Capítulo 2

Nota: Capitulo revisado, qualquer erro a mais, me avise!

Horas se passaram e já estava de madrugada. A rotina de um ansioso não muda, deitar para dormir, não significa que realmente vamos. O que resta no momento, não é o que eu gostaria de fazer, mas isso me dá oportunidade de não me arrepender depois. Eu também poderia organizar meus diários de bordo, que são mais de 100 cadernos de anotações cheios de poeira. É complicado escolher entre algo ruim e outro bem pior, porém, minha mãe ficaria feliz em me ver lembrando sozinho, ao invés de ocupa-la por metade do dia. Não que ela se incomode de fazer isso, gera até boas risadas quando fazemos uma seção de memórias passadas. Por fim, resolvi escrever algo aleatório, para ganhar coragem e decidir se escrevo realmente sobre o dia de hoje.

"Olá Diário de Bordo, eu realmente acho que estou melhorando. Hoje conseguir lembrar onde guardava meus fones de ouvido, minha mãe não precisou procurar por eles ou acabar comparando novos por não achar os antigos. Eles estavam..." Que mentira. Murmurei indignado.

Continue a nadar, continue a nadar... Vamos, você consegue. A Dory lembrou do Nemo. Pensei enquanto tentava lembrar onde estavam meus fones de ouvido para escrever no diário. Eles estavam... É, eu não sei, lembrar antes não quer dizer que vou lembrar sempre... Pronunciei para mim mesmo, arrancando a folha do caderno. Encarei ela por alguns minutos e suspirei.

Amassei o papel em minhas mãos, fui até a janela e o joguei. Eu sempre fazia aquilo na tentativa de acertar bem dentro da lixeira, no canto da casa. Não lembrava, mas em um dos meus cadernos de memórias, registrava que meu sonho era jogar basquete. Infelizmente errei e caiu próximo a lata de lixo... Assim também aconteceu com qualquer sonho meu, caíram em um mar profundo do esquecimento, já que eu nunca poderia realiza-los. Fiquei observando aquilo, pensando como tudo na minha vida dava errado. Como eu sempre errava nas escolhas, nas atitudes, em tudo que eu fizesse.

— O que foi, querido? Não conseguiu dormir? — Minha mãe perguntou entrando no quarto novamente com um cesto de roupa, me assustando — O que está fazendo aí?

— Nada não — Menti, encarando a roupa e tentando não esquecer de descer para pegar o papel e jogar no lixo depois — Parece que você também não conseguiu.

— Estava pensando nos novos vizinhos — Minha mãe falou e depois explicou tudo que houve ontem, achando que eu havia esquecido — Espero que tente, nem que seja um pouquinho... Ir lá, aparecer para eles as vezes, falar...

— Aparecer é uma coisa, falar é outra... Se quiser coloco despertador para lembrar "Todo dia passar na frente da casa dos vizinhos" — Brinquei, rindo forçado e senti um olhar mortal em minhas costas — Não adianta fazer essa cara, não vou falar com eles e não me peça novamente.

— Esquecer não significa perder a educação! Falar "Bom dia" já é suficiente! — Ela gritou saindo, parando na porta antes de bate-la — Só tenta Richard!

Suspirei chateado e triste por minha mãe ignorar o fato que tenho uma doença séria e mal lembro o nome dela as vezes, imagina tentar lembrar todo santo dia os nomes dos novos vizinhos e o que converso com eles... E se me pedirem algo? Vou ter que ficar andando com um caderno, anotando tudo e ficar lendo para tentar conversar. Seria cômico, se não fosse trágico. Que vida injusta essa minha, não tenho um minuto de paz, parece até que me ofereci para servir na 3º guerra mundial e estou sendo acertado por vários canhões.

Lembro da vez que minha mãe me fez fazer amizade com um garoto que morava aqui na frente, eu tive que comparar 7 cadernos, 7! Para lembrar tudo sobre esse garoto e poder conversar com ele. Sempre era algo desconfortável, eu tentava agir normal, mas sempre parecia um total estranho toda vez que nos víamos. Até que um dia, ele perguntou sobre esse clima entre nós. Me obriguei a explicar sobre meu problema e desde então, nunca mais o vi. Pelo menos eu acho que não. Não sinto que fui um amigo ruim, ao menos tentei.

