6

Eu senti que ia ser difícil para nós dois partilhar as nossas dores, sentimentos ou o que fosse.

Aprendemos desde cedo a ser fortes e a não nos deixarmos cair então resguardamos as nossas dores e sentimentos dentro de nós e não os demonstramos.

Com tudo isso em vista, decidi que a melhor forma de começarmos seria pelo último assunto falado, a Maya e pelo que tinha acontecido hoje.

- Hoje senti-te distante com o que se passou com a tua irmã e percebi estares de certa forma contente como o que se passava? - perguntei eu, voltando a tocar na ferida.

- Sim, estava contente. Tenho pena que a minha irmã tenha de passar por isto, mas a vida muitas vezes é injusta. - começa ele pensativo, mas com um olhar de lunático. - Eles temem-nos. Temem o nosso poder. Nós podemos ser os líderes da base. Ninguém ia ficar contra nós, nem se atravessar no nosso caminho. - continuou Richard com ar cada vez mais alucinado.

- O quê? Eu estou a ouvir bem? Estás a falar dos teus pais. Pessoas que me deram casa e que nos treinam e tentam proteger. Queres mesmo dar-lhes as costas e expulsá-los do poder? Queres ser receado por todos? Isso não é correto. - Retorqui eu pasmado a olhar para o Richard e comecei a recuar para longe dele.

- Tu tens a tua opinião. Eu tenho a minha. - respondeu ele, mas comecei a sentir vergonha a vir dele.

- Se assim é porque te sentes envergonhado? - perguntei eu, a sentir-me zangado, parecia que a conversa que tinhamos tido à pouco de nada tinha servido.

- Estás enganado! - gritou ele para mim, dando-me as costas a seguir.

- Richard escusas de mentir. Eu conheço-te. - digo eu tocando-lhe no ombro.

A reação que Richard teve apanhou-me completamente de surpresa.

- Já disse que estás enganado! - grita Richard e dá-me um soco na cara.

- Estás louco Richard? Que raio se passa na tua cabeça? - grito eu com a mão na cara.

Richard fica desesperado porque finalmente se deu conta do que estava a dizer e fazer.

- Mano... Desculpa... Eu não consegui controlar-me. As minhas emoções estão muito à flor da pele, desculpa mesmo. - pediu Richard quase a chorar.

- Desculpas aceites, mas não voltes a fazer isso, levar socos, dói. - digo eu com um sorriso de dor.

Richard sorriu-me, mas foi um sorriso fraco.

Eu agarrei no ombro dele e disse:

- Richard, quanto à conversa... Bom... Eu sei que as coisas não estão fáceis. Vi uma vez uns rapazes mais velhos a meterem-se contigo, mas quando cheguei lá já era tarde demais, eles já se tinham ido embora e tu não reagiste, mas a solução não é essa. Não é através do medo que deves governar, mas sim do respeito e da amizade. Tu no teu íntimo sabes disso. - disse eu com tom de voz calmo, a tentar transmitir tranquilidade a Richard.

Ele abraçou-me de repente e começou a chorar. Nunca vi Richard chorar e as emoções eram tão fortes que eu também comecei a chorar.

Ficamos abraçados durante um tempo até que comecei a tentar controlar-me e controlar as emoções dele.

Demorou cerca de meia hora para que ele se acalmasse e eu percebi finalmente que através das minhas emoções conseguia ajudar as dele a atenuar e ele podia fazer o mesmo comigo.

Comecei a pensar nas vezes que os nossos poderes se manifestaram e era sempre que nós sentíamos o mesmo, com a mesma intensidade, que normalmente era alta.

Comecei a fazer contas na minha cabeça e percebi que da primeira vez foi quando sentimos raiva dos pais, da segunda vez foi quando sentimos medo do médico e hoje foi de várias emoções em simultâneo, raiva, vergonha, medo contra os professores.

Eu tinha vontade de gritar, pular, fazer tudo e mais um par de botas, mas a única coisa que fiz foi bater palmas.

- Já entendi! Entendi como funciona. - disse eu radiante, e gritei de alegria.

- Tobias, do que raio estás a falar? Faz pouco barulho não quero que ninguém me veja assim nestas figuras. - pediu Richard.

- Que figuras Richard? De teres chorado? E então? Todas as pessoas choram. - digo eu a reclamar com ele. - Mau é tu recalcares tanto as emoções e depois dares murros a quem não deves. - digo-lhe eu diretamente fazendo-o ficar vermelho como um tomate.

- Tudo bem... Mas o que raio descobriste? Estás aí a gritar como um louco. - reclamou Richard.

- Descobri como controlar os nossos poderes! - gritei eu novamente em êxtase.

Jonathan veio a correr escadas a cima até chegar ao nosso quarto depois de ouvir os gritos e ao ver o meu sorriso olhou confuso para mim a pedir uma explicação silenciosa.

- Percebi como funcionam os nossos poderes. - disse eu e rapidamente contei o que descobri.

