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ஓீ፝͜͜͡͡Parecia que Sarah podia flutuar.

Assim que abriu os olhos naquela manhã, o sorriso tomava conta de seus lábios e a primeira lembrança que veio à sua mente naquele momento, foi do belo sonho que tivera com Blaine Blackwoods. Ela estava de volta a casa dele em um encontro mais que especial. Ela podia sentir o beijo dele tão docemente em seus lábios. Sentia-se completamente extasiada com aquela sensação que se instalava dentro de seu peito, como se flores crescessem ao serem regadas, colorindo toda a estrada de seu coração.

Era a primeira vez em dias que tinha um sonho. Geralmente apenas se deitava e apagava, mas naquela manhã, lembrava-se de que não queria mais acordar. Queria continuar tendo aquela sensação bonita que estava tendo no sonho, mas ao olhar a hora, via que já era nove da manhã. A luz entrava pelas frestas da janela do seu quarto, porém ela não conseguiria voltar a dormir.

Sarah pegou o celular que estava sobre a mesa-de-cabeceira, ligando-o e passando o dedo na tela para destravar. Ela viu que havia uma mensagem do número de Blaine desejando bom dia, o que arrancou mais um sorriso de seu rosto, então logo se apressou para respondê-lo com outro bom dia. A resposta veio quase de imediato como se ele estivesse esperando pela resposta avidamente, o que fez Sarah sentir-se ainda mais leve.

Blaine: "Eu sonhei com você esta noite"

Sarah: "Acreditaria se eu dissesse que aconteceu o mesmo comigo?"

Blaine: "Pelo visto, acho que temos uma conexão"

Sarah: "Emotion rindo"

Blaine: "Não paro de pensar no seu beijo"

Sarah: "E nem eu no seu"

Blaine: " Quero poder fazer isso de novo"

Sarah: "Mal posso esperar"

Sarah ouviu passos no corredor e deixou seu celular de lado por um segundo, se focando no barulho de botas que ecoavam, enquanto passavam. Sarah deixou seu celular sobre a cama, então se dirigiu até a porta do quarto, abrindo-a e mal podia acreditar no que seus olhos viam. Seu pai estava ali com as roupas de xerife de sempre. Ela nem conseguia se lembrar qual fora a última vez que o viu com roupas despojadas, pois estava sempre naquele uniforme de trabalho.

― Papai? ― questionou ela sem entender o que estava acontecendo.

― Oi filhinha! ― disse ele com um sorriso empolado.

― Está chegando agora? ― perguntou ela vendo que ele estava indo em direção ao seu quarto. ― Dormiu na delegacia outra vez?

O pai coçou a parte de trás da cabeça, claramente nervoso, o que mostrava que ele se sentia um tanto culpado. Sarah o conhecia bem o suficiente para saber que ele estava tentando contornar aquela situação, tentando inventar alguma desculpa plausível para justificar aquilo, mas nada que fosse sair da boca dele seria suficiente para ela dar credibilidade. Já havia passado por aquilo vezes suficientes para saber que usaria a mesma desculpa de sempre, que não o justificava em nada, mas que fazia total sentido, pelo menos para ele.

― Você sabe que acabo me enrolando com todas aquelas papeladas e acabo ficando até mais tarde e acabo apagando! ― retorquiu ele encolhendo os ombros como sempre fazia quando usava aquela desculpa.

Sarah respirou fundo. Ela se preocupava com a saúde do seu pai e noites de sono em claro ou mal dormidas demais, não faziam bem à ninguém, mas era difícil tentar ajudar uma pessoa que não queria em nada se ajudar. Ela via seu trabalho sendo totalmente perdido com ele, portanto nem sequer tinha mais forças para discutir sobre aquilo pela milésima vez. Ela até mesmo abriu a boca para protestar, mas desistiu no meio do caminho, apenas balançando negativamente a cabeça, mostrando sua reprovação.

― Eu sei que você quer cuidar de mim querida ― reconheceu ele. ―, mas às vezes acontece de eu me enrolar.

Sarah contraiu os lábios e assentiu coma cabeça. Os braços dela estavam cruzados e seu rosto inexpressível.

― Se te faz sentir melhor eu pedi folga hoje ― revelou ele por fim. ― E se quiser, podemos sair eu, você e o Kevin para jogar boliche naquele lugar bastante legal que a gente ia antes!

Houve uma mudança repentina na expressão de Sarah. Seu rosto se iluminou e a alegria tomava conta de cada canto. Os braços que outrora estava cruzados, agora batiam palminhas empolgados. O xerife logo sorriu ao ver sua filha tão empolgada assim.

