de vacina. Até porque, convenhamos, a covid nunca vai deixar de ser um risco para humanidade.

— Covid? Que covid? Não, não. Fran só autorizou a entrada de meninas vacinadas contra HPV.

— HPV? Por que HPV?

— Vish! Acho que falei demais. Dá licença.

— Guto, volta aqui...

— Até mais tarde, Vick. E aproveitem a festa.

Pronto! Bastou essa breve conversa para que eu fosse lançada para um certo estado de paranoia.

Encarei Carlito.

— Acho que alguém precisa dar um stop na Fran imediatamente.

— Não vejo razões.

— Não vê é? Mas eu vejo. Um monte. Onde já se viu. Convidar a roda de capoeira do Alê para prestar serviços de segurança privada. Exigir das millernáticas vacina contra o HPV. Eu aposto tudo que a Fran está tramando alguma maracutaia.

— Você anda muito neurada, Vick, relaxa. Tente encarar os fatos por outro ângulo. Está claro pra mim que a nossa ilustre miss plus size só está tentando manter a ordem por aqui. Afinal, quem vai se atrever a perturbar a paz das millernáticas correndo o risco de levar um pé na orelha dos capoeiristas?

— Tudo bem, você tem razão. Mas e a vacina contra o HPV como exigência, o que pensa sobre isso?

— Métodos de Prevenção e Controle, Vick Aires.

— Isso não me desce. Não me desce! Tem sujeira debaixo desse tapete. E algo me diz que você...

— Eu, o quê?

— O que você sabe que eu ainda não sei, Carlito? Vai, fala logo.

Carlito revirou os olhos. Depois posicionou o rosto bem próximo do meu ouvido de modo que ninguém além da gente escutasse a nossa conversa.

— Você sabe que para tudo na vida existe uma boa explicação, certo? Bom, vou te explicar o que aconteceu. Alguém espalhou por aí uma fake new sobre um suposto surto de verrugas genitais envolvendo as millernáticas.

— Verrugas genitais?

— É, Vick, bicheira na xereca.

— Ah, tá.

— A notícia foi desmentida no mesmo dia obviamente, porém o estrago foi grande e isso deixou as millernáticas espumando de ódio. Ninguém sabe ao certo a origem desse boato, mas por alguma razão foi associado a um grupo radical de troups, as inimigas mortais das millernáticas, estreitando ainda mais a rivalidade que existe entre elas.

— Fran comentou comigo sobre esse fandom uma vez. São as kapopeiras, né, fãs daquela boyband coreana famosa que tá todo mundo escutando agora...

— As próprias. Tão fanáticas quanto as millernáticas. Até piores, arrisco dizer. Não duvido que foram mesmo elas que espalharam a fake new do surto de bicheira. É a cara delas.

— É por essa razão então que as millernáticas estão apresentando comprovante de vacina contra HPV para entrar na festa.

— Sim. E agora que a senhorita sabe de tudo, tente esquecer o assunto, tá bom. Hoje é noite de alegria. Não é de bom tom estragar isso com assuntos tão desagradáveis.

Nesse instante, risadinhas irromperam ao nosso redor. Observei que algumas garotas cochichavam entre si a alguns passos de nós. Posso estar enganada, mas por um breve momento a impressão que tive era a de que elas estavam tentando estabelecer algum tipo de contato visual com Carlito. Também me chamou a atenção a troca mútua de sorrisos travessos. Evidentemente, achei isso muito, muito esquisito. Será que as millenáticas não sabiam que da fruta que elas gostavam Carlito comia até o caroço?

— Posso saber o que tá rolando aqui? — perguntei a ele.

— O quê?

— Como assim o quê? Essa troca de olhares totalmente constrangedora entre você e aquelas millernáticas. Não vai me dizer que agora o senhor está flertando com meninas também?

— Flertando? Não, eu não estou flertando. Estou apenas fechando negócios altamente lucrativos.

— Do que você está falando?

— Estou vendendo sessões de tutoria para as millernáticas.

— Tutoria? 

— É.

— Que tipo de tutoria?

— Tutoria educativa. É tipo uma sessão de terapia prática. Elas me pagam para ensiná-las sete níveis diferentes de beijo de língua. Você acredita que a procura é tanta que já tenho sessões agendadas até o fim do ano? Estou virando um ícone da administração!