- Portanto se ambos sentirem as mesmas emoções de forma muito intensa, causa a manifestação de poder, se sentirem emoções opostas intensamente anulam uma à outra. Isso é bom. Assim já temos por onde nos guiar nesse assunto. - disse Jonathan feliz.

- E agora? Vamos treinar a tentar isso? Para ver se dá mesmo resultado? - pergunta Richard.

- Claro. Querem ir já hoje ou começamos amanhã? - pergunta Jonathan.

- Prefiro que seja amanhã. - disse eu cansado. - Estou cansado e dói-me a cabeça.

Passaram-se dois meses inteiros até nós conseguirmos controlar por completo as nossas emoções e começarmos a anular a um do outro.

Infelizmente essa era a única coisa boa que aconteceu durante esse período.

Maya estava numa depressão muito grande, não tirava apontamentos nas aulas e ficava cada vez mais desleixada e já nem a víamos às refeições.

Eu tentava falar e ficar junto com ela, mas não deixava e mandava-me embora isolando-se cada vez mais.

Quando fizemos dez anos ninguém apareceu, Maya não saiu do quarto, eu e Richard não pedimos bolo para festejar era como se não tivesse acontecido nada.

Jonathan e Alice não sabiam o que fazer, tentavam dar apoio mas sem conseguir.

Estava-me a custar tanto ver a Maya sozinha e a sofrer que tive de intervir:

- Senhor, a Maya não está nada bem. As coisas não podem continuar assim. Temos de fazer algo.

- O que sugeres Tobias? Posso pedir ao doutor para vir cá, ouvir e tentar aconselhar, fazer papel de psicólogo. - disse Jonathan pensando na melhor opção.

- Não é de um psicólogo que ela precisa! - disse eu a começar a gritar. - O que ela precisa é do apoio do pai, da mãe! O que ela precisa é de sentir que os pais se preocupam com o bem-estar dela! - continuo a gritar.

- Tobias, acalma-te. Achas que já não tentamos falar com ela? Ela fechasse não sabemos o que fazer. Nem nós estamos a ter sorte. Estamos a ser isolados de tudo e todos. - suspira Jonathan.

Eu ouço passos nas escadas e mesmo sem a ver sabia que Maya estava a ver e ouvir tudo.

- Se as coisas continuarem assim ela pode morrer! Você não quer saber disso é? - gritei eu alterado sem sequer prestar atenção no que ele me tinha respondido.

Jonathan levantou-se da cadeira dirigiu-se a mim e deu-me uma bofetada e saiu pela porta fazendo-a bater com força.

Eu olhei para as escadas e Maya estava lá com os olhos postos em mim e acenou-me com a cabeça para eu a seguir até ao quarto.

- Já volto... - disse eu a Richard, que estava muito calado, quieto e encolhido.

- Vai lá. Ela precisa de ti e tu dela. Vão dar um passeio juntos. Quero que os dois fiquem bem. E Tobias, desculpa pela atitude do pai. Ele também está com problemas. As pessoas andam a questionar a forma dele ver as coisas sabes... - disse Richard sem olhar para mim a tentar desculpar o comportamento do pai. - Se quiserem pôr a votos os chefes, a mãe e o pai não vão ser novamente eleitos, pelo menos por agora.

Eu sabia disso, mas a minha cara ainda ardia da bofetada dele e, por esse motivo, a única coisa que fiz foi virar as costas e seguir a Maya até ao quarto.

Maya estava à minha espera sentada na cama com um saco de gelo para eu aplicar na cara, e fez um gesto para eu me sentar ao lado dela.

- Deixa-me adivinhar, o Richard desculpou o comportamento do meu pai? - perguntou Maya a revirar os olhos.

Eu fiz sim, com a cabeça. A verdade é que a cara doía-me cada vez mais e começava a doer-me a cabeça.

- Se não quiseres falar eu percebo. Só te quero agradecer por me teres defendido. Eu ouvi e agradeço. O meu pai não tem tempo para mim, vocês também não, os meus amigos odeiam-me, até a Eliane me odeia. - Continuou ela a falar, com lágrimas a escorrer pela cara.

- Maya, isso não é verdade. Eu tento ficar contigo, mas tu só queres ficar sozinha. Eu estou a ficar muito preocupado contigo. - digo eu e aproximo-me para lhe limpar as lágrimas.

Maya olha-me nos olhos enquanto lhe dou festas na cara como forma de carinho.

- Ela supostamente não é a tua melhor amiga? A Eliane? - perguntei eu retirando a mão da cara dela para colocar o gelo novamente.

- Disseste bem. Supostamente... - confirmou ela com ar triste aproximando-se cada vez mais de mim.

- Maya... - tento eu dizer, mas ela coloca um dedo por cima dos meus lábios e avança, beijando-me.

Não posso dizer que foi um beijo apaixonado porque não foi, foi um beijo de carinho, onde também se sentia amor.