― Isso é ótimo papai! ― comemorou ela por fim.

― Bem, avise ao Kevin! ― complementou ele.

O sorriso se desfez no rosto da garota ao lembrar da última vez que ele lhe prometeu algo assim. Sarah preparou o jantar favorito dele, ensopado, e ele sequer apareceu, deixando Kevin e ela totalmente desolados. Tinha medo que aquilo acontecesse novamente, portanto não podia criar tantas expectativas como naquele dia.

― Tem certeza de que não vai usar nenhuma desculpa para desmarcar de última hora? ― assegurou-se Sarah.

― Eu estou de folga querida! ― redarguiu seu pai. ― Terei o dia inteiro em casa com vocês. Primeiro eu vou descansar algumas horas, então à noite nós podemos ir jogar um pouco de boliche e depois jantar em algum fast food.

Sarah concordou limitadamente com a cabeça, torcendo para que daquela vez ele estivesse falando a verdade. Odiava ser decepcionada tantas vezes, ainda mais pelo seu próprio pai. Tendia a doer um pouco mais, pois um dia já o viu como o seu porto seguro, mas agora sequer sabia em qual critério o encaixar.

― Tudo bem papai!

Ele sorriu se aproximando dela lhe dando tapinhas amigáveis no ombro e em seguida seguindo para o seu quarto. Sarah o assistiu até que a porta fosse fechada e ela ficasse ali sozinha no corredor com o silêncio a engolindo quase que completamente, até que ela voltou a se lembrar de que havia deixado o celular sobre a cama com provavelmente alguma mensagem nova de Blaine.

Ela entrou novamente fechando a porta de seu quarto e voltando a se deitar na cama. Como havia imaginado, Blaine havia mandado mais uma mensagem perguntando se ela iria querer sair com ele novamente naquela noite, mas ela respondeu que não poderia devido o compromisso que tinha com o seu pai de sair para jogar boliche naquela noite. Ele compreendeu perfeitamente, então a conversa continuou por mais algum tempo, mas sobre outras coisas. Em determinados momentos ele a requestava e ela devolvia na mesma intensidade com sorrisos jubilosos.

Depois de algum tempo ela sentiu fome, então resolveu preparar o próprio café da manhã, fazendo assim torradas e comeu com um pouco de suco de caixa que havia na geladeira. Ela continuava respondendo as mensagens de Blaine entre um intervalo e outro. Passou o dia deitada conversando com Blaine, sentindo que o céu havia descido até o seu quarto.

Ulteriormente, já se passada algumas horas, Sarah recordou-se de suas amigas e que precisava contar à elas sobre a noite maravilhosa que tivera ao lado de Blaine Blackwoods. Ela então correu para se arrumar um pouco para não sair tão desleixada na chamada de vídeo que pretendia fazer com elas, então logo ligou para todas ao mesmo tempo. Demorou um pouco até que elas finalmente atendessem. Ava, Darla entraram primeiro e Nora logo depois com um belo sorriso propagando-se.

― Oi meninas! ― cumprimentou-as Sarah com empolgação.

Elas responderam todas na mesma intensidade.

― Pelo modo como você não para de sorrir, o seu encontro ontem foi ótimo! ― notou Ava.

Sarah sorriu.

― Amiga nos conta como foi! ― pediu Darla agitada.

― É! ― concordou Nora. ― Estamos curiosas!

Sarah assentiu rindo, lembrando-se da noite anterior com apresso, quase como se pudesse se teletansportar de volta para onde toda a mágica dentro de seu ser aconteceu.

― Foi tudo muito maravilhoso! ― revelou Sarah com um sorriso que ia de canto a canto do seu rosto. ― O tal lugar misterioso que ele ia me levar era a casa dele. Ele foi muito gentil e atencioso comigo, além de que ele cozinhou toda a janta que nós comemos.

― Uau, ele cozinha! ― replicou Nora com um sorriso malicioso nos rosto.

― Sim! ― confirmou Sarah. ― E muito bem, por sinal!

― Conta mais! ― requereu Darla. ― O que mais vocês fizeram?

― Bem, depois de comer ele me mostrou o resto da casa e fomos parar no quarto dele!

As meninas trouxeram sorrisos marotos em suas expressões, mas Sarah teve de negar qualquer insinuação de que teve algo a mais com Blaine.

