5.

Me lembro das mãos de Levi me puxarem da forma mais sutil possível do corpo de Ethel, que tinha os antebraços sobre o rosto na tentativa falha de se defender. Naquela altura, eu não agia mais com consciência, só sentia meu sangue fervendo e ouvia a voz de meu namorado pedindo por calma, mas eu o golpeava sem culpa e sem dó.

Levi precisou me puxar com uma força maior para que eu finalmente me controlasse. Ele me colocou encostada no pilar de novo, mas eu chorava copiosamente e vez ou outra um impulso me fazia avançar de novo sobre meu progenitor que não se movia, apenas me olhava com pesar. Pude ver que um corte sobre sua sobrancelha e outro na bochecha feito por minhas unhas começava a sangrar.

一 Ei, psiu, calma, shhh, calma.一 O garoto alinhava meus cabelos e acariciava meu rosto, mas sua expressão estava assustada. 一 Lilli por favor, respire comigo, vamos. Inspira, expira...一 Levi tentava, mas eu só conseguia encarar Ethel.

一 Como você tem coragem?一 Gritei, mas sentia minha garganta doer. A qualquer momento eu perderia minha voz, e me apavorei com a ideia de ser silenciada de novo.

一 Lillian eu não posso dar as costas para ele.一 Disse, como se isso explicasse tudo.一 O Lane não tem ninguém. Ele não tem uma esposa, ou filhos, ele passou os últimos oito anos na prisão e, gostando ou não, eu sou tudo que ele tem. O seu avô disse a ele que considerava que tinha só um filho porque o Lane morreu para ele desde que foi preso. O que esperava que eu fizesse?

Eu não acreditava no que escutava. Escorreguei até o chão e abracei meu próprio corpo, tentando controlar minha respiração. Levi se afastou um pouco para me dar um pouco de ar, mas estava perdido no assunto.

Limpei as lágrimas de forma furiosa.

一 O que eu esperava que você fizesse? Qualquer coisa, menos abrigá-lo como se nada tivesse acontecido. Poderia tê-lo denunciado, inventado outro crime, matado se fosse preciso mas em vez disso você o colocou na sua própria casa depois de tudo que ele fez? E ainda deixou uma de suas filhas com ele, você sequer pensa antes de tomar uma decisão, Ethel?

Senti a necessidade de me levantar quando percebi que os cacos do copo cortavam minha perna.

一 Querida, o seu tio mudou, ok? Ele é um homem diferente, e se você deixasse esse remorso ao menos um pouco de lado para...

一 Não é remorso!一 Gritei de novo, me segurando para não atacá-lo, a voz rouca e falha.一 É ódio, Ethel! É nojo, aversão, horror!一 Precisei me aproximar para ter a garantia de que eu seria ouvida. Afinal de contas, eu precisava falar. Precisava falar o que não consegui dizer tantos anos atrás.一 A justiça pode ter achado que oito anos foi tempo suficiente mas pra mim nem duzentos anos seriam suficientes, caramba! Acorda, Ethel, aquele homem abusou de mim, sua filha.一 Coloquei o indicador em seu peito.一 É por causa dele que eu preciso pintar o meu cabelo porque não consigo me olhar no espelho do jeito que eu era de novo. É por causa dele que não consigo vestir uma roupa de acordo com a minha idade estando a vontade porque tenho medo de ser sexualizada por outros homens de novo. Ele aproveitou do meu luto, Ethel, e fez coisas horríveis, e mesmo depois de ter sido condenado por isso você ainda abre as portas da sua casa pra esse homem? E ainda deixou a pobre da Lawrence ou da Millie ou até mesmo sua esposa estar no mesmo ambiente que ele? 一 Cuspi em seu rosto.一 Você é tão nojento quanto o Lane.

Mais uma vez, Levi sentiu a necessidade de intervir, já que Ethel se colocou de pé. Ele limpou o rosto com cuidado.

一 Escuta, Lillian...

一 Não quero escutar. Vai embora. Sai agora da minha casa.一 Eu sentia que ia explodir a qualquer momento e não aguentava mais olhar para ele.

一 Lillian essa casa é do meu pai, e não vou sair daqui sem que você escute o que...

一 Eu acho que você entendeu o que ela falou.一 Levi, apesar de ser mais baixo que meu pai, ergueu a cabeça para olhá-lo.一 Se manda daqui.

Senti medo de que ele se envolvesse em uma briga por mim. Quando vi que os olhos de Ethel começavam a se tornar raivosos, corri para a cozinha e então para a área externa, encontrando a espingarda de caça do vovô.

Quando voltei para a sala, os dois discutiam em um tom caloroso, mas tudo que fiz foi puxar Levi para trás e acionei o gatilho.

一 Sai.一 Ordenei novamente, com a arma apontada para ele.

一 Lillian, fala sério, você nem sabe usar isso. Vai se machucar.一 Ele riu de canto, mas eu sequer tremi.

一 Você quer ver?

Senti a mão de Levi Machado tocar minhas costas, mas não desviei o olhar para ele.

一 Tudo bem.一 Ele ergueu as mãos, indo em direção a porta.一 Volto quando você for madura o suficiente para conversar como adulta.

一 Não volte.一 Declarei por fim e, quando Ethel passou pela porta, Levi tirou a arma cuidadosamente de minha mão colocando sobre o sofá e então me abraçou.

Me permiti chorar novamente e para o meu alívio, ele não fez nenhuma pergunta.

❀ • ✄ • ❀

Depois que consegui me recuperar um pouco da histeria, Levi preparava água com açucar para que eu pudesse tomar.