Eu não sei dizer exatamente o que senti, sempre que pensava nela era apenas como irmã, mas não a queria magoar, nem fazê-la pensar que a usei de alguma forma para me distanciar dos problemas, a verdade é que gosto demasiado dela, mas não dessa maneira e também não acredito que ela seja a ideal para mim.

- Maya, pára. - pedi eu depois do beijo.

- Porquê? - perguntou ela, afastando-se de imediato.

- Porque a verdade é que te vejo como uma amiga, és a minha melhor amiga e não queria destruir a nossa amizade por tentarmos algo mais que isso. Tu e eu pertencemos a outras pessoas. Vais ver. - expliquei eu - Tu vais encontrar a pessoa certa para ti, acredita em mim.

Ela observou-me depois deu-me um abraço e um beijinho na testa e eu senti-me completo.

Precisava dela na minha vida sem dúvidas nenhumas, mas na forma de confidente e irmã, não de forma de namorada.

- Temos de arranjar um modo de todos nos ouvirem. Nós somos humanos, somos crianças tal como eles, e mais importante eu e o Richard já nos conseguimos controlar um ao outro, já não precisam de ter medo. - disse eu estarrecido

- Temos de ir para as aulas e tentar fazê-los ouvir e ver isso. - disse Maya animada e esperançosa.

Quando chegamos à sala de aula, a aula estava quase a acabar.

Ficámos do lado de fora à espera do professor e desculpámo-nos por faltar e logo a seguir entramos na sala e trancamos a porta.

Eu chego-me à frente e tento fazer-me ouvir:

- Olá pessoal, só quero que me ouçam um pouco porque esta situação já vai longe demais, não falam connosco, ignoram-nos, passam por nós e dão-nos encontrões, falamos com vocês fazem de conta que não ouvem. Isso é incorreto, nós somos crianças. Sim, é verdade que eu e o Richard explodimos a nossa sala e quase destruímos a casa ao fazer isso, mas andamos a treinar para não magoarmos mais ninguém.

Eu faço uma pausa e olho para todos e na cara deles só viam medo.

- Acreditem, nós andámos a treinar durante meses porque me sinto horrível pelo que aconteceu. Além disso, a situação foi comigo e com o Richard é injusto deixarem de falar com a Maya só por ela ser nossa irmã, não a devem punir por algo que é culpa nossa. - tentei eu explicar, mas rapidamente vi que não valia a pena.

Todos estavam a olhar para mim, mas com ar de poucos amigos e de pouco interesse, alguns olhavam para a Maya, incluindo a suposta melhor amiga, a Eliane. Todos se começaram a mexer e houve um mais corajoso que disse:

- Queremos sair da sala, já te ouvimos, mas não temos nada a dizer, sai da frente.

Eu não me desviei então ele empurrou-me para o chão, passou-me por cima, abriu a porta e saiu e todos correram atrás dele.

- Eles odeiam-nos mesmo... Maya não fiques assim. Vamos resolver. Confia em mim. - disse eu passando o braço a volta dos ombros dela.

Ela tirou o braço gentilmente e disse:

- A forma de resolver isto é eu afastar-me de vocês, só assim consigo recuperar o controlo da situação e os meus amigos de volta. Estou farta de ser tratada como uma rejeitada, de ter perdido todos os meus amigos. Odeio isto! - gritou Maya para o ar, mas sem olhar para mim.

Eu não sabia o que dizer, ela viu que nem eu, nem o Richard íamos falar nada então saiu a correr.

- O que se passou entre vocês? - perguntou Richard tentando puxar outro assunto e ignorar a situação.

- Beijámo-nos. Mas a situação ficou esclarecida... Eu vejo-a como melhor amiga, e confidente, penso que ela me beijou porque se sentia sozinha e eu estava ali, dei atenção e defendi os interesses dela e isso confundiu-a. - admiti eu.

Richard riu-se com vontade e disse:

- Acreditas que ela te beijou por se sentir sozinha? Então és mesmo tapado. Ela beijou-te porque gosta de ti. Mas eu sei que fizeste o correto, senti o teu desconforto possivelmente depois do beijo, foi estranho era como se tivesse sido eu a ser beijado. - Refletiu Richard a coçar o queixo.

- Vamos embora daqui. Quero ir para casa descansar, tenho uma dor de cabeça que nem imaginas. - disse eu revoltado com esta situação toda.

Saímos da sala de aula, mas logo à porta da escola estavam quatro rapazes altos que pareciam já estar lá a algum tempo, e pelo brilho dos olhos deles quando nos viram tinham encontrado o que procuravam, que infelizmente éramos nós.

- Aqui estão eles! Os salvadores do mundo! - disse o rapaz da frente.

Rapidamente percebi que aqueles eram os rapazes que importunavam muitas vezes o Richard e que eu já vi baterem-lhe, isso fez-me perceber que estávamos em grandes apuros e sem nenhum professor, amigo ou colega, íamos servir de saco de boxe para estes quatro rapazes.

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