Capítulo 2: Aniversário
Psika. Mês de Faesih. 1792 d.E.
Quando parava para pensar no assunto, Delilah costumava ver Psika como uma imensa e organizada feira. Os dias começavam sempre cedo demais, junto ao raiar da alvorada, e terminavam ao pôr do sol, quando os pertences eram guardados e os moradores se recolhiam. Tudo fechava suas portas, as estreitas ruas ficavam desertas, o córrego que cortava a cidade no meio parecia o único a emitir algum ruído. Apenas parecia, porque era no extremo norte da cidade que se encontrava a sede do clã Thénar. E seus filiados eram incapazes de parar.
O local era um sobrado velho de dois andares, solitário no meio de um quarteirão vazio – suspeitava-se que nenhum vizinho suportou continuar a seu lado. Em sua fachada sempre alguma coisa estava fora do lugar, fossem tijolos aparecendo ou caixas reviradas em um terraço estreito. Em algum momento, a sede foi pintada de bege, mas hoje, as partes marrons e outras apenas descascadas faziam crer que ninguém se importava com o seu exterior. Havia, entretanto, um único orgulho para os magos que se filiavam ali. A bandeira, agora com as pontas rasgadas, exibida de forma pomposa abaixo de uma janela no segundo andar. Ela trazia uma caveira enforcada, com o resto da corda solta com cinco nós. O símbolo, um tanto quanto estranho, era um marco para o clã, assim como os dizeres "nós somos os bastardos de Aether". E a explicação para tanto era longa demais para me ater.
Naquele lugar, nem sempre havia música, como costumava haver em outras tavernas. A conversa alta, indistinta, intercalada por risadas e batidas de copos sobre as mesas era presença certa. Durante a noite, os lumens – esferas de vidro iluminadas – flutuavam, as cores variadas terminavam por se misturar e pintava tudo com uma iluminação alaranjada. Não existiam cortinas nas janelas; o que era feito dentro do sobrado, era exibido com orgulho para a cidade, por mais inapropriado que podia parecer. Porém, os moradores de Psika já haviam se acostumado com seus bastardos – como eram apelidados quase que carinhosamente os integrantes do clã Thénar.
Eram quatro degraus para subir e entrar no salão, dos quais o segundo fazia um barulho insuportável e era evitado por quem já conhecia o caminho. Nestes degraus, hoje havia uma moça sentada. Seu ombro desnudo exibia uma cicatriz fina, quase imperceptível. Em suas mãos, ela revirava um medalhão prateado, sentindo a familiaridade da inscrição. Seu significado era desconhecido para ela, porém, ela seria capaz de desenhá-lo com maestria.
Delilah Khaye sempre ouviu que a noite lhe caía como luva. Permita-me dizer que culpo sua pele por isso, o contraste entre o pálido e a escuridão, o modo como o brilho do luar refletia em seu cabelo claro. Ela falava que eram apenas elogios bobos, coisa da mente alheia. Porém, não negava o fascínio exercido pelos astros. A mim, seus traços delicados sempre me pareceram fazer da frase, dita nessas discussões entre nobres, bastante apropriada.
Como se, de fato, a noite fosse capaz de lhe vestir.
Quanto ao fascínio, as constelações lhe hipnotizavam desde que podia se recordar. O magnetismo das estrelas, o poder que elas exerciam em seus sonhos, o mistério da regência da vida. Quando criança, não existia ninguém em seu ducado capaz de lhe tirar tais pensamentos. Hoje, duvidava que existisse alguém no reino capaz de lhe convencer que o céu não escondia mistérios profundos, capazes de descrever sua vida e quiçá prever seu destino.
Com um suspiro, ela colocou o colar de volta ao pescoço. Seus olhos azuis admiraram a noite estrelada por um momento, não havia lua no céu, apenas a imensidão dos pontos distribuídos. Recordou-se do dia em que saíra de casa. Do vento cálido das noites, da chuva fina que caía no instante que pôs os pés para fora da propriedade de seus pais. O momento no qual a verdade inabalável que lhe abateu e seu coração gritou uma verdade imutável. Estava livre.
Rogou naquele dia, como em muitos dias seguintes, para que não fosse encontrada. Implorou às estrelas e a todas as forças divinas que conseguisse continuar sua jornada. Não que acreditasse em deuses, mas nunca foi questão de fé.
Era puro desespero.