一  Preciso fazer alguma coisa.一  Decidi, e então comecei a vasculhar toda a cozinha.

一  E como posso te ajudar com isso?一  Ele se prontificou, colocando o copo de água ao meu lado.

一  O vovô tem o endereço dele em Grahanna em algum lugar por aqui. Acho que, no ano passado, um amigo do vovô fez um favor para ele e buscou umas ferramentas de marcenaria que eram dele e estavam com meu pai. E o vovô tinha anotado esse endereço no rodapé de algum... jornal, eu acho...一  Informei, abrindo e fechando gavetas de modo desesperado à procura do papel.

No mesmo momento, ele começou a procurar comigo. Ficamos cerca de quinze ou vinte minutos nessa procura, então encontrei a anotação no final de um livro de receitas. Imediatamente, tirei meu telefone do bolso e liguei para a emergência estadual. Pedi para que transferisse a ligação para a emergência de Gahanna, mas, quando ouvi a voz pacífica da atendente dizendo "Qual sua emergência?" travei completamente. Ela repetia: "Qual sua emergência?" e então Levi pegou o telefone de minha mão, puxando também minha cabeça e encaixando em seu peito.

"Tenho uma denúncia para a casa 327 na Finstock Way. Tem um criminoso na casa acompanhando uma garota de onze ou doze anos sem nenhum tutor presente. O homem é perigoso e já foi condenado por abuso sexual de menor e pedofilia, eu preciso que alguém vá até lá para conferir se a menina está bem."

Enquanto eu ouvia aquela declaração, precisei sufocar um choro com as mãos, e Levi depositou um beijo em minha testa mas, quando o olhei, ele também chorava

. "A garota se chama Lawrence Reeve."

A mulher dizia mais alguma coisa que eu não compreendia.

"Sim, tudo bem. Me chamo Levi Donell Machado, e você pode registrar o meu telefone, eu reafirmo a denúncia." Ele continuou o protocolo com a moça ao telefone, mas me distanciei para tomar um pouco da água que me preparou e finalmente respirar um pouco.

❀ • ✄ • ❀

Para o meu alívio, a polícia informou horas depois que Lawrence havia passado o dia na casa de uma amiga e não teve contato com Lane desde que seu pai havia saído da cidade, mas agora meu tio era procurado como suspeito de um roubo naquela mesma rua.

Apesar de ter tentando, aquela situação com meu pai havia ativado tantos gatilhos em mim que eu não conseguia mais ficar em casa sem chorar, então Levi propôs que eu ficasse em sua casa até que meu avô voltasse.

Tive coragem de contar sobre o acontecimento apenas para Diane, que assim que soube obrigou Charles a ir até a cobertura dos Machado e cuidar de todos os machucados que eu havia feito naquela tarde.

Era segunda-feira, 30 de Julho, e mesmo depois de ter passado quase dois meses daquela situação com Ethel, meu avô preferia que eu ficasse mais na casa de Levi do que na minha, porque detestava a ideia de me ver chorar de novo. Felizmente, o pai, a madrasta e o irmão de Levi me tratavam de forma tão carinhosa que eu conseguia me sentir muito acolhida naquele local.

Agora, eu estava sentada na varanda da casa dos Machado em uma video chamada com Andrea, na tentativa de forçá-la a fazer uma festa de três meses das trigêmeas quando chegasse a hora. Ela parecia relutante na minha ideia de fantasiá-las de abelhinhas, mas prometeu pensar.

一 Algum progresso com o mêsversário?一 Levi caçoou de mim, sentando-se ao meu lado.

一 Nenhum ainda, mas não vou desistir fácil.一 Assumi, e nós dois rimos. Abri a boca para informar que eu tinha outras cartas na manga, mas um estrondo no apartamento ao lado fez que eu e ele olhássemos naquela direção.

Uma discussão parecia acontecer. Percebi diferentes tipos de vozes alteradas e se misturando, mas eu não conseguia entender o que diziam. Parecia uma briga.

一 Não me diga que esse barulho está vindo da casa dos Coleman.一 Pedi, mas o olhar preocupado dele já me confirmava.

一 É de lá mesmo.一 A gritaria parecia ainda mais audível, e Levi arregalou os olhos.一 Meu Deus, o que está acontecendo ali?

George Machado apareceu no portal da varanda com um telefone em mãos.

一 Isso é na casa dos Coleman?一 Perguntou ele, tão surpreso quanto nós. Seu filho balançou a cabeça, confirmando. Aparentemente, todo o andar podia escutar.

Cruzamos os braços e olhamos um para o outro, sem saber se deveríamos ou não intervir. Meia hora depois, a campainha tocou, e Levi correu mesmo que descalço para abrir.

Arthur Coleman adentrou o apartamento, e então me coloquei de pé.

一 Cara, vocês estão bem?一 Meu namorado abraçou os ombros do melhor amigo e o conduziu até mim, colocando-o sentado em uma poltrona. Não pude deixar de notar alguns vergões avermelhados em seu braço.

一 Você quer que busque um gelo pra isso?一 Propus, apontando para o braço, sem saber como ajudar.

一 Ah, isso? Não precisa. Foi a minha irmã.一 Ele alinhou os cabelos, mas seus olhos estavam vazios, fitando o nada.

一 O que aconteceu entre você e Beatrice? Entre todo mundo daquela casa?一 Levi se agachou para olhá-lo.一 Ei?

一 Ah, tanto faz, todo mundo vai saber mesmo...一 Arthur pareceu decidir, e então encarou a mim e depois seu amigo.一 Meus pais vão se divorciar e... Peter tem uma amante.

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