1.

Levei a mão ao lado esquerdo da mandíbula quando senti um incômodo, e minha expressão provavelmente não foi a melhor, já que Max riu alto ao olhar para meu rosto.

— Dor de dente? — Perguntou ela de maneira debochada.

— Não. — Neguei imediatamente, mas ela se colocou de pé, pulando a fogueira entre nós.

— Pare de mentir. — Max virou o restante do conteúdo em sua garrafa, antes de jogá-la no chão. — Eu vi quando abriu seu Switchel com o dente.

Neguei com a cabeça, mas o incômodo latejante não cessava.

— Você disse há uns quarenta minutos que buscaria um abridor pra mim, e se eu fosse te esperar voltar sabe-se lá de onde, morreria de sede.- Beberiquei mais uma vez a garrafa, sentindo o prazer da bebida doce, picante e com um toque ácido. Switchel era inexplicável, mas por ser completamente natural, era minha favorita.

— Certo.— Max dançava com os ombros, e eu não precisava de nenhum outro indicador para entender que ela já estava bêbada, porque era tímida demais para dançar em qualquer outra ocasião. — Já volto.— Disse ela mais uma vez, me deixando sozinha na roda de seus próprios amigos.

Olhei em volta, agora sentindo a brisa fresca que vinha das árvores e açoitava meus cabelos. O local da festa em si que estávamos ficava perto da trilha de Downton Connector, algo entre o rio Scioto e a rodovia de W Spring. Eu ficava constantemente observando cada detalhe do local, como se tivesse medo da reserva se mudar de lugar e ficarmos perdidas para sempre.

A realidade é que, embora eu soubesse muito bem o caminho de volta, morria de medo de um erro no GPS me fazer errar a estrada e chegar tarde demais em casa. Meu pai odiaria, e seria embaraçoso demais explicar a ele que eu não estava retiro da igreja como o havia informado.

— Ah, tá bom.— Um sotaque britânico chamou minha atenção enquanto eu soltava ao meu lado outra garrafa vazia de Switchel. O rapaz loiro se sentou de frente para a fogueira, no tronco em que Max estava, e conversava com dois amigos. — Isso se supostamente você tivesse essa jurisdição pra essas coisas. O que eu acho difícil. Em uma guerra de zumbis, o Chefe de Estado ainda teria o controle do exército, e você não conseguiria nenhum apoio deles  sendo sonegador e comunista. — O trio de amigos parecia ter um assunto muito privado e restrito, com piadas internas, e então sorri antes de abrir outra garrafa.

— O Secretário de defesa tem o controle.— Falei baixinho, apenas para mim, como se lembrasse de uma das frases de efeito da minha série favorita.

— O que você disse?- O rapaz falou, me olhando nos olhos através das labaredas alaranjadas. Ele tinha cabelos encaracolados e curtos, e, do ângulo que eu via, parecia um pouco loiro. Seu olhar intenso me queimava de dentro pra fora.

— Nada. — Respondi de forma rápida. — Pensei alto, desculpe.

Os amigos do britânico pareciam o estilo bad boy que todo mundo tem medo. Ele, apesar de ser menor, gesticulava de forma mais intimidadora do que todos os outros. Certo, eu já tinha vinte anos e um trio de rapazes em uma festa de universitários no meio do nada não deveriam me assustar, mas eu estava vulnerável. Primeiro, o ensino médio não foi o mais gentil comigo em termos de bullying. Segundo, a única pessoa que eu conhecia ali era a universitária bêbada que se dizia minha melhor amiga, mas que não me servia como apoio em caso de defesa.

— Você está certa.— O rapaz sorriu de lado, e uma covinha se exibiu do lado direito de seu rosto. — Realmente, o controle do exército está nas mãos do Secretário de Defesa do país. É. — Aqueles que o acompanhavam aparentavam não estar mais interessados na conversa, já que ambos riam de algo nos telefones que acendiam o tempo inteiro com notificações.

Senti um breve desconforto e encolhi os ombros. Aquela sensação de zombaria me recordava lembranças horríveis, e por um segundo pensei que pudessem estar falando de mim ao telefone. Frutos de minha insegurança.

— Não costumo ouvir conversa dos outros.— Declarei.— Me perdoe.

— Relaxa, eu não me importo de ser corrigido. E você parece tensa. — O britânico agora caminhava em minha direção, contornando o fogo e se sentando bem do meu lado. Controlei a respiração. — Isso tem a ver com a péssima bebida que está tomando?

— Switchel é bom!— Respondi mais de imediato, como se ele tivesse ofendido minha própria mãe.

— E por que a soldado está tomando bebida sem álcool em uma festa como essa? Está em missão?— Seus olhos e sorriso se ornaram de uma forma divertida, e então olhei pra baixo timidamente.

— Não sou uma soldado.— Declarei, observando que ele não bebia naquele momento e nem cheirava a álcool. — Não teria coragem suficiente pra isso. Só gosto de séries.— Comentei, levando a mão novamente ao rosto.