Não sei porque essa é a única memória que tenho... É como a Dory, ela lembrava onde encontrar o Nemo, mas só isso mesmo, como ir até lá ela não sabia. A síndrome de Dory é algo realmente incompreensível, às vezes eu não lembro nem meu nome, não fico triste porque não tenho como lembrar os motivos para ficar triste. Acordo sem saber até como ler ou escrever. Outras vezes sinto uma pancada na cabeça, como hoje e lembro desse amigo que tive. Não lembro o nome dele, nem sua aparência e nem outros momentos com ele, só esse. É uma pena.

— Richard! Pode vir aqui um segundo? — Minha mãe chamou e parecia estar nervosa pela voz e assustada — O mais rápido possível...

— Desculpa estar pedindo isso... — Uma voz falou enquanto eu descia as escadas. Ao notar quem era, congelei no degrau da escada — É que não contávamos com esse imprevisto...

— O-Oi filho, é que os pais da Sammy vão sair... — Minha mãe começou com um sorriso nervoso no rosto, ela já sabia qual seria minha reação — E ela pediu para fic...

— Não! Não dá, infelizmente vamos já sair também, não é? Íamos viajar ou algo assim, não lembra? — Cortei a fala dela, olhando qualquer coisa em meu celular. Tudo para não encarar a garota que parecia me observar — Mãe, podemos conversar rapidinho na cozinha?

— Ah, sim... — Minha mãe respondeu sem jeito — Sammy, querida, senta um pouco aqui no sofá, eu volto já.

— Tudo bem... — Ela aceitou confusa — Perdão o incômodo.

A garota já estava com malas, entrou e sentou no sofá. Isso só podia ser brincadeira. Era a gota d'água! Aquela estranha estava aqui, a menina da casa ao lado, a mesma que minha mãe planejou que eu fosse amigo. Era um sonho, essa era a única explicação, como eu poderia ter tanto azar? Não acredito que minha mãe vai mesmo permitir que ela fique aqui, sabendo da minha doença e das complicações que aparecerão se ela tentar conversar comigo.

— Em minha defesa, eu já expliquei a ela que não pode ficar e dei várias desculpas. Só que a menina disse que era apenas até contratarem uma empregada e ela começar a trabalhar lá — Minha mãe esclareceu sentando em uma cadeira da mesa da cozinha e suspirando — Ela está insistindo muito, disse que os pais só estarão com ela no final de semana e que tem medo de dormir sozinha. Na idade dela, até eu teria, já pensou se alguém invade a casa e tenta algo com ela? É só alguns dias Richard...

— E aqui agora é Hotel? Abrigo? Orfanato? Casa de férias? Nem quartos temos! — Gritei chateado, depois me dei conta que a garota poderia me ouvir. Tentei me controlar e pensar melhor sobre aquilo — Olha, você sabe que não tem como...

— Ela já sabe do seu problema — Minha mãe murmurou baixo — Eu já contei a ela...

— Quê?! — Gritei, atordoado, perdendo o controle de novo — Você contou? Por quê?

— Na verdade, eu descobri sozinha — A garota declarou chegando na cozinha — Não sei exatamente o que é, mas você esquece algumas coisas, não é? Eu achei um papel próximo a sua lixeira.

— Você pegou algo do nosso lixo? — Questionei irritado — Tu é o que? Detetive? Da polícia? Está procurando informações sobre mim para quê? Já na basta está na minha casa a essa hora da manhã, agora isso!

— Eu só peguei por que estava no chão... Poderia ser uma lista de comparas, ou algo importante — Ela explicou se chateando também — E que mal tem eu saber? Ou outras pessoas? Que mal há em esquecer? Você só esquece mais que os outros, isso é normal...

— Isso não é normal! — Gritei, furioso, interrompendo sua fala e batendo na mesa do lado. Então uma lágrima caiu — Você acha normal esquecer o nome da sua mãe? Ou qualquer familiar seu? Esquecer onde mora? Como chegar em casa? Esquecer se teve amigos ou não, esquecer todos os seus aniversários ou qualquer data... Esquecer tudo...

