2.

Era sexta-feira, 16 de Fevereiro. Eu estava inquieta demais para esperar por Celestine do lado de fora de seu consultório, mas por já ter "fugido" de uma consulta no início daquela semana, mamãe estava me escoltando até lá. Minha ansiedade parecia não incomodá-la, já que Mabel Madison continuava calma e plena enquanto lia uma revista de imobiliária.

一 Está pensando em comprar uma casa?一 Perguntei, enquanto mordia a unha de meu polegar. Ela não ergueu o olhar para mim.

一 Não.

一 Então por que está tão interessada na revista?

一 Eu não estou.一 Ela passou a página de forma pacífica.一 Mas andar de um lado para outro não vai fazer você ser atendida mais rápido.

一 Mãe, sério eu...一 Me ajoelhei próxima a ela.一 Não está na hora de pararmos com essas consultas? Eu não preciso mais delas, eu estou ótima!一 Tentei.

一 Diga isso para suas unhas.一 Mabel sequer me olhou, e continuou com sua revista estúpida. Bufei.

一 Aí está ela. 一 Celestine finalmente apareceu, e se  despediu de um homem de meia idade com um poodle no colo, que nos cumprimentou brevemente e então passou pela porta. Celestine usava o cabelo crespo em um firme e belo rabo de cavalo, e sorriu docemente ao me ver.一 Como vocês estão, Madison? Demoramos para nos ver essa semana, acho que vamos ter muito o que conversar e...

一 Você já pode ir embora.一 Declarei para mamãe. Eu odiava tratá-la daquela maneira, mas odiava mais ainda sua superproteção. Peguei minha bolsa e disparei para dentro do consultório.一 Eu pego um ônibus pra casa.

E as deixei na recepção, sentando na boa e velha poltrona que me acolhia há dois anos.

一 Você parece agitada hoje.一 Celestine se sentou em minha frente, me avaliando por inteiro.一 Aconteceu alguma coisa?

一 Não.一 Declarei, sem olhá-la nos olhos.

一 Ok.一 Ela cruzou as pernas.一 Na última vez que nos vimos, você estava empolgada para uma festa surpresa de uma de suas amigas...e aí, como foi?

Cruzei os braços.

一 Foi bom.

Celestine olhava ora pra mim, ora para minha perna, que me denunciava enquanto balançava para cima e para baixo.

一 Sua mãe me disse que você tinha algo para me contar sobre um garoto...

一 Você sabe quem é.一 Não permiti que ela continuasse.一 Foi legal.

一 Bem...一 Celestine folheou um pouco seu caderno de notas..一 Eu esperava uma descrição mais animada sobre isso. Você está feliz?

Aquela pergunta eu realmente não esperava.

一 Entre mim e Charles?一 Descruzei os braços para colocar uma das mãos sobre a perna inquieta.一 Sim. Digo, hã, nós não tivemos muito tempo desde aquilo. Ele é muito ocupado com a faculdade e o estágio e eu tenho tentado não pensar muito.

一 Entendi.一 Ela sorriu, mas seu olhar se voltou para o meu corpo ansioso e sem nenhum controle.一 Então o que te fez voltar a tomar os remédios que não deveria?

Finalmente a olhei nos olhos. Odiava a forma como Celestine me conhecia, e então apertei com as costas a minha bolsa, que escondia os ansiolíticos e antidepressivos que eu tinha sem prescrição. Eu precisava contar o que me deixava tão angustiada, se não o foco seria os remédios, e eu não queria ter aquela conversa.

一 Tem menos de uma hora que descobri que uma amiga minha quase morreu afogada noite passada.一 Confidenciei, e senti como se um peso saísse de meus ombros. Levei minhas mãos trêmulas até a boca para abafar o choro.一 E eu não devia ter contado isso a ninguém...

一 E ela está bem agora?一 Os olhos ternurosos de minha psicóloga se tornaram aflitos.一 Ela ainda está no hospital?

一 Ela não foi ao hospital.一 Sequei as lágrimas.一 Nem os pais dela sabem. Só eu e a pessoa que a salvou.一 Expliquei, me perguntando se o psicológico de Joe estava tão atordoado quanto o meu.

一 E por que isso tem que ser um segredo?

一 Por que foi burrice!一 Eu me alterei, já que segurava esse pensamento desde que soube.一 Ela não sabia o que estava fazendo até fazer. E não sei porque me contou também!一 Eu chorava mais ainda.一 Sabe, Celestine, eu a amo mas a irresponsabilidade dela me corrói por dentro. Essa garota pode morrer a qualquer momento e eu não suporto a ideia de perder mais ninguém, não suporto!