― Nós apenas nos beijamos! ― insistiu ela rindo completamente divertida. ― Eu juro por tudo o que é mais sagrado. Ele foi bastante respeitoso comigo e só foi até onde eu o deixei ir.

― Esse Blaine é mesmo um sonho viu! ― comentou Darla completamente encantada.

― Diferente de outro por aí ― observou Ava. ― Que não te respeitava como mulher e apenas os desejos dele tinham que prevalecer com a desculpa mais esfarrapada que era apenas porque ele era homem.

― Nem me lembre disso! ― expressou Sarah revirando os olhos se recordando daquela situação que mais queria esquecer. ― Janssen foi muito babaca comigo, ainda bem que eu caí fora antes de qualquer coisa!

― Mas e o resto da história com Blaine? ― demandou Darla sedenta por mais.

― Bem, depois continuamos nos beijando por mais algum tempo até que ele veio me deixar de moto em casa.

― Ele beija bem? ― questionou Darla.

― E como! ― revelou Sarah. ― Ele me fez sentir coisas que eu jamais havia sentido antes por ninguém.

― Meu shippe está vivo! ― comemorou Nora do outro lado da tela com algumas palmas, o que fez Sarah voltar a rir.

Ela prosseguiu conversando um pouco mais com as amigas, contando-as que recebera uma mensagem de Blaine naquela manhã e também sobre o possível programa que teria com o seu pai e o seu irmão naquela noite. As coisas não poderiam estar melhores para ela. Parecia que estava vivendo um sonho do qual não iria tão cedo querer acordar.

☪☪☪

Sarah estava dentro do carro com seu pai e seu irmão seguindo para o boliche. Era a primeira vez desde que sua mãe havia morrido que o seu pai finalmente estava coordenando uma programação com eles. Ela mal sabia como lidar com aquilo. Seu coração estava explodindo de tamanha felicidade.

Ela assistia a paisagem passando diante de seus olhos, enquanto pensava no quanto aquela noite poderia ser especial para ela. A família dela poderia aos poucos voltar a se reconstituir. A chama da esperança ardia mais que nunca dentro do seu interior, aquecendo-a por dentro, gerando uma sensação reconfortante que ela não queria abandonar de maneira alguma, como se fosse um bom agasalho em um dia frio.

Não demorou muito para que eles finalmente chegassem no estabelecimento. Fazia algum tempo que Sarah não ia até ali com seu pai. Pouco mais de um ano. O lugar tinha sofrido uma pequena reforma. As cores de antes agora haviam sido substituídas em uma nova pintura, além do novo design do letreiro.

O pai de Sarah estacionou o carro na vaga livre que encontrou no estacionamento, então todos desceram do veículo por fim. Sarah com o sorriso de canto a canto em seu rosto, mas Kevin não parecia tão empolgado assim quanto ela, o que fez a garota ficar com certa dúvida intrincada em seu ser, mas resolveu não contestar, afinal não queria ter nenhuma discussão que pudesse estragar aquela noite. Talvez depois de se divertir um pouco com o seu pai, Kevin pudesse tirar aquela expressão negativa do rosto e se entregar à diversão.

Eles seguiram todos juntos para dentro do local. Assim que passaram as portas, Sarah pôde ver que a reforma não tivera sido apenas na parte de fora, mas sim também na parte interior, o que deixava aquele lugar ainda mais charmoso do que da última vez que estivera ali quando mais nova.

Um homem negro e de estatura alta se aproximou cumprimentando o pai de Sarah. Ela logo reconheceu o homem. Era um dos funcionários do lugar que sempre os atendia desde ela conseguia se lembrar. O pai e o homem trocaram um abraço apertado, já que costumavam ser amigos há algum tempo. Ele cumprimentou a garota depois de algum tempo e logo também o irmão mais novo, que parecia desconfortável com tanta atenção sobre si.

Depois de algum tempo conversando o pai de Sarah finalmente pagou o lugar e pegou sapatos para ele, Sarah e Kevin, então foram todos até a pista de boliche para começarem seus lances. Já fazia algum tempo que Sarah não jogava, então não sabia ao certo se ainda tinha a mesma prática de antes. Lembrava que por algum tempo fora péssima naquele esporte, mas com algumas dicas de seu pai que sempre fora um bom jogador, ela aprimorou suas habilidades, então por fim tornou-se tão boa quanto seu pai.

