Capítulo 2


Almacari/1889

MASSAS FRIAS PELA FRENTE!

O climatólogo do Locrum, em entrevista extraoficial, admitiu que para esse verão se espera temperaturas ligeiramente mais altas, seguidas após uma primavera atipicamente mais fria. Tais mudanças foram creditadas a eventos naturais, mas o Locrum os investiga com muita atenção. Outra hipótese é a de que a recente erupção de vulcões ao norte seja sinal de uma intensa movimentação sísmica no continente, que pode influenciar o clima global. Vale lembrar que mesmo que no passado tenhamos enfrentado períodos de estações instáveis, este não é o caso. Portanto, não se há razão para preocupações atualmente, e nem em um eventual futuro próximo, é o que se diz.


O apito do trem rompeu com a calma melodia que o gramofone com muito prazer levava a todo o ambiente. Quase não se ouvia o som da locomotiva a singrar os quilômetros entre Baixomar e Nova Nartan, com suas chaminés bombardeando aquela fumaça preta e espeça no céu. Não era sua primeira vez, mas, mesmo assim, Letha ainda se maravilhava com a visão dos campos, das florestas, dos rios e dos lagos, das cidades e dos castelos, conforme a locomotiva a vapor percorria muito mais terreno do que animais jamais seriam capazes. A beleza de Wigia era contrastante com o "avanço" que o país sofrera nas últimas décadas. Conforme se aproximavam de centros urbanos, o verdejante campo tornava-se um manto monocromático sobre a terra, de um marrom e amarelo mortíferos. Os rios tornavam-se despejo de lixo e esgoto. Tudo isso alimentava a máquina do progresso tecnológico, que a cada dia trazia novas invenções, de modo a que a preocupação sobre o ambiente sequer existia entre a mente da maior parte da população, distantes das realidade que os cercava. Nesse ritmo, nem de magia mais se preciso, pensou consigo mesma, cruzando os braços.

Letha estava num dos vagões dianteiros, onde para cada dois assentos havia uma cabine isolada por paredes e pequenos encantamentos que censuravam o som de sair, mas não de entrar. O estofado também era o melhor oferecido, além de ser bem decorado com costuras prateadas e uma coloração carmim. Sentado na sua frente, apoiando no batente da janela, Maller apreciava a vista do rio Núblio antes de chegar a Nova Nartan, onde deixava de ser azul e passava a ter coloração acinzentada e ser ácido. Aos pés de ambos, um tapete com padrões Rhadi decorava o ambiente, trazendo uma boa familiaridade para Maller. Havia, sobre a janela, numa testa de tábua pregada na fuselagem, um suporte de luz mista que comportaria tanto luminárias quanto os globos de luz clássicos dos feiticeiros. A porta da cabine também era adornada com seus padrões, mas estava devidamente fechada.

A viagem até ali já havia sido exaustiva para Letha, que queria retornar para casa o quanto antes para enfim poder descansar de maneira decente. Não em quartos alugados numa cidade estranha. O trem talvez fosse o local mais confortável que tivera para descansar nos últimos dias, e isso a agonizava mais do que incomodava. Tinha pelo menos três dias que não tomava um bom banho.

O gramofone, do lado de fora, recitava a Ópera Andrattina, a peça mais famosa de Wigia, amplificada por pequenos aparelhos imbuídos de pequenos encantamentos ao longo de todos os vagões da primeira classe. Letha atribuía à canção por finalmente ter conseguido relaxar um pouco. Sentindo a fome apertar, a mulher pensou em pedir por algo, mas logo mudou de ideia. Os preços das passagens já eram elevados para viajar naquele conforto, e tivera de pagar por dois. A comida dobraria esse valor com muita facilidade se fosse permissiva, como sabia que seria.

