Capítulo 41

Acredito que a coisa mais dolorosa que existe na vida das pessoas, embora haja várias, para mim é a quebra de confiança. Principalmente quando ela vem de mãe e filho. O fato mais perturbador é quando além dessa quebra, há algo escondido, como um segredo. Certamente, ás pessoas envolvidas sempre afirmam mentiras e tudo vai ficando mais insuportável, até que chega o momento que você descobre tudo e a pessoa mesmo assim nega a verdade, torturando nosso ser, como se aquilo não significasse nada. Então, se um dia, algo assim acontecesse comigo, eu só faria uma coisa, me faria de doido. Embora seja estranha essa reação, é a maneira mais fácil de sobreviver nesse mundo tão cruel, que vivemos. 

— Richard? — Doutor Markson apareceu atrás de mim com uma xícara de café na mão — O que faz aqui na cozinha, a essa hora?

— Longa história — Falei sem jeito — Mas estava procurando você mesmo. Eu tinha uma consulta não é?

— Ah sim, as enfermeiras me disseram que não lhe acharam... — O doutor falou bebendo um gole do café e estendendo a mão para me ajudar a levantar — Está no horário de visita, mas se ninguém vier lhe ver hoje...

— Não vem! Podemos conversar agora? — Cortei a fala dele, nervoso. O chamei, antes que minha mãe retornasse e passasse ali na frente e ele acenou com a cabeça me chamando — Não sabia que havia cozinha nos hospitais...

— Alguns não tem. Porém hospitais grandes onde pacientes passam mais de meses, é sempre necessário haver meios de fornecer alimentação — Explicou Markson guardando a xícara e me oferecendo uma maça que não pude recusar — Richard... Só por curiosidade. Você não sofreu nenhum acidente quando criança?

— Você sabe que eu não lembro nem sobre o dia de ontem, imagina algo sobre o passado... Não é? — Perguntei cruzando os braços sério e depois suspirei — Mas se o fosse o caso, minha mãe teria informado isso quando me internaram...

— Sinceramente, sua mãe não falou com nenhum de nós. Qualquer pergunta apresentada a ela, deixa-a nervosa e ela ameaça desmaiar. Então não a pressionamos em relação a isso... — Explicou Markson pensativo e entramos na sala dele. Ao sentar, percebi que havia uma pasta com meu nome escrito, em cima da mesa — Infelizmente, a papelada que ela deixou, não nos ajuda muito. As informações dizem que você nasceu com perda de memoria. Há alguns sintomas e outras informações, mas foram descartadas, já que o médico que lhe avaliou, ou não existe ou mudou de nome para não ser encontrado.

— Eu já soube sobre isso... — Falei desanimado, enquanto Markson olhava os papeis. Então resolvi explicar a ele sobre minha doença — Esse médico que você mencionou, disse que tenho algo chamado Sindrome de Dory ou perca de mémoria recente. Embora seja algo mais parecido com Alzheimer, ele afirmou não ser possível eu ter essa doença tão novo e por isso, deu esse nome a essa nova doença. Essa síndrome pode ou não ser uma Alzheimer precoce, mas se for isso, eu só tenho 20 anos, os casos registrados, começam só aos 35 anos. Não é algo estranho?

— Estranho não... Eu diria curioso — Markson respondeu, ignorando os papéis e me encarando sério — Como consegue lembrar de tudo isso e não lembra sobre nada da sua infância?

Engoli minha saliva nervoso, segurei o ar, respirando mais devagar, pensei no que eu poderia falar ao Doutor. Sinceramente, eu também não sabia, pois quando alguém me perguntava sobre a doença, eu sempre sabia responder, mas quando era algo sobre mim ou qualquer outro assunto, minha mente ficava em branco... Como se as únicas memorias, que eu tivesse sobre mim e toda a minha vida, fossem apenas de uma doença, que pela reação do Doutor Markson, talvez nem exista... 

