04 - SENTIMENTOS HUMANOS

AZAZEL.

Adentrei os Salões do Inferno com passos firmes e determinados, a atmosfera dali sempre era cheia de nuances sombrias que nunca me assombraram, até porque eu ajudei a construi-las assim. Quando entrei na Sala do Trono avistei a rainha sentada ao trono com seus três guardas prontos para qualquer problema.

Atualmente quem governava o inferno era a filha de Lúcifer. Na verdade, o Diabo tinha muitos filhos espalhados pelas dimensões, mas Katrina tinha canalizado seus poderes de maneira sublime por isso quando se encontraram ele fez um acordo com ela para que ela ficasse no inferno. Os boatos diziam que Katrina era uma bruxa e vivia na Romênia, ela fazia um trabalho para a Igreja, esse trabalho envolvia seduzir e investigar criaturas sombrias. Vampiros, lobos... Criaturas que tinham sangue demoníaco. Dizem que um de seus amigos, um vampiro foi enviado para o inferno por engano, o nome dele era Sam, Lúcifer prometeu que o libertaria se ela abrisse mão da liberdade no mundo superior.

Foi assim que Katrina acabou no trono e seus vampiros viraram seus guardas; Sam, um homem alto musculoso e olhos puxados e longos cabelos lisos e escuros; Peter, um rapaz de estatura média, ruivo de sardas e Joseph que era alto e esguio, sua pele era parda e seu cabelo era curto deixando que só seus olhos verdes chamassem atenção.

Aproximei-me do trono fazendo uma reverência. Apesar de ser um dos demônios maiores, isso não significava que eu iria faltar com respeito a pessoa que meu soberano Lúcifer tinha escolhido para governar em seu lugar.

— Agradeço por me receber, minha rainha — murmurei encontrando seus olhos fixos nos meus. Ela tinha olhos vermelhos e brilhantes assim como o pai. Aquele era o contraste perfeito para com a pele alva e os cabelos cacheados escuros que pareciam maiores cada vez que eu a via.

— Me contaram que você ainda não entregou a alma com quem fez um pacto recentemente. Está a escondendo de nós, Azazel? — Sua voz era suave, mas sem dúvidas cheia de autoridade.

Mesmo tendo vivido como humana, aparentemente Katrina não teve problema nenhum em se virar como rainha do inferno.

— Foi um pacto por vingança. — Expliquei vendo-a levantar a sobrancelha. — É uma alma pura que fora corrompida pela vingança, quero que ela esteja presente no processo dos problemas inacabados para ver até onde ela continua pura.

— Ela já usou das palavras para lhe prometer a alma, não tem como não estar corrompida.

Os seguranças e a rainha trocaram um olhar. Os demônios murmuravam por aí sobre os laços que uniam Katrina e seus vampiros, especulavam que seus guardiões eram seus amantes. Aquilo não era da minha conta, mas vendo a maneira como se olhavam não era difícil de imaginar tal coisa.

— Sei que ela pode assistir a vingança daqui, mas quero fazer algo diferente desta vez. — Pedi sem desviar o olhar.

Lúcifer já havia concedido aquele tipo de coisa antes, não devia ser tão difícil assim.

Minutos se arrastaram em um silêncio tenso enquanto eu aguardava a resposta da rainha Katrina.

— Tudo bem. — Ela cedeu dando de ombros e piscando os olhos vermelhos — Um de meus meninos irá lhe fazer visitas até que essa alma seja entregue.

A menção de seus seguranças me lembrou como eu odiava aquelas criaturas inferiores. Humanos eram uma criação divina com o poder de escolha, eles podiam escolher serem ruins, o que normalmente aconteciam. Mas, vampiros eram seres criados a partir do sangue de demônios, eles estavam abaixo até mesmo do menor demônio na nossa cadeia alimentar e agora a rainha iria colocar um deles no meu encalço? Eu conseguia ter mais respeito por um humano do que por um vampiro.

— Como preferir, minha rainha. — Aceitei juntando todas as forças. Anna precisava de mim para finalizar sua vingança, era só por isso que eu estava aceitando aquilo.

— Azazel, — meu nome fora pronunciado como se ela estivesse chamando minha atenção, o que me fez levantar a cabeça vendo seu rosto sério me olhando como se fosse me atravessar. Tal pai tal filha. — Eu vivi no mundo humano por muitos anos, você também. Cuidado ao desenvolver sentimentos muito parecidos com os deles.

Franzi o cenho tentando entender o que aquela frase significava e observei seus seguranças darem um passo à frente, prontos para me colocar para fora após o último aviso. Eu assenti com a cabeça mesmo que não tivesse entendido o conselho e me virei para sair, o que Katrina estava querendo insinuar afinal?

Quando voltei a cobertura procurando por Anna observei o sol a pico pela janela da sala. O tempo passava diferente no inferno, por isso avisei a fantasma que iria demorar a noite toda e metade do dia para voltar, mas como agora eu estava ligado à sua alma porque ela a havia me entregado era fácil encontrá-la. Difícil fora entender por que ela escolheu realmente ficar na cobertura e não sair por aí atrás de bisbilhotar a vida da família de quem ela queria vingança.

Encontrei a loira dentro de um dos quartos. Mais precisamente do meu quarto, não que eu precisasse dormir, mas eu o utilizava para outras coisas. Ela estava de pé, de costas para a porta encarando a parede do local. Lá estava a pequena silhueta humana encarando artefatos sexuais expostos na parede como se fosse um museu do sexo, podia apostar que seu rosto estava franzido.

Ela era pura demais para aquilo.