— Benza Deus! Carlito! Que absurdo! Você só pode ter titica de galinha nessa sua cabeça. Você tem dezenove anos e a maioria das millernáticas é menor de idade. Você vai levar uma coça se porventura o pai de uma dessas meninas descobrir.

— Eles deveriam me agradecer isso sim. Não estou simplesmente desentupindo a garganta da filhinha deles. Estou elevando o nível de exigência delas. Isso não é o máximo?

— A maioria dos adultos não pensa assim. Vem cá, por acaso a Fran sabe que você está arrancando dinheiro das millernáticas para enfiar a língua na boca delas?

— Pare de ser alice, guria. É claro que a Fran sabe disso. Foi ela quem idealizou tudo. Você precisa ver como as millernáticas ficam umedecidas durante o beijo nível sete. Elas parecem você quando a gente se conheceu na igreja abandonada lembra?

Contraí o rosto num gesto de perplexidade.

— Carlito, por favor, stop! Acho melhor a gente mudar de assunto.

— Você é quem manda. Minha nossa, Vick! Você tá tremendo!

— Tô com frio. Vamos entrar?

Antes que Carlito dissesse algo, um grito uníssono se fez ouvir, uma reação à aparição de Francine Mestrinner, que surgiu naquele instante na varanda integrada ao pavimento superior da casa. Era uma varanda em vidro, que passava a ideia de muro invisível. Essa "parede invisível", que tinha a função de substituir um parapeito, valorizou ainda mais a aparição de Fran, que surgiu diante de todos dentro de um look de ovelhinha. Uma ovelhinha nada meiga, diga-se de passagem, pelo contrário. Ela não poupou na ousadia e abusou na transparência. Uma produção à altura daquela celebração, cheia rendas, lacinhos e pedraria. Em suma, Fran mostrava para aquelas pessoas todas como era poderoso ser sexy e completamente dona de seu corpo.

Ali, Fran fez um discurso não roteirizado de boas vindas.

— Quem já tá em estado de euforia faz barulho aeeee! 

A resposta foi um ensurdecedor rugido de garotas enlouquecidas capaz de estourar um tímpano de dinossauro.

— Quero ouvir o grito das vacinadaaaasss!

— Vem — Carlito me puxou. — Vamos sair daqui antes que a gente fique surdo.

Meu queixo foi parar no chão quando atravessamos a porta e entramos na casa. Precisei dar um passo para trás para recuperar o ar após ver as condições indevidas que se encontravam os ambientes internos. Não que eu esperasse outra coisa, mas a minha única vontade no instante em que bati os olhos nos ambientes da casa foi a de dar meia volta e ir embora. Se eu pudesse definir o local em uma única palavra, caótico seria a mais adequada.

Provavelmente o acampamento de gente montado do lado de fora foi uma solução encontrada após o interior da residência da família Mestrinner ser inteiramente tomado por millernáticas. Olhando por cima a sensação que se tinha era a de estar diante de uma explosão de garotas no cio. Quantas garotas estavam alojadas ali? Quinhentas? Talvez mais. Bem mais.

Carlito ficou bestificado quando avistou pequenos rebanhos de ovelhas e carneiros, de várias espécies diferentes, adornados e coloridos, circulando pelos aposentos livremente. E eu, boquiaberta, ao ver funcionários fantasiados como anjos da guarda, servindo todo tipo de comes e bebes.

Maquiagens, colônias doces, revistas sobre celebridades, bichos de pelúcia gigantescos, jogos de tabuleiro, troca de confidências, fofocas quentes, risadas escandalosas, uma selfie daqui, outra selfie dali, selfies, selfies, selfies, selfies... Tantas eram as excentricidades que captavam a nossa atenção que perdemos o instante em que nossa receptora surgiu atrás da gente.

— Boa noite, gente! — ela se colocou à frente de nós, de um jeito que ficamos sem ação. — Bem-vindos à festa do pijama! Sou Betânia Salmeirão. Bete, para os íntimos.  É um enorme prazer pra mim recepcionar os melhores amigos da nossa ilustre presidente, Francine Mestrinner.

— Legal — falei. — Obrigada.

