Capítulo 1

Nota: Revisado, mas se encontrar algum erro, me avise!

Continue a nadar... Esse sempre foi meu lema. Não importava o quão difícil estivesse. Não há motivos para desistir, para parar. Se está complicado ou não, se a correnteza é forte ou fraca, se está perdido por aí, não há outra opção. Continue a nadar! É isso! De todos os personagens, esse era o que mais me inspirava. Pois a Dory é um gênio, seu criador principalmente.

Eu sou a Dory e tenho perca de memória recente. Incrível como um personagem me representa tão bem! Pensei assistindo pela centésima vez, o filme Procurando Dory. Mas... Tinha algo importante para eu fazer hoje. Tenho quase certeza, que era pela manhã. O que era mesmo? Dentista? Não... Meus dentes são perfeitos. Talvez o cabelereiro? Até parece! Eu nunca saio de casa.

— Richard! Você não vai descer? Os novos vizinhos estão chegando, precisamos dar uma boa recepção a eles! — Minha mãe gritou da cozinha — Rápido, eu já estou de saída, venha logo!

Ah, era isso. Vizinhos. Pensei entediado. Eles eram o que mesmo? Japoneses? Africanos? Não... Seriam índios? Tenho quase certeza que era asiáticos... Seria um problema não poder dialogar com eles, porém, não é como se eu realmente quisesse isso.

— Richard! — Minha mãe gritou novamente. Apesar de ter uma memória horrível, era impossível esquecer minha mãe, ela grita desde que praticamente nasci, essa era a melhor lembrança que eu tinha dela até atualmente — Vamos!

— Já estou indo! — Gritei de volta pegando o meu celular e descendo, deixei no Google tradutor caso fosse necessário e guardei o celular no bolso — Você disse que eles eram de que país mesmo?

— Americanos, querido. Mas não se preocupe, eles viajam bastante e sabem muitos idiomas, falam português fluente. — Minha mãe explicou ajeitando o vestido para estar com boa aparência diante daqueles estranhos — Fale o português básico, ou nem fale nada, só sorria, já estará ótimo.

— Acho que a senhora é a única pessoa no mundo inteiro, que recepciona todos os novos vizinhos que temos. Não deve ter faltado com nenhum até agora... — Falei chateado, pois era a primeira vez que ela me obrigará a sair com ela — Por que eu preciso ir dessa vez?

— Por que eles querem te conhecer! — Ela respondeu chateada, ao perceber minha birra por não querer ir — E não me pergunte porquê! Vamos. Lembra o que fazer, não é?

— Sorrir e apertar mãos. — Respondi com um sorriso falso e ela revirou os olhos irritada, o que me fez rir — Não se preocupe.

Acompanhei minha mãe até a casa dos estranhos e ao chegarmos na residência deles, pessoas branquinhas de olhos quase puxados nos receberam. Surpreso acabei esquecendo tudo que minha mãe falou anteriormente, até mesmo o país que eles vieram. Mas aparentemente, eram índios ou asiáticos. Entrei primeiro e fiquei imóvel próximo a porta e minha mãe, que resolveu me causar um infarto, me deixou sozinho e voltou para pegar uma lasanha que acabou esquecendo, para comermos com nossos novos amigos.

— Konnichiwa! — Falei nervoso, quando o senhor estendeu a mão me cumprimentando, mas acho que eu errei drasticamente ao perceber que eles ficaram surpresos e depois começaram a rir — Hello?

— Que fofo, ele é tão engraçado quanto à mãe nos contou! — A mulher do senhor disse rindo — Ah anjo, não se preocupe, falamos português. Eu me chamo Samantha e como já conheceu, esse aí é meu marido Apollo.

— Ah, perdão — Respondi ainda segurando a mão de Apollo, que só sorria para mim e continuava me encarando — Então...

— Oh, sim, perdão! — Samantha respondeu percebendo meu desconforto pelo marido não soltar minha mão. Então ela fez alguns sinais com as mãos pra ele, que pareceu mais estar invocando algo, mas ele entendeu e soltou assustado. — Desculpa, Apollo é surdo, embora faça alguns sons, ele não falará, esses sinais são Libras é assim que me comunico com ele. Se quiser, eu te ensino.

