XI. Soberbo as Alturas


Aquele era o terreno mais vivo que vira desde que começara sua jornada para reviver Mono. Grandes árvores bem juntas umas das outras, com o tronco coberto de musgo e galhos cheios de frutas variadas. Cavalgava lentamente dentro da floresta cuja luz do sol aparecia timidamente através de buracos no grande telhado verde que as copas das árvores criaram.

O único som que ouvia além dos passos de Agro era a água de um pequeno riacho que fazia seu curso ali perto. Seu pai sempre lhe disse que locais como aquele eram os melhores locais para a caça, pois era onde os animais se refugiavam dos homens. Mas não havia nenhum sinal de qualquer animal ali, aliás, não vira nenhum, em nenhum momento. Talvez os deuses não gostassem deles, ou o mais provável, os colossos os afugentassem.

A última vez que ergueu a espada contra o sol a luz o guiou até aquela floresta. Agora não havia sol o suficiente, então tudo que podia fazer era atravessá-la em busca do quinto colosso. Uma mata fechada como aquela não deveria guardar um muito grande, em contrapartida mesmo um menor como o último destruiria aquelas árvores e deixaria grandes rastros no chão. Vander decidiu seguir o riacho. Sua intuição dizia que a correnteza o levaria ao seu destino.

A água era tão limpa e clara que conseguia enxergar o fundo de pedras lisas. Ver aquela água limpa em abundância o fez lembrar que há dias não bebera uma gota sequer de água, e que isso não lhe fazia nenhuma falta, mas Agro precisava. Cavalgou mais alguns metros e parou ás margens, descendo de sua companheira que logo começou a saciar sua sede.

Mesmo que não precisasse, queria sentir o líquido fresco descer pela sua garganta. Abaixou-se frente a margem e encarou seu próprio reflexo. A imagem que viu o fez desistir de beber.

Seus olhos estavam escuros onde um dia foi branco, e sua íris que antes era de um castanho claro, agora era de um cinza cintilante, com um brilho bizarro. Sua pele inteira estava acinzentada e mórbida, com veias negras saltadas do seu pescoço até perto dos olhos. Não parecia mais um humano.

"O que Mono vai pensar se me ver assim? Eu sou um monstro agora, certamente a assustarei. " A angústia o atingiu como um soco no estômago e ele não conseguiu se manter de pé. O processo de transformação era lento e gradual ele sabia, mas ignorou as circunstâncias o quanto pôde. Porém agora faltam três colossos e a possibilidade de rever Mono era mais real que nunca. Dornme sempre deixou claro que havia um preço fatal naquilo, e Vander sempre esteve disposto a morrer por Mono, mas dentro de si, nutria a esperança de que mesmo que por um momento, a veria com vida novamente, a sentiria em seus braços. Mas mesmo que fique vivo até lá, sua amada não verá o homem com quem se apaixonou, e sim uma criatura suja com sangue de gigantes nas mãos.

Os duros pensamentos que tomaram sua mente eram tão dolorosos que ele não conseguiu conter suas lágrimas. Chorou aos berros como não fazia desde a infância. Segurou seus sentimentos por tempo demais. Era para estar casado com a mulher dos seus sonhos, planejando filhos, cavalgando ao lado dela. Era para passar a vida ao lado de Mono, envelhecer junto a ela e partir desse plano sem nenhum arrependimento. O que fizera para merecer aquele tormento? Por que não poderia viver uma vida normal como todos os outros? Aquele era um fardo pesado demais para se carregar sozinho.

No meio de seu lamento sentiu Agro se aproximar dele. Com seu focinho ela acariciou seus cabelos e seu pescoço. Ele olhou para sua égua. Não havia nada além de amor e compaixão naqueles olhos. Era como se ela dissesse "estou com você", Vander quase podia ouvi-la dizer isso.

Agro que o acompanhou desde sempre. Mesmo vendo no que ele se transformou não o estranhou ou tratou diferente em nenhum momento. Ela estava lá para ele e o que os unia ia além de sua aparência.

—Obrigado Agro. —Disse abraçando a cabeça do animal.

O garoto se levantou e secou as lágrimas. Não era tempo de se lamentar, ninguém mais no mundo poderia fazer aquilo por ele. Não chegara tão longe para desistir. Não importa no que seu rosto se transformasse, ele ainda estava lá dentro.

Subiu novamente no lombo de sua montaria e deu o comando para prosseguir. Aquele momento de fraqueza não iria se repetir.

Cavalgou por mais algum tempo seguindo o fluxo do rio até chegar no que parecia ser uma clareira. Ele sabia que era ali que encontraria seu próximo oponente, não conseguir explicar como, mas era capaz de sentir.

Desceu de Agro e acariciou sua crina.

—Me espere aqui querida. Se as coisas ficarem feias eu quero que você fuja bem rápido!

O rio que cortava a floresta desembocava em um grande lago no centro de uma clareira circular tão extensa que as árvores em volta pareciam uma fita verde no horizonte. No meio do lago havia uma espécie de altar feito de pedras de mármore com detalhes de ouro. Uma construção grandiosa que refletia a luz do sol causando um efeito luminoso que tornava impossível olhar por muito tempo.

Vander caminhou em direção aquele altar. Quando chegou mais perto sentiu o cheiro familiar. Alguns dias atrás quando entrou no castelo de Lorde Afros e roubou o corpo de Mono e a espada ancestral, o salão principal estava coberto pelo cheiro de um incenso de camélias, era comum em cerimônias de nobres. Era esse odor que vinha do altar a sua frente.

Antes que pudesse se aproximar mais, um som agudo e ensurdecedor invade seus ouvidos. O barulho atingia seus tímpanos como uma faca afiada, era quase como, o pio de uma ave.

