Capítulo 38 - Parte Um

Sam e eu fizemos o terceiro andar do lugar o nosso escritório de estudo particular, sendo visitadas por ninguém mais que Samuel, uma vez, e Neena na outra, pouco antes de sua missão especial ter início e ela ter que sair dos domínios de Samuel. Este lugarzinho peculiar é a parte do cômodo que fica logo após o buraco que a sala de reuniões está, uma das saletas de estudo que se dividem entre sequências de estantes em cada andar, sendo o fim da demarcação da biblioteca, três andares acima do solo do térreo — é o ponto mais isolado e escondido dos olhares alheios, sem nenhum tubo de ventilação medieval, inclusive.

Observo a mesa lá embaixo, distante, onde está a pequena fonte curiosa que me intrigou no primeiro dia. Quando estou muito cansada e contrariada pela falta de respostas, aquela pequena fonte de água é o que me acalma, como se, apesar de ser minha grande inimiga, a água também fosse a única resposta que realmente preciso.

Fitando as prateleiras que nos rodeiam, eu tento recuperar o ânimo para voltar às páginas e páginas dos livros daqui, lembrando-me que ao menos eu tenho autorização para explorá-las.

Este espaço em específico é proibido para quase todos, tudo deste último andar sendo proibido para quem não é um Cae reconhecido pelo grupo e com acesso especial dado por Samuel em pessoa. Isso, essa permissão para investigar a história Cae e seus segredos, de uma maneira meio desconcertante, é importante para mim. Sam, ao me incluir em suas pesquisas, tem me feito sentir especial de um jeito bom; é como se eu tivesse encontrado uma irmã mais velha que não sabia que tinha.

Estou mesmo surpreendida por Samuel ter aceitado nosso acordo silencioso e ter-me deixado ficar aqui com Sam, fazendo e procurando coisas que não deveriam sair do meio Cae, descobrindo detalhes sobre sua história que não deveriam estar ao alcance de qualquer um.

Os cantos de meus lábios sobem com este pensamento.

— O que acha deste?

Volto-me para Sam, inclinando sobre uma das três pequenas mesas que ocupa o pequeno salão fechado por todos os lados por prateleiras, saindo da exclusiva entrada e saída que é a abertura entre as estantes a Norte. Meu corpo se debruça sobre uma pilha de livros para enxergar o que ela mostra.

Meus dedos passeiam pelo mapa estelar que Sam apresenta, correndo pelos pontos de luz interligados por traços feitos por mãos humanas — não temos uma ideia específica do que estamos procurando. Nem ela nem eu sabemos ler mapas e mesmo assim continuamos a tentar entender o que fiz.

Não sou a única que acredita que meu desenho não passa de uma inutilidade.

— Eu acho que não — digo, por fim. Ela suspira. — Essas três estrelas estão no lugar errado e esta aqui nem deveria estar aparecendo.

— Certo, vou continuar procurando.

Eis o que temos feito nos dois dias que passamos neste cômodo: procurar. Victoria sugerira chamarmos Müller para ajudar-nos, mas ele tinha saído da Reserva para fazer contato com o Nono Acampamento Cae. E, mesmo estando a mero um portal — Argh! — de distância, é considerado pouco seguro nos contatarmos assim para algo tão importante e que deve permanecer em segredo para a maioria. Em especial se considerarmos que, por algum motivo que não me foi explicado, teríamos que sair da Reserva e ir para as terras que rodeiam a cidade, para o portal ser aberto; as terras em volta da mansão bloqueiam esse tipo de magia.

Bufo, folheando o livro de História da Astronomia do Século XXII, mirando com vagar as imagens que são ilustradas aqui e ali.

A verdade é que eu não sei bem o que estou fazendo. Eu não queria estar ajudando-os e usando habilidades que deveria não ter para isso. E, no final, eu quero. Quero ajudar a desvendar o enigma, quero encontrar as respostas que nem os Cae têm, quero saber por que me sinto atraída desta maneira pelo mistério que os envolve e porque isso me fez ficar quando tudo o que aprendi é que se importar é perigoso, e se importar com algo tão grande como a segurança de todo um povo pode ser letal. Quero compreender o que me fez ser atraída por essa gente que me instigou a permanecer com eles ao invés de ir embora como deveria; a sugestão de uma saída estratégica aparece de vez em quando em minha mente, durante a noite, quando o silêncio é minha solitária companhia.

