Capítulo vinte e quatro
"Eu não vou desmaiar. Eu não vou desmaiar. Eu não vou desmaiar".
― Aeryn? ― sussurrou Karen, olhando-me preocupada.
― Estou bem ― murmurei.
― Não se preocupe ― Rachel sussurrou ― Eles o trouxeram por sermos amigos. Mesmo que eu tenha sido inocentada, eles devem pensar que ele pode ter alguma relação com essas coisas...
― Mas isso é um absurdo! ― eu disse, indignada.
― Existem casos ― Karen não hesitou em defender a facção.
― Você não conhece o Evan ― disse Rachel, friamente, antes de voltar com a postura ereta.
Voltei meu olhar para a frente, incomodada com essa frase, não conseguia entender o porquê. Evan já estava com o soro da verdade injetado, a mãe de Karen observava-o por cima de seus óculos, suas feições deixavam claro que ela já sabia como aquilo ia terminar. E eu só podia torcer para que terminasse assim, como ela supunha.
― Qual é o seu nome? ― perguntou, embora todos soubéssemos.
― Por que perguntam o nome, se já sabem? ― sussurrei para Karen.
― Para confirmar que o soro está funcionando ― retrucou ela, parecia estar ainda chateada pela discussão com Rachel.
― E há como não funcionar? ― pensei em voz alta.
― Divergentes ― disse Rachel, lançando-me um olhar significativo.
Então, eu entendi como era tão fácil identificá-los das outras pessoas, e por que a Erudição queria tanto que eles sumissem.
― Dezoito ― dizia Evan, então supus que a juíza perguntou sua idade, no tempo que estávamos conversando.
― Você nasceu sem facção? ― perguntou a juíza.
― Não ― respondeu Evan.
― Então, você desertou? Ou não conseguiu completar um treinamento?
― Meus pais morreram, eu tinha 10 anos. Ninguém quis cuidar de mim, a mãe de Rachel me acolheu.
Olhei no mesmo instante para ela, que sorria tristemente para a frente. Eles eram como irmãos.
― De qual você vinha? ― a juíza parecia desconcertada com a última resposta ― Digo, qual facção você nasceu?
― Audácia ― respondeu.
― Ele não tem tatuagens ― observou Karen.
― Ele tinha 10 anos! ― lembrei-lhe.
― Audaciosos costumam fazer tatuagens jovens ― retrucou Karen.
― Aí vai lá e faz tatuagem de uma casinha com 4 anos ― debochou Rachel ― E se arrepende pro resto da vida.
Coloquei as mãos na frente da boca, segurando a risada.
― É brincadeira, certo? ― sussurrou Karen, com os olhos arregalados.
― Evan não tem tatuagens ― disse Rachel ― Ele tinha medo da agulha. Não sei como não lhe obrigaram a fazer uma, para vencer o medo.
― Por um momento, eu pensei que ele tinha mesmo uma tatuagem de casinha... ― murmurou Karen, aliviada.
― Eu ia zoar com a cara dele pelo resto da vida ― Rachel voltou o olhar para a frente.
― ...roubou algo? ― dizia a juíza.
― Não, nunca ― disse Evan.
Ela não insistiu.
― Obrigada por sua sinceridade. Estão absolvidos! ― bateu o martelo, e apressou-se a sair, sem dirigir um segundo olhar a Karen ou qualquer outra pessoa.
― Foi uma grande perda de tempo ― escutei Mischa resmungar.
― Eu tenho de ir agora ― disse para Rachel, levantando-me ao ver Trudie nos chamar.
― Ei! Você consegue ir até a praça? ― perguntou ela, mordendo o polegar.
― Vai ser difícil com Trudie nos vigiando ― intrometeu-se Karen ― Vamos, Aeryn!
Praticamente fui puxada pela minha melhor amiga, vi como Evan aproximava-se de Rachel, e eles saíam pelo outro lado.
― O que deu em você? ― perguntei a Karen.
― Do que está falando? ― ela perguntou, confusa.
― Ai, meu Deus! Você está com ciúmes? ― exclamei.
― Não é por nada não, Aeryn, mas eu estou com o Todd ― ela tentou desviar o assunto.
― Ciúmes de amiga ― insisti ― Cara! Você é minha melhor amiga, não precisa ter ciúmes de Rachel, muito menos de Eleonore. Agora entendo o seu nervosismo por eu ter ido até lá.
― Ah! Cale a boca ― ela resmungou, afastando-se de mim.
Eu só conseguia rir de como ela era.
Durante as semanas seguintes, eu não consegui brecha alguma para ir até a praça, perguntava-me se eles ainda estariam me esperando aparecer.
Trudie disse que era quase o final do mês e, com isso, vinha a Revelação Completa. Ela nos explicou as classificações e profissões, reforçou todas as fases que passamos, mesmo a quarta (do interrogatório).
O tempo passou, sem que notássemos. Um dia, ela simplesmente disse:
― É amanhã.
O dia seguinte seria quando nos formaríamos.
Não conseguimos dormir naquela noite, ocupávamos nossas mentes com as leis e casos, que já tínhamos decorado de tanto resolver. Era onze horas, quando Karen fechou a sua apostila, e sentou-se em sua cama.
― Vamos jogar verdade ― declarou.
― Sério, cara? ― perguntou Mischa, entediada ― Já fomos todos aqui.
― Cara, amanhã as nossas vidas vão mudar completamente, e eu não quero pensar nisso ― disse Karen ― Nunca brincamos de verdade com os meninos.
― Porque eles são depravados ― disse a voz abafada de Reilly. Nós, meninas, rimos, enquanto os garotos protestavam.
― Certo! Sem perguntas indecentes! ― declarou Karen ― Venham, aproximem-se!
― Prefiro ficar fora dessa ― murmurou Pacey, sem desviar os olhos da apostila.
― Cara, é o nosso último dia como uma turma ― disse Mischa, revirando os olhos.
― Por favor, Pacey ― pediu Reilly.
Por fim, ele acabou concordando.
Nolan pegou uma garrafa de bebida, debaixo de sua cama. Karen ergueu as sobrancelhas tão alto que sumiram por trás de sua franja.
― Nunca se sabe quando precisaremos quebrar uma garrafa na cabeça de alguém ― ele deu de ombros, preferi acreditar que ele estava brincando.
― A boca pergunta, o outro responde ― disse Karen, e todos concordamos.
Steven X Todd.
― Há quanto tempo tu dá uns pegas na Karen? ― perguntou Steven.
Jesse precisou segurar Todd para não lançar a garrafa na direção dele.
― Pergunta tá valendo! ― declarou Mischa, sorrindo maliciosa.
― Antes do teste de aptidão... ― murmurou Todd.
― Disfarçaram bem ― caçoei, vendo Karen corar furiosamente.
Reilly X Mischa.
― Qual foi o pior dia da sua vida? ― perguntou a loira.
― Péssima pergunta... ― murmurei.
― Quando eu enfrentei a minha paisagem do medo pela primeira vez ― Mischa respondeu.
Steven X Karen.
― Qual o sonho mais e... ― ele começou.
― Sem obscenidades, por favor. Temos crianças na sala ― Mischa me indicou com a cabeça, fazendo-me fechar a cara, e os outros rirem.