Ela não se sentiu triste ao pôr os pés para fora de casa, exatos cinco anos atrás, tampouco se sentira triste ao deixar seus pais e toda a sua fortuna para trás. Estava correndo atrás de seus sonhos, intangíveis e insensatos demais para a alta sociedade. Abandonou os vestidos da alta classe, cheios de babados e adornos, pelas calças simples e confortáveis da plebe e riscou, de forma metafórica, o sobrenome da certidão. Para muitos, a decisão de negar aquele destino do berço era tola, mas Delilah também acreditava que podia reescrever sua própria história. Pegar as rédeas e traçar seus próprios rumos.
É necessário dizer que, sendo filha única, a notícia de sua fuga foi anunciada durante um par de meses em todo reino. Tornando-a alvo de buscas impensadas e perseguições atrapalhadas, causadas por um sobrenome nobre e uma recompensa gorda. Passou até mesmo por um episódio com um quê de comicidade, no qual fora sequestrada por um grupo de inábeis camponeses. Em meio às discussões do bando, fugiu. Aquela não fora sua primeira fuga, sequer a última.
Desde então, o capuz parecia ser um bom amigo e o hábito permaneceu. Mesmo depois de suspenderem as buscas em seu nome, continuou cortando o cabelo na altura dos ombros, ainda que aquilo fosse tolo. Não era necessário um cartaz para reconhecê-la. Os lábios finos e bem desenhados, a pele alva, os cabelos resplandecentes – tão claros que se assemelhavam ao branco – faziam todo o trabalho.
Agora, sentada na frente da sede de Thénar, não negava o quanto os livros pesavam na mala e as lágrimas, no coração. Mesmo passando-se tanto tempo, a lembrança ainda a atingia com força. Riu consigo de sua tolice, passou as mãos pelos olhos e se recriminou por chorar pelo que já estava feito há tanto tempo. Por que era tão saudosista?
Devia deixar o passado onde o passado pertencia. Esquecer esses momentos e lembrar do que tinha conquistado.
Afinal, hoje ela tinha espaço em seu clã, o direito de não ser perseguida como uma criminosa – conquistado após uma longa discussão na corte – e sentia-se bem com isso. Ou bem melhor do que se sentira nos primeiros quinze anos de sua vida.
— Será que a princesa pode nos dar a honra de sua presença? — Uma voz quebradiça falou ao lado da garota, atraindo sua atenção de imediato, e interrompendo quaisquer que fossem os seus pensamentos.
— O que quer, Abe?
— Agora, nada. Mas sabe como são aniversários, não é? Eles querem um discurso.
— Tem certeza? Será que eles já não beberam o suficiente para se esquecerem disso? — perguntou ela. Odiava discursar, ser o centro das atenções, mesmo que só por uma noite.
— Tenho certeza que beberam o suficiente para se lembrarem. — Ele estendeu a mão para ela e a ajudou a se erguer e os dois entraram.
Por dentro, a taverna não parecia muito diferente de seu exterior. Era ampla, bem iluminada, um bocado suja e sempre muito aconchegante. Uma escada se encostava na parede, pouco acima de um bar limpo, dando acesso a um segundo andar com a enfermaria e alguns quartos temporários. Delilah sempre pensava que o interior era muito maior do que o exterior aparentava, mas jamais se atinha ao pensamento.
Mal passou pela porta e ergueram taças em sua direção, cantando alguma música indecifrável com vozes embargadas e em coro. Algumas se sobressaiam pedindo um discurso. Alguém lhe empurrou uma caneca e ela teve de pigarrear inúmeras vezes até chamar a atenção.
Admitia, para si, que era péssima com a palavra falada. Talvez por isso sempre escrevesse algumas linhas, tentando não repetir as mesmas coisas todo ano e terminando por fazê-lo mesmo assim. Hoje, não estava tão animada quanto nos outros aniversários que passou junto a seu clã. Faltava algo no lugar, ou melhor, alguém. Uma presença tão importante para ela que era impossível não sentir sua falta.
Ainda assim, fez o seu melhor. Brindou com colegas, amigos e irmãos do clã. Todos ali se consideravam uma grande família. Riu em meio à taverna suja e, por um segundo, divertiu-se imaginando a expressão de seus pais ao vê-la em tal situação. O duque torceria o nariz, transformando sua expressão em uma carranca de desgosto. A duquesa ficaria horrorizada. Com que tipo de gente sua filha estava metida? Logo sacudiu a cabeça, se afastando de um grupo que insistia em conversar com ela. Caminhou até o balcão do bar e se sentou.