— Entendo... Agradeço, falarei depois com minha mãe sobre isso. — Afirmei receoso. Acho que eu ia precisar lembrar aquela informação mais tarde, mas não tinha levado nada para anotar e pegar meu celular agora, demonstraria falta de interesse pelo lugar. — Talvez eu tento aprender em casa, não quero incomodar a senhora.

— Ah, não se preocupe com isso. Sabe, apesar desse pequeno desafio, Apollo sabe ler, pode mandar mensagens pelo celular e vocês podem conversar assim se quiser — Samantha explicou sorrindo — Nossa, quase esqueci! Sua mãe deve estar na porta, com a lasanha em mãos, esperando alguém abrir. Volto logo, se quiser pode conhecer a casa ou ir até o jardim, lá é ótimo.

— Tudo bem. Acho que vou até lá. — Concordei saindo, ao ver Apollo ligando a TV para ver um jogo e eu não era muito fã de futebol — Acho que vou acabar passando mal, se eu ficar mais um minuto nessa casa.

Minha mãe teria um longo trabalho amanhã e todos os dias, para me fazer lembrar disso tudo. Acho que vou poupa-la desse incomodo e evitarei visitar esse povo novamente. Ao menos o quintal deles era lindo, porém não tão lindo quanto o meu. Tinha só uma árvore que começará a nascer folhas, a minha já tinha várias e algumas frutas. Não tinha jarros de flores, nem enfeites, só uma grama recém-plantada. Era meio triste, mas pelo menos tinha um balanço. Será que eles tinham filhos? Não me dou muito bem com crianças.

— Faz tempo que não vejo um balanço. Seria errado me balançar um pouco? Acho que sou um pouco grande pra ele... — Pensei olhando para todos os lados, me perguntando se havia alguém perto — Acho que não tem problema. Possivelmente não irá quebrar e eu não cairia nessa idade, de um balanço.

Sentei e fechei os olhos, começando a me balançar cada vez mais rápido. Indo e voltando sempre na mesma direção, em frente à cerca, já que eu estava de costas para a casa. Aquele momento me fez lembrar a Dory nadando pelo mar, procurando seus pais. "Continue a nadar..." repeti para mim mesmo, sentindo uma paz maravilhosa, até perceber que alguém me observava e acabei caindo de costas do balanço, mas por sorte não me machuquei.

— Achei que tivesse dito, que não tinha mais idade para cair de um balanço. Você está bem? — Seja lá quem fosse, perguntou rindo e a voz parecia vir de alguma janela acima do telhado do primeiro piso. Levantei e dei alguns passos para trás, para ver de quem se tratava. — Desculpa, não queria lhe assustar. Só pretendia dizer olá, mas você parecia estar se divertindo tanto, que fiquei apenas observando.

— Sem problemas! — Respondi rapidamente, nervoso e encarando a menina loira. Ela parecia uma personagem de filme, mas tinha o cabelo acima do ombro, curto demais para ser alguma Rapunzel numa torre. — Você deve ser a filha do casal que conheci a poucos minutos. Perdão sentar no balanço sem permissão.

— Você é tão educado — Declarou a garota sorrindo — Fica aí, vou descer para me apresentar melhor.

— N-Não... — Gaguejei nervoso — Espere!

Acho que mais uma apresentação seria um problema. Eu mal conseguia lembrar do que aconteceu minutos atrás, nem o nome dos pais delas, ou o que eles falaram quando entrei, já não estava mais na minha mente. Eu sabia que o senhor tinha algum tipo de problema. E se ela tivesse também? Melhor eu ir embora, antes que tudo piore. Sabia que era uma péssima ideia sair de casa, mas minha mãe nunca entendeu esse fator de risco, lembrar não era difícil, as pessoas entenderem minha situação que era. Sempre eu era rodeado de perguntas e acabava desmaiando de estresse.

Sem perder tempo, andei até a árvore onde estava o balanço e pulei para me segurar em um galho. Como eu fazia isso frequentemente para pegar frutas das árvores da minha casa, aquilo foi muito fácil. Parecia loucura eu estar fazendo aquele tipo de coisa, por causa de uma simples conversa, no entanto, eu preferia ser louco do que um incomodo. Eu sabia que minha mãe teria que perder várias horas tentando me explicar cada situação e ação minha do dia anterior. Isso era desgastante demais pra ela. Então, subi alguns galhos acima da cerca, olhei bem se não seria um problema pular de tão alto e cair no chão, e como eu não tinha muito tempo, só pulei. Por sorte, não me machuquei muito, só mais alguns novos arranhões pelo braço.

