Capítulo 3
— Você vai fazer o que?! — Karen gritou assustando uma outra aluna que passava.
Estava mais que claro que ela não gostou nem um pouco da ideia insana que eu tive. A triste e dura realidade é que nenhuma das soluções que eu buscasse iram ser boas, ou até mesmo propriamente fáceis de agir. Talvez a mais fácil seria não ir, porém essa estava completamente fora de questão.
—Quer que eu falte a festa de quinze anos da minha cunhada?
— Quero. Na verdade, é o que eu espero que você faça. Amanda, isso é loucura! Tem certeza que você não usou nada que o Joca te ofereceu.
— Karen! — a repreendi
— Que horas você vai pegar o ônibus para estar aqui sete horas da manhã na segunda? — Ela perguntou sem forças.
— Eu vou ter que sair logo depois da festa.
— Você é louca — ela resmungou — O Pedro tem que entender, é o espetáculo de FORMATURA. Sabe o quanto isso é importante para sua carreira? Muitos olheiros vêm de diversos lugares nos analisar.
— Mas a festa também é importante Karen! — exclamei
— Mais importante do que seu futuro? Do que seu sonho? — ela me questionou
— Pedro é o meu futuro. — Respondi mais alto do que esperava
Eu raramente me zango o que fez com que ela se assustasse um pouco, para logo em seguida minha amiga respirou fundo e pegou minhas mãos.
— Estou preocupada com você, você vai ficar um caco quando voltar.
— Vou ficar bem. — Menti, não tinha como eu ficar bem eram 18 horas dentro de um ônibus para ir e para voltar tudo isso em 3 dias. O que significava que ficaria mais tempo dentro do ônibus do que na festa.
— Quer mesmo que eu acredite nisso? — ela levantou uma sobrancelha só
— Eu não quero que falem. —Ela franziu a testa sem entender nada — Não quero que digam que eu não o amo.
— Ninguém disse que você não o amava, mas você tem que se amar amiga. Isso é Loucura.
—Você não conhece as pessoas da minha cidade, eles vão falar! Dizer que eu o troquei por um metropolitano, que não sou mais a mesma...
— Quem se importa com fofoca? — Ela deu ombros — Amanda, eu entendo que as pessoas do interior têm problemas em cuidar da própria vida. Mas você não pode deixar que fofocas atrapalhem seu relacionamento e principalmente a sua carreira.
— Mas e o Pedro? Ele vai continuar lá, ouvindo esse tipo de coisa e eu...
— Por que você não vai de avião?
— É muito caro – gemi frustrada me jogando na cama
Eu tinha que ter no mínimo 3 mil para ir de avião, uma vez que tenho que pegar um transporte até Curitiba, então pegar um avião até BH e só então pegar um outro ônibus para minha cidade. Era uma quantidade de dinheiro absurda. Tudo bem que o ônibus não seria tão mais barato, porém ainda era mais em conta.
— Pede para ele pagar a passagem então... — ela falou como se fosse a coisa mais prática do mundo.
– O que? Não!
— Você não disse que a família dele é dona de fazenda de alguma coisa? Então, ele podia comprar uma passagem de avião? Se ele quer tanto que você vá.
Tales tinha sim uma boa condição financeira, mas eu não queria pedir a ele. Meu orgulho não deixava, já não bastava as diversas vezes que ele vinha me visitar ou os presentes caros. Não podia pedir uma coisa dessas.
— Você também complica as coisas, ele é seu namorado há 1000 anos... qual é o problema?
O problema é que todos diziam que eu me aproveitava dele. Meu pai e minha mãe sempre trabalharam para a família do Pedro. Mas diferentes do que todos achavam, nós nos conhecemos na escola, nos apaixonamos e escondemos nosso namoro por quase um ano. Eu nunca quis o dinheiro dele. Nem mesmo quando ele pagou a inscrição para fazer a teste para a escola de dança, eu não queria e ele fez escondido com a minha mãe.
— Eu não quero — disse firme — A bolsa me permite pagar parcelado uma passagem de ônibus então eu vou de ônibus e pronto.