Eu a ignoro a cada vez.

Suspiro. Sei que isso não vai acontecer em breve. Minha ligação com Penny me impede de deixá-la, e eu só poderei partir se o fizer, minha curiosidade sobre o enigma e a história Cae me impele a ficar. E é ainda pior saber que estou criando um nível leve e frágil de confiança em uns poucos seres do outro mundo, o que resulta em minha pessoa pesquisando livros e livros cheios de poeira para ver se descubro algo para encontrar o Artefato que pode — ou não, não eliminei essa possibilidade — salvá-los.

Ridículo.

— Posso pegar este? — Pergunto a Samantha, apontando um volume grosso, empoeirado e envelhecido, que se esconde numa das prateleiras mais baixas.

— Sim, sim, claro — consente, acenando em distração.

Sorrio e retiro o volume, sentindo-o pesar, gordo e quente, em meus dedos finos. Não há nome na capa, mas seu conteúdo parece generoso e vasto. Abro-o com genuíno interesse, me sentando à mesa que está mais distante de Sam, separando-nos por um conjunto de mesa e cadeiras cheias de livros descartados. "A Lua e Seus Mistérios" é o título que encontro na primeira página, acima de um texto.

Meus dedos enrolam-se nas folhas que eu toco. É um tipo de papel-pergaminho que, como todas as folhas produzidas assim, tem sua origem pendendo para ambos os lados sem encontrar nenhum.

As palavras em tinta preta são velhas, numa caligrafia antiga, desenhada. Um manuscrito! A cor desbotou um tom, decaindo para um marrom terroso escurecido e borrado. Se tivesse sido impresso ao invés de escrito à mão, a tinta teria clareado muito mais ou sumido por completo, dependendo do tempo, graças ao uso de misturas estranhas na escrita por máquinas de escrever que conheci em Aliança; as impressões não conseguem ser mantidas por muito mais que alguns meses, ou poucos anos, no papel-comum.

— Lindo... — Sussurro, repreendendo-me em seguida e disfarçando quando olho para cima e vejo que Sam não notou minha exclamação maravilhada.

Balançando a cabeça, abro em uma página aleatória e começo a ler.

"... Sua fase mais pura. A ligação lunar com as mudanças que eles sofrem tem sido estudada por séculos pelos cientistas de Sua Majestade e, mesmo assim, papai e Lorde Wolf foram incapazes de descobrir o que eu descobri em poucas semanas sobre...".

Paro de ler. Estou espantada. Não é um livro comum, então. É um diário.

Fecho as abas sem desmarcar a página do trecho lido. Na capa de couro escura há somente as iniciais L. A. K. S. M. e nada mais. Bem, um diário não é um meio inadequado de pesquisa. Mordendo o lábio, abro-o mais uma vez.

"... Mudança Lunar Plena. Eles queriam poder sobre os lobos e o perderam por despeito. Consideraram-me uma tola ingênua por ser mulher quando ofereci minha, mas estavam errados. Fico feliz por isso. Eu gostaria de poder evitá-los agora, mas não posso, não quando há tanto em risco. Não enquanto a eminência da batalha se faz presente. Preciso de resultados, preciso o mais rápido possível ou será tarde para todos nós."

"Passei a noite de ontem acordada por completo, presa em meus aposentos para minha segurança, como ordenou papai. Mas não desperdicei a oportunidade. Observei como a Lua se tornava rubra como uma gota de sangue, como uma pétala de rosa recém-colhida e vi o que eles diziam ver: nada. Apenas eles foram atingidos. Frustrada, decidi que era hora de testar meus conhecimentos com a água e tive uma nova surpresa: meu domínio estava muito mais forte do que em qualquer vez que tentei usá-lo, o que só pode significar uma coisa: está chegando a hora do solstício dos meus dons. Com ele, o fim desta batalha poderá vir."

"O Solstício de Inverno acontecerá em menos de um mês e meio e temo que não possa participar das festividades deste ano. Talvez tenha chegado a hora de contar a Anthony, dizer que o tempo está acabando e a profecia está prestes a se cumprir, mas estou com medo do que ele dirá, estou com medo do que acontecerá com meu pequeno, estou com medo do que teremos que dizer aos Anciãos. Eu sou uma criança perto deles e isso me aborrece; estou sem credibilidade com meu próprio povo."

"Eu gostaria de simplesmente poder evitar a mudança que virá."

