Aquecido pelo frio

A brisa fria rondava, dando voltas no corpo da pobre criança que havia se perdido no meio de sua fuga esperta, fugindo de crianças nem tão astutas assim.

Era tão pequeno que nem sabia ao certo como conseguira atravessar aquele percurso significativo no meio de uma nevasca.

Não demoraria muito tempo para se dar por vencido e permitir-se unir com o monte esbranquiçado mais próximo.

Levando em conta seu cansaço, a cada passo dado era mais uma energia gasta para prosseguir caminhando contra a neve.

Em respirações entrecortadas e um suspiro de desistência querendo escapar, algo dentro de si muda no instante que seus olhos cansados recaem em uma  estranha menina.

Não precisou de muito para sua atenção ser roubada, afinal até poucos segundos acreditava estar sozinho no vasto bosque.

Agora, aceitou ter errado. Isso permitiu uma pontada de esperança surgir na boca do seu estômago e preencher seu coração semicongelado.

- Olá! -- gritou enquanto aproximava-se a passos apressados, sem hesitar -- Está perdida também?!

Enquanto praticamente corria na direção da desconhecida, ela virou-se com curiosidade após tornar a cabeça para os lados, procurando de onde surgia aquela vozinha esganiçada.

Assim que virou, seus olhos arregalaram-se tanto que suas orbes poderiam facilmente saltar para fora.

A reação do garoto não foi tão diferente só que, ao contrário da menina, ele tropeçou nos próprios pés, perdendo o equilíbrio ao vacilar por alguns míseros segundos.

Persistente, nem ousou parar seu percurso, correndo determinado para ela assim que seu pé reencontrou o chão.

Quase caindo novamente, prendeu a respiração quando deparou-se com os fios brancos como as nuvens fofas do céu azulado de verão.

Era peculiar encontrar uma garota diferente do preto habitual ou marrom escurecido. Mais peculiar ainda era avistar alguém, aparentando estar mais perdido do que ele mesmo, exibir um meio sorriso.

- Oi...-- apoia as mãos nos joelhos, arfando exausto pela corrida -- Não sei se me escutou, mas perguntei se estava...

Levantou o dedo indicador, pedindo um segundo até que se recupere.

Correr no frio parecia requerer mais esforço de suas perninhas curtas. No playgroud, por mais que pulasse do balanço e descesse repetidas vezes, não se cansara tanto quanto agora.

- Perdida? -- finaliza, erguendo a cabeça o suficiente para vê-la.

A garota nada fala, apenas pisca seus grandes olhos cor de anil, lentamente.

Reparou em um pedaço específico de sua orbe, onde curiosamente encontrava-se em uma tonalidade distinta do azulado.

Abanando a cabeça, decide ignorar esse detalhe superficial e focar no que importava. Ao menos por hora.

Yukino indagara a si naquele instante se, por um acaso, ela não soubesse falar. Ou, talvez, ela simplesmente não queira.

Não a julga, até porque ele mesmo evita ter diálogos longos com estranhos, por medo também evitava encará-los.

Entretanto a situação atual era diferente. Sem essa pessoa ele estaria completamente só e, querendo ou não, ela poderia ser sua última salvação.

Sem pensar muito a respeito, começa a gesticular com as mãos.

Nunca imaginou que as aulas de libra que o colégio fornecia viriam a calhar de tal maneira.

Visualizou ela ladear a cabeça para o lado, uma ruga escapando pela sua testa ao contrai-la, forçando seu cérebro a trabalhar e entender o que a criança pretendia dançando.

Pelo desentendimento nítido, expressado de uma maneira considerada cômica para o garoto, toma a decisão de repetir o processo de palavras.

- Cavalo? Está chamando quem de cavalo?! -- ela deposita as mãos na cintura, fechando o semblante e fazendo um bico -- Pois fique sabendo que cavalos conseguem ser mais simpáticos do que pirralhos que tiram meleca.

De imediato para de dialogar, recolhendo as mãos um tanto sem jeito.

- Ei! Eu não sou um pirralho! -- eleva o tom, visivelmente chateado com o apelido nada gentil que acabara de receber -- E pensei que mudas não falassem.

- Eu nunca disse que sou muda -- retruca simplista, pondo um sorriso afável no rosto.

- Se você fosse muda não poderia me dizer -- foi sua vez de refutá-la e fez com grande prazer. Prazer esse que aumentou ao ver sua boca abrir e fechar repetidas vezes.

- Isso não torna você mais que um pirralho inconveniente -- põe a língua para fora, exibindo uma típica careta ranzinza.

Ele olhara aquilo embasbacado.

Não podia crer que ela ainda havia atrevimento ao chamá-lo de pirralho comedor de meleca. Além de soar hipócrita, também ficara desacreditado com a convicção que tinha.

E essa convicção era a respeito de si e sua suposta criancice. A certeza de que o único presente que se enquadre no termo "pirralho" seja ele.

Repuxou o ar frio para dentro dos pulmões, respirando.

Comportamentos valem mais do que idade. Pensara, controlando-se ao máximo para não retribuir a língua dada.

- O que pensou que estava fazendo? Correndo ao encontro de uma estranha? Onde estão seus pais? Saiba que eles podem se meter em um problemão por...-- interrompe seu monólogo entediante, arregalando os olhos enquanto encarava um ponto fixo no chão.

O garoto viu a boca dela se mexendo e, caso não tivesse visto, jurava que não saberia que ela falou algo naquele momento.

- Pode repetir...

- Você veio ao encontro de uma mulher estranha! -- corta a voz dele, virando-se para o garotinho velozmente, fazendo ele reprimir um pulo devido ao susto -- Eu sou essa mulher estranha!

- Ao que parece -- engole em seco, não sabendo se gritava por socorro ou deitava e rolava no chão.

Suspeitara que a segunda alternativa servisse somente para incêndios. O que lhe deixa apenas com uma sobrando, uma nem um pouco aproveitável no momento.

Além de estranha é maluca. Mordeu sua língua contendo a afirmação de escapar.

Afinal, se a mulher fosse mesmo desequilibrada, somente por dizer isso ela acabaria enfiando um punhado de neve por sua goela a baixo. Apesar de ser gelada e fofinha, algo lhe dizia que era menos saborosa do que sorvete.

De súbito ela se abaixou, elevando as mãos até a boca e a cobrindo, possibilitando de vislumbrar apenas o fraco rubor de suas bochechas.

Comovido e com certa pena, por assim dizer, o garoto acompanhou ela. Assim sendo, ambos ficaram abaixados, um na frente do outro.

- Você realmente me viu -- encara o céu desacreditada, com um brilho diferente em suas orbes.

- Também te ouvi -- abafou uma risada, escapando um sorriso mesmo sem saber do porquê de tamanha emoção.

Não sabia explicar, apenas sentia divertimento pelas linhas expressivas da garota desconhecida.

Decidiu ignorar, afinal deveria agradecer por não estar definitivamente só.

Assim que a avistou, uma coisa próxima de esperança o rodeou, sendo forte e brilhante.

Pela primeira vez desde que entrou em contato com a nevasca, pôde permitir-se aquecido.

Aquecido pelo frio.

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