Enquanto pensava onde almoçaria, jogou os olhos sobre Maller. Os cabelos ondulados e marrons do rapaz sempre compunham uma franja que se parecia uma cortina, e poucas eram as vezes que, quando estava parado, se importava em tirar o cabelo da fronte. O braço direito, o que usava para se apoiar no batente da janela, tinha a manga aberta, deixando revelar o contraste da prótese com sua pele morena. Do ombro até a ponta dos dedos o braço direito de Maller era uma enorme prótese de aço, da qual o rapaz sentia um grande orgulho, ao contrário do que era comum se ver entre os amputados e deficientes que recebiam transplantes.

Sem ter o que fazer longe da janela, Letha deslizou no assento até apoiar-se como Maller. Seus olhos acompanhavam os vultos verdes da vegetação sendo deixada para trás em alta velocidade. Árvores, casas, torres e animais. Os que estavam mais próximos nada mais eram do que borrões, e os que estavam distantes Letha acompanhava.

– Nunca me canso de observar a vista – enunciou Maller, jogando seus olhos amêndoas para cima de Letha. Ao mesmo tempo que puxava conversa, suas sobrancelhas se contraíram da exata forma que o rapaz fazia quando queria ter certeza se usara uma palavra correta ou adequada. Os anos em Wigia ainda não o tinham deixado totalmente confiante no segundo idioma.

– Paisagem é uma palavra melhor, mas também serve – Letha lhe respondeu, coçando a extremidade da sobrancelha próxima das têmporas, onde os piercings direitos ainda coçavam na pele em dias mais frios. Mesmo que estivesse começando a sentir calor, as extremidades do corpo seguiam mais geladas.

E por mais que fosse verão os sistemas de ventilação do trem consistiam em capturar os ventos de fora e lançar para dentro. Estando a uma velocidade tão alta estes ventos eram sempre frios e secos, o que corroborava para que as mãos nunca se esquentassem, mesmo que o calor no corpo crescesse. E aí tá uma vantagem da primeira classe, disse consigo mesma quando ouviu baixinho a vibração das máquinas que umedeciam o vagão aquecendo a água armazenada para iniciar o funcionamento.

– Em Rhama-Ji a vegetação não é assim. Ela é mais monocromática. Todas as estações do ano parecem uma só – comentou, alternando o olhar entre o exterior e Letha. Seu encanto era incontestável.

– É uma recompensa por termos de viver com climas tão variados – Letha brincou, cruzando as pernas expostas por uma saia drapeada e arregaçando as mangas, agora que sentia um pouco mais de calor na parte superior do corpo. Um princípio de tatuagem podia ser visto no tríceps esquerdo, mas a mulher não fez questão de esconder, como seria o comum.

– Uma recompensa não tão boa – deu de ombros, brincando. – Mas do que você tá falando, também é estrangeira! Somos dois imigrantes discutindo sobre um país que nem é nosso – a maneira incisiva de Maller despertou um riso genuíno em Letha, que só pensara em comida e em trabalho nas últimas boas horas.

– Eu vivo aqui há mais de uma década, pelo menos – deu de ombros, com um sorriso soberbo na face. – Posso me considerar uma habitante.

Maller deu uma bufada e cruzou os braços.

– E eu já viajei pra pelo menos três nações – arqueou as sobrancelhas, encarando profundamente Letha.

– É uma disputa, isso aqui?

– Se fosse, perderia – Letha fingiu indignação, e Maller seguiu: – não importando o tema! – soletrou as últimas palavras.

– Não teria tanta certeza – abriu um sorriso sagaz, estudando as feições de Maller com cuidado.

Letha achava particularmente difícil a tarefa, nunca tendo certeza do que as expressões do rapaz significavam. Maller tinha seu jeito muito diferente dos padrões de Wigia ou dos países em volta, sempre sorrindo, mas não necessariamente contente ou feliz. O homem balançou a cabeça em negação e novamente voltou os olhos para a grande janela. Uma transição nem tão natural de campos abertos para pastos e fazendas havia tido início. Estavam já nas redondezas da periferia de Nova Nartan. Poucos minutos de entrarem de fato na cidade, deixando todas as belas paisagens naturais e não poluídas para trás e avançando rumo aquela bagunça de concreto e de aço. Letha agradecia que aquele não era um dia de sol, pois caso fosse, seria impossível manter aquelas cortinas abertas, e a melhor parte da viagem seria perdida em detrimento de não se queimarem ao sol da manhã.