— Você devia pelo menos buscar sinônimos — reclamou Abraham no seu ouvido, tão baixo que ela quase não conseguiu escutar. Ele se sentou ao seu lado, puxando um banco e se escorando sobre a mesa. — Eu me lembro mais ou menos de ter escutado as mesmas palavras ano passado.
Abraham, ou Abe como ela chamava, era um rapaz magro, de cabelos escuros e pele clara, o rosto ossudo e fino, olhos fundos e negros. Andava sem camisa pela taverna do clã, mostrando as cicatrizes de lutas passadas e emblemáticas tatuagens brancas. Sua pele parecia meio acinzentada, como se estivesse doente. Ao falar com Delilah, seu rosto se contorcia na tentativa de um sorriso debochado. Ela o olhou por um instante, arqueou uma sobrancelha e rebateu, puxando a caneca da mão dele e dando um longo gole no malum*.
— Não enche.
Desde sua chegada, cinco anos atrás, eles tinham uma proximidade que se assemelhava a de irmãos. Algo que não era facilmente explicável para os demais. Delilah e Abraham brigavam a todo momento, as zombarias e ofensas iam e vinham, porém, quando um precisava de algo, sabia com quem contar.
— E também no retrasado — ele prosseguiu, indiferente. Parecendo contar algo nos dedos da mão.
— Vai se fod...
— Epa! Olha a boca suja, princesa — interrompeu e em seguida gargalhou, recebendo um olhar fulminante em resposta.
"Princesa" era um dos infinitos apelidos que tinha recebido no clã, principalmente depois dos magos terem descoberto sobre sua família. Ainda assim, eles continuavam próximos, como sua família jamais tinha sido capaz de ser.
— Kaya, me dá outra caneca — pediu Delilah, assim que viu a pálida mulher que se encostava atrás do bar, ignorando completamente o mago ao seu lado. — Antes que eu mate alguém — completou baixinho em um resmungo.
Kaya Monis era uma figura esguia, de pele negra e olhos bem delineados. Não tinha cabelos, culpa de algum acidente não explicado. Uma cicatriz medonha e profunda marcava seu pescoço e nuca, mas ela sempre a escondia com um turbante e um lenço. Sua aparência às vezes parecia fantasmagórica, silenciosa e soturna, contudo havia algo de doce em seu semblante. Um toque que intrigava quase todos que a conheciam.
Kaya serviu-lhe com um sorriso torto, dando uma piscadela com o olho esquerdo para Abraham.
— Já está importunando a novata, Albani? — perguntou. Parecia cômico como mesmo após quatro anos ali ainda a chamavam de novata, outro apelido carinhoso que não largaria até existir outra pessoa para carregá-lo.
— Meus olhos são só seus, milady.
— É bom mesmo, querido, ou você vai perder tudo isso aqui — brincou Kaya, passando as mãos pela lateral do próprio corpo, enquanto este assumia uma nova forma. A saia longa e esvoaçante deu lugar a uma calça de couro apertada, as pernas ficaram mais grossas, a cintura mais fina. Uma imagem que atiçava muitas mentes e sempre despertava os assovios dos outros magos. Ela gargalhou e então, com uma piscadela, desfez o feitiço, indo servir outra mesa na sua maneira mais confortável.
Abraham revirou os olhos com sua típica indiferença e Delilah riu baixinho, enquanto tomava um gole de sua caneca e isso despertou um novo comentário da parte dele:
— O que tanto acha engraçado?
— Sua cara!
— Ora sua...
Qualquer xingamento que pudesse falar foi cortado pela porta batendo contra a madeira da parede, atraindo olhares para o mago parado na entrada. Delilah sentiu seu coração dar um salto. O peito apertar diante da visão. O sorriso iluminou seu rosto antes mesmo de poder controlá-lo, mas ela permaneceu estática até ouvir a familiar voz do homem.
— Hey, Albani, cuidado com as próximas palavras! — bradou o recém-chegado.
— Saleh? Maldito! Achei que só voltaria amanhã! — gritou Abraham em resposta.
Delilah passou um instante parada, um tanto boquiaberta, mas logo se virou para a porta e sorriu ao ver o mago largando uma pesada bolsa no chão. Ele possuía uma pele acobreada, calorosa, de um tom entre um marrom e um castanho avermelhado, castigado por vários dias de sol no deserto, os olhos eram de um âmbar intenso. Havia algo de serpentino em seus traços, fosse no rosto oval, no nariz pouco adunco, ou nos lábios – sempre prestes a tecer uma frase inapropriada. Saleh Zaman era um dos magos mais próximos a Delilah, além de Abraham, e era conhecido por suas explosões e temperamento forte, tão volátil quanto o elemento que controlava. O fogo.