O texto, datado de vinte anos atrás, acaba ali. Páginas e páginas se seguem. Mas, o que me chama a atenção é que, logo no fim, na última página, não há texto, nada mais que uma imagem: o brasão de constelação.

Fecho o diário uma vez mais.

Estou ofegante. Sinto que este diário não deveria estar em minhas mãos, e que, considerando que até hoje não soube o que significa o brasão, eu não deveria saber deste diário. E este instinto não tem falhado comigo.

Ao longe, o som do sino tocando interrompe nossa concentração. Aproveito o segundo de confusão de Sam, que estava imersa na leitura, para esconder o livro bem debaixo da pilha que olhávamos, não sem pesar, substituindo-o por um de astronomia que já vimos.

— Parece que nosso tempo acabou.

Dou um sorriso amarelo, seguindo-a para fora da salinha, que é fechada por um portão com cadeado. Quando cruzamos os corredores laterais que rodeiam a sala de reuniões abaixo e cruzamos as demais salas, outro portão preserva o andar dos olhares alheios. Cambaleio pela escada, deixando Sam para trás com um aceno de despedida.

— E aí, está fugindo de quem?

Pulo e recuo, levando um milissegundo a mais que o necessário para reconhecer Frida.

— Você está louca? — Esbravejo, irritada por ser pega de surpresa, caminhando em direção ao saguão de entrada com ela em meus calcanhares.

— Ora, era uma brincadeira — desculpa-se, erguendo as mãos. — Essa reação quer dizer que vocês encontraram um ponto interessante em sua busca?

— Não — afirmo, com uma careta. — Quer dizer que não é educado aparecer de repente e assustar as pessoas que estão distraídas.

Subo os degraus no meio das escadas que levam para a Ala do dormitório dos meninos e das meninas.

— Achei que a incrível Nori não se distraísse — brinca Kash, aproximando-se de nós para anunciar sua presença.

Frida dá um soco de leve em seu ombro.

— É uma infeliz característica do ser humano: nós nos distraímos.

O garoto ri de minha resposta sem graça e meneia a cabeça com uma reverência para Frida e eu, indicando que devemos seguir na frente.

Ao lado da abertura que nos conduz para fora, está Daniel, segurando uma das portas duplas que tem sido mantida fechada desde o ataque, assim que escurece. Cumprimento-o com um movimento de cabeça, nossa única interação desde nosso encontro no corredor, com um aceno que é retribuído com discrição.

Prossigo com meu caminho, sem esperar a aparição de Chia.

Desde que descobriu sobre a presença do irmão, tenho visto ela somente após o toque de recolher, quando as luzes do corredor são desligadas, e durante o desjejum, a única hora do dia que temos em conjunto. Fora o dia em que estivemos juntas na saleta oculta de Sam, Chia tem se fechado mais e mais. As marcas de riso em sua face são quase invisíveis, agora; ela não ri mais para que tenhamos a oportunidade de vê-las. As refeições que sucedem o desjejum são realizadas no quarto e nosso tempo juntas se resume à hora de dormir, sem conversas que acarretarão discussões entre nós.

Pergunto-me até quando poderei evitar este fato infeliz.

Mergulhar na brisa noturna é refrescante, considerando que passei boas horas numa biblioteca, cujos odores de antiguidades e poeira não são nem perto de confortáveis como é essa brisa gostosa com sabor de sal. Daniel briga com a uma folha grande de palmeira, que foi lançada em sua direção com a força da corrente de ar que provém do Sul e do Mar, e Kash espirra tentando cuspir de volta um inseto que entrou em sua garganta quando este ria de seu amigo.

Inspiro fundo, puxando uma respiração profunda, contendo um sorriso. Escuto Frida rir ao bater nas costas de Kash, sentindo que o aroma que invade meu olfato e atinge meu paladar nada tem a ver com o vento trazido pelo Mar. Estou envolvida por ele.

Engulo mais uma golfada de ar, sentindo meu corpo arrepiar com o que capto com a ação.

— Estão sentindo esse cheiro incrível?

Pergunto a eles puxando para meus pulmões o cheiro de sal, coisas da terra e um toque mais pesado de um algo que não consigo reconhecer. Tudo o que sei é que não sei se quero tentar.