– Sua nação parece com isso? – Indagou Maller, sem tirar os olhos dos campos que começavam a ser tomados pelo monocromatismo das plantações que terminariam de ser colhidas para dar espaço às sementes de verão. – Ouvi dizer que todas as nações da Bacia do Mérida não variam muito do que se pode ver aqui, sabe.

– A paisagem? – Letha o observou, vendo a resposta vir num movimento cabeça afirmativo. – Não é muito diferente em alguns pontos, mas, em geral, é bem montanhoso. Então é bem diferente do padrão daqui. Da última vez que fui lá os trens passavam por uma série de túneis entre as montanhas, por exemplo. Mas muitas áreas ainda são tradicionalistas.

– E compensa visitar... – sua língua travou e fez um gesto com a mão indicando que não lembrava o nome, ou ao menos não conseguia falá-lo.

– Linan-Guo – Letha esclareceu e Maller anuiu positivamente. Fez um gesto com a mão, indicando que Letha prosseguisse. A mulher encheu os pulmões, pensando sobre a questão. Fechou uma mão sobre a outra, notando como seus dedos ossudos pareciam ligeiramente maiores do que estavam no ano passado. – Depende a que se vai. Mas é um lugar bonito.

– Não tem mais parentes lá, não é?

– Não – confirmou, lembrando-se do avô que morrera a pouco tempo e pensando quando o homem teria ouvido aquilo. A lembrança ainda era incômoda, mas já sabia lidar bem com o assunto sem que se desgastasse. – Por que tá considerando isso?

– Acho que depois que terminar o trabalho, vou dar uma volta, conhecer alguns lugares antes de voltar pra minha casa. E é sempre bom ir onde algum conhecido já foi – respondeu com um sorriso que, dessa vez, a mulher conseguiu interpretar com exatidão.

– Não parece que quer voltar pro sul – cutucou com cautela onde sabia que doía. Aldrit já havia lhe contado mais de uma vez como que Maller se queixava do seu inexorável destino de rumar de volta a sua casa.

– Gosto daqui, mas, ao mesmo tempo, toda a família está lá – deu de ombros, engolindo em seco. Letha pôde notar que aquilo era só uma desculpa sem muita dificuldade.

Maller se remexeu, expressando sua insatisfação por meios físicos. As roupas que usava, e não eram muitas, se apertaram contra o corpo de proporções acima da média. Mesmo com roupas um pouco mais largas, sua silhueta era bem nítida, com ombros bem largos e musculosos, igualmente as pernas e o tronco. Até os músculos do pescoço eram marcados de modo que Letha não podia negar a si mesma achar atraentes.

– Mas não é tão fácil priorizar voltar pra família e deixar tudo criado pra trás simplesmente porque me formei – mesmo que desde que saí de casa já soubesse disso, completou mentalmente.

– Já pensou em ficar, simplesmente? Sem justificativas. Sem obedecer a nada, se não a si mesmo – Letha sugeriu, com a voz mais baixa e mais calma.

– Já, mas é mais complicado. Além de que meu pai não vai seguir mandando dinheiro se eu ficar, e parece tá difícil arruma emprego por aqui – fechou o sorriso num suspiro cansado.

– Segunda viagem a Baixomar em um mês, e até agora nada – a mulher concordou, sentindo-se incomodada por um instante com a falta de oportunidade para atuar. Ainda mais sabendo o porquê. – Mas eu te digo que vale mais a pena arriscar tudo do que deixar tudo passar, Maller.

