Como flores que murcham
Yukino aplicou mais um pouco de verniz no pano desgastado que segurava.
Esfregava entre as bordas das mesas com certa impaciência.
Não era mais pelo fato de estar sendo explorado e, claramente, castigado por não prestar atenção no professor em sala.
E, sim, pelo fato de que a escola sequer teve a decência de fornecer um pano novo.
- Até se eu usasse minha gravata seria mais eficaz -- disse em voz baixa, impulsionando o braço em movimentos repetitivos, girando e girando.
Interrompeu o processo, lançando um olhar para sua colega também penalizada.
Havia um círculo de livros ao seu redor. Certo, mentia.
Havia bem mais do que livros em volta do pequeno corpo. Apenas o tufo de cabelo mesclado -- castanho claro, quase loiro -- denunciava sua posição.
- Esqueceu uma manchinha perto das irmãs Makioka -- indicou com a cabeça, levantando uma sobrancelha em satisfação quando viu as gotículas de água se unirem e formarem uma poça no lugar sujo.
Ele estalou a língua no céu da boca, esfregando o pano.
Quanto mais botava pressão, mais parecia que iria se desfazer. Se recusaria a usar a própria língua para limpar livros empoeirados que poderiam ser achados na internet.
- Você trate de engolir esses pensamentos -- repreendeu, como se fosse capaz de ler cada baixaria que falara desde que entraram na biblioteca.
Se for esse o caso, Emmi provavelmente abandonaria todo resquício de bom relacionamento que eles tinham.
- Mande as irmãs Makiouta sei-lá-o-que engolirem -- retesou as sobrancelhas, contraindo os nervos da testa.
Escutou a premissa de um desabamento, mas Emmi tratou de segurar o caderno antes que desabasse aos seus pés.
Sentou-se, pressionando a bunda contra a cadeira e espalmando a mão na capa nem-tão-conservada-assim de um fichário.
- Você! Respeite os clássicos! -- elevou a voz com descontentamento, repreendendo com a língua entre os dentes.
- Silêncio, insolentes! -- a voz da senhora Tanaka atravessou as prateleiras, alcançando ambos com um arrepio -- Não pensem que estão em uma convenção de manga.
Yukino se encolheu diante da encarada que ela lançou por cima dos óculos redondos e sem fundo.
Quer dizer, tinham fundo. Óbvio.
Mas o olhar vazio da bibliotecária impedia que qualquer um pudesse enxergar além de um imenso buraco.
A boca do rapaz abriu.
- Nem pense em resmungar -- cortou, antes que sequer conseguisse escutar a respiração dele --
- Iríamos precisar vir aqui de qualquer jeito, não? Olhe pelo lado bom...
- Sabe qual é o lado bom? Seria um lado onde não estaríamos limpando semestres de ácaros acumulados entre páginas amareladas e chicletes velhos -- ergueu um pedaço de goma com a ponta dos dedos.
Yukino soltou o pano, tapando a boca com certo nojo declarado.
Emmi transformou os lábios em uma linha dura, sacodindo o pedaço de chiclete sob um guardanapo usado.
- Pelo menos temos uma desculpa para estarmos aqui -- inclinou a cabeça levemente para o lado, como se dissesse não vejo nenhum problema no que estamos fazendo.
- Não precisámos de uma desculpa -- massageou as têmporas com um ar de frustração. Respirou fundo: -- Como estudantes, temos o direito de acessar a biblioteca para pesquisas.
Arrastou um monte de livros para o lado, posicionando as mãos na mesa.
Assim permitiu que ele visse cada traço de seu rosto revolto.
- A desculpa "perfeita" já tínhamos -- afastou as mãos somente para fazer aspas com os dedos, retomando a postura -- Era resolver a sua crise existencial.
- Só tô tentando ajudar -- ergueu os ombros com um ar de inocência.
Ele abaixou a cabeça, aplicando mais do produto que sobrevoou os ares e provocou a parte mais sensível dos seus olhos.
Arrastou o punho pelo canto do olho, limpando as lágrimas intrusas.
- Ei, deixa disso...-- a voz desceu a um tom doce suspeito -- Você perguntou se eu estava preparada, a verdade é que eu nunca posso estar. Não quanto se trata de você.
Num instante a carranca da colega se afundou em arrependimento.
Yukino se sentiu grato pela forma que ela estava lidando. Arrumava paciência do fundo do poço dentro de si, que já havia secado.
Mas quis enfatizar que, não, a água nos olhos não foi por Yue. Ao menos, dessa vez, ele pode afirmar que ela não é a responsável por elas.
- Claramente você não está suando pelos olhos -- insistiu. Um sorriso felino dançava pelo rosa desbotado dos lábios.
