2. A Fuga
Seus olhos da cor de um céu nublado me encaram sem hesitação e em sua mão está o elmo de sua armadura fluoranea. Eu posso sentir de alguma forma a raiva que aquele homem carrega e deixa transbordar de seu peito como se o momento mais esperado de sua vida houvesse chegado. Uma antiga fome de vingança que está prestes a ser saciada. Ele é Jarbas Belshazar, o assassino. Lembro de seu rosto na pintura velha que fora arrancada da nossa árvore familiar, esquecida nas profundezas do Palácio de Vermelho por vergonha e desprezo. Meu tio, um Belshazar, executado por assassinato múltiplo e atentado contra sua própria irmã, Coriander, agora segue em meio à multidão como alguém completamente saudável, em direção à mesa real, enquanto eu permaneço paralisada observando, querendo gritar sem sucesso. Procuro pela mão de meu irmão após dar um passo atrás, sem tirar os olhos de Jarbas, tendo um péssimo pressentimento. Hyrom diz algo que eu não posso entender e então um estrondo se alastra, empurrando para longe todos que estão de pé, destruindo tudo ao redor daquele homem.
Pura magia. Uma magia forte como eu nunca havia visto.
Hyrom e eu tentamos nos levantar imediatamente, mesmo com a tontura e a dor que o baque em nossas cabeças e o barulho alto causou. Olho para minha mãe que está tão surpresa quanto todos. Seu irmão deveria estar morto. Vemos a própria guarda real voltar-se contra o Rei e a Rainha. Coriander se põem na frente de meu pai e ergue as mãos que cercam-se de chamas. Ela está pronta para lutar por nossas vidas, como herdeira do trono, filha da família principal e nossa mãe. Sikar faz o mesmo, mas os guardas apontam suas lanças de luz na mesma hora, ameaçando atacar. Tapo a boca de Hyrom quando ele tenta berrar algo, abafando seus palavreados. São lanças de alta temperatura, que facilmente atravessariam um corpo, as lanças que deveriam estar nos protegendo. Há cinco delas em nossa direção, fora as outras doze que cercam nossos pais.
Aos poucos eles aproximam-se, fazendo o Rei e a Rainha ficarem de costas um para o outro, transformando o medo de minha mãe em ações. Sem arma alguma, apenas com suas chamas mágicas herdadas da nossa família, ela inicia a luta contra vários guardas, seguida de meu pai, com pouco espaço para se defender, enquanto meu tio observa atento seus movimentos e sorri por já saber o final. Por mais que ela e seu marido derrotem os inimigos, ainda teriam que ter energia para enfrentar Jarbas, o que não é bom, pois as chamas esgotam-se muito rápido.
Hyrom está nervoso, o suor em sua mão espalha-se pela minha, ele quer fazer algo à respeito, tentar lutar, mas ele sabe tanto quanto eu que não podemos fazer nada. O príncipe havia esgotado suas chamas na manhã de caça e esquecera de recarregar, e eu não tenho o suficiente para uma luta como essa.
Despreparados, como sempre.
Sikar usa sua espada cerimonial, embora sem fio, para impedir e segurar os ataques das lanças de luz, evitando deixa-las tocar em sua pele e na de sua esposa. Três inimigos caem com seus rostos em brasas por conta das chamas de Coriander. Ela abaixa-se para desviar de uma lâmina que chega a cortar os fios de seu cabelo castanho claro e é atingida na perna por um chute inesperado de um dos outros guardas, derrubando-a no chão. Ela geme de dor e solta um rugido de raiva. Sikar tenta defende-la para que tenha tempo de levantar-se, mas isso o distrai e uma lança perfura sua costa, fritando sua pele. O guarda força a lâmina para a direita até que meu pai caia de joelhos, não suportando.
Engulo em seco. Eu e meu irmão precisamos sair daqui. Acabo movendo sem querer meu pé esquerdo para frente e os guardas aproximam ainda mais as lanças como um aviso, fazendo meu coração disparar. Eu já havia sido machucada com uma lança daquelas brincando pelo castelo na infância, o guarda teve que largar seu posto e correr pedindo socorro, pois o corte em minha perna estava queimando sem parar de dentro para fora. Eu nunca mais consegui se quer ficar perto de uma daquelas armas e agora elas estavam quase encostando em meu pescoço.
Antes que Coriander possa se por de pé, os outros guardas aproveitam sua posição para golpea-la com chutes e mais chutes até Jarbas decidir interromper:
— Já Chega — ele abre caminho entre os traidores da corte e agacha-se para falar com sua irmã — Você continua fraca igual a vadia da nossa mãe quando tentou me impedir da primeira vez — vira-se para Sikar ainda de joelhos e com uma fúria no olhar — Acabou pra você, cunhado — Jarbas estala os dedos e um dos guardas aproxima-se de meu pai com uma faca, segura seu cabelo negro, puxando sua cabeça para trás — Enfim tomarei o que é meu por direito.
A garganta de Sikar é cortada com um único movimento, espirrando gotas de sangue no rosto de Jarbas e Coriander, que grita tão alto e chora ao ver seu amor engasgar-se com o líquido. Ela está fraca, mas de alguma forma tem forças para jogar-se em Jarbas e socar seu rosto.
— Não fique triste... — ele sorri em meio a dor de seu nariz quebrado — Não matarei seus filhos se eles curvarem-se ao verdadeiro Rei.