– Agradeço a passagem – Maller disse mais uma vez, preocupado se não estava sendo muito incômodo fazer com que a mulher gastasse tanto com ele. – Eu queria ter essa coragem, Yasay. Mas comigo não funciona. Não consigo simplesmente contrariar tudo e seguir o que eu quero de verdade – admitiu, dando de ombros e rompendo o contato visual.

Letha viu quando Maller fechou os punhos e então relaxou rapidamente. Sentiu uma profunda empatia, mas se forçou a não demonstrar. Sabia que o amigo não apreciava quando demonstravam sentir pena por sua situação, e o respeitou da melhor forma que pôde.

– Não se preocupa com o dinheiro. Além de que eu odeio viajar sozinha. E não se preocupa em ter que me pagar depois, qualquer coisa eu faço o Aldrit me dar um dinheiro aí – deu de ombros, tentando aliviar um pouco a conversa. – Se quiser comer algo pode pedir, eu pago – Maller ergueu duas mãos em negação, mas agradecendo. Tanto pela oferta quanto pela compreensão.

– E outro motivo pra eu pensar em voltar são oportunidades. Talvez em Rhama-Ji tenha mais espaço e mais vagas pra trabalho.

– Se for assim, também vou pra lá.

– Não é má possibilidade, mas, da última vez que eu tava por lá, o pessoal ainda tinha uma resistência alta em estrangeiros em profissões como medicina – alertou, coçando o queixo com sua mão larga esquerda.

– Sei que sua família não é qualquer coisa, vocês poderiam arrumar algum cargo pra mim – fez uma expressão extremamente séria para completar o teatro.

Maller soltou um riso preso, pensando em como aquilo seria desastroso para sua família a longo prazo. Sua resposta de negação foi com a cabeça, jogando-a de um lado para o outro lentamente enquanto contemplava todas aquelas situações onde os inimigos de seu pai se aproveitavam com muita facilidade.

– Esse tipo de corrupção em Rhama-Ji é perigoso – explicou, jogando o corpo pra frente e se apoiando nos joelhos com os cotovelos.

– Então tá dizendo que não é praticado? – Letha ironizou com um sorriso.

– Não disse isso. Mas nossa família já tem que lidar com boa quantia de opositores, e uma coisa como essa seria só a gota d'água pra alguém atuar contra nós – explicou dando de ombros e Letha achou que fazia todo o sentido. – Ainda mais com quem é de fora.

– Não sabia que o problema com estrangeiros era tão grande assim – cerrou o sobrolho, colocando os braços ao lado do corpo e estufando peito de ar e soltando-o lentamente ao arrumar os ombros.

– Ah, o povo é bem hospitaleiro, mas não quando o estrangeiro tá em um cargo bem remunerado ou importante, entendeu? – explicou gesticulando com as mãos e focando os olhos nos piercings de Letha. As três peças de metal colocadas lado a lado formavam um bom complemento para seus olhos castanhos com pigmentos verdes que estavam muito bem destacados pela luz que entrava pela janela.

– É, no fim acho que todo lugar é assim – concluiu com tristeza. Sentia isso na pele desde que terminara o Locrum e buscara emprego dentro de Wigia. – E olha que moro aqui há tanto tempo... mas veem qualquer traço meu que deixei claro que sou de Linan-Guo e pronto, não consigo a vaga. Fico imaginando o quão pior não estão os fenonianos ou lacronimanos, honestamente – o suspiro que soltou dessa vez era de decepção e amargor.

– Os tempos não estão bons não – Maller concordou.

– Pra ninguém. Mas não esquece disso, Maller. Uma vida submissa e confortável não vale a pena ser vivida – repetiu o que costumava falar seguido de uma piscadela com o olho direito.

A mulher tomou um instante para si mesma quando o apito do trem anunciou que chegavam na região metropolitana de Nova Nartan. Maller havia decidido fazer o mesmo, agradecendo o conselho com um aceno de cabeça de lábios apertados e olhos baixos. As questões que nos fogem da lógica são complicadas de se lidar. Especialmente quando nossa lógica é confrontada, repetiu para si mesma, lembrando das palavras de Aldrit.

