Capítulo 5: Deuses e Homens

– O Diário da Rainha –

Hansam. Mês de Iuban. 8 a.E.

Escrevo estes relatos um dia após a celebração do meu casamento, enquanto a memória ainda é fresca e há palavras brigando em minha garganta para sair. A cerimônia foi executada com toda a riqueza que o rei poderia fornecer e estou certa que jamais houve nada igual por estas terras. Tudo começou ao raiar do sol, com os banhos que eu deveria tomar para purificar a pele e o espírito.

Enquanto eu era lavada e preparada pelas muitas mulheres do castelo, uma pira foi acesa no pátio, uma oferenda, diziam, que duraria até o dia seguinte. O fogo atrai os espíritos bons e bane os maus, também é o fogo o responsável por levar nossas almas às portas do Outro Mundo. Onde Sekneith nos aguarda, para conferir uma nova missão.

Ao meio-dia os tambores começaram a ressoar. O ritmo parecia evoluir, como se contasse uma história por suas batidas. Momentos de pausa eram feitos, nos quais as batidas se tornavam baixas e contidas, então tudo começava de novo. Se fechasse os olhos, podia imaginar os próprios deuses contando suas histórias, os irmãos Yoruh e Areth a duelar, Sekneith a tentar apaziguar a grande batalha, o nascimento do mundo, a doação da magia. Tudo preenchia o ar junto ao barulho ritualístico dos instrumentos.

Ouvi o som ininterrupto das batidas durante toda a tarde; durante o tempo em que eram pintados em minha pele os vários símbolos, muitos dos quais eu desconhecia. Porém, as mulheres de Hansam insistiam em me traduzir alguns quando eu perguntava e aquilo me distraiu durante um tempo.

Vida. Saúde. Fidelidade. Perdi a conta de quantas palavras eram ditas. O ventre e as mãos foram os locais mais adornados, o primeiro com símbolos que representavam a fertilidade, mãos para delicadeza e força. Entretanto, houve outros desenhos, entre os quais o da testa me intrigou. Quando perguntei, falaram que era um pedido de sabedoria e proteção. Para que minha mente jamais fosse ludibriada por maus espíritos. Aquela preparação durou até o crepúsculo. Somente quando o sol havia começado a se pôr, os cânticos tiveram início.

As vozes masculinas se sobrepunham, em tons guturais; os tambores e os chocalhos faziam coro em um estranho ritual. Meu cabelo foi adornado, após muita insistência de minha parte, com algumas flores, mas nada além disto. Os yoruitas acreditam que toda mulher deve se portar como a deusa e, portanto, deve levar o cabelo sempre solto. Em meu povo, seria permitido trançar ou qualquer outro adorno, mas eu já não estava entre os meus.

Eu estaria mentido se falasse que não estava nervosa. Minha pele parecia ferver. Não por amor, garanto, para este não há esperanças. O nervosismo era oriundo do fardo que eu sabia estar prestes a selar, a partir daquele instante, todo o acordo seria ainda mais real e eu estaria presa àquele homem.

A segunda parte do casamento foi celebrada quando o sol ainda estava no céu, mas a lua já despontava. A abóbada em tom avermelhado brincava com nossos olhos. A grande ilusão da deusa, como chamavam as sacerdotisas de Sekneith, não é tarde o suficiente para ser noite, nem cedo o suficiente para ser dia.

Durante o último mês, descobri que nenhum casamento é celebrado fora do período de lua crescente e cheia. Ontem, ela brilhava redonda, ofuscando algumas estrelas no céu. Quando os votos foram feitos, tendo o sol e a lua por testemunhas, a beleza dos tecidos, das vestes, das joias e dos presentes, não foi capaz de ofuscar, entretanto, o que estava por vir.

