Abraçada pela solidão
❄ PLAYLIST CONGELANTE ☃
Os flocos de gelo caiam cada vez mais e, conforme seus passos iriam aumentando, mais seu corpo adentrava o frio. A sensação de refluxo apenas aumentava.
No instante que seus olhos voltaram ao redor, pôde vislumbrar com um pânico crescente no peito, as pessoas presentes. Pareciam atentas a situação e, simultaneamente, alguns buscavam disfarçar achar graça, prendendo o riso.
Não poderia dizer que nunca sentiu-se intimidada pelas pessoas, mesmo sem ter uma razão aparente, mas naquele fatídico momento, desceram uma tenda em cima de sua cabeça, tornando-se o palhaço oficial daquele circo.
Nem pensou o suficiente. Assim que recaiu sua atenção para o rapaz na sua frente, vagando por seu rosto e sua boca entreaberta. Não foi capaz de esconder o espanto pela ação súbita.
Era a mesma boca que beijara segundos atrás.
E a mesma que cogitara estar rindo de si, zombando.
Acreditava-se que isso não era de seu feitio, entretanto não conseguia pensar em mais nada além da vergonha, dos cochichos nem um pouco discretos e as encaradas evasivas.
Sem deixar de mencionar aquele som com as narinas de quando alguém segurava uma boa gargalhada. A gargalhada, cujo motivo seria ela. A razão pelas reações.
Ser a piada da vez gerava calafrios.
Não suportando, saiu correndo sem pensar, fugindo não só das pessoas, mas de toda atenção indesejada e de toda situação delicada.
Seu primeiro beijo não poderia dar tão errado, poderia?
Claro que sim, pensara. Jamais conquistaria um beijo de Shin tão facilmente. Deveria ter refletido na probabilidade de erro, afinal nem tudo consegue ser perfeito.
Nem mesmo um beijo com sua paixão platônica. Nesse caso, teria mais chances de algo dar errado, apenas foi incapaz de percebe-las, esquecendo-se do mundo ao redor quando encostou seus lábios nos dele, sendo preenchida por um calor reconfortante de verão.
Agora encontrava-se no vasto bosque coberto por neve, resmungando internamente enquanto esfregava seus braços na falha tentativa de esquentar o corpo.
Por que correra com tanta convicção para longe? Bem, não tinha uma resposta para esse questionamento, só o mantinha em sua cabeça continuamente.
Suponha ser pela estranha sensação de estar sendo seguida durante todo percurso e por uma parte sua almejar se perder, assim como os arbustos perderam-se em meio a branquidão.
Somente não estava ciente de que seu almejo seria correspondido. Persistindo mais alguns passos, mesmo com uma pulga atrás da orelha estando dividida nessa ideia, se perdeu por definitivo.
Suas meias não pareciam ter o mesmo efeito que tinham quando ficava em seu quarto, revendo filmes ou vasculhando o catálogo em busca de uma série decente.
Estava perdida e, para piorar, sem seu casaco. Nessas horas seu cachecol, gorro e luvas também faziam falta.
Sim, naquele lugar ela considerava estar completamente despida.
Para de caminhar, diante de um rio congelado. Um rio que nunca vira em toda sua vida, talvez seja pelo fato de que nunca sequer passou por esse lugar, nem mesmo nos dias mais quentes de verão.
Certamente foi uma péssima ideia decidir fazer uma visita durante a temporada mais fria de toda cidade. Não necessariamente a mais fria, mas no estado em que se encontrava, superava qualquer outro inverno.
Prestes a dar meia volta, seu corpo entra em choque e sua mente tem um pane no sistema, ficando praticamente congelada ao vê-lo parado a sua frente.
- Ótimo. Então está explicado -- analisa o corpo dele, com apenas a blusa comprida do uniforme, por cima da blusa de manga curta -- Ao menos não estou ficando louca.
- Devo perguntar o que quer dizer com isso? -- notando a mesma lhe lançar uma típica encarada mortal, virando-se novamente para frente, segura seu pulso por reflexo, não permitindo que se vá -- Tudo bem, estava te seguindo. O que esperava que eu fizesse? Não a deixaria perambulando em uma nevasca sozinha.