— Dor de dente?— Ele se aproximou por dois centímetros, mas que pareceram metros. — Estava abrindo a garrafa com o dente?

— Talvez. — Admiti, com certo embaraço.

— Pode ter trincado. — O rapaz parecia preocupado, tocando levemente meu queixo para olhar melhor a lateral de meu rosto. — Deveria ir ao dentista, srta...— Me olhava sugestivamente.

— Dior. Andrea Dior. — Me apresentei quando percebi que ainda não tínhamos feito isso. — E você, soldado?— Brinquei também.

— Blake Dempsey. — Blake estendeu sua mão para mim e apertei brevemente. Estava nervosa com o porte estonteante dele. — Muito prazer. Eu não sou soldado mas conheço um. E dentista também.

— Já está melhor do que eu. Todos que conheço são da ficção mesmo.— Sorri.

O Dempsey piscou duas vezes antes de continuar sua fala.

— E você faz qual curso por aqui, tenente Dior? Não me lembro de tê-la visto antes conosco. É caloura? — ele parecia realmente interessado.

— Não sou universitária, ainda não tenho dinheiro pra isso. Quem sabe um dia.— Olhei para as estrelas, pensando se eu realmente acreditava que conseguiria realizar aquele sonho. — Mas minha amiga, Max, faz Filosofia. Talvez você a conheça.

— Max...— Blake saboreou o nome em sua boca por alguns segundos. — Não me recordo. Os filósofos ficam um pouco mais distantes do pessoal da engenharia mecânica.

— Engenheiro mecânico? Uau!— Assoviei. — O Secretário de Defesa com certeza vai ficar feliz em tê-lo na equipe quando o tal apocalipse zumbi chegar. — Debochei, e então ele levou a mão aos olhos, tímido com o fato de que eu havia escutado essa parte da conversa.

— Ele eu não sei. Mas o capitão da brigada de infantaria do exército, com certeza desaprova esse curso. — Blake cruzou os braços sobre o tronco e parecia desconfortável.

— Seu pai? — Tentei um palpite.

— É.

— É do exército britânico?

— Não, não. — Blake riu. — O capitão Dempsey é um achado valioso do exército americano. Esse meu sotaque é por conta dos avós maternos, me amaldiçoaram com ele.

— Não é uma maldição. — Ri mais uma vez e logo percebi que não havia mais espaços entre nós dois no tronco em que estávamos sentados. — Seu sotaque não é tão forte e com certeza é muito bonito.

— Que bom que acha. — As covinhas de Blake reapareceram. Por alguns instantes, ficamos apenas olhando o crepitar das chamas. — Se está aqui por causa da Max, onde está ela, afinal?

Mordi o lábio e olhei em volta.

— Essa é uma ótima pergunta, tenente Dempsey. — Nós rimos e então olhei a hora em meu celular. — Já são onze horas. Eu topei vir para dirigir e levá-la de volta em segurança, mas ela sempre me abandona em qualquer lugar. Eu deveria partir sem ela.

Blake se colocou de pé, limpando brevemente sua calça jeans escura.

— Devemos ir, então. — Ofereceu sua mão para mim. — A reserva é um pouco grande mas eu conheço bem. Vamos em uma missão atrás da Max.

Assim, deixei a última garrafa de Switchel e o acompanhei.

Percebi, não muito distante daquela situação por alguns minutos depois que Blake Dempsey era o tipo interessante de garoto popular. Ser atraente já era o requisito mínimo, de fato, mas ele não parecia ter inimizade com ninguém ali. O rapaz me apresentava sempre que alguém o parava para conversar e ignorava minha presença, sempre de forma muito carismática e agradável, o que não me ajudava a querer estar distante dele.

Trinta minutos depois, precisei parar para tomar um pouco de ar. Encostei-me na lateral de um dos trailers, buscando dar apenas um descanso para minhas pernas.

— Você não deve ter sido a melhor nos treinos, tenente Dior. — Blake zombava.

— Um sinal de telefone não faria mal agora. — Declarei, bufante. — Max me paga. Nem sei porque ainda a acompanho.

— Você deve ser uma ótima amiga. Pode ser isso. — o universitário tirou um molho de chaves do bolso e apertou um botão em uma delas. O trailer acendeu seus faróis por um breve segundo e depois apagou.

— É seu? — Perguntei, saindo imediatamente do meu confortável encosto de latão. — Desculpe.

— Deveria se desculpar menos, Andrea. — Pela primeira vez, Blake me chamou pelo nome, e aquilo me arrepiou. Não deveria ser nada demais. Ele puxou a porta do trailer e colocou o pé esquerdo no primeiro degrau. — Max pode ter saído com os amigos do curso. Por que não esperamos mais um pouco antes de procurá-la?

Ele me olhou sugestivamente, adentrando o local escuro.

Fiz que sim e então o segui, sem imaginar que aquela noite mudaria o sentido da minha vida para sempre.

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