O xerife pegou uma bola com um sorriso divertido, dizendo se tratar de um aquecimento, o que fez Sarah rir, duvidando que depois de tanto tempo sem ir até ali ele ainda tivesse alguma prática. O homem tomou aquela dúvida como motivação para provar ao contrário, então logo lançou a bola rumo aos pinos e conseguiu acertar três deles de uma vez, mas os outros se manteram de pé, sendo carregados para baixo por um agente mecânico para uma nova arrumação.

O xerife de de ombros, enquanto Sarah ria dele. Kevin parecia deslocado em meio aquilo tudo, apenas observando à tudo sem nenhuma empolgação. Ao ver o seu irmão naquele estado, Sarah puxou alguma justificava plausível para o irmão estar daquele jeito. Talvez fosse o de sempre. Da última vez o pai deles não comparecera ao jantar e Kevin mostrara o quanto já nem tinha mais esperanças de voltar a ter o que tinha antes com o seu pai.

― Filha, é a sua vez! ― disse seu pai, o que fez com que a atenção dela saísse de Kevin e voltasse a se concentrar nele.

Sarah caminhou para pegar a bola e em seguida se posicionou para jogar. Primeiro ficou parada com a bola em mãos, respirando fundo, tentando reaver algum resquício dentro de si que a remetesse à garota que costumava estar ali e jogar perfeitamente bem. Talvez ela ainda estivesse em algum lugar, perdida no seu interior, tudo o que precisava fazer era encontrá-la.

Ela se preparou para jogar e por fim lançou a bola na pista que foi ganhando velocidade cada vez mais até acertar os pinos. O barulho ecoou pelo recinto, fazendo com que ela comemorasse empolgada. Conseguira acertar quase todos, porém dois ainda se mantiveram de pé, o que fora mais longe do que o seu pai.

― Tenho que admitir que você foi bem! ― disse ele rendendo-se. ― Agora é a sua vez Kevin!

Kevin nunca fora muito familiarizado com o boliche, mas quando sua mãe ainda era viva e a família vinha toda passar um tempo se divertindo juntos, ele ainda fazia algum esforço, mesmo seu pai lhe ensinando diversas técnicas, ele não conseguia se desempenhar tão bem quanto Sarah. Havia um contraste muito grande entre eles, mas mesmo que tenham vindo da mesma fábrica, não precisavam ser compatíveis em tudo era o que sua mãe sempre dizia quando ele se comparava à irmã mais velha.

Kevin pegou a bola que seu pai lhe deu, então direcionou-se até a pista. Ele parou de frente para ela, tentando mirar no canto exato para que fosse feito um belo strike, então por fim soltou a bola, que rolou pela superfície lisa até que finalmente encontrasse os pinos e se chocasse contra quarto deles, fazendo mais pontos até que o seu pai. Sarah riu divertida do seu pai e aquilo contagiou Kevin de certa forma.

― Até o Kevin foi melhor que eu! ― contestou ele rindo da própria derrota.

― Parece que as coisas mudam não é mesmo? ― disse Sarah com um sorrisinho maldoso no rosto. ― Muito bom Kevin!

― Isso não vai ficar assim! ― prometeu o pai. ― Vocês vão ver só. Aquilo foi só o meu aquecimento agora vou jogar para valer!

Sarah e Kevin riram.

O xerife pegou a próxima bola e se direcionou até a pista. Ele se preparou, enquanto Sarah e Kevin assistiam-no anedóticos, esperando qualquer deslize para rirem ainda mais. Ele começou a se preparar, até que alguém chamou o nome dele, fazendo com que ele largasse a bola na pista que rolou pelo canto, caindo no buraco, mas sem acertar nenhum pino, mas Sarah e Kevin sequer riram, pois estavam muito concentrados na bela mulher de meia-idade parada próximo com um sorriso afável em sua expressão.

Sarah e Kevin olharam para o pai deles, que parecia estar bem sem jeito com o chamado daquela mulher, então algo dentro deles se retorceu. Quem poderia ser aquela mulher que surgira ali do nada e conseguira atarantar o pai deles de maneira que o fizera até mesmo errar os pinos? Ela era muito bonita e aquilo fazia com que eles vissem a mulher com maus olhos.

― Mayra! ― disse ele atrapalhado. ― O que está fazendo aqui?

― Bem, parece que eu levei um bolo de um cara que eu havia marcado de encontrar aqui hoje! ― respondeu ela com sua voz madura e carregada.

― Uau, é uma pena! ― exprimiu ele tentando produzir a expressão mais frustrada que conseguiu de modo solidário.

