Capítulo 36 - Parte Um
— Nori!
O chamado me faz erguer a cabeça, desviando o olhar do ponto que tenho observado desde que Daniel partiu.
— Que bom que não saiu daqui — chama Frida, puxando meu braço. — Precisamos ir. Agora.
— O quê? Por quê?
Bato o cotovelo na parede com a pressa, sentindo um choque que me faz grunhir e espalmo a mão ali para evitar novas colisões. No lugar onde estavam as cicatrizes dos cortes de vidro — que sumiram quase totalmente, mas continuo sentindo — há uma coceira forte ao ponto de eu ter que enfiar as unhas em minha pele, resultando num guincho de dor, tamanha a força usada. Puxo uma mão para perto do rosto, vendo um brilho pálido de suor formando um caminho arrepiante em minhas palmas, cruzando e deitando e virando.
Ofego, com um trêmulo gesto para tirar um cacho escuro que cai em meu rosto, saindo do coque improvisado. Tenho que afirmar a mim mesma que as formas do enigma são diferentes e deixo Frida apressar meus passos.
— Vem logo. — Puxa-me e para em frente à porta do quarto. Não tenho chance de protestar. — Chiara, estamos indo para a biblioteca. Não vou repetir: pode ficar e esperar ou vir e ficar com a gente.
Escuto uma cama ranger e uma porta bater enquanto em parte caminho e em parte corro.
Sou, mais uma vez, conduzida pelo corredor, ouvindo os sons de Chia se movendo para acompanhar-nos quando cruzamos o corredor para a parte Sul. Descemos, viramos, viramos e corremos sendo guiadas por uma eufórica Frida, que não dá descanso, fazendo curvas e voltas por caminhos que desconheço. Paramos quando chegamos à biblioteca, sem escutarmos sons que denunciem o segmento da tortura a Enzo.
— É o seguinte — fala Frida, ligeira. — Encontramos Sam, falamos com ela e ela concordou que tem novidades e talvez informações.
— Meu irmão? — Interrompe Chia. — Ele está aí?
— Não — a morena nega com rapidez, prosseguindo antes que Chia possa protestar. — Mas ela pode lhe dar notícias sobre ele, se concordar em entrar.
Com um aceno hesitante conjunto, cruzamos a soleira da porta.
A biblioteca está vazia. Seu costumeiro ar de aconchego e familiaridade me invade, sendo mais forte que a opulência e grandeza que seu tamanho apresenta. Cruzamos o túnel que passa por entre as prateleiras, e eu toco o teto que faz o chão do primeiro andar com os dedos, baixando a mão apenas quando ultrapassamos o túnel e adentramos a área de reuniões.
É inevitável fitar o lugar onde Enzo estava.
Ao contrário do que penso, não paramos em frente à mesa de reuniões. Parece que vou conhecer a sala onde Penny foi mantida em seu primeiro dia.
— Olá, meninas — cumprimenta Sam, quando adentramos a sala.
A porta é fechada enquanto acenamos para Penny, que parece um pouco deslocada sentada numa cadeira. O que Penny está fazendo aqui? Normalmente ela não participa de nossas conversas com Sam sobre os Cae, o enigma ou qualquer outra coisa. Nem nós deveríamos ter essas conversas, para ser sincera. É tudo permeado por segredos, tradições fechadas e mistérios que não deveriam passar dos limites da Reserva e da segurança da proteção de Samuel. E nós não somos Cae e, tenho certeza, nunca seremos.
— Sigam-me sem uma palavra.
Olhamo-nos entre nós, deixando Sam puxar a mesinha que ocupa um pedaço da sala. As três cadeiras, duas de um lado e uma do outro, são afastadas. Frida e eu ajudamos Sam a desencostar a parte direita do móvel da estante que cobre a parede e, depois, a puxar a porta que conserva os livros ali. Mapas e objetos são jogados sobre o chão, e, para nosso espanto e admiração, a parte traseira da estante é retirada com dificuldade e jogada no chão, revelando um comprido corredor escuro, como o de ventilação que usamos clandestinamente há pouco.
— Rápido, mais rápido, meninas — manda, num sussurro. — Não posso segurar mais.
Franzo as sobrancelhas, mas obedeço.
Quando estamos todas dentro da negritude, vemos Sam empilhar nas prateleiras os objetos que retirara na mesma posição que ocupavam anteriormente, montando o mesmo cenário que havia antes de mexer ali, como se tivesse feito isso uma centena de vezes antes. Talvez tenha mesmo. Em seguida, Sam, puxa a cobertura que completa o móvel, mergulhando-nos na mais intensa escuridão.