— NUNCA! — Coriander diz em sua cara, ainda encima de Jarbas segurando seus braços inutilmente. Ela nos olha, eu entendo na hora, ela quer que a gente vá embora.
Não podemos fugir, vão nos atacar! — digo mentalmente como se ela pudesse ouvir.
Coriander toma impulso e vem em nossa direção, largando Jarbas no chão. Ela mal consegue ficar de pé, mas isso é o suficiente para chamar a atenção dos homens em nossa frente. Eles viram-se para se defender da Rainha e no mesmo momento eu aperto a mão de Hyrom e o puxo para correr. Olho para trás por um instante e posso ver Jarbas já de pé com algo em sua mão, ou melhor, aquela coisa pontuda parece ser sua própria mão. Ele a enfia no final das costas de Coriander, afazendo-nos ouvir pela última vez sua voz formando um grito.
O restante da guarda nos segue pelo palácio, mas, por sorte, Hyrom conhece bem uma das passagens escondidas que levam para algum lugar na floresta. Passamos por uns cinco corredores e descemos uma escadaria espiral enorme até encontrarmos uma antiga sala com móveis velhos cobertos de poeira.
— Onde está? — pergunto enquanto olho para cima nas escadas certificando-me de quanto tempo temos até eles nos alcançarem.
— Aqui — Hyrom aperta um espaço na parede e ela se abre — Vamos logo... — ele fala perdendo a força da voz ao notar o ferimento no ombro esquerdo, tapando-o com a mão.
Merda.
— Posso aguentar por algumas horas — diz otimista.
— Hyrom, pode perder o braço...
Meu irmão ignora meu aviso e entra pela passagem; eu logo em seguida e ela fecha-se atrás, mas em todo o percurso fico ponderando entre perguntar-me se mais alguém sabe sobre aquela saída e pensar no tempo que temos antes de Hyrom ter que amputar um membro. Alguns minutos passam-se e nenhum passo além do nosso é ouvido. Me sinto mais segura. Aperto forte no bolso do meu vestido o espelho que ganhei de minha mãe, como se essa força pudesse ajudar-me a não pensar no que havia acontecido. Ao chegarmos no final da passagem, entramos na floresta. Tomamos velocidade até eu sentir que não consigo mais controlar aquela respiração acelerada e decido parar para recuperar-me.
— Astarte, devemos ir em frente... — Hyrom está ofegante.
— Eu sei, mas não temos para onde ir, eles nos encontrarão se ficarmos no reino... —passo as mãos no rosto pensando em um plano — Não podemos ir pelo oeste, vão nos pegar... Talvez... O Penhasco Yallon, aquele que separa Fluorana da antiga Turmahlia. Não há muralha nele, podemos atravessa-lo.
— E como vamos atravessa-lo? — indaga Hyrom. Ele arregala os olhos ao notar meu sorriso de lado, entendendo o plano — Você está louca, quer descer o penhasco?!
— Mas é claro, lembra de quando éramos crianças? Quando fugimos de casa? Acreditávamos que havia uma descida segura, só precisamos encontrá-la e ter equilíbrio.
— Que droga...
Continuamos caminhando entre as árvores, rodeados apenas pelo laranja de suas folhas e seus sons naturais durante meia hora. Tanto Hyrom quanto eu estamos atentos. Um animal assustado; um galho quebrado, pode significar perigo. Meu coração congela quando Tayrferus — aves pequenas que liberam fogo nas penas das asas para proteger-se de alguns predadores — passam a voar sobre nós em chamas, mostrando que sentem-se ameaçados. Nos apressamos em direção ao Penhasco Yallon, mas não rápido o suficiente para encontrar o caminho seguro e descer sem que o exército nos veja. Ficamos encurralados novamente, logo me sento arrependida por ter a ideia, foi a pior de todas.
Há algo diferente naqueles homens, apesar da distância eu noto o selo em seus peitorais. Uma pata dentro da lua minguante. Aquilo não é fluoraneo. De onde... ?
— Sodalita... — Hyrom responde minha pergunta mental.
Os soldados sacam suas armas feitas de uma espécie de energia azul e apontam para nós. Hyrom ergue os braços e olha de canto para mim. Ele fecha os punhos e assim o fogo espalha-se pelos seus braços. Quando foi que ele recarregou as chamas?
Tayrferus... Merda, eu deveria ter feito o mesmo! Que burra!
Com alguns movimentos a chama corre para os inimigos que aproximam-se e os derruba de uma vez só, mas não é o suficiente. Outros deles surgem de dentro da floresta. São muitos! Hyrom logo esgota-se e eu tinho que abaixar-me uns centímetros para desviar de uma lança que foi atirada em minha direção, por pouco não atinge minha cabeça.
— Você sabe que eu te amo, não é?
— Hyrom, o que...
— Tem que voltar pelo seu povo, pelo nossos pais, irmã.
Antes que eu possa entender o que ele quer dizer com "voltar" algo pula em minha barriga empurrando-me para o vazio do Yallon e eu vejo meu irmão ficar cada vez mais longe. Grito pelo seu nome até ele desaparecer da minha vista. Sento uma dor enorme na cintura fora o frio que espalha-se pelos meus órgãos por causa da queda. Uma luz com várias cores estica-se vindo do céu, rodeando-me. Eu lembro dela, aquele arco-íris, há quanto tempo eu não o vejo? Há quanto tempo eu não vejo Bifrost? Meus olhos fecham-se e eu apago.
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