Ela me deu tempo para me recompor e então me serviu água. Enquanto eu tomava, Celestine observava que meu corpo já não tremia mais.

一 Por que acha que Beatrice te contou?

一 Eu não sei.一 Deixei o copo na mesinha ao lado e então a encarei.一 Espera, eu não disse que foi a Beatrice.

Minha psicóloga olhou para o caderno de anotações e depois para mim.

一 Pelas descrições das ações das suas novas amigas...só pode ser ela. 一 A mulher se aconchegou em sua poltrona.一 Sabe que nossas conversas ficam guardadas aqui. Não precisa se preocupar.

Respirei fundo.

一 Não faz sentido eu ter sido a pessoa que ela escolheu para contar.一 Suspirei.一 Digo, nós seis nos gostamos na mesma intensidade, mas de uma forma muito natural somos duplas mais próximas, entende?一 Ela fez que sim.一 Andrea e Briella moram juntas e isso automaticamente faz com que sejam mais amigas. Eu e Lilli nos conhecemos desde os dez anos, e apesar de termos sido só colegas antes das outras entrarem em nossas vidas, é mais fácil para nós duas sermos mais próximas. E a Scarlett e a Bea apesar de serem muito opostas de alguma forma se entendem muito bem. Talvez a proximidade seja por causa dos irmãos Hammar...

一 Seguindo a sua lógica, ela deveria ter contado para a Scarlett. Por que acha que ela contou para você?

Precisei pensar um pouco antes de responder.

一 Acho que eu sou a única que não daria um sermão nela.Eu não briguei com ela por isso.一 Percebi, dizendo em voz alta.

一 E por quê?

一 Porque eu também tenho vontade de desistir da vida às vezes.一 Revelei, me encostando melhor na poltrona.

Celestine apenas me olhava, sem nenhuma expressão de pena. Eu gostava disso nela.

一 Você acha que está com raiva porque ela lembra o seu pai?

Eu nunca havia parado para pensar nisso. Olhei para cima, segurando as lágrimas para refletir.

一 Eu não entendo como os dois conseguem...一 As palavras morreram em minha garganta.一 Ela tem tudo, Celestine. Ela mora em uma casa grande, todos na escola querem estar perto dela, o cara que ela gosta é perdidamente apaixonado por ela e tem uma família completa. 一 Falei.一 Meu pai tinha o emprego perfeito, eu era uma criança amorosa e a mamãe também faria tudo por ele. Por que essas pessoas simplesmente desistem?

一 O seu pai fez uma escolha, Diane.一 Ela também bebeu um pouco de água.一 Depois das drogas, o crime e todo o resto vieram como consequência. Você não pôde salvá-lo, você tinha cinco anos... Precisa parar de comparar todas as coisas com ele.

Me permiti alguns segundos de silêncio.

一 Se não for isso, o que é, então?

一 Você já quis que sua mãe arrumasse um marido, não é?

Eu não entendia o rumo daquela conversa, mas concordei.

一 Eu gostaria que ela ocupasse a cabeça com outras pessoas além de mim. Quem sabe assim ela pegue menos no meu pé.

一 Já eu acho que você gostaria de ter uma família.一 Explicou.一 Percebi o seu brilho quando disse que ela tem "uma família completa". Ninguém enfatiza isso dessa forma.

Pisquei várias e várias vezes.

一 Está dizendo que eu tenho inveja da Bea?

一 Beatrice é como o sol. Quente, central e atrativa. Você e as outras são as estrelas que habitam o seu sistema.一 Ela pausou para pensar em sua metáfora, e depois continuou.一 A presença dela em sua vida chacoalhou toda a sua rotina e você está perdida com o que fazer. Ela introduziu você em um ambiente totalmente diferente, trouxe novas aventuras e tenho quase certeza que é uma das influências por trás da sua coragem de se aproximar de Charles. Estar "orbitando" em volta dela te faz refletir quem você é, e isso te causa pânico, porque você não quer mais voltar para a mesmice de sempre. Gostou da aventura, não é? 一 Celestine parou para que eu acompanhasse seu raciocínio.一 Ela teve o ímpeto de fazer algo que você sempre cogitou fazer e, agora, vendo de fora, você enxerga como seria fazer o que ela fez. Como seria terrível causar essa preocupação em outra pessoa.一 Refleti.一 Gosto da forma como suas novas amizades te jogaram em outra perspectiva, Diane. Gosto mesmo. E acho que você precisa usar isso para se permitir um pouco mais. Sua vida é valiosa demais para viver do mesmo jeito, atrás do mesmo fantasma que te assombra. Talvez você deva usar esse medo para se tornar a protagonista de sua própria história, assim como ela, e será muito mais feliz. Pode acreditar nisso.

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