- Talvez devesse -- ríspida, desvencilhou de seu toque, nem dando-se ao trabalho de encará-lo antes de começar a se distanciar pelo rio.
Seus passos eram relutantes, entretanto evitava ao máximo demonstrar isso e a dificuldade que tinha de andar por cima da água congelada, sem vacilar. Ás chances de escorregar eram imensas, mas sua persistência era maior.
- Nem ouse pisar aqui -- ameaça, fazendo Shin questionar se sua colega tinha olhos atrás da cabeça -- Seja por qual motivo você tenha vindo, vá embora.
- Pretende ficar para tirar férias? -- debocha com seu sorriso ladino habitual -- O pessoal pode ser maldoso, mas são estudantes. Não há muito o que esperar deles quando se trata...
- Do que? -- vira-se com o rosto destacado em vermelhidão pela raiva ou, quem sabe, seja somente pela friagem -- Definitivamente não me seguiu durante todo esse tempo para dar uma palestra sobre o problema dos estudantes atuais.
Acredite, ela sabia.
E também sabia que, pessoas como eles, não deveriam ter um advogado tão bom quanto Shin. Para uma pessoa boa como ele, simplesmente não deveria ser certo defende-los, sabendo de seus comportamentos questionáveis.
Suas íris cintilaram pelas lágrimas de frustração que ameaçavam escapar.
Mas era justamente por ele ser boa pessoa, que ele não deixará de ser um bom amigo. Por mais que seus amigos não mereçam sua bondade.
Limpou velozmente as lágrimas com as pontas dos dedos, recobrando a postura distante.
- Certo -- massageia a nuca, segurando o olhar da garota irritadiça -- Passou coisas pela minha cabeça e sei que também passaram pela sua. Vim desmenti-las e esclarecer o ocorrido.
O semblante dela era uma mistura de fúria e dor, repleta de sentimentos negativos pairando ao redor de seu corpo, trazendo tensão para a troca de olhares.
- Saiba que não precisa -- corta todo seu planejamento interno, envolvendo discursos e até o rascunho de uma futura declaração -- Provavelmente chamou aquelas pessoas para assistirem "O incrível Shin" em ação.
- Não vou mentir, gostei do título -- elevou a mão até o queixo, erguendo o olhar transmitindo pensar a respeito, entretanto o rosto muda drasticamente ao analisá-la novamente.
Se atreveu a descer os olhos para o corpo de Yue.
Tendo uma espécie de estalo no cérebro, repara na ausência de roupas adequadas. Havia pouco tecido para muita pele.
Os joelhos desnudos adotaram um vermelho, enquanto os ossos trêmulos de suas pernas expostas ameaçavam ceder.
- Onde está seu uniforme de inverno? -- indaga denunciando preocupação, sua atenção era guiada para os membros trêmulos.
- Puxa, Sherlock! Agora conte-me onde está a cidade perdida do ouro -- finge procurar, olhando ao redor brevemente antes de dar de ombros sarcasticamente -- Juro para você que não sabia que estava sem a droga da minha roupa de frio.
- Perguntei onde estava, não perguntei se sabia que estava sem ele. Para ser sincero, não me interessa -- soa direto, como uma estaca de gelo pontiaguda no estômago, abrindo um buraco glacial -- Quero saber onde está.
- Por que? Pretende pega-lo para mim? Que diferença iria fazer? -- arremessa as perguntas, pisando duro, andando alguns centímetros com o dedo indicador apontado acusadoramente para o rapaz -- Sabia que isso iria acontecer, então eu fui a idiota. Não foi você, então pode ficar sem peso na consciência, dar continuidade na sua vida e voltar para a escola. Porque eu sei que você tem noção do caminho.
Levanta as sobrancelhas, um ponto de interrogação enorme formando-se em cima da cabeça.
Confessara que ofendeu-se pela ideia que ela tinha dele. Yue pensava mesmo que abandonaria uma garota sozinha no intenso frio, nitidamente perdida e com as emoções transbordando?
Não faria isso, ainda mais tratando-se dela.
Por mais que sua mente pudesse vociferar em um eco profundo para dar meia volta, seu coração jamais o permitiria sair dali, ao menos não sem Yue.