— Sinto muito, mas não sei dizer — Falei cabisbaixo e fui sincero mesmo que parecesse mentira — Sempre que tento recordar de algo ou sinto emoções fortes, tenho dores de cabeça. Por isso não me vem a mente essas memorias, mas não sinto nada, falando sobre esse dia que fiz a consulta.

— Quando batemos a cabeça, geralmente muitas informações vão para o sub consciente e ficam lá, outras são apagadas completamente e várias se transformam nesse branco que você vê — Explicou Markson fazendo anotações — Por isso perguntei sobre algum acidente. Não é comum perdemos a memória sem nenhuma uma causa.

— Minha mãe disse que quando nasci, o cordão umbilical enrolou no meu pescoço — Falei encarando o celular que tirei do bolso e abrindo uma anotação salva nele — Por isso faltou oxigenação no meu cérebro e fiquei assim.

— Isso seria ainda menos provável... — Markson levantou a cabeça, me encarou e riu com minha resposta — Se fosse o caso, você estaria andando, falando, você não teria memorias de como fazer isso, seria quase impossível até estar vivo.

— Então o que aconteceu comigo? — Perguntei impaciente — Se nada disso está correto, se o médico que me examinou quando criança sumiu e errou na avaliação, se o que você falando é certo, então o que eu tenho? Por que precisei depender minha vida toda de anotações e ver videos para aprender a ler, falar e escrever e etc... 

— Espera... — Markson falou se levantando e vindo até mim — O que você disse? Ver vídeos? Anotações? Está dizendo que em um só dia, em um curto espaço de tempo, ao ler ou ouvir, ver esses vídeos... Você conseguiu voltar ao normal?

— Mais ou menos... — Falei receoso — Eu tomava medicamentos também, que segundo o médico misterioso, trariam minha memoria de volta e ajudava mesmo...

— Você sabe o nome? — Markson perguntou segurando meus ombros nervoso — A cor, o jeito, o cheiro, sabor... Qualquer coisa.

— Infelizmente não. Eu parei de tomar quando fiz 18 anos. Minha mãe nunca me disse o nome, eu acho... — Falei assustado — Ela levava ele quebrado dentro da água e quase dissolvido... Dizia que era mais fácil de engolir, já que quando eu acordava, isso também era complicado.

— Por que tudo sobre sua doença, sua saúde, seu tratamento e todo o resto, sempre está ligado a sua mãe? — Markson perguntou me saltando e andando de um lado para o outro da sala, parecia buscar uma solução — Não há lógica nessas informações, agora mesmo você consegue lembrar até esses acontecimentos! Se tentar, conseguirá lembrar até outras coisas. Você sentiu alguma dor de cabeça agora?

— Na verdade não... — Falei e pensei em alguns assuntos anteriores, naquele momento, eu estava lembrando até das rosquinhas que comi com dona Teresa. Era estranho, como eu conseguia agora e antes não? — Já não entendo mais nada.

— Vou buscar seus exames, preciso verificar algo urgente — Markson falou nervoso — Não saia daqui, deite naquela maca ali no canto e tente dormir, se conseguir... Quero testar algo também, pode fazer isso?

Afirmei com a cabeça e Markson saiu. Mesmo sem sono, obedeci o Doutor. Deitei e fechei os olhos e como se uma força pesasse sobre mim, logo adormeci. Estava cansado e não percebi, mas dessa vez algo incomum aconteceu, meu corpo estava estranho. Uma cena ocupou minha mente como da ultima vez, havia muitas árvores com folhas alaranjadas, muitas pelo chão, poucas pelos galhos. Uma criança apareceu e correu até mim, mas como se não me visse passou por mim e tentei segura-la pelo braço, porém minha mão passou direto, como se eu fosse algum tipo de alma, fantasma ou espirito. Aquilo me assustou, tentei acordar como sempre, mas novamente deu errado, eu estaria preso naquele sonho por um tempo e dessa vez, eu sentia que realmente precisava ficar e ver tudo que aconteceria ali.

Surpresas estão chegando hein! Boa leitura e até mais ❤

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