Betânia chegou tão pertinho que pensei que ia me beijar.

— Eu estava lá — ela sussurrou.

— Lá, aonde? — perguntei.

— No estacionamento do supermercado. Aquele dia, no ato do desapego. Por você. Por todas nós.

— Você estava lá?

— Sim. Não se recorda da minha carinha? Eu gritava feito uma doida e segurava uma cartolina verde. Espera, deixa eu me lembrar. O que estava anotado na minha cartolina mesmo? Ah, sim: "Não existe nada pior que a fúria de uma Ex-namorada".

— Ual.

— Pois é. E você, Carlitinho? Não vai dizer que se esqueceu também do meu lindo rostinho?

— Como eu poderia me esquecer do rostinho da garota que inaugurou minhas tutorias educativas? Sua boquinha é inesquecível, Bete!

A expressão que surgiu no rosto de Betânia foi tão engraçada. Na verdade ela era cheia de expressões faciais engraçadas, e se somado a sua miudeza, configurava a ela um ar de inocência com malicia, não sei explicar bem. Só posso afirmar com certeza que seu estilo era o vintage. Seu cabelo castanho volumoso, o aparelho ortopédico nos dentes, os óculos quadrados e grossos faziam dela quase uma personagem de um filme teen dos anos 80. Para aquela noite, escolheu um pijama do mesmo tom de azul do fusca de tia Carmem e usava nos pés um par de pantufas roxas. Devia ter 16 anos, no máximo.

— Trouxe o vinho que eu pedi?

— Tá na mão.

— Maravilha! Vou pôr pra gelar. Fiquem à vontade. Ah, e lembrem-se sempre. Todos os segredos revelados na festa do pijama permanecem na festa do pijama.

Carlito sorriu deliberadamente.

— Isso vai ser fácil pra mim. Sou ótimo em guardar segredos.

Antes que Betânia saísse de cena, perguntei a ela onde estavam os pais de Fran.

— Você não ficou sabendo? — ela perguntou na maior naturalidade. — Eles foram participar de um leilão de artefatos indígenas.

Um pressentimento nada bom me invadiu de súbito.

— Leilão indígena? Onde?

— No Estado do Amapá.

— Amapá? — indaguei com incredulidade.

— Caracas! — Carlito reagiu. — Isso é bem longe daqui.

Betânia soltou um risinho malicioso.

— Né. Longe pra caramba!

Betânia se foi e um segundo depois uma garota com traços indígenas passou por nós. Estava nua dos pés a cabeça.

— Menina! — falei com horror. — Cadê seu pijama? Vá vestir uma roupa agora!

A índia me olhou com desdém.

— Na minha tribo não usamos roupa — e saiu.

E a partir de então eu não soube mais o que esperar da noite.

— Leilão de artigos indígenas na Estado do Amapá — Carlito comentou num tom de piada depois de Betânia sumir de vista. — Acho que está explicado como a Fran transformou essa casa numa fábrica de clones sem levar bronca dos pais.

— Nem me fale. Fiquei tão preocupada.

— Eu não.

— Não?

— Não.

— Carlito! Saber que os donos da casa viajaram até o outro lado do Brasil não te deixa preocupado?

— Eu nem esquento mais a cabeça com isso. Fran tem pais permissíveis, ou seja, muitos afetos e poucos limites. Pensei que você já tivesse aceitado esse fato na sua vida. Falando nela, saca só quem tá vindo em nossa direção.

Fran surgiu do meio do vuco-vuco vagamente e ela estava tipo: fa-bu-lo-sa! A prova viva do quanto a nossa vida pode ser louca e divertida. Ela se aproximou de nós dominando a cena, com um capoeirista de dois metros ao seu lado dando-lhe proteção. Ela acariciava a cabecinha de um cordeiro filhote adornado que segurava no colo com o apoio de uma das mãos, a pelugem do animal branca como algodão. Uma pequena tropa de millernáticas vinha logo atrás dela, como uma cortina de sombra. Havia trocado de look. Usava um baby doll azul anil texturado com bolinhas brancas e com acabamento rendado que caia como uma luva quando se tratava de evidenciar suas curvas e formas. Os seios bem acomodados no bojo despertavam inveja de todos que chegassem próximo a ela. Além disso, como se os seios não fossem pouca amostra, o modelito provocante que vestia não lhe cobria mais que quatro dedos abaixo da virilha. As pernas exuberantes e pálidas estavam à mostra assim como a polpa do bumbum. Um par de brincos de argolas, dourado, cravejado e brilhante, combinava perfeitamente com a coroa de miss que ela usava para sustentar o cabelo loiro preso em um volumoso e deslumbrante rabo de cavalo.