- Quanto se trata de mim, né? -- retrucou, desviando do assunto com um arrebitar de sobrancelhas. O cotovelo encostou na mesa, enquanto a cabeça apoiou nas mãos abertas -- Devo ter mais conteúdo do que aquele seu panfleto de viajem.
- Não viaja -- desdenhou com a mão em silêncio. Um resquício de careta pairou nas maçãs do rosto -- A viagem ainda é mais interessante e tem mais coisas escondidas do que você e sua ficção romântica adolescente.
Ele enfim deixou os objetos de lado, se aproximando.
Apoiou os braços na mesa de Emmi, deixando alguns livros se esparramarem pelos lados e bambearem na ponta.
- Não se esqueça que, nesse meu romance adolescente, você é a principal roteirista -- Afinal, quem, além das vozes da minha cabeça, sabe sobre ele?
- Uma pessoa que conseguiu encontrá-la, por exemplo -- disse como se fosse um segredo, rindo de nervoso.
- O que? -- parou até sua respiração, sentindo o tempo desacelerar -- Quer dizer que você não a viu...No parque...Com os patos?
Divagou, evitando finalizar a pergunta.
Com receio de que pudesse chegar a uma conclusão que se forçou muito a ignorar.
A conclusão de que ficara louco.
- Eu...-- começou, abaixando os olhos para as mãos em seu colo -- Não tenho certeza se vi uma garota...
As sobrancelhas de Yukino se encostaram, enquanto o brilho dentro de seus olhos diminuiu.
- Posso mesmo ter visto! Mas não há nada que comprove que era mesmo ela! Havia muito vento e...-- balançou as mãos, buscando palavras que não piorassem a situação.
Palavras essas que, por mais mentiras reconfortantes que fossem, não podiam mais disfarçar a bruta verdade.
- O uniforme -- recapitulou, mencionando o relato de Emmi desde aquele dia.
Se prendeu no resquício que tinha de que, alguém além dele, havia visto a garota.
"Estava meio sentada, com a perna encostando um pouco na água...O que era estranho, porque os patos costumam detestar qualquer senso de proximidade...A saia parecia úmida. Talvez tenha se molhado. É. Água pode ter respingado nela."
Balançou a cabeça, bloqueando os ecos.
- A roupa. O importante é a roupa -- concluiu, trazendo a atenção de Emmi para si.
- Bem, eu achei ter visto um modelo parecido com o da turma de 98, mas já saíram de linha -- brincou com a unha no beiço, reflexiva.
- Ótimo! -- esparramou as mãos no ar com a prévia de uma comemoração contida -- É tudo o que precisamos.
É tudo que temos.
Por enquanto.
No meio do processo árduo de higienização, Emmi chamara Yukino para perto, alegando encontrar alguma coisa promissora.
- Estava repassando algumas páginas do anuário e achei isso -- ergueu a imagem até a altura dos rostos, permitindo que a mesma seja iluminada pela fraca luz da lâmpada.
- Anuário? -- aproximou-se com curiosidade, se debruçando sob a garota com o rosto levemente inclinado para frente.
Na foto em questão havia um garoto de porte alto, sem o casaco do uniforme, cujos cabelos negros se misturavam com os da garota que ele abraçava.
Yukino passou os olhos pela imagem algumas vezes, analisando com um ponto de interrogação enorme na cabeça.
- O que dois alunos de trêlele tem de relevantes? -- um puxão na sua orelha esquerda fez com que ele pigarreasse, dolorido. Levou a mão ao local atingido: -- A culpa não é minha se romance não é meu gênero favorito.
- Disse o apaixonado -- contrapôs com um sorriso amarelo -- Disse que era promissor, não que seria relevante. Você não vê?
Rondou a unha colorida pelos corpos de ambos, traçando círculos invisíveis.
Yukino sondou com tanta força que Emmi jurou vislumbrar um buraco se formar na fotografia.
- Isso é um anuário? -- indagou com a boca seca, precisando de mais uma confirmação para que, enfim, consiga crer.
- Sim -- ela transformou os lábios em uma linha fina. Os dedos se voltaram para a capa dura, fechando e expondo o título bordado em couriço -- Mas esse é da turma de 46.
Yukino se remexeu - o seu estômago se fechara, - trazendo uma sensação de azia na boca, juntamente de um amargor.
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💮 Irmãs Makioka
É um romance escrito por Junichiro Tanizaki, publicado de 1943 a 1948. Trata de uma série de conflitos entre os valores japoneses e ocidentais, tendo como pauta a tradição e a modernidade. As irmãs tentam resolver juntas seus problemas familiares, enquanto tentam arranjar um casamento para a terceira.
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