Ainda assim, havia mais para acontecer. Em determinado momento da festa, para a qual todo o povo havia sido convidado, Samad se ausentou e Ahmes se vestiu com a manta que imitava o desenho de um falcão. O traje lhe caiu bem, admito, ele estava sem camisa, com a pintura a imitar as penas, a mesma pintura negra cobria sua testa. Por um instante, ele realmente me lembrou o deus-falcão, cortejando o que deveria ser a representação da deusa-leoa.

Quando me estendeu a mão, os tambores cessaram e aquele foi o único instante de silêncio no pátio do palácio. Aceitei seu convite como haviam me dito para fazer e enquanto caminhávamos para perto da pira, os tambores voltaram a rufar, um ritmo lento que me lembrava as batidas de um coração. É tolice, mas mesmo que aquilo fosse parte da encenação, eu senti minha pele arrepiar.

Demos o primeiro passo, a dança não era difícil, e as flautas se fizeram ouvir. Demorou poucos minutos até que a música se calasse novamente. Porém, neste instante, eu sabia que deveria correr para perto dos doze sacerdotes. E o fiz sem hesitar.

Samad apareceu trajado com um manto, que não por acaso lembrava as escamas de uma cobra. Como seu irmão, tinha o peito nu, pintado, mas em tons de verde e marrom.

Assim como Ahmes, Samad parecia a própria encarnação de um deus. Entretanto, não era Areth, era Yoruh, o deus-serpente.

O rei jogou uma lança na direção de Ahmes e o príncipe a segurou com agilidade. Aquele foi o último gesto amigável da encenação.

Iluminados pelo fogo da pira e das tochas e seguindo o ritmo dos tambores, os dois duelaram com suas lanças. Recordo do primeiro movimento ofensivo ter vindo de Samad, com a lâmina da arma a passar próxima demais da perna de Ahmes, porém, ele desviou, já aproveitando a brecha do ataque para defender-se. Eu sabia que aquilo não passava de teatro, mas não pude deixar de me sentir apreensiva.

O povo bradava e gritava a cada ataque e defesa, as batidas acompanhavam o ritmo da luta. Tudo parecia muito confuso diante dos meus olhos, até que Samad deu o golpe final, raspando no rosto de Ahmes com a lâmina, cortando a face do irmão no pátio e arrancando, vitorioso, a capa do homem que duelava com ele. O rei gritou para o povo, batendo duas vezes no próprio peito. O grito foi respondido com urros. Então Ahmes se ajoelhou diante da pira e ficou parado até que Samad viesse em minha direção.

Os doze sacerdotes abriram caminho. E o rei se ajoelhou aos meus pés, oferecendo o manto arrancado do irmão ao falar:

— A ti, minha rainha, ofereço a vitória.

Hesito por um segundo, mesmo sabendo que não posso fazê-lo. As palavras travam em minha garganta e, somente ao ver o vulto de Ahmes a se levantar, eu consigo olhar Samad e repetir:

— E eu a aceito, como aceito a ti, meu rei.

Depois dessas palavras trocadas, Samad veste-me com o manto de Areth, que representa a vitória da batalha de Yoruh. Ou assim eles acreditam. Dali, saímos, escoltados pelos doze sacerdotes, vestidos em ouro e prata, como se fossem os próprios guardiões da deusa. Então, chega o momento que eu mais temo desde o anúncio do noivado.

Eu sabia que aquilo iria ocorrer, porém, não tinha sido capaz de assimilar tudo até aquele instante. Os aposentos estão decorados com palha dourada e peles, iluminado apenas por tochas, mas nada daquilo é capaz de aliviar a tensão em meu corpo.

Não há detalhes para serem ditos, ou pelo menos, não há detalhes que me julgue capaz de dizer. Ainda não sou capaz de assimilar tudo, de suas mãos me despindo, das lágrimas que involuntariamente derramo, sem dizer uma única palavra.