Engulo um grunhido quando Sam pisa em meu pé, tentando passar em nossa frente. Não digo nada sobre haver uma parede na direção que vai — eu a senti — pois creio que ela sabe o que está procurando. Um minuto depois, um curto ranger é ouvido, seguido de um profundo inspirar.
Uma nova sala é aberta.
O contorno de Samantha aparece com a casta luz que provém dali, permitindo-nos ver o aceno que faz, indicando que devemos adentrar o ambiente desconhecido. Quando nossos pés estão dentro, Sam empurra uma grande placa de madeira, e uma parede se fecha em nossas costas, mantendo-nos ali.
É como se cada partícula de oxigênio fosse roubada de meu corpo, ficando para fora do cubículo de dois metros por dois metros.
— Sentem-se — oferece a mulher.
Sua voz sai oca e baixa. A acústica da sala parece fazer nossas vozes se perderem nas quatro faces do cubo que é o recinto — é como se estivéssemos isoladas do mundo. Tenho certeza de que nossas palavras não podem ser ouvidas fora daqui, como se jamais houvessem sido pronunciadas.
Uma reunião secreta, então.
Acomodo-me em uma confortável poltrona baixa, tendo que ficar com os joelhos dobrados para não acertar os pés das outras, em frente a um sofá de madeira com estofado somente no assento, que está contrário à minha posição. Penny ocupa a poltrona que faz par com a minha, seus pés que normalmente não alcançam o chão tocando meus tornozelos sem dificuldades. Frida reivindica uma almofada de sentar bege gigante que está no chão, ao lado da de Chia, deixando todo o curto espaço no sofá para Sam.
É uma sala vazia, sem dúvida.
E sufocante.
E, do ponto de vista estratégico, muito inteligente.
Fora um armarinho minúsculo com portas de vidro do tamanho de uma lata de uma panela grande, que parece guardar saquinhos metálicos e toalhas, os assentos em um triângulo aberto e as duas almofadas beges sobre o carpete também bege, não há nada. Nem uma janela sequer, ou corredor de ar visível. A porta, ou o que quer que seja, tem uma longa cobertura percorrendo toda a sua extensão, em um tom desbotado de marrom. A mesma cobertura rodeia o restante da sala desde as paredes, rodeando a superfície do solo acarpetado e chegando e cruzando o teto.
Uma sala de confinamento ou abrigo, eu diria.
Estremeço com a possibilidade número um.
— Que lugar é esse? — É minha primeira pergunta, quando tenho certeza de que nossa fala está permitida.
Sam suspira, ajeitando-se no estofado do sofá, como se esperasse a pergunta.
— Na época do Declínio, abrigos assim eram comuns para situações de emergências. — Aponta para o armarinho. — Guardamos remédios e comidas secas. Pouco mais de cinco ou seis pessoas sabem da existência desses esconderijos além de mim, e são os que me ajudam a mantê-los, mesmo que não usemos estes compartimentos há anos. Samuel é um dos que sabem, mesmo que não tenha sido informado sobre meu cuidado com eles. Por ele, a existência destas salas já teria sido esquecida.
Franzo a sobrancelha.
— Por que os mantém?
— Segurança — é sua resposta evasiva. — Mantive todos abastecidos nos últimos anos, limpando um a um a cada mês com mais três pessoas e cuidando para que o estoque esteja sempre cheio e em sua capacidade máxima.
— Por que abastece e limpa em segredo?
— Segurança — repete ela, para Chia. — Eles são úteis, de vez em quando, como agora. E podem vir a ser muito mais úteis se as circunstâncias continuarem a se encaminhar para o destino que vejo. E não — interrompe as frases que se formavam nas bocas de Frida e eu — não falaremos sobre isso.
Mordo o lábio e franzo as sobrancelhas, mas respeito sua decisão.
— Alguém sabe que estamos aqui? — Pergunto, vendo a resposta negativa na face de Sam, e acrescento:— Tem um motivo específico para ter-nos trazido para cá?
— Não o faria sem razão.
Torço a boca.
— Mas não, ninguém além de nós sabe que estamos aqui. É melhor assim.
— Por que está escondendo esta conversa?
Sam suspira.