Levantei a mão e todos os artefatos sumiram de uma vez fazendo a garota levantar os braços assustada, parecia que estava com medo de ter feito algo errado; até que sua cabeça se virou para trás e eu pude ver o espanto em seu rosto. Uma criança quando era pega fazendo algo errado tinha aquela mesma expressão.

— Você não precisa ficar preocupada com os objetos. Eu apenas os guardei. — Expliquei com um sorriso fraco vendo seus ombros cederem como se um peso saísse deles. — Você ao menos sabe para que eles servem?

— Eu assisti 50 tons de cinza. — Era a segunda vez que ela citava uma obra visual como se isso se assemelhasse a algo a minha volta. — Eu tinha muitos livros do tipo no meu Kindle também.

Para uma alma tão pura era estranho ouvir que ela gostava de ler coisas eróticas. Anna com certeza ficava vermelha lendo qualquer coisa do tipo.

Fui obrigado a dar um sorriso sutil, ela era mesmo uma incógnita.

— Esses artefatos são muito mais do que você viu em filmes ou leu em livros. — Me aproximei calmamente vendo o fantasma da moça estagnar no lugar e levantar o rosto para continuar olhando para os meus olhos como se estivesse hipnotizada. Por que ela precisava me olhar daquela forma? Havia determinação ao mesmo tempo que tinha curiosidade e um pouco de medo. Era o melhor olhar. — Você quer que eu os use em você?

Um cheiro inundou o ar. O mesmo cheiro exótico que eu havia sentido na noite anterior. Por que ela cheirava assim? O que se passava com ela para que esse cheiro exalasse de sua alma? Qual era o sentimento que lhe invadia de maneira tão forte em certos momentos que fazia aquele odor maravilhoso subir até o meu olfato? Fiquei por um tempo próximo de Anna vendo os sentimentos passando por seus olhos até que decidi parar de atazanar seu juízo. Pelo menos por enquanto.

— Pensamos nisso depois. — Balancei a cabeça e lhe dei as costas parando na porta do quarto antes de olhá-la novamente. — De todos os cômodos você quis inspecionar logo o meu quarto?

Os sentimentos que antes inundavam seu rosto sumiram de repente e agora ela encarava o chão. Com passos curtos ela andou até passar por mim na porta, parecia que tinha levado uma bronca. Suas reações eram tão engraçadas para mim.

— Fiquei entediada. Sua cobertura simples tem dez cômodos e três deles são banheiros. Se soubesse qual era seu quarto, teria evitado.

Não era um problema que ela estivesse ali, não havia nada realmente de valor naquele lugar. Na verdade, eu não tinha nada de valor em lugar nenhum. Quando se vive tanto quanto eu, é difícil acreditar que o tempo não vá tomar conta de um objeto valioso.

Observei a moça andar pelo corredor e parei ali a encarando de costas enquanto cruzava os braços.

— Você já sabe atrás de quem quer ir por agora?

Os passos cessaram de uma vez. A pergunta parecia tê-la pega de surpresa, eu não estava vendo seus olhos, mas aposto que tinham sinais de hesitação de sua parte.

— Minha mãe e meu padrasto tinham uma viagem marcada para a Grécia hoje. Não acho que tenham cancelado só porque eu faleci. — Sua voz era carregada de pesar, mas era um pesar tingido apenas pela ânsia da vingança.

Fechando os olhos me aproximei dela tocando as pontas de seus cabelos loiros.

— Você já compartilhou um banheiro de avião com alguém?

Observei seu rosto se contorcer por alguns segundos e então ela finalmente me encarou negando com a cabeça.

— Eu nem gosto de aviões.

Concordei com a cabeça e a mão que antes acariciava seus cabelos eu levei até seu rosto sem que ela demonstrasse nenhuma reprovação. Apenas passei a mão na frente deles e quando a mocinha voltou a abrir os olhos ela percebeu que nosso cenário era diferente.

Estávamos no banheiro da aeronave.

— Como... — Claro que ela nem conseguiu tirar a frase.

Bom, pelo menos pelo tamanho do banheiro eu fiquei feliz em não parecer precipitado. Talvez, em uma aeronave normal nós estivéssemos mais apertados, mas ali parecia um quarto.

— Agora pode dizer que já esteve no banheiro de um avião com alguém. — Sorri em sua direção e levantei o braço o colocando acima de sua cabeça contra a parede. — Seus pais terem dinheiro é uma pena, numa classe econômica talvez estivéssemos mais perto.

O rosto dela se ergueu me olhando soltando aquele mesmo cheiro que eu não sabia identificar o motivo de me atrair tanto. Os olhos azuis e o cabelo emolduravam um rosto angelical demais para que um demônio se atrevesse a corromper.

— Se estar tão perto de mim fosse mesmo seu desejo ou necessidade para o pacto, já não o teria feito?

Um rosto, um olhar e uma vida que não condizia com a personalidade guardada dentro daquele corpo. Era por isso que Anna era tão interessante, havia algo nela por trás de todos os aspectos angelicais, perfeitos e inocentes que contradiziam tudo o que eu pensava. Em certos momentos eu tinha a impressão dela ter um pensamentos mais diabólico que o meu.

Ela não era inocente, pelo menos não mais.

Abaixei o rosto vendo Anna se contorcer, mas seus olhos ainda estavam cravados nos meus. Seu corpo indicava inquietação, aquele cheiro característico inundando o ar me fazendo varrer seu rosto e corpo com os olhos imaginando o que minhas garras e caninos fariam quando a hora chegasse.

— Pense nisso como um banquete. — Me abaixei o suficiente para encaixar o rosto em seu pescoço, soprando as palavras seguintes contra sua pele. — Ninguém come a sobremesa antes do prato principal. 

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