Diferente de Abraham, criado no frio extremo e exímio controlador do gelo, Saleh era capaz de produzir combustões e chamas com suas mãos, além de um ótimo lutador. Os três, apesar de suas diferenças, costumavam montar uma equipe fixa para as mais diversas tarefas, acompanhados por Ruby, uma quarta integrante, que no momento estava ajudando a guarda do reino em alguma tarefa. Eles eram órfãos, ou assim se consideravam como a maior parte de seu clã, mesmo que alguns como Delilah e Abraham tivessem pais vivos.
Naquele instante, Khaye não se importou de correr para abraçá-lo. Sentira falta do mago elementista, mesmo que não fosse admitir em voz alta agora. A preocupação dos últimos dias dissipou-se quando sentiu o corpo dele junto ao seu. Saleh retribuiu o abraço, bagunçando seus cabelos loiro-platinados e a erguendo um centímetro do chão, apenas para provocá-la.
— Eu não perderia o aniversário da novata por nada! — exclamou ele.
— Me põe no chão, Zaman — Delilah pontuou as palavras com socos no ombro do mago. — Agora!
— Para mim, nunca há uma recepção dessas — reclamou Abraham, ao se aproximar com um sorriso enviesado. Saleh e eles se saudaram com um aperto de mão e dois tapas no ombro, assim que Delilah se afastou do piromante.
— Claro! Você nunca some por mais de uma semana. Esse idiota aqui sumiu por mais de mês! — Delilah ralhou, analisando calmamente o recém-chegado. Após conferir os braços enfaixados, feridas que cicatrizavam no pescoço e um olho roxo a se curar, perguntou com a voz embargada pelo cansaço: — No que você se meteu dessa vez?
— Er... É para responder com sinceridade? — Saleh perguntou, passando a mão pelos cabelos espessos, com um sorriso torto. Delilah socou seu braço, olhando-o de forma acusatória.
— Sim, precisa. A menos que queira que eu peça à Ruby para investigar o que você andou aprontando nesses últimos dois meses.
— Não! Não meta a Ruby nisso, Deh! Por favor! — implorou de uma forma cômica e exagerada. Delilah arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços à frente do corpo. E deixou a resposta no silêncio, até que, após um minuto, Zaman decidiu completar: — Me meti em uma briga, nada demais.
— Nada demais? Você some e me vem com essa de "nada demais". Arrume uma desculpa melhor, essa foi ridícula.
— Juro que foi só um bar e algumas outras coisas destruídas.
Antes que Delilah ou Abraham pudessem comentar algo, entretanto, a voz do magister do clã ecoou de cima das escadas. O tom grave e urgente não deixava dúvidas nas quatro próximas palavras:
— Saleh, suba aqui imediatamente!
— "Algumas coisas"... Você tá ferrado, Zaman — disse Abraham, e em seguida gargalhou. Divertindo-se com o espanto do amigo.
— Não foi pra tanto — comentou ele, rindo nervoso antes de sumir nas escadas, pulando os degraus em pares.
Quando a figura do mago desapareceu após o último degrau, o cansaço pareceu invadir o corpo da garota. Ela respirou fundo, pegou seu casaco largado no espaldar de uma cadeira, o jogou sobre os ombros e anunciou com simplicidade:
— Vou para casa.
— Mas já? A noite mal começou, Deh — Abraham tentou argumentar.
— Estou cansada, Abe. Foi um longo dia. — Ela esboçou um sorriso. — Até amanhã.
— E, é assim? Não ganho nem um beijo de despedida? — ralhou o elementista.
Delilah ergueu o dedo do meio para o mago e após uma risada seca dele, acenou com um riso alegre.
— Até mais, Abe — despediu-se, saindo pela porta da taverna.
Quando suas botas encontraram os paralelepípedos da calçada, um vento frio eriçou os cabelos de sua nuca. Fitando o chão, respirou fundo, ergueu a gola do casaco e iniciou sua caminhada.
Nestes momentos, eu costumava lhe aparecer, se tivesse energia para tanto. Quem eu era nestas aparições? Uma gata de pelo cinzento. Era estranho ter patas e pelos, a visão era totalmente diferente. Porém, a forma do animal gastava menos energia e não causava questionamentos ou olhares curiosos. Assim, eu a acompanhava em silêncio até o seu apartamento alguns quarteirões de distância. Naquela noite, não foi diferente.