— É triste dizer, mas ultimamente tem sido difícil saber em que se pode confiar e de quem é importante esconder o que está acontecendo entre nós.
Penso se Sam se refere a Caleb e Astrid, questiono-me se ela sabe o tipo de cobra que ela tem por perto.
Se ela sabe que ele planeja matá-la após usá-la para conseguir o que quer.
— O que Penny está fazendo aqui? — Indago, por fim. Se não posso ter uma resposta concreta sobre uma coisa, posso tentar ter sobre outra. — Aconteceu alguma coisa? Temos alguma novidade?
Um segundo se passa e mais um.
— Sim — é a resposta breve de Sam, após uma curta pausa. Ela tem a voz mais séria que eu já a vi usar. Não feliz, embora um tanto frustrada. — Quer dizer a elas por que estamos aqui, Penny?
A bambina larga o cachinho dourado que rodava entre os dedos e ergue o olhar azul para fitar a mim.
— Decidi contar tudo que sei.
Eu não sei o que esperar quando Penny se acomoda e cutuca o cachinho que cai sobre seus olhos. Não posso imaginar o que está vendo quando fita sem ver um ponto qualquer nas calças muito grandes que conseguiram para ela. Não consigo pensar, entretanto, que esses segundos que ela leva para organizar seus pensamentos são gastos sem necessidade. Toda lembrança conta histórias e as histórias de Penny são como uma brisa fresca no verão: inesperadas a maior parte das vezes, mas que jamais passam despercebidas.
— Mamãe e eu sempre moramos na mesma casa, desde que me lembro — começa, enfim. — Ela servia a mesma família há uns oito anos, eu acho. Eu gostava de lá. Corria no quintal quando ela lavava roupa e brincava com a filha da cozinheira. Nós ganhávamos os biscoitos de manteiga que queimavam e podíamos tomar um copo inteiro de leite se ajudássemos nas tarefas de casa. Era bom.
A voz infantil para e o silêncio retorna. Eu vejo em minhas pálpebras fechadas surgir com precisão cada cena que Penny descreve.
—Tudo mudou quando mamãe foi promovida à camareira do andar de cima e, na outra semana, à Criada da filha do primeiro casamento da dona da casa — prossegue a menina, torcendo a mecha de seus cabelos nos dedos. — Eu gostei, no começo, porque deram um quarto melhor pra gente e deixavam mamãe comer bem para parecer mais saudável quando acompanhasse a Srta. Liberty, então ela sempre me dava uma porção maior de comida. Mas começou a ficar ruim. — A bambina balança a cabeça, passando as mãos pelos braços. — Eu já tinha cinco anos quando ele chegou. Era um amigo de mamãe, ele dizia. Um amigo que ia ajudar.
Observo Sam abrir o armário e tirar de lá um pacote de biscoitos de aveia e milho seco. Penny morde um, meio sem notar, e continua a falar quando o engole.
— Eu o via todo mês, sem falta. Mamãe ficava irritada quando chegava perto da data, por isso eu sabia. Ele chegava com a capa preta e entrava no quarto com ela. Ela parecia mais preocupada com o trabalho quando ele ia embora, e andava inquieta, parecia estar sempre vendo coisas onde não havia. Dizia que precisávamos ter cuidado com quem falávamos, porque a casa tinha olhos e ouvidos e ela não podia ser pega, nem que precisasse fazer uma loucura.
— Pega? — Interrompe Chia, sem se conter. — Por quem?
— Eu não entendia — Penny responde, dando de ombros. — Não das primeiras vezes. Mais tarde, eu soube. Numa manhã após a visita do homem, Lorde Liberty apareceu morto. A única pessoa com acesso ao andar superior era minha mãe e outra camareira, que foi a acusada, por servir ao casal de Lordes. Mas, não foi ela. Eu sei que não. O homem que visitava mamãe nunca mais veio a partir dali e ela nunca mais foi como era.
— Isso é sinistro, mas ainda não faz sentido — eu digo, cortando a frase dela.
— Não, faz sentido sim — contrapõe Sam. — Penny, esse Lorde era o quê? O que ele fazia? E o que aconteceu com as mulheres da casa depois da morte dele?
— Ele era prefeito. E um primo distante tomou os negócios da família e tornou-se prefeito no lugar.
— Esse é o ponto — aponta Frida. — Eles precisavam de acesso a alguma coisa da casa ou da família e mandaram um impostor. Eu conhecia de vista a Srta. Liberty, a cidade não era muito longe da minha. Pelo que eu sei, Lorde Liberty casou-se com uma viúva e estabeleceu a menina como filha por ser estéril.