— Com certeza, não — assegura Frida, ao respirar fundo. Seu rosto está contorcido numa careta de nojo, quando ela coloca a língua para fora, como se não aguentasse o que sente. — Sinto odores fortes e uma nota de cachorro molhado, além de sal e ácido. Nada de agradável, acredite.

Franzo o cenho para ela, mas viro-me e subo as escadas sem rebater.

O refeitório está cheio, como de costume, mas as cadeiras vazias podem estão mais evidentes. Lembro-me da enfermaria privativa que foi feita com exclusividade para os portadores da Peste, num dos cantos recônditos da mansão. Em Aliança, a sequência de bolhas, os gritos e o estado de putrefação da pele se seguiriam apenas até que um ser piedoso do Governo acabasse com o sofrimento do portador. Na Reserva, eu sei que eles não matarão os jovens, mas não sei se posso classificar o ato como bondade.

— Estão ansiosas para as festas?

A indagação de Kash é feita, quando saímos da fila de alimentação com bandejas cheias de fios de queijo cortado, macarrão e uma pilha de ovos de codorna cozidos.

Dou de ombros.

— Eu não vou.

Não ergo a cabeça para assimilar reações, pois estou muito concentrada em colocar uma garfada de comida na boca. Sinto a pele de meu braço ser puxada por longas e afiadas unhas, um beliscão doloroso que me faz engolir com força.

— Ai, Frida, o que foi?

Ela me olha com horror, como se um par de chifres houvesse nascido em meu nariz. Franzo-o para me certificar de que está tudo normal. Será que seria possível acontecer uma coisa dessas?

— Você não pode faltar — diz, com segurança. — É um evento mensal na cidade e é um dos mais esperados pelos adolescentes da Reserva. Pode acabar sendo importante para você também.

— Do que ela está falando? — Questiono, virando-me para Daniel e Kash, que não respondem.

Ergo uma sobrancelha e espero.

— É a Festa da Lua Cheia — diz uma voz em minhas costas, quando ninguém se manifesta. — Em teoria, todo mundo deveria saber o que significa.

Miro Arthur com o garfo cheio de comida que parei no meio do caminho do prato para minha boca.

— Novidade — digo, com desdém, inclinando-me para ele como se fosse lhe contar um segredo. Puxo os cantos da boca com esforço e franzo o cenho com afetação quando pronuncio:— Eu não sou todo mundo. E não perguntei a você.

Kash abafa uma risada na mão, fingindo uma tosse que acaba num engasgo, graças a sua boca cheia. Torço a boca quando o vejo cuspir comida na mesa. Percebo um meio sorriso nas bocas de Frida e Daniel, que não faz a mínima questão de esconder seu divertimento. Arthur faz caso omisso deles.

— É uma comemoração que marca o Rito de Passagem para os lobos, Nori — diz ele, quando tomo um gole do meu chá gelado. — Você pode descobrir se fará parte da alcateia.

Cuspo o chá na mesa, engasgando como Kash fez há pouco. Tossimos em conjunto quando ele volta a abafar uma risada para minha reação; enquanto é engraçado para ele, é sufocante para mim. Como se uma faca tivesse presa na minha traqueia e não quisesse sair, tento expelir aquilo que me impede de respirar. Mãos batem em minhas costas, despertando em mim o impulso de forçar meu punho para esta direção, e alguém força-me a erguer os braços, o que serve para nada mais que piorar minha crise.

— Beba água — sugere uma garota da mesa ao lado, estendendo o copo. Recuso-o com um aceno, deixando-me recuperar-me sem intervenções.

— Tudo bem? — Pergunta Frida, quando a crise para.

Sua expressão parece ser de preocupação por minha sanidade mental.

Meu olhar cruza o de Kash por um momento e é o que faltava para cairmos na risada.

Rio com força, com toda a vontade que há em meu ser, e com histeria. Rio como nunca ri, deixando que o nervoso e o desespero saiam de mim por meio de sons, sem me importar em chamar atenção ou em parecer maluca. Rio porque se parar as lágrimas surgirão; é horrível.

Quando a crise de riso passa, tenho vários olhares em mim. Pigarreio para limpar a garganta, usando o torso da mão para limpar qualquer resquício de comida que possa ter escapado. Então, cerro a boca e volto a cutucar a comida em meu prato.

— Certo. — Cantarola Frida, mexendo no cabelo com uma careta. — Nori, voltando ao assunto, você vai à Festa da Lua Cheia agora que sabe o que representa, não é?