Fran fechou a cara quando avistou a gente.

— Eu nem preciso dizer nada, não é? Vocês estão precisamente cento e cinquenta minutos atrasados. Vocês não tem vergonha de extrapolar a tolerância de tempo permitido? Vocês não tem vergonha de magoar sua melhor amiga com um atraso bobo? E pare já com isso, Vick Aires! Não faça essa cara do gatinho do filme do Shrek pra mim, dessa vez não vai colar. Você também Carlito Zanardo, desmanche já esse beicinho. Aaaaah droga! — por fim, ela abaixou a guarda para que pudéssemos lhe dar um abraço duplo. — Como é bom abraçar outra vez meus bebês. Eu juro que tento me fazer de difícil, mas não consigo ficar brava com vocês. Eu só consigo pensar o quanto estamos desprendidos ultimamente e isso definitivamente não é nada bacana. Há quanto tempo nós três não nos reuníamos?

— Ah, sei lá, Fran, umas três semanas?

— Três semanas? Minha nossa! Isso é uma eternidade! Escutem bem. Vocês estão terminantemente proibidos de ficarem longe de mim por tanto tempo assim. Estamos entendidos? Ótimo! E aí, tão gostando da minha festa?

— A festa? — Carlito indagou. — Sua festa está incrível em todos os aspectos!

— É — fiz joinha com uma das mãos. — Tá supimpa!

— Vocês nem imaginam como eu fico feliz em ouvir isso. Organizar essa festa me deu um trabalhão danado, foi muita correria. Mas o resultado tá aí. Agora é só curtir e pensar na próxima. 

Carlito fez menção ao carneiro filhote que estava no colo dela.

— E esse pet ae, Fran? Não vai dizer que é o seu mais novo bichinho de estimação?

— Mais que isso. É o novo xodó da casa. Minha versão animal.

— Que inusitado!

— É.

— Como chama?

— Pesadelo.

— Ual.

 — Ele é muito fofo, né. Tem cinco meses só. Um bebê ainda. Diga olá para eles, Pesadelo! Mostra para esse povo o que é ter educação.

O animalzinho encarou a gente.

— Béééh.

Rimos disso e então mudamos de assunto.

— Estou pensando numa festa na piscina para começo do mês de setembro, lá no rancho do papai — Fran revelou. — Uma vibe mais leve, uma tarde com pôr do sol e tal. O que acham? Topam?

— Não conte comigo! — falei. — Setembro é o mês da excursão do Papa Domingos. Vou ficar quase o mês todo fora.

— Pensei que essa excursão tivesse sido cancelada.

— Não foi cancelada. Foi adiada. Por causa da pandemia. Era para ter sido ano passado. Aí mudou a data. Mais de três vezes, eu acho. Mas acredito que dessa vez ele vem mesmo.

— Que morte horrível deve ser participar disso. É programa de velho.

— Não consegui escapar. Dei a palavra a tia Carmem que eu ia. Seria muito feio não cumprir.

— Que pena! — Fran falou. — Setembro é o aniversário de cinco anos do meu canal no Youtube. Queria tanto que a minha melhor amiga estivesse junto para comemorar esse feito comigo. A propósito, estou numa fase tão boa, atingindo voos altíssimos. Já são cinco milhões de inscritos e o número só tá que aumenta.

— Legal. Só cuidado com a lei da gravidade. Tudo que sobe muito tende a cair.

— Ah, isso não me assusta!

— Não?

— Não. Nem um pouco. Nem penso nisso.

— Não é possível. Não te preocupa o fato da vida ser uma montanha-russa de emoções?

Fran pensou um segundo.

— Não.

— Um dia a gente tá lá em cima, Fran, no outro lá embaixo. Pode ser que você sofra uma queda. Que saia dos trilhos a qualquer instante e caia de cara no chão.