— Então o interesse era pela própria filha do prefeito? — Questiono com confusão. — Por quê?
— Acho que a história ainda não acabou — comenta Sam, virando-se para Penny — não é?
Penny nega com a cabeça, mordendo um biscoito. Reconheço sua tentativa de adiar a continuação.
— Continue. O que mais aconteceu?
— As caças-ao-tesouro começaram. — Ela não nos fita quando gesticula para demonstrar sua fala. — Muita gente vinha de vários lugares para visitar o novo prefeito. Aí elas foram aparecendo e sendo escondidas por mamãe. No jardim, dez cartas, no piso solto da varanda do quarto da patroa, mais dez. No bloco quebrado do nosso quarto, mais um montão delas.
— Cartas? — Repito. — Sobre o quê?
— Os Traidores. A Câmara do Rei. E os Cae.
Samantha fica branca.
— Como assim, sobre nós?
— Eu vi uma, uma vez. Levei uma surra da mamãe, mas vi. Eu tinha uns oito anos e mamãe tinha me ensinado um pouco sobre ler. Estava endereçada à Madame E. Blackout, uma senhora que nunca vi, e, guardado junto, estava o pedaço de enigma que mamãe deu pra você, Nori.
— O que estava escrito?
— Alguma coisa sobre o DNA Cae não ser compatível por completo com a origem vermelha de um vírus transmissível por contato líquido direto ou indireto. Não entendi.
Estamos todas imersas em pensamentos. As possibilidades são múltiplas e as resposta em retorno, poucas. Sam parece frustrada como eu. Queríamos esclarecimento e ganhamos mais dúvidas.
— Certo — inicia Frida. — Então, se havia um estudo do DNA Cae, talvez o interesse na filha do prefeito pudesse ser por uma característica em seu próprio sangue. Uma particularidade, quem sabe — deduzo, enrugando o nariz.
— Isso explicaria uma coisa ou outra. — Sam assente. — Mas não tudo. Continue a história, Penny.
— Foi quando mamãe e a Srta. Liberty saíram do Triângulo. Fomos para a Sétima, viver por umas semanas com a avó de nossa patroa e levamos as cartas. Saímos escondidas do senhor da casa e nunca mais o vimos, pelos meses que ficamos na Sétima Cidade. Quando fiz nove anos, mamãe me contou sobre... O mundo dos Cae, sem usar esse nome, e disse que eu não deveria ter contato com ele nunca, além de proteger as provas que ela tinha daquilo que estava por vir. Ela começou a me falar algumas coisas quando percebeu que eu conseguia me lembrar de tudo o que me falava, porque dizia que eu poderia lembrar a ela de coisas que ela não lembraria sem as cartas. Aos poucos, ela foi queimando alguns papéis, enquanto eu decorava as coisas escritas neles. Um mês depois aconteceu o ataque e eu conheci você.
Mais uma interrupção para compreendermos a história.
— Por que você não deveria se envolver? — Questiono com as sobrancelhas erguidas. — Por que ela te contou sobre esse outro mundo se não queria te envolver? Por que te deixou saber tanto se não queria te ferir?
— Nori, eu não posso explicar — é sua resposta. — Ao contrário do que vocês esperavam, não tenho cada resposta que procuram. Sei pouco e, na maioria das vezes, só consigo responder o que me perguntam. O que posso dizer é que minha mãe tinha segredos demais e não contou para mim nem metade. O que sei é que ela achava que não conseguiria entregar as cartas a quem devia e queria que eu cuidasse das informações para que não caíssem em mãos erradas. Ela disse que poderia morrer e que eu não podia deixar os fatos morrerem com ela. E estava certa, não é?
Suspiramos em conjunto. Coço as palmas de minhas mãos com embaraço.
— Ok, sua mãe estava envolvida em uma atividade clandestina — repete Chia, em voz alta, cortando o silêncio. — Ela tinha informações sobre coisas que se relacionam ao DNA Cae e ao próprio povo. Segue não fazendo tanto sentido.
— Sim — concordo com um aceno, encolhendo-me em meu assento. — Pode ser interessante saber disso, mas não é imprescindível.
— Qual o seu raciocínio, Nori? — Pergunta Sam, inclinando-se.