Por mais que eu quisesse ser alguém normal, eu não era. Conhecer pessoas, ter amigos, lembrar de nomes, coisas importantes, acontecimentos, isso não era totalmente possível para mim. Talvez se eu fizesse mais esforço, ainda assim não valeria a pena, não por aquelas pessoas que talvez nem ficassem muito tempo ali. Aliás, eu não perderia nada os evitando, eram somente vizinhos novos, que minha mãe queria causar boa impressão por serem ricos. Sim, era isso e eu um pobre infeliz, antissocial, que não pode ao menos tentar fazer alguma coisa pra agradar a própria mãe. Nunca fui um bom filho, mas tudo bem, desde que eu diminuísse os problemas que causo a mamãe.

Peguei o celular e liguei para minha mãe. Minutos depois ela atendeu. Fiquei em silencio algum tempo e ela também. Provavelmente já sabia do que se tratava. Comecei a chorar me sentindo mal e me arrependendo de ter fugido, eu só precisava ter ficado parado e sorrindo. Contudo, como eu poderia? Como eu conversaria com aquelas pessoas, sem ao menos lembrar o nome da minha mãe, a cidade onde moro, que dia da semana era hoje...

— Desculpa, mas eu não consegui... — Foi a única coisa que consegui dizer a ela, antes de começar a soluçar. — Sinto muito mãe...

— Eu entendo querido, eu entendo... — Minha mãe falou ao telefone e eu sei que mesmo negando depois, ela estava decepcionada — Já estou voltando.

Desliguei o celular e guardei no bolso me odiando a cada lágrima que descia pelo meu rosto. Porque eu era tão inseguro? Tão medroso? Dei alguns passos e alguém me chamou, fazendo eu me abaixar rapidamente. Eu sabia de quem era a voz, então corri imediatamente para dentro de casa, antes de ser visto por cima da cerca, subi as escadas e me tranquei no quarto. Infelizmente essa era minha realidade. Se ela me viu ou não, pouco importava, todos precisavam entender, que eu já estava encarando uma horrível tempestade dentro de mim e tudo que eu menos precisava na minha vida, eram novos problemas.

— Richard? Cheguei! — Minha mãe informou entrando pela cozinha, meia hora depois. Talvez estava se explicando aos vizinhos, pedindo desculpa por mim. — Richard? Já está dormindo?

Eu não conseguia responde-la. Estava triste por ter feito ela passar por tudo isso sozinha. Se ao menos eu conseguisse retornar a casa dos vizinhos e pedir desculpa eu mesmo... Minha cabeça já estava doendo, o que mostrava eu estar por um fio de um provável desmaio. Escutei passos e corri para minha cama, me enrolei todo e desliguei a luz do abajur. Segundo depois minha mãe entrou e veio até próximo a cama, de costas eu fingir estar roncando para parecer que estava dormindo mesmo.

— Perdão querido, já está dormindo... — Ela afirmou baixinho e veio até mim me cobrir com o lençol — Deve ter sido complicado, desculpa te pressionar a ir. Pelo menos dessa vez você saiu um pouco.

— Desculpa... — Pedi chorando novamente — Estraguei tudo...

— A culpa foi minha por exigir mais do que você poderia aguentar — Ela confessou entre lágrimas — E também, eu queria que você fosse amigo da filha deles, você é tão sozinho...

— Você já me é suficiente! — Declarei me levantando e abraçando ela — E eu não me sinto sozinho, mas obrigado por pensar em mim sempre.

Minha mãe sorriu, me deu um beijo na testa e saiu. Eu não esperava as segundas intenções dela, mesmo sendo boas, aquilo me deixou aflito. Será que eu estava sendo um peso na vida dela? Será que ela queria que eu tivesse amigos para assim, poder aproveitar um pouco mais do tempo dela? Eu era muito injusto, talvez fosse melhor mesmo ter amigos. Se isso realmente fosse possível, eu tentaria, mas eu e ela sabemos, que essa não é minha realidade. Espero que minha mãe me perdoe, mas não anotarei o dia de hoje, pois o melhor que eu sempre fiz e posso fazer agora, é esquecer. 

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