— Calma, querido... — Minha mãe pediu passando a mão nas minhas costas — Não chora...

— Isso não é normal garota! Isso é uma tortura, uma maldição! Uma doença que ninguém entende e julga como bem quer. Mas eu não ligo, não mais... Porque amanhã ou daqui umas horas, eu já terei esquecido de tudo — Afirmei triste, encarando-a bem nos olhos, imaginando o que poderia estar passando na cabeça dela — Quer saber? Eu vou deitar! Mãe, você sabe o que fazer.

— Espere! — A garota pediu segurando meu ombro por trás, fazendo eu me virar — O que eu te fiz, para você ser assim comigo?

— Primeiro, não me toque novamente, nunca mais! — Reclamei me aproximando dela, mas a garota ficou imóvel me encarando — Segundo... Agradeça, estou fazendo isso por você. É o melhor a se fazer, agora vá embora.

— Eu não vou! Vai te matar fazer um favor? — Ela refutou brava — E eu não ligo se você tem problemas ou não. Provavelmente isso é só drama seu...

— Repita! — Gritei furioso a empurrando e ela caiu sentada, pronta para gritar, mas me encarou em silêncio e assustada — Repita se tiver coragem!

— Richard calma! — Minha mãe veio e implorou de joelhos, próximo a garota — Por favor querido, você não é assim...

Me encarei em um espelho que havia na sala e percebi que estava muito alterado mesmo. Sai daquele lugar e não esperei mais nenhuma palavra de ninguém. Subi as escadas, entrei no quarto e deitei na cama. Ouvi minha mãe chorando, pedindo desculpas a garota. Aquilo era insuportável... Era culpa minha e ela estava se desculpando. Eu não havia percebido que estava tão revoltado, mas ouvir a palavra drama sempre me deixava daquela forma. Ouvi alguém subindo as escadas e fui até a janela, não queria conversar com mais ninguém.

— Acho que não há mesmo nenhuma chance de ser sua amiga, não é? — A garota falou de forma gentil, entrando no meu quarto, mas a ignorei e continuei de costas — Desculpa, eu não sou do tipo que desiste fácil. Pretendo ser sua amiga, você queira ou não.

— Primeiro se oferece pra morar aqui, depois invade meu quarto, agora isso. Depois vai fazer o que? — Perguntei incomodado — Você vai além do que a palavra teimosia pode explicar. Isso não é ser persistente é ser intrometida.

— Já ouvi falar em amor a primeira vista, mas ódio a primeira vista é novo — A garota brincou e riu, mas fiquei sério, embora tenha sido engraçado, não podia baixar a guarda — Do que você tem tanto medo, que não pode se permitir ter uma amiga?

— De mim — Me virei pra ela sorrindo, um sorriso triste carregado de dor — Como eu disse, estou fazendo isso por você, te poupando de conhecer alguém pior do que você viu hoje. Agora, se não for pedir muito, me deixe sozinho...

— Eu também tenho medo de mim. Tenho um problema que ninguém pode me ajudar, não há cura e só eu mesma posso me livrar dele, mas não consigo. A qualquer momento posso até morrer... — A jovem explicou e esperou alguma reação minha, infelizmente não pude dar a importância que ela desejava — É... Acho que não liga pra essas coisas, afinal, sou só uma estranha.

— Que bom que entendeu — Sorri e fui até a porta, esperando que ela entendesse, mas parece que estava difícil — Agora, já pode ir? Preciso descansar um pouco, não me sinto bem.

Finalmente a garota desistiu e saiu, me deixando sozinho com minha cabeça prestes a explodir. Deitei na minha cama e fui dormir. Era tudo que eu precisava, fechar os olhos... Aos poucos fui ficando sonolento, meus olhos estavam fechando, era hora de dizer adeus a tudo sobre hoje. Sempre foi assim, todo problema, toda memória, seja boa ou ruim, era só fechar os olhos e apagar tudo em minha mente. Contudo, por algum motivo, meu coração estava inquieto, aquela garota havia me deixado tão desconfortável, que eu já não sabia mais como relaxar para dormir. Felizmente não demorou muito tempo, o desgaste emocional resolveu tudo por mim e por fim, adormeci. 

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