Sabendo que não conseguiria fazer nada pelo amigo naquele momento, respirou fundo e voltou a divagar em seus próprios pensamentos.

As fazendas haviam sumido de vez, dando lugar a casas de palafita que tentavam sobreviver as cheias do Núblio no terreno alagadiço e lamacento das margens do rio. Tijolo e madeira era o que sustentava aquela sociedade marginalizada e expurgada para fora da região murada de Nova Nartan. Fora dos muros, ali, em suas casas tortas e mal cuidadas, vivia o coração de Wigia. O coração de toda aquele monstro tecnológico e industrial. Mas, mesmo assim, eram tratados como a parte menos importante da sociedade. E pouco impressionava Letha que as periferias da zona Não Murada fossem majoritariamente não humanas, com fenonianos se aglutinando em bairros apertados e negligenciados pelo governo central. Aqueles bairros, assim como todos os outros para cá dos muros, haviam sido deixados à sua própria sorte. Muitas vezes sem nem mesmo uma entrega de água abrangente. Os postes de luz, artigo essencial nas ruas da zona Murada, eram raridade ali fora. E caso não o fosse, Letha tinha certeza que pouco caso fariam de garantir o funcionamento.

Nem mesmo o trem, principal meio de locomoção entre os trabalhadores e as fábricas, recebia atenção por ali. Havia poucas estações para atender a quantia de pessoas que usavam todo dia o serviço. E muitas delas, pelo que Letha soubera, nem mesmo estavam operantes, tendo sido abandonadas por motivos diversos. Não surpreendia-a, portanto, que ainda houvessem tantas epidemias na periferia de Nova Nartan, já que diante a esta situação a população era obrigada a recorrer aos velhos animais de transporte que defecavam nas ruas.

– E como anda o trabalho de conclusão? – Letha indagou buscando esquecer o que via do lado de fora da janela. Chegou a se afastar dela, sendo seguida por Maller que fechou a janela antes de vir para o meio do assento. As cicatrizes do progresso eram demasiadas dolorosas para Letha, que estudara para cuidar de pessoas e curá-las de suas enfermidades.

– Tirando o fato que Luther é burro demais, vai bem – Maller cruzou os braços, revirando os olhos e inspirando.

– Por que diz isso? – Letha indagou com um sorriso de canto de boca.

– Como te disse hoje de manhã, eu fui até Baixomar porque ele esqueceu de coletar um livro na biblioteca. E eu tive que ir buscar. É simplesmente surreal uma coisa assim! Como que se esquece o que tá usando pra trabalho? – balançou a cabeça em negação, com os olhos sérios na face quadrática.

– A situação tá tão ruim assim? – arqueou o sobrolho, espantada.

– Você não tem ideia. Honestamente, eu nem sei se vamos conseguir fechar mesmo o curso. E ter que fazer o último semestre de novo? Seria desgastante demais! Por que não fui com o Aldrit e o Belloc, ah... – exclamou jogando a cabeça pra trás e relaxando os músculos do corpo em decepção. Estralou todos os dedos da mão com o polegar, como fazia quando nervoso.

– Não acho que eles aceitariam, de todo modo. Aqueles dois são bem fechados quando o assunto é algum projeto deles. Mas não custava perguntar – deu de ombros.

– O melhor mesmo teria sido ter feito com a Melia. Além de bonita, é bem esperta também – disse e soltou um riso.

A mulher levou uma mão até a testa, negando com a cabeça o que acabara de ouvir e soltando um pequeno riso com as narinas. Depois ergueu a cabeça e encarou o rapaz para ver se entendera sem que ela tivesse que verbalizar. Quando teve certeza que não, falou:

– Espero que não fique falando assim com qualquer um. Ou qualquer uma. E que não a veja apenas desse jeito.

– Ah, claro que não. Falei por falar – se desculpou com um movimento de cabeça. Letha sabia que o rapaz não fazia por mal e que falava o que costumava vir a cabeça, mas não achava que isso lhe dava margem de dizer o que quisesse.