— Veja bem — começo, gesticulando uma vez. — Hoje existem poucos meios conhecidos para estudar o DNA, depois que a maioria das questões médicas e recursos medicinais foram perdidos ao longo dos séculos antes e após a Era do Declínio.
— Em especial em Aliança, que aboliu muito mais das tecnologias que vários outros países — agrega Chia, com um aceno, colaborativa.
— Exato. Uma pesquisa como essa pode ser considerável, conveniente, mas não traria a necessidade de uma luta para tê-la, como aconteceu no navio, em Aliança, por não haver métodos para o estudo aprofundado desta informação. Não temos como dissecar cada dado existente, como poderia ser feito nos séculos vinte e um e vinte e dois. Um estudo científico desse poderia ter lugar para ser feito nos exércitos, talvez, mas é difícil imaginar tanto afinco em consegui-lo. Hoje em dia, poucos sequer sabem o que significa DNA.
— Deve haver mais nisso — compreende Frida, aquiescendo para mim. — Detalhes escondidos que somente quem sabe de sua existência procuraria.
— Penny — chama Sam — pode repetir o trecho que se lembra?
— Claro — ela pigarreia, enrubescendo ao tornar-se foco de nossa atenção novamente. —"O DNA Cae não é compatível com a origem vermelha de um vírus transmissível por contato líquido direto ou indireto, exigindo a limpeza total por abstinência do agente causador. Tal conhecimento deve ser passado aos que forem responsáveis por abrir o processo de purificação para reprodução geral de números produtivos e a preparação em massa do produto requisitado".
Reprodução geral de números produtivos?
Minhas sobrancelhas estão erguidas, assim como as das meninas. Penny cora uma vez mais, sua tez de um bronzeado muito suave tornando-se um profundo tom de vermelho.
— Como consegue reproduzir a exata frase que leu?
— Eu não sei — diz ela ao dar de ombros. — É o que eu disse. Não é sempre que acontece, mas às vezes lembro-me de coisas que vi ou li sem saber por que, como se guardasse o que escuto e lembrasse quanto tocam no assunto. Como se eu escondesse as respostas numa gavetinha e fosse buscar quando preciso. Nem sei quem é DNA.
Eu riria, se sua ajuda não tivesse formado cenários em minha cabeça.
— Ok, falamos disso mais tarde — afirmo, prendendo-me a última parte da fala de Penny, num reconhecimento vago de algo que já ouvi, mas não consigo me lembrar. — Permaneço achando que há mais nessa história do que está sendo contada.
— Acho que agora é comigo.
Miro Sam enquanto ela se prepara para falar.
Parece que é hora de conhecer a verdade por detrás dessa bagunça.
— Há muitos anos, eu tinha muitos amigos — inicia com olhar distante. — Amigos que eram como nós, integrantes deste vasto submundo, como diziam eles. Sammy era parte do grupo também, embora muito mais relaxado e um tanto amigável. Muita coisa mudou. — A interrupção que faz é dedicada à intenção de suspirar. Um ponto no carpete é o foco de Sam. — Descobrimos sobre o enigma nesta época, quando este era inteiro, mas não pudemos lê-lo. Eu não sabia latim ainda. — Ela dá de ombros e segue com a narrativa. — Mas aquilo não tinha significado para nós, não conhecíamos nosso futuro.
— Como assim?
Sam suspira uma vez mais, passando as mãos nos olhos como se sentisse um grande cansaço.
— Acreditamos numa profecia feita há muitos anos, séculos atrás, que dizia que o mundo entraria em uma fase negra que seria o início de uma terrível escuridão, maior do que qualquer pensamento. Quando este meu grupo e eu descobrimos o enigma, a profecia também foi descoberta. Não acreditávamos nela até o dia em que conhecemos a tataraneta da mulher que a desenvolveu a profecia; com ela, veio o que sabíamos ser a certeza de sua veracidade. Nossa raça, nosso povo seria perdido para todo o sempre se as exigências daquelas palavras não fossem cumpridas.
— Que exigências?
Minhas palavras não parecem ser ouvidas.
— Embora nossa intenção naquele passado fosse somente garantir a continuidade de nossa raça, tomamos caminhos errados. Brincamos com a natureza ao achar que poderíamos controlar o conhecimento com a utilização do DNA de quatro de nossos colegas. Achamos que, fazendo isso, resolvendo o problema antes de ele começar, evitaríamos perdas maiores.
— Que problema? — Indaga Frida.
— O do próprio sangue.
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