Olhou para cima e por um instante a luz do sol foi totalmente tomada por sombras. Uma rajada de vento o empurrou alguns metros tento que se esforçar para continuar de pé. Encarou a origem daquele som. Uma criatura gigante semelhante a uma águia batia asas acima dele.

Cada bater de asas causava uma onda de choque que deslocar todo ar a sua volta, jogando a água do lago para fora. A grande ave pousou em cima do altar que perto dela se tornou pequeno, e ficou imóvel.

O colosso era coberto de penas, cada uma do tamanho do dorso de um cavalo adulto, uma penugem de cor avermelhada com grandes manchas escuras, o bico era diferente do de uma ave comum, possuía sulcos afiados em forma de dentes. A criatura estava empoleirada de maneira majestosa, com a cabeça erguida e olhar frio e soberbo. Não pareceu notar a presença do garoto.

Vander aproveitou esse fato e esgueirou-se pisando levemente para não chamar atenção. Entrou no lago e o atravessou a nado até chegar no altar-poleiro. Escalou os tijolos de mármore com menos dificuldade do que imaginou. O colosso não se moveu nenhum centímetro. Se perguntou se ele não tinha mesmo o percebido ali, ou se achava-o insignificante demais. Seja como for subiu até chegar nos pés da criatura.

Três dedos longos e reforçados com garras afiadas do tamanho de um tronco de uma árvore pequena estavam a sua frente. Era uma parte de seu corpo que não tinha penas, era onde ele devia atacar.

Desembainhou a espada ancestral e a cravou com força em um dos pés do colosso. O ídolo grasnou ensurdecedoramente e com um salto rápido voou de lá arremessando Vander para trás.

O garoto se segurou na ponta dos dedos para não cair na água. Jogou seu corpo para frente e ficou em pé novamente, mas a ave gigante já não estava lá. Ela voava grasnando, batendo as asas tão forte que as árvores em volta balançavam.

Se aquele colosso fugisse, Vander talvez demorasse muito tempo para encontrá-lo. Ele não queria isso, a ressureição de Mono estava a sua frente, não podia retardá-la. "A arrogância é o abismo dos homens", lembrou-se as palavras do Dornme. Não era a primeira vez que ouvira aquilo. Muitas eram as histórias de guerras perdidas por arrogância e orgulho.

Vander deixou a espada no chão, abriu os braços e gritou com todo seu pulmão.

—HEY! VOCÊ NÃO É TÃO FORTE QUANTO PARECE! ESTÁ FUGINDO DE UM MERO HUMANO!

As palavras surtiram efeito sobre a criatura que deu meia volta e partiu em alta velocidade em direção a Vander. Ele recolheu sua espada na bainha e se preparou. O ave se vinha rasante com o bico forrado de dentes aberto para engoli-lo. O garoto esperou o momento certo, quando estava próximo o bastante saltou por cima da cabeça da criatura, passando por pouco dos ameaçadores dentes e se agarrando as enormes penas.

O colosso se chocou contra o altar que foi imediatamente reduzido a escombros. Ele grasnou e levantou voo carregando Vander consigo.

A velocidade era tanta que o vento deformava o rosto de garoto que segurava com toda sua força para se manter ali. Em poucos segundos estava mais alto do que jamais esteve, a temperatura descia e sentia sua pele descoberta se umedecer ao se chocar com pequenas nuvens. Olhou para baixo e viu a floresta em que esteve, agora não passava de um pequeno tapete verde. Olhou para o leste e conseguiu enxergar o Templo da Adoração e a ponte pela qual passara para chegar ali, era onde Mono estava, era lá que ela estava o esperando.

O colosso começou a girar em seu próprio eixo, tão veloz quanto um peão, afim de derrubar seu indesejado montador. Vander sabia que se caísse daquela altura morreria instantaneamente, então nada pôde fazer se não se segurar enquanto não sabia mais diferenciar o céu do chão. Seu estômago revirava e ele se sentia perigosamente enjoado com aquele movimento.

Preciso atacar, se não cairei, pensou, mas para tal ele precisava desembainhar a espada e para isso se segurar com apenas uma das mãos, poderia cair, ou perder a espada, em ambos os casos estaria acabado.

Lembrou-se das vezes em que seu pai recebia visitas que há muito não apareciam. Ele sempre preparava o frango mais gordo de seu pequeno galinheiro, depois de matá-lo, seu pai o colocava em uma bacia com água fervente para amaciar sua pele, para que pudesse arrancar suas penas. Vander não tinha uma bacia de água quente ali, muito menos uma tão grande, mas achava que tinha força o suficiente para depenar aquele frango.

Apoiando-se com uma das mãos presas, puxou com força uma pena e com esforço a arrancou da pele do gigante que gritou de dor. Vander puxou outra e mais outra, torturando a criatura até que ela parasse de girar e partisse num rasante em direção ao chão.

O garoto estava tonto e enjoado, mas aquela era sua chance. Pegou sua espada velozmente e cravou na pele do ídolo afundando toda a lâmina em sua carne. O sangue negro espirrou para todos os lados manchando seu rosto. Sentiu o sabor do sangue, era amargo como a morte.

A ave agonizou e em desespero começou a se debater. Vander apostou em um golpe de sorte e saltou para asa esquerda do ídolo, a atacando com a espada ancestral que atravessou toda a pele como se fosse manteiga, esguichando mais sangue negro e impossibilitando qualquer tentativa de voar. Com isso estavam os dois em queda livre, numa altura colossal. O garoto esticou seus braços e pernas apontando o peito para o chão, na tentativa mesmo que mínima de planar. Se a criatura cair e morrer primeiro, apareceria são e salvo no Templo da Adoração. Não tinha mais o que fazer, olhou para o chão que se aproximava rapidamente e fechou os olhos.

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