🩸08🩸 Encurralados...
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— Aquele filho da...
— Você se atrasou! De novo Linah?! — reclamou minha professora de matemática. — Ou pensa que ontem não percebi?
— Desculpe professora.
— Não. Pode ficar no pátio. Você não vai assistir a minha aula. Mas vai copiar toda a matéria depois. Tenho certeza que seu amigo ali. — ela apontou para Ethan. — pode te passar o caderno com o meu dever depois. Agora saia.
Recuei para trás e fechei a porta. Segui até o outro corredor e desci os degraus ainda com raiva por Treton ter me deixado ir sozinha e a pé até o colégio. Mas fiquei mais irritada ao chegar no andar debaixo e vê-lo sentado sobre a janela do corredor com um sorriso de lado e me encarando.
— Ah, vida. Você parece exausta. — ele debochou.
— Eu odeio você! — virei em direção ao pátio e continuei a andar mas ele me seguiu.
— E eu deveria ficar triste com isso?
Me virei para encara-lo e xingar ele mas um vulto preto passou pela parede, antes que eu me movesse, Treton abriu a porta ao lado, entrou e me puxou junto a ele fechando a porta e nos mantendo num cômodo estreito e escuro.
— O que tem lá fora?! — perguntei num sussurro.
Ouvi barulho de objetos se movendo e no segundo seguinte a luz foi acesa revelando Treton com a mão sobre o interruptor além de vassouras, panos de chão e outros objetos de limpeza a nossa volta. O cômodo era tão pequeno que era impossível manter um metro de distância dele.
— Uma coisa ruim. — ele respondeu se inclinando para olhar lá fora através do buraco da fechadura.
O movimento fez ele ficar um pouco mais perto de mim, mais perto do que ele jamais havia ficado, um cheiro de hortelã exalava de sua pele e naquele momento desejei que ele fedesse para ser mais fácil continuar irritada com ele.
— Talvez tenha ido embora. — ele pegou o canivete do bolso da calça e a mini faca se projetou para fora. — Não tenho muito tempo.
Ele voltou a ficar de pé e se virou de frente para mim.
— Tem certeza que vai conseguir mata-lo com isso?
Ele juntou as sobrancelhas como se tivesse confuso com o que eu disse, depois deu um sorriso sem emoção e entreabriu os lábios para dizer algo mas uma voz reverberou dentro do cômodo o fazendo se calar antes de dizer qualquer coisa.
— Eu sei que estão aí dentro. — uma voz grossa que parecia ser de um homem veio do outro lado da porta.
Coloquei as mãos sobre os lábios para reprimir um grito, eu estava tremendo mas torci para que o Treton não tivesse notado porque ao contrário de mim ele estava calmo se precipitando em apenas levar o dedo indicador ao lábio pedindo para que eu não fizesse barulho. Balancei a cabeça que sim diversas vezes.
Ele levou a mão ao interruptor e novamente tudo ficou escuro. A única luz que entrava por debaixo da porta revelava uma sombra que parecia ser de uma pessoa mas podia ser também de uma outra coisa.
— Ah,Treton. O que pensa que está fazendo? — o homem gritou ao lado de fora. — O que deve ser feito é tão simples. — ele se calou e um grito de ódio veio junto com uma batida brusca na porta.
Não estava trancada, se ele movesse a maçaneta descobriria isso. Por um momento, fiquei feliz em saber o como ele era idiota.
Pensei que ele desistiria e fosse embora, um outro soco na porta descartou minha ideia. Ele queria era quebrar a porta, a força que ele usava deixava claro que ela não duraria muito tempo, ele tinha que estar usando alguma coisa para quebrar a porta tão fácil porque usar apenas as mãos não causaria tanto dano tão facilmente.
Eu me encolhi sentando no chão frio e sabendo que seria questão de segundos até ele entrar e nos matar.
— Vamos morrer. — sussurrei para Treton. — Eu não quero morrer.
Olhei para cima o procurando em meio ao escuro, seus olhos vermelhos brilhavam em meio a escuridão enquanto ele olhava para mim, de repente ele começou a falar coisas desconexas e baixo demais para ser audível.
— Eu vou matar essa merdinha! — o homem gritou novamente ao lado de fora e deu mais um soco na porta.
Em segundos Treton se calou, depois um barulho ensurdecedor veio do outro lado da porta, parecia um grupo de pássaros todos gritando a medida que se aproximava mais. O homem começou a gritar ao lado de fora enquanto algo parecia se chocar contra o seu corpo batendo inevitavelmente contra a porta também.
— Saiam!!!!!!!
O homem gritou parecendo desesperado e eu levei as mãos ao ouvido para parar de ouvir os seus gritos. Depois do que pareceu uma eternidade Treton abriu a porta, a luz entrando aos poucos dentro do cômodo, agarrei sua mão para impedi-lo mas foi quando percebi que os gritos haviam cessado. Soltei a mão dele e permaneci imóvel incapaz de mover um músculo enquanto o deixava abrir a porta completamente.