Ela sempre fazia o caminho mais longo, mesmo sendo de noite. Gostava do vento batendo em seu rosto e de passar mais perto do córrego da cidade, ouvindo o barulho da água corrente.
O apartamento onde Delilah morava ficava no primeiro andar de uma pousada chamada Karmine's, era de um único quarto confortável e preço acessível, mobiliado a seu gosto e com extrema simplicidade. Tinha custado parte de todas as suas economias deixar do modo que mais apreciava, mas acreditava que tinha valido cada moeda.
Ela pegou a chave embaixo do tapete de boas-vindas, abriu a porta, ouvindo o rangido familiar lhe saudando. Entrou, largou a bolsa sobre a mesa de centro, o casaco sobre o sofá e se jogou sobre ele, trazendo as pernas para perto do corpo, a fim de tirar suas botas gastas.
Então, duas mãos firmes apertaram seus ombros. Ela gritou, girando o corpo em um movimento rápido. Pegou o abridor de cartas sobre a mesinha de centro e, se livrando das mãos, ficou de frente para o seu visitante, a lâmina em sua direção, a mão livre com um pulso de energia prestes a ser disparado.
Saleh conjurou uma chama na palma de sua mão direita, enquanto erguia o outro braço em um gesto defensivo. Olhou para Delilah com um meio sorriso que era um misto de escárnio e divertimento:
— Calma, princesa! Você está muito arisca hoje.
— Sal? Como você entrou aqui? Aliás, o que você tá fazendo aqui? E como chegou?
— Uma pergunta de cada vez. Primeiro, chave embaixo da porta não é um meio inteligente de repelir visitas indesejadas, sabia? — perguntou arqueando levemente a sobrancelha, cruzando os braços a frente do corpo. — Depois, você anda muito devagar. E por último, eu apenas vim fazer uma visita... Matar as saudades, sabe?
Ela analisou sua silhueta por um segundo, enquanto buscava uma iluminação melhor. Não largou o abridor de cartas nem por um instante, desconfiada o suficiente para não baixar a guarda. Foi apenas ao encontrar um lumen, uma espécie de esfera vítrea para onde qualquer magia podia ser canalizada a fim de se obter luz, e entregá-la para o mago, que colocou o abridor de cartas de volta na mesa de centro.
Saleh depositou a chama de sua mão dentro do orbe e então o lançou para o ar. Apenas quando o objeto flutuava próximo ao teto que Delilah observou a fisionomia do elementista com atenção. Os músculos adquiridos com esforço durante um treino árduo no deserto, a pele que às vezes lhe parecia dourada. Deu um longo suspiro e cruzou os braços a frente do corpo, com a expressão um pouco mal-humorada.
Não era a primeira vez que Saleh, ou Abraham ou Ruby, invadiam seu apartamento. Mesmo que já estivesse acostumada, de certa forma, ela não deixava de se irritar com isto.
— Não esperava visitas — comentou. — Principalmente a essa hora.
— Achou mesmo que eu esqueceria seu aniversário, princesa? — Brincou ele, se aproximando dela e acariciando seu rosto.
Delilah arqueou uma sobrancelha e rebateu:
— Considerando o tempo que ficou sumido... Sim.
— Sem drama, Deh! — protestou Saleh.
— Não estou fazendo drama, só comentando. — Ela deu de ombros.
Zaman se afastou e foi buscar sua sacola largada no canto da sala. Atravessou o ambiente de volta, procurando algo no meio da bagunça de seus pertences. Largou a sacola dois passos antes da Khaye, e retirando uma caixinha amassada de papelão, estendeu-lhe o objeto.
— O que é isso? — perguntou ela, erguendo uma sobrancelha.
— Abra.
Ela abriu. E se deparou com uma pulseira. A corrente, formada por dois fios enlaçados, um de ouro e um de prata, foi puxada para fora. Na ponta, um eclipse bem desenhado balançava um sol que parecia cortejar a lua. O pingente pulsava enquanto reluzia contra a luz. Estupefata, encarou Saleh, enquanto ele tomava seu braço e prendia a joia.
Ele então desenhou a corrente com o indicador, tocou o pingente sorrindo e sussurrou:
— Nós. Parte do meu atraso foi porque peguei um trabalho extra para comprar isso.