— Esse seu orgulho é difícil. — Ela revirou os olhos — Que seja, quer comprar pela internet? Ou quer ir na rodoviária?
—Me ajuda a comprar pela internet? — fiz beicinho
— Ah garota, você é chata hein!
Dei uma gargalhada e assim terminou a discussão. Nós duas rindo no quarto olhando algumas fotos no Instagram.
No dia seguinte, tudo parecia normal. Pelo menos é o que eu pensava. A passagem já estava comprada e na manhã seguinte eu partiria para o lugar que vivi a maior parte da minha vida. Eu estava ansiosa, mas não de uma maneira positiva. O que me deixava com um medo muito maior das coisas darem errado. Estava pegando minha pequena mochila no cabideiro da sala 8, quando Luciana, umas das diretoras e coreografas do teatro me chamou. Fiquei estática, apesar de conhece-la a muito tempo nunca fui chamada para conversar com ela em particular.
Aproximei-me ainda tímida, vi pelo canto do olho Karen fazer uma cara engraçada enquanto saia da sala. Essa era a única coreografia que faríamos juntas no espetáculo inteiro. E era definitivamente a minha favorita.
— Amanda, Eu estive pensando em fazer mais uma coreografia para o espetáculo. Você quer participar?
Minha respiração travou. Fazer mais uma coreografia? Um solo talvez? Eu nunca tinha sido convidada para fazer um solo, era mais que óbvio o que eu desejava com todo meu coração.
— Sim. — Respondi mais animada o que o esperado a fazendo rir.
— Ótimo, amanhã lá para as 16 horas você pode me encontrar na sala 17 do subterrâneo, vou fazer uma pequena audição.
Luciana me deu dois tapinhas no ombro e saiu a sala. Me deixando ali, completamente em choque. Amanhã as 16hrs eu estarei bem longe da ali como faria a audição. Aquilo não poderia ser real espero essa oportunidade há 2 anos e justamente no único dia que eu terei que faltar eu sou convidada para isso para fazer algo que eu quero tanto. O destino realmente gosta de brincar com a gente.
Sai atordoada e ao invés de ir lanchar com todos fui comer uma maçã sentada em uma escada no corredor do último bloco. Ouvi o bip do celular com inúmeras mensagens provavelmente de Karen, mas eu estava atordoada demais para responder.
Ao sentir meu celular vibrar me surpreendi ao deparar com o número de Ana e não de Karen. Ana. Minha melhor amiga desde o dia que eu nasci, literalmente, nascemos no mesmo dia com apenas algumas horas de diferença. Uma das pessoas que eu mais sentia falta, ter deixado a Ana para trás foi algo extremamente difícil. Antes, logo que me mudei falávamos todo dia, porém quanto mais ficamos ocupadas a frequência foi diminuindo.
Eu não queria atender, porque sabia que no minuto que escutasse sua voz eu iria desabar. Mas eu precisava ouvir sua voz e desabar então quase sem pensar duas vezes atendi.
— FINALMENTE! — ela gritou me fazendo dar um riso forçado — São quase 18 horas, essas pessoas te escravizam...
— Eu não ouvi o celular, está no silencioso. — disse uma meio verdade.
—Pedro me contou hoje que você vem... estou tão animada — ela deu um gritinho — já escolheu o que vai vestir?
— Minha mãe escolheu certeza— Disse sem muita força
— Aconteceu alguma coisa, Nanda?
O choro meio direto na garganta e eu o travei. Não é hora disso Amanda se controla, pensei.
— Não. — Menti porcamente
— Amanda, o que houve? Você não vai poder vir? — ela disse calmamente sem nenhum tipo de raiva ou mágoa.
Foi então que eu contei o que havia acontecido em meio de lágrimas. Sinceramente ainda não sei como ela conseguiu entender o que eu falava por meio de tantos soluços.
— Sabe o que eu acho? — ela disse assim que terminei de falar — que você deveria ser um pouco menos orgulhosa e pedir para o Pedro comprar uma passagem de avião.
— De jeito nenhum.
— Pelo amor de Deus Amanda vocês são noivos.
– Eu sei...
Sabia mesmo? Sempre me pegava questionando. Eu amava o Pedro, mas tinha mais medo do que os outros iam falar do que qualquer coisa.