— Você acha mesmo que eu subiria tão alto sem me certificar antes se todas as travas de segurança estavam bem acionadas? Amorzinho! Meu vagão é blindado com chumbo. Ainda mais agora que estou tendo ajuda da menina Brenda. Sem ela nada disso aqui seria possível. Um anjo na minha vida.

— Quem é Brenda? — eu quis saber.

— Logo você vai conhecê-la, pois faço questão de incluir Brenda no nosso círculo de amizade. Pensa numa pessoa que é pau pra toda obra? É ela. Nossa! Que generosidade! Que coração gigante! Nunca fiquei tão rápida amiga de uma pessoa. Até nomeei ela a interlocutora oficial das millernáticas, de tão prestativa que é. Vocês vão adorá-la, tenho certeza.

Eu e Carlito apenas consentíamos.

— Bom, agora chega de falar de Brenda e vamos falar de mim. Eu quero saber: O que acharam do meu look? Eu batizei de 1% santinha 99% sapeca.

Carlito aproximou-se dela minuciosamente.

— Eu amei! Amei tanto que até me deu vontade de virar hétero por uma noite... — ele a envolveu pelo quadril usando as mãos levemente, aproveitando-se da liberdade que tínhamos entre nós. — Você vira a minha mente, sabia?

— Mmmmm... Jura?

— Juro.

Fran umedeceu os lábios se achando a portadora da cura gay no planeta Terra.

— Prove!

— Demorô. O que você deseja que eu faça?

— Posso pedir qualquer coisa que eu quiser?

— O que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando?

Fran escorregou a pontinha dos dedos no extravagante gorro russo dele.

— Dance pra mim sensualmente. Seduza-me com a sua heterogeneidade recém-despertada.

— Isso é sério? Você está me desafiando, guria?

Fran desvencilhou-se dele com agilidade e caminhou até o aparelho de som que estava próximo da gente. Ela parou a música que tocava naquele instante, em seguida escolheu outra para tocar: Um pop tecnobrega que estava dominou as paradas de sucesso um tempo atrás.

— Arrebenta! — ela disse.

Carlito entendeu o recado, deu uma mordidinha nos lábios e depois rodopiou até a mesa de sinuca, instalada em um espaço atrás do sofá. Ele subiu na mesa sem hesitar e começou a sensualizar no vício da batida da música, chamando a atenção geral. As millernáticas ao redor gritaram surpreendidas. Outras salivaram, cheias de vontade. Algumas se levantaram e dançaram em torno dele. E também teve aquelas que sacaram o celular para filmar o desempenho. Eu, por incrível que pareça, permaneci no meu canto, observando meio de longe. Pensei que seria apenas a dancinha e pronto. Contudo, Carlito foi muito, muito além. Ele queria exibir o corpinho sensual. Ele queria revelar o que estava escondido dentro do seu robe de seda. Então, num movimento lento e provocante, se despiu. Meu Jesus amado! Fiquei totalmente desacreditada diante da cena, especificamente com aquilo que pendia abaixo do abdômen trincado dele: Uma cuequinha cinza com formato de cabeça de elefante, com uma tromba protuberante que descia até a metade da sua coxa. Todo mundo foi à loucura com essa imagem. Tive que me segurar para não ter um ataque de riso na frente de todos. Principalmente quando Carlito deu uma surra de tromba no rosto de Betânia. Aquilo foi engraçado demais. Engraçado de passar mal.

A aglomeração de garotas dispersou-se como uma torrente e Carlito recebeu sua sentença.

— Mandou muito bem! —  Fran elogiou. — Mas sinto em te dizer que se depender de mim você permanecerá gay durante toda a noite.

— Ué, por quê? Não ficou gamada na minha tromba?

— Por que gamaria? Já vi maiores! Além do mais, hoje eu tenho outros planos para mim. E outros para você também, garoto elefante. Sobe lá no meu quarto, vai. Tem um servicinho lá esperando por você.

— Eu vou com ele! — aleguei.

Fran me impediu.

— Vick, não. Você fica!

— É impressão minha ou você não quer que eu saiba o que Carlito vai fazer lá em cima?

— Carlito vai fazer uma boa ação.

— Não é possível. Eu devo ter cara de palhaça. Eu vou junto.