— Para quê? — Pergunto, sem interromper a mastigação. — Eu sei que não vou virar um... Lobo.

Dou de ombros, enfiando um gominho de carne na boca, tentando com cada célula e todas as forças manter uma postura e relaxada que não quero. Leva toda a minha energia permanecer impassível. Será que seria considerado um assalto de histeria eu sair correndo pelo jardim gritando que lobos existem e vão me matar se eu comer a carne deles?

Faço uma careta e solto o garfo.

— Não dá para saber — comenta Arthur. — Se você não teve uma família para contar sobre uma possível linhagem de magia em sua veia, qualquer coisa pode...

— Eu não vou virar o raio de um animal — rosno baixo, raivosa. Minhas palmas encontram a madeira da mesa quando me inclino para eles, em tom ameaçador. — Parem de implicar com isso.

Mãos são erguidas em rendição. Fito o olhar penetrante de Daniel que não me abandona, como se para deixar clara a dúvida acerca de minhas palavras. Ergo uma sobrancelha em desafio, esperando que fale ou zombe de mim, mas ele não diz nada.

— Nori.

O chamado de Frida ecoa em meus ouvidos. Ignoro-o.

— Nori, é sério — chama uma vez mais. Fito-a com o olhar indagador, contendo a irritação, mas intrigo-me com a forma como ela aponta para um ponto em minhas costas e viro-me para visualizá-lo. — Aquele com Chia seria ele? Lorenzo?

Entreabro os lábios, sem poder interromper o gesto de franzir as sobrancelhas. Estou impossibilitada de dizer uma única palavra.

Na porta do refeitório, e sendo conduzido para nossa mesa por Chia, está Lorenzo.

O mesmo porte confiante de sempre está presente em seu modo de andar, o mesmo cabelo no estilo militar cortado por agilidade e praticidade, a mesma carranca habitual. Seus passos mancos não podem tirar o ar de letalidade e intimidação que ele tem. Não comigo, não mais.

Cerro os punhos com força, escondendo-os debaixo da mesa. Eu não havia percebido quanta raiva pura e bruta eu sinto por ele. E quanta tristeza me causa ter tanta mágoa.

Desde quando passamos de irmãos a inimigos?

— Veja só quem pôde sair da enfermaria, Nori!

A exclamação de Chia me força a erguer a cabeça. Eu não a respondo, contudo. Meu olhar está preso no castanho-opaco das íris dos olhos de Enzo, medindo-o da mesma forma como ele me mede, julgando-o da mesma maneira com que ele me julga e acusando-o do mesmo jeito com que eu mesma já fui acusada por ele. Não me surpreendo por não haver marcas roxas visíveis em seu rosto; tenho certeza de que Samuel não iria gostar que seus queridinhos aprendizes vissem o estrago que Caleb fez no rosto de um de jovens Provincianos salvos pelos Cae.

— Vejo que não puderam consertar sua cara feia.

Nem um pouco infantil, não é Nori?

— Vejo que nem o fato de quase perdê-los pode te ensinar a ter consideração por seus amigos — retruca ele, inexpressivo.

— Você não é meu amigo — afirmo. — Acho que nunca foi, não é, Lorenzo?

Ele entrecerra os olhos, mas não tem tempo hábil para sequer abrir a boca.

— Nori!

O brado indignado de Chia é o que me lembra de onde estamos. Sua expressão é de incredulidade ao interceder em favor do irmão, colocando-se em frente ao meu olhar afiado com a testa franzida em uma clara demonstração de insatisfação.

— Como pode falar assim com nosso irmão? — Inquire.

— Da mesma maneira como ele teve coragem de me abandonar para morrer em uma cidade banhada em fogo, guerra e caos.

Chia bufa com desgosto, ao grunhir:— Você ainda não parou com isso? Estávamos em uma situação delicada, não pode simplesmente...

— Galera, aqui não é lugar para discussões familiares — alerta Kash, em tom baixo. — Por que não vamos lá para fora e evitamos uma cena?

Impulsiono-me para cima e direciono meu foco a Lorenzo.

— Não temos nada para falar. — E, empinando o nariz em direção a Enzo, para igualar nosso olhar mesmo com a diferença de tamanho, eu digo:— Nunca mais.

Abandono o refeitório com consternação, perguntando-me quando voltei às raízes da amargura.

Eu nunca saí delas, é a resposta mais plausível.

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