— Ele não vai se incomodar, sabe disso.
— Não quero, simples assim, vou me sentir desconfortável.
Ela bufou.
— Realmente não te entendo.
— Por favor não conte a ninguém. Não quero que ele se sinta mal.
— Tudo bem – Ela disse seca
—Obrigada. Te amo
—Também te amo, até sábado.
— Até.
Esperei um pouco meu rosto desinchar a última coisa que eu queria é que Karen, Vanessa ou até mesmo Fernanda me vissem chorando. Isso geraria diversas discussões que eu não estava com vontade. Porém assim que cheguei na porta do instituto para pegar o ônibus de volta até nosso alojamento, encontrei as três de braços cruzados no ponto de ônibus me esperando.
— Estava se escondendo é? – Vanessa perguntou enquanto me aproximava
— Não! Estava só resolvendo um negócio na biblioteca.
— Que negócio? — Questionou Karen — Não lembro de ter nada o que fazer na biblioteca às 7 da noite.
— Está insinuando que eu estou mentindo. — falei em tom de brincadeira
— Não. Eu sei que está mentindo — rebateu ela
Revirei os olhos. Karen sempre quer confusão era realmente incrível, por mais que seja extremamente cansativo ter que desviar dela, eu não consigo não me apaixonar por seu jeito único e querer a todos tempos estar do seu lado, essa personalidade acolhedora é extremamente única dela. Impossível de não se apegar. Por conta dela, da Fê e de todos meus outros amigos, os 3 anos passaram depressa.
Por conta das vagas sentei ao lado de Vanessa. Karen e Fernanda ficaram duas cadeiras na frente, elas conversavam animadas sobre alguma coisa.
— Soube que vai para sua cidade amanhã. —Ela sussurrou, eu apenas confirmei com a cabeça e ela continuou: — Você não vai fazer o teste?
Eu olhava para a janela, vire-me abruptamente com os olhos arregalados. Como ela sabia do teste?
— O Jorge vai fazer também. — Ela respondeu minha pergunta mental, Jorge e ela são unha e carne é claro que ela saberia do teste — Você deveria tentar...
—Por favor não conta pra Karen, ela vai ficar me enchendo com isso.
— Acha que só a Karen vai se importar com você? — Fernanda colocou as mãos na cintura–Eu também acho que deveria fazer o teste, vão ter olheiros lá...
– Como se algum olheiro fosse se interessar por mim ...
– E porque não se interessaria? Tá duvidando do seu talento?
-Fê...
- Eu sei, entendo o porquê de querer ir, mas não diga que você não tem talento. O instituto só aceita os melhores e nada menos que isso.
Dei um sorriso. Fernanda era tão meiga. Ela levantou rapidamente e apertou o botão para descer.
- Até amanhã! – ela disse indo em direção a porta.
Fiquei a vendo descer do ônibus. Me sentia frustrada, ao mesmo tempo que sabia que estava fazendo a coisa certa. Meu silêncio até chegarmos no alojamento anunciou para Karen que eu não estava bem, mas ela não disse nada.
Entramos no nosso quarto e eu fui direto pra o chuveiro. Meus pensamentos precisavam a se organizar.
Demorei para cair no sono, imersas nos pensamentos só percebi que realmente havia dormido quando meu celular tocou para que eu acordasse. Levantei-me para me vestir, não iria para nenhuma aula hoje então dava tempo finalizar a mala. Assim que sai do banheiro ouvi Karen falar com alguém no interfone. Será que Vanessa queria alguma coisa?
Bateram na porta, mas Karen nem se mexeu.
-– Vai abrir não? — perguntei, ela deu ombros sem se importar. Continuei dobrando a blusa até que bateram novamente. Bufando fui abrir a porta dando de cara com a última pessoa que esperava.
— Surpresa. — Ela gritou assim que abri a porta.
Falei a primeira coisa que me veio à mente:
— O que você está fazendo aqui?
— Uai, levando minha amiga para casa. — Ela passou por mim entrando no quarto. — Oi Karen! — ela cumprimentou a menina que estava mexendo no telefone calmamente.
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