Ele não é gentil, como tantas vezes ouvi dizer que os reis eram. Não há prazer nessa noite e estou certa de que não haverá nas próximas. Mas é meu dever servi-lo, para que tudo ocorra bem. Os sacerdotes dizem que eu preciso gerar um filho, produzir um herdeiro saudável e bom. Só então poderei ter paz. Espero que seja verdade, que uma vez mãe não seja mais tocada pelas mãos deste tirano. Estou certa que Samad se farta em outros leitos e não me importo. Ele pode se lambuzar com quantas desejar, se isto fizer com que me toque menos.

Agora, sinto-me suja, como os panos do leito nupcial ficaram, manchados de sangue. Enquanto me banho, com os tantos panos úmidos deixados para este fim, por detrás de uma divisória de madeira, escuto o quão satisfeitos os sacerdotes parecem com os lençóis sujos. Esfrego minha pele até que fique vermelha. Quero tirar toda essa impureza de mim, mas sei que não vou conseguir, sei que me tornarei mais e mais suja a cada vez que ele vier ao meu leito.

Desde que abandonei meus pais, não tive tanta vontade de chorar quanto agora. Mas sou chamada para sair, visto-me com os apropriados trajes vermelhos, separados no dia anterior e obedeço. Os doze sacerdotes esperam na porta de meus aposentos, austeros, imponentes, longínquos. Parecem ser intocáveis com as mesmas vestes da noite anterior. Eles brilham tanto quanto o próprio sol e me levam ao encontro de Samad no pátio, para a benção final.

Quando chegamos lá, a pira da noite de núpcias ainda arde, imensa. Coreografados, dez sacerdotes a circulam, os outros dois me seguem enquanto vou para o lado de Samad, me nego a baixar a cabeça. Eu sei o que repousa em meus ombros e me nego a ser vista como uma garota assustada. Eu não darei esse prazer a Samad, mesmo que ele me tenha em sua mão, mesmo que meus pais sejam os reféns que devo proteger, agora, eu sou a rainha. Ou pelo menos, é disto que tento me convencer enquanto seus olhos vasculham os meus.

Ele parece sorrir satisfeito. Esse seu crispar de lábios parece me desafiar ainda mais. Há uma certa encenação ao redor dos pequenos gestos, nós dois sabemos, porém, o povo deve acreditar que eu sou tão forte quanto o rei. Mesmo que ele não acredite nisso e, talvez, nem eu seja capaz de acreditar. Não pode restar dúvidas de nossa ligação, da devoção que temos um para o outro. Tudo é muito bem orquestrado nesse sentido. Mesmo que seja apenas um acordo do qual meu âmago jamais concordará, esta aliança não pode ser questionada.

Os dois sacerdotes que me acompanham se juntam ao círculo, exibindo os lençóis manchados para a multidão. Então, eles os dobram com cuidado e um dos sacerdotes profere, erguendo uma de suas mãos, enquanto segura uma das pontas do tecido.

— Ofertaremos este sangue à consorte de Yoruh, Sekneith. Que a deusa-leoa abençoe as relações de nossos reis e que seus frutos sejam abundantes e fortes.

— Que sua união traga prosperidade e que sua alma, agora única, seja inabalável. — completa outro, dando um passo à frente e fazendo como o primeiro.

— Para que mesmo com as intempéries, assim como Yoruh e Sekneith jazem separados na eternidade, seus objetivos continuem um só — um terceiro diz, imitando os demais.

Os outros sacerdotes murmuram cânticos ao redor da pira durante alguns segundos, quando um quarto, agindo como os outros três profere:

— Pedimos a benção de Sekneith para nossos reis. Que este sangue seja honrado e os votos, perpétuos.

Os panos são lançados no fogo e, enquanto eles são consumidos, a última palavra ecoa em minha mente, tremulando como as chamas, agora púrpuras.

Perpétuos. Não haverá mudança em minha sina, Samad agora é meu esposo, meu rei, meu dono e eu não sou nada além de outra presa em seu controle.

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