– Por falar no trabalho dos dois, eles devem voltar até o fim da semana. Tenta falar com eles, ainda falta dois meses – a mulher sugeriu, não contemplando nenhuma ideia muito melhor do que aquela para salvar o amigo.

– Vou tentar, mas caso neguem vou fazer meu melhor pra tentar fechar o curso mesmo assim. É meu medo: não conseguir fechar.

– Ah, claro que fecha – Letha disse-lhe com um movimento de mão.

Com mais um apito a conversa foi cortada.

Dessa vez anunciava que entravam na zona Murada de Nova Nartan, passando por aquelas grossas e altas paredes de pedra, heranças de um passado não tão distante na história, mas já inconcebível na memória. Ali as casas começavam a tomar mais forma, embora os distritos próximos dos muros também abrigassem classes mais pobres. Ao menos todas as ruas, ou a maior parte, era pavimentada com ladrilhos, quando não asfalto. Postes se enfileiravam para compor a luz e não deixar que a noite fosse pura escuridão. A água chegava e os guardas sempre estariam por perto. Se não pela patrulha, sim pelo muro a vigiar.

Conforme a locomotiva se aventurava pela floresta de concreto pode-se ouvir o som das entradas de ar se fechando. Não muito distante de onde estava a estação que parariam, ficava a zona industrial, considerado o segundo coração de Wigia e da capital. As longas chaminés despejavam sua fumaça cinza e espessa no céu, deixando Nova Nartan constantemente sob nuvens escuras, com chuvas ácidas e torrenciais se tornando cada vez mais presentes. Os sons exteriores que antes eram naturais se transmutavam completamente ao passarem pelos muros, conforme avançavam para a zona leste e para os portos. No passado, as ruas e as praças eram perturbadas pelo som dos mercadores anunciando suas mercadorias frescas. Hoje, eles ficam quietos dentro de suas lojas, mas as engrenagens tomaram o seu lugar, Letha falou para si mesmas as palavras que o antigo mestre de fisiologia uma vez enunciara.

– Os sons humanos foram trocados pelas máquinas – a mulher disse se levantando quando a locomotiva freou numa estação com mais um apito e o som das portas se abrindo.

– Parece um destino inevitável... – não havia tanto lamentar na voz de Maller, embora homem parecesse compreender como ela se sentia.

– Vamos almoçar?

– Não tenho dinheiro.

– Eu pago – disse dando um tapinha em seu ombro e uma piscadela.

– Vou ficar te devendo bem mais do que eu gostaria – resmungou com um sorriso, aceitando a proposta.

– Como que planejava voltar estando tão duro assim? – Letha finalmente perguntou o que queria havia tempos, mas que evitara para não ser incômoda.

– Ah, eu tinha o dinheiro! O café da manhã em Baixomar foi mais caro do que eu esperava e só sobrou pra pior passagem. Nem pra comer com isso dá – explicou, enfiando a mão no bolso e mostrando os centavos de dragonaris que tinha em posse.

– Sorte sua que me encontrou.

Pegando seus pertences que haviam deixado nos compartimentos sob os assentos, saíram da cabine e se juntaram à fila de passageiros que estavam no mesmo vagão rumando até a porta de saída. O homem responsável por aquela secção do trem era um idoso de coluna ainda ereta. Ficava na porta com um carimbo para marcar o bilhete dos novos passageiros. Vestia-se com um sobretudo vermelho de botões dourados, um quepe grande com uma águia, símbolo da companhia, bordada. A todos que passava o homem desejava "tenham um bom dia", ao qual Letha e Maller responderam com aceno de cabeça e de mão, respectivamente.

Preparando-se para entrar novamente no caos, Letha e Maller puxaram as máscaras que tinham à disposição para se protegerem do ar poluído e inciaram sua caminhada pelas ruas sempre lotadas de Nova Nartan, o orgulho nacional.

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