- Do que está falando? -- abaixando a visão por míseros segundos, arregalou seus olhos -- Certo, tudo bem...Você é a idiota. Agora venha para cá, Yue.
Vislumbrou os instantes em que uma fissura forma-se no gelo, o movimento espelhando-se automaticamente em seu coração.
A atenção parecia estar presa ao perigo que piscava em letras engarrafadas e vermelhadas na sua frente.
Ela não devia ficar por um período significativo parada, caso contrário o chão poderia abrir aos seus pés e seu corpo se chocaria com a água tão rapidamente que Shin não teria oportunidade de segurá-la.
A distância o impedia, trazendo mais riscos caso tentasse se aproximar.
Não perdeu a cabeça pelo fato dela ainda ter oportunidade de voltar sã e salva para o seu lado. Só era recomendado evitar pisar firme e rapidamente.
Ou seja, tudo que ela estava acostumada a fazer. Tudo que ela fez e pretendia fazer durante a conversa acalorada entre os dois.
- O que aconteceu com o apelido? Deve ter sido mais um código do seu jogo besta -- apoia as mãos na cintura, dando mais alguns passos que o afligiram, provocando uma careta -- E, pera, você concordou que eu sou a idiota?
- Não -- engole seco, sentindo o olhar ácido dela queimar sua face, forçando ele a soltar um suspiro e se dar por vencido -- Sim, mas posso ser o idiota...
- Não! Eu sou! -- corrige somente para contraria-lo e manter-se com a última palavra.
- Não importa quem é o que! Venha para cá! -- aumenta seu tom, um silêncio perturbador instalando-se em seguida.
Yue olhava para Shin de uma forma indecifrável, talvez estivesse assustada, surpresa pela forma distintamente voraz que utilizara sua voz, ou talvez os dois.
Após as encaradas intensas, ele parece perceber o que fez. Uma linha formou-se em suas sobrancelhas e o canto de seus olhos franziram.
Não pareceu perceber só do que fez, mas também da situação delicada que a menina logo em sua frente encontrava-se. Parecia não ter reparado até então.
Como foi capaz de cogitar aumentar a voz com ela? Odiou no momento em que aquelas malditas palavras escaparam mais altas do que deveriam, em um tom mais duro.
- Desculpe, eu...-- passa a mão em seus cabelos, puxando os fios rebeldes para trás em um gesto frustrado -- Venha para cá.
Estende o braço, implorando com seu olhar.
Yue nunca viu ele dar aquela encarada para ninguém, muito menos para si. Era a primeira vez e isso a fez perguntar a si mesma se o conhecia tão bem assim.
A boca separou-se, sua pele parecendo ter ficado sensível, gerando arrepios. A junção das palavras com o olhar fez ela sentir como se estivesse tocando nela.
Era diferente, mas, de alguma forma, agradável.
- Por favor -- insiste, seu coração clamando no peito, tentando controlá-lo para não perder a calma e acabar perdendo Yue para a água gélida.
Seus braços na cintura agora já passaram para o seu corpo. Nem sabera que havia se encolhido, o corpo teve a iniciativa sozinho.
Sondou as linhas tensificadas do garoto, enquanto ele era incapaz de evitar sondar a maldita linha que marcava os pés de Yue.
Seus dedos moveram-se, tentados para encontrar os dele.
O pequeno corpo bateu na água, ocasionando um estalo, seguido do forte choque pela frieza que envolvera seu físico. Ficando pesada, imergiu-se na água, com um grito fulminante ao fundo.
A partir daí, ela recorda-se somente das sensações, por uma razão ainda desconhecida, permaneciam frescas. Dificilmente tendo alguma lembrança da situação em si e do confronto.
(Um grito que a perseguiu durante seus próximos pesadelos. Um grito que não era seu)
Relutou para buscar ar por dolorosos segundos, mas tudo pareceu em vão quando suas pálpebras pesaram e a última essência de seu ar foi retirada de seus pulmões.
(A coisa que mais manchava suas memórias, era o desejo de ter segurado a mão dele. Ao menos uma última vez.)
Após o baque, Yue sentiu seu corpo ser recepcionado por algo úmido. E assim foi caindo.
Sozinha.
Abraçada pela solidão.
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