— Pra que ir junto? Atrapalhar a caridade? Controle as emoções, Vick Aires. Fica aqui comigo. É melhor. Vem! Tenho uma surpresa que vai incendiar o coração dessa mulherada.

Eu não imaginava que a surpresa me renderia um  momento de muito nervoso, que me abalaria tremendamente.

— Tomem seus lugares, millernáticas — Fran ordenou. — A hora de surtar chegou. Vamos assistir juntas em primeira mão, e sem entrar no cio, por favor, a estreia do novo clipe dele, do artista mais completo da atualidade, com a voz mais linda de todas, o mais gato, o mais brabo, o melhor dos melhores, enfim, o maior do Brasil, segundo, eu! E não façam essa cara pra mim porque eu sei que vocês todas concordam comigo também. Bom, de quem eu tô falando? Dele mesmo, Fellipe Miller, óbvio, nosso príncipe teen do sertanejo. Mas antes, uma surpresa. Ele, atencioso que só, gravou uma mensagem especial para a gente. Saca só.

Bastou Felippe surgir na tela da tevê com aquela cara de cachorro sem dono para que uma nova leva de gritaria começasse. 

Como o áudio do vídeo estava um pouco ruim devido a filmagem não ter sido gravada com câmera profissional, Fran precisou pedir silêncio total. Assim foi possível ouvir o que Felippe tinha a dizer. Na gravação, ele estava usando uma regata despojada, deixando amostra uma parte do desenho da fênix que ele tinha tatuado no peito.

— Oi, millernáticas. Estou gravando isso para dizer que algumas canções possuem boas razões para existir. Patinho feio é uma dessas músicas. Se você já vivenciou uma situação de bullying eu te aconselho a ouvir o que tenho a dizer. Por dois motivos. Primeiro deles: Ser ridicularizado não é algo divertido, muito menos leve. Ser ridicularizado é como carregar um fardo sobre os ombros. Um fardo lacrado e bastante pesado, bastante mesmo. O segundo motivo é que o número estatístico de meninas e meninos que se entregam ao fogo dessa perigosa agressão psicológica chamada bullying cresce assustadoramente. Portanto, é sempre bom discutir a respeito. Na minha adolescência eu fiz parte desse número estatístico. Eu queimei nas chamas da humilhação do bullying por muitos e muitos anos. Na época que fui ridicularizado cogitei fazer algo contra a minha própria vida, mas não fiz... Não fiz porque não vale a pena. Porque a única razão que realmente importa é aquela que te incentiva a dar a volta por cima. E não as razões que te incentivam a se esconder ou se autodestruir. Patinho Feio descreve essa fase da minha vida e o clipe desta música retrata um momento que vivenciei na adolescência, quando tinha a idade de muitas de vocês. E que me causou questões internas que não ficaram bem resolvidas. Espero de verdade que o clipe toque o coração de vocês. E lembrem-se: O bullying machuca. Nunca façam isso.

Após a mensagem de Felippe, Fran deu play no clipe. E embora eu estivesse inteiramente cercada, por um instante me senti totalmente só no mundo. Eu comigo mesma, apenas com meus sentimentos de remorso. Era meu mecanismo de defesa em ação? Bem provável que sim. Mas talvez fosse apenas uma consequência de todas as lembranças ali desencadeadas. Só sei que dentro de mim borbulhava uma aversão que não pode ser racionalmente explicada.

Quando o clipe terminou mantive meus olhos bem fechados, retida na minha escuridão. Uma escuridão que me arrastou de volta para a noite da festa junina do Ensino Médio, no exato momento em que senti o calor de outro corpo sentando-se ao meu lado. E isso só aconteceu porque todos os detalhes foram mostrados na tela da tevê, sendo muitos deles, distorcidos. 

— Isso ficou tão épico! —  Fran falou com fascínio.

Minha cabeça permaneceu nas nuvens por bastante tempo. Por que diabos Felippe fez aquilo comigo? Ele não tinha direito de transformar uma história que tanto tento esquecer em roteiro de videoclipe. Aquela história não pertencia apenas a ele. Pertencia a mim também. Pertencia só a gente! E agora pertencia a todo mundo. E isso só fez com que o ranço instaurado em mim aumentasse ainda mais. 

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