O homem estava deitado no chão, sua pele estava dilacerada como se coisas houvessem a arrancado com uma pinça, uma pequena poça de sangue se formava em volta de seu corpo. Ele estava caído de barriga pra cima, seu lábios estavam deformado e sangue escorria de dois buracos acima de seu rosto onde devia estar os olhos. Seu corpo inteiro estava ferido e um buraco grande se encontrava onde devia estar o coração.
Eu me levantei do chão correndo para o lado de fora enquanto Treton permanecia de pé ao lado do homem com o dedo polegar na boca a medida que fitava o cadáver.
Olhei em volta mas não havia sinal de alunos nem ninguém que pudesse ter feito aquilo. Me agachei no chão e peguei algo preto que estava caído ao lado do cadáver. Uma pena negra.
— Quem fez isso com ele? — perguntei e olhei para o Treton que deu de ombros. — Você me disse que seus olhos eram especiais e que por conta disso você podia vê-los, então como eu também consigo enxerga-lo? — apontei para o homem mas Treton ignorou minha pergunta.
Ele tirou o dedo da boca e o examinou. Fez uma careta e o colocou na boca novamente.
Me levantei do chão e larguei a pena, estendi minha mão até o Treton tirando seu dedo da boca. Havia um corte em seu polegar feito por navalha e estava sangrando bastante.
— Você precisa cuidar disso.
Ele puxou a mão me fazendo solta-la e enfiou o dedo na boca novamente.
Meus olhos novamente pararam sobre o homem e percebi que mesmo que ele tivesse traços humanos ele não era humano. Tinha garras grandes ao invés de unhas comuns, as mãos sujas com coisas escuras demais para ser considerado terra. As poucas partes que não estava com a pele arrancada bruscamente, mostravam grandes cicatrizes e eu me assustei quando olhei para sua blusa que estava levemente levantada. Ele tinha uma tatuagem no mesmo lugar que a do Treton, pensei em me aproximar e levantar um pouco mais a camisa dele para ver a tatuagem mas assim que me inclinei, Treton pegou minha mão me levando para longe dele.
— Precisamos sair daqui. Outros vão vir — ele disse enquanto caminhávamos.
Olhei de relance para sua mão que segurava a minha enquanto a outra ainda matinha um dedo na boca. Além das unhas pintadas de preto ele também usava alguns anéis prateados no dedo mindinho e no polegar das duas mãos. Dava para ver as veias saltando sobre a pele morena de suas mãos.
— Mas o que vão fazer se verem aquele homem? — perguntei dando uma olhada para trás de nós um pouco antes de me voltar para frente.
— Ele não é humano. Vão recolher ele antes que outros humanos possam ver, já a porta é algo que vão realmente ver.
Eu parei de deixá-lo me conduzir e segui em direção a enfermeira o levando junto comigo ainda segurando sua mão.
— Onde vai?
Fiquei quieta e abri a porta a minha frente o arrastando para dentro também. Pequei uma caixinha de onde costumam tirar remédios para dor de cabeça quando eu pedia e a abri vasculhando a procura de um bandeje. Sorri quando encontrei um já que não sabia ao certo se ali realmente tinha um.
Coloquei a caixa novamente no armário e caminhei até o Treton que ainda estava de pé na porta.
— Me dê seu dedo.
— Não precisa se preocupar comigo. Não estou pedindo sua ajuda. — ele falou mas eu o ignorei.
— Fique quieto! — ele estendeu a mão em minha direção mas olhou para outro lado evitando me encarar diretamente nós olhos.
Tirei os papéis das laterais do bandeje e o estiquei o colando em sua pele mas antes que a parte adesiva envolvesse seu dedo de um lado ao outro, notei que ao lado do corte recente havia um mais antigo que já tinha se transformado em uma cicatriz.
— Como conseguiu esse outro corte? — perguntei e ele rapidamente recuou com a mão parecendo incomodado. — O que aquele homem era? — perguntei mudando de assunto.
— Você não gostaria de saber.
— Sim eu gostaria, porque assim eu poderia tentar pensar em uma maneira de me defender ao invés de depender que você faça isso por mim.
Ele ergueu as sobrancelhas e balançou a cabeça em negativa enquanto me olhava fixamente.
— É isso que você acha? Já disse que não me importo com você.
— Você me ajudou duas vezes acho que isso de não se importar não cola mais. — cruzei os braços e ele sorriu totalmente sem emoção como se o meu argumento fosse uma piada.
Eu fiquei séria, talvez ele não tivesse mentindo. Talvez realmente não se importasse mas se não se importava então porque me ajudava?
— Então... Por que me ajudou?
Seus olhos permaneceram sobre os meus por longos segundos era como se ele não tivesse uma resposta ou a que tivesse não fosse bem a que eu gostaria de ouvir.
— Talvez descubra um dia. — foi tudo o que ele disse antes de se virar e abrir a porta para sair.
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