Eles se olharam algum tempo em silêncio, enquanto Sarah e Kevin assistiam àquilo tão desconfortáveis quanto aquele silêncio. Sarah pigarreou, fazendo com que o seu pai finalmente lembrasse que ela estava ali, olhando na direção dela, sorrindo completamente sem graça pelo ocorrido.

― Bem, Mayra, essas são meus filhos, Sarah e Kevin! ― enunciou ele enquanto apontava para os dois. ― Sarah e Kevin, essa é a minha colega de trabalho Mayra. Ela se mudou há alguns meses de Chicago para uma vida mais pacata aqui em Heavenwood.

― É um prazer meninos! ― ela lançou um sorriso cordial, estendendo a mão para cumprimentar Sarah, que devolveu o gesto educadamente e depois Kevin, que mesmo com certa relutância, cedeu ao cumprimento.

Mais algum tempo mergulhado no silêncio se passou. O desconforto voltava a se instalar em Sarah e pelo modo como todos estavam envergonhados, também deveriam estar tanto quanto ela.

― Como tem certeza que o cara com quem ia encontrar te deu um bolo? ― perguntou o xerife Foster quebrando o silêncio.

― Ele me mandou uma mensagem me dizendo que não ia poder vir porque teve uma pequena emergência.

― Que desculpa mais esfarrapada! ― manifestou ele cruzando os braços.

Mais algum tempo de silêncio.

― Bem, acho que vou voltar para casa e assistir algum filme na TV! ― confessou ela.

― O que acha de se juntar à nós três? ― propôs ele na melhor das intenções.

― Não, não! ― recusou ela. ― Eu estou bem. Não quero atrapalhar o fim de semana pai e filhos de vocês.

― Você não incomodaria em nada! ― articulou ele. ― Podemos fazer o seguinte, homens contra mulheres, o que acha?

― Vocês tem certeza que posso ficar? ― questionou ela olhando diretamente na direção de Sarah e Kevin.

Por um momento Sarah compadeceu-se dela, já que ela havia se arrumado completamente para ir até ali encontrar com um homem que no fim das contas nem sequer apareceu. Era um pouco triste, além de que os olhos escuros dela somados à iluminação que caía sobre eles, fazia com que eles brilhassem de uma forma especial.

― Tudo bem! ― disse Sarah por fim dando de ombros.

― Ótimo então, vai ser mulheres contra homens! ― comemorou a mulher estendendo a mão para que Sarah tocasse.

O jogo então começou.

Sarah era uma boa jogadora e segundo os relatos de Mayra ela também já era familiarizada com aquela atividade, portanto faria um bom time. No início Sarah ficou um pouco acanhada com ela, mas à medida que o jogo avançava, mudava sua percepção cada vez mais sobre aquela mulher, que pouco a pouco ganhava espaço cada vez mais em sua simpatia. Sarah e Mayra estavam fazendo uma boa dupla, arrecadando cada vez mais pontos no placar até que por fim ganhassem com uma pontuação mais elevada.

― Te venci! ― disse Mayra apontando para o pai de Sarah empolgada e fazendo uma dancinha bem vergonhosa da vitória.

― Se prepare na próxima que eu vou te vencer amor! ― deixou escapar o xerife.

― Amor? ― indagou Kevin perspicaz.

Por um breve momento um silêncio se fez presente entre todos ali e os ânimos iam se elevando à medida que a resposta não vinha. O xerife Foster e Mayra trocaram olhares como se buscasse a resposta um no outro e aquilo só deixou as suspeitas ainda mais evidentes. Sarah, que estava começando a gostar daquela mulher, passou a enxergá-la agora como uma verdadeira ameaça. Tinha notado algo de estranho nos olhares e no jeito como se falavam, mas não imaginou que aquilo pudesse estar mais que concreto.

― Deixa eu explicar! ― disse o pai num tom desesperado só mostrando-se ainda mais culpado em tudo aquilo. ― É que eu...

― Isso é sério pai? ― interpelou Sarah começando a ficar cada vez mais revoltada. ― Você essa mulher?

O xerife não sabia o que dizer que pudesse amenizar aquilo. Estava mais que evidente em sua expressão que estava completamente perdido. O modo como balbuciava, só mostrava que qualquer coisa futura que sairia dentre seus lábios seria uma mentira na qual ela nem o irmão deveriam acreditar.

― Olha meninos, desculpem, a culpa foi toda minha! ― expôs Mayra num tom cauteloso. ― Fui eu que pedi para conhecer vocês dois. Queria saber se gostariam de mim antes de oficializarmos qualquer coisa!