Delilah abriu a boca e a fechou no instante seguinte. Estava emudecida e surpresa demais para elaborar uma resposta.
— O que dirão no clã? — Foi a primeira frase coerente que se formou em sua cabeça.
— Nada — rebateu ele. Quando ela arqueou uma sobrancelha em descrença, completou: — Deh, acha mesmo que eles já não sabem? Depois do seu show hoje, é ainda mais provável que todos tenham confirmado suas suspeitas. E qual o problema de saberem?
— Nenhum — comentou, passando os dedos pelo pingente. — Apenas achei que preferia continuar como estávamos.
— Ah... Confesso que escondido é bem mais divertido — pontuou, puxando-a pela cintura e mordiscando o lábio da maga. — Mas todos saberem que você é minha tem suas vantagens...
Entrando na brincadeira, ela passou a mão por cima dos ombros dele e disse:
— Como o quê?
— O infeliz do Abraham não se aproximar de você, por exemplo. — Delilah gargalhou, fazendo com que Saleh arqueasse uma sobrancelha e perguntasse, desconfiado: — O que foi?
Incapaz de responder, ela apenas sacudiu a cabeça negativamente. Murmurando um "nada" com os lábios.
— Está zombando de mim, Delilah? — perguntou ele, em meio as risadas dela.
— Não — respondeu, mas em seguida, caiu novamente no riso.
Saleh se aproximou, com a tentativa de um olhar ameaçador, segurou-a pela cintura, fazendo seus olhos se chocarem pelo ar. Tentando conter o riso, a maga mordeu o próprio lábio e ele beijou seu pescoço, subindo a boca devagar até sua orelha.
— Não zombe de mim, Deh.
— Ora, que culpa eu tenho se seu ciúme é engraçado? — respondeu ela, como se a respiração dele no seu pescoço não a afetasse. Mesmo que seu coração dissesse o contrário e suas palavras fossem rápidas demais, saindo aos tropeços. E ele a conhecia com a palma de sua mão.
— Não é ciúme.
— Claro que é, Sal, mas eu deixo.
— Ótimo ― resmungou perto de seu ouvido, parecendo ronronar. Mordeu-lhe o lóbulo e falou devagar e baixinho: ― Então, resolvido este assunto, vamos ao que interessa? — Delilah arqueou uma sobrancelha e não falou nada. Saleh mordeu seu lábio, puxando devagar para si e murmurou vagarosamente: — Você não faz ideia de como senti sua falta.
— Hum... — Ela não conseguiu responder de maneira apropriada. Seu coração batia rápido no peito, sua pele parecia formigar a cada toque. Como explicar que sentira a falta dele ao ponto de seu corpo doer?
Agora, sentia o calor do corpo dele a lhe cobrir, deixando-a extasiada. Enquanto a ausência tinha sido um frio arrebatador, sua presença despertava chamas em seu íntimo. Como se estivesse pensando a mesma coisa, Saleh segurou sua nuca, dando início a um beijo urgente. Com braços, tentava se fazer mais próximo, como se seus corpos pudessem se fundir na proximidade e jamais se afastar noutro momento.
Ela retribuiu o gesto, arranhando o abdômen dele enquanto puxava a camisa de linho para cima, apressada. A boca dele escapou da sua, ele se abaixou quando a própria camisa caiu no chão da sala e, erguendo a blusa da maga, beijou sua barriga, falando contra sua pele:
— Cada mísero segundo naquele deserto foi uma tortura.
Parecia murmurar para si. Embevecido no perfume da pele de Delilah. Ela passou a mão por seu cabelo, sentindo os fios espessos por entre seus dedos e o puxou para cima, enquanto ele retirava sua blusa. Seu polegar cobriu os lábios do mago, enquanto um sorriso arteiro despontava na própria boca.
— Sh... Não fale, Sal. Use a boca para algo melhor — sussurrou no ouvido dele.
Saleh esboçou um sorriso, puxando as pernas dela até que ela o envolvesse pela cintura. Ele chupou seu dedo e falou com voz rouca:
— Como quiser, princesa.
Capturou a boca da maga com a sua. Não se importando em erguê-la contra a parede, ou com o desejo que emanava de sua pele. Se aquilo era para matar a saudade nos dias do deserto, partiria mais vezes em busca dos reencontros.
Naquela noite, devorou-a sem pudor, enquanto ela se perdia em seu corpo. E não houve mais palavras.
Apenas peles, bocas, gemidos. A orquestra de dois corpos apaixonados.
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