― Mayra, não precisa fazer isso! ― pediu ele. ― Deixa que eu faço isso!

― Me desculpa! ― disse ela tão perdida quanto ele. ― Acho melhor eu ir embora!

― Então todo aquele papinho de que você veio aqui encontrar um homem era conversa fiada? ― demandou Kevin irritado. ― Você é uma safada!

― Kevin! ― vociferou o pai dele. ― Mais respeito por favor!

― Me desculpem! ― disse Mayra quase que em um sussurro e depois simplesmente virou-se de costas, saindo da presença deles sem olhar para trás.

O silêncio perdurou por mais algum tempo. Sarah começara a chorar, pois se sentia traída pelo próprio pai que armara aquela noite inteira apenas para fazer seus filhos se encontrarem como a mais nova mulher dele. Agora tudo na cabeça da garota começava a fazer sentido.

― Então é por isso que você andava chegando tão tarde em casa! ― conjecturou Sarah por fim. ― E toda a sua ausência. Você estava com ela!

― Filha, deixa eu explicar!

― Não pai eu achei que o senhor tinha nos trazido aqui porque queria se reaproximar de mim e do Kevin! ― retorquiu Sarah. ― Mas no fim das contas era apenas para que conhecêssemos sua nova namorada!

― Ele me ajudou num período difícil da minha vida quando eu perdi a sua mãe!

― Pouco importa! ― berrou Kevin. ― Você está manchando a memória da mamãe!

― Parem com isso! ― bravejou o xerife Foster. ― Eu não sou o vilão aqui e sim vocês, que querem me privar de ser feliz novamente quando eu conheci o inferno quando eu perdi a sua mãe!

― Sabe o que é engraçado pai? ― inquiriu Sarah. ― É que Kevin e eu também passamos pelo inferno e onde você estava? Com outra mulher pouco tempo depois que sua mulher morreu. Abandonou seus filhos. Precisávamos de você e você simplesmente desapareceu de nossas vidas!

O xerife ficou em silêncio por algum tempo e a culpa era nítida em seu rosto. Ele nem conseguia falar nada.

― Pai, eu não ligo se você está seguindo a vida com outra pessoa ― confessou Sarah. ―, mas machuca ver que você nos usou hoje. Você nos abandonou num momento difícil e só resolveu passar esse tempo com a gente hoje porque foi conveniente para você. Custava pelo menos fingir que se importa com a gente?

O silêncio voltou a dominar a pista. As lágrimas inundavam o rosto de Sarah. Ela estava magoada demais com o pai. No fim das contas, Kevin estava certo o tempo todo de sempre esperar que ele os decepcionasse. Ela respirou fundo, tentando se acalmar depois de tudo aquilo. Só queria poder sair dali o mais rápido possível e esquecer todo o resto. Depois dali eles iriam comer em um fast food, mas ela já até havia perdido a fome.

Kevin que estava ao lado dela parecia estar segurando ao máximo a vontade de chorara na frente de todos. Algumas pessoas ao longe assistiam aquela discussão com olhos curiosos e só agora Sarah podia notar aquilo, pois estava tão imersa anteriormente naquele debate, que não notara o mundo ao seu redor.

O xerife Foster parecia um tanto envergonhado de tudo o que estava acontecendo, então apenas chamou os meninos para irem de volta para o carro e assim foi. Sarah estava esgotada demais para discutir e Kevin refreado demais para dizer alguma coisa sem que explodisse em lágrimas devido á todo o ressentimento guardado dentro do seu peito, como um campo minado.

O caminho de volta fora silencioso dentro do carro. Ainda havia muito mais o que ser dito, mas eles se sentiam tão distantes um do outro, que sequer conseguiam olhar na direção um do outro. Sarah olhava pela janela a cidade passando, enquanto mais algumas lágrimas silenciosas rolavam pelo seu rosto, com toda a mágoa crescendo em seu peito como um buraco negro, apto para sugar toda a felicidade que se fizera presente ali dentro dela mais cedo.

O modo como tudo acontecera fizera com que aquilo não tivesse dado nenhum pouco certo. Seu pai fora completamente errôneo. Para que aquilo funcionasse de verdade, teria de ter tido outro tipo de abordagem. Sarah não era a vilã e se recusava a ser. O pai dela havia mentido para ela e para o seu irmão e preferido estar com outra mulher, quando seus filhos permaneciam em casa padecendo da ausência da mãe e também da do pai. Ele poderia não entender, mas tudo o que ela queria de volta era o que perdeu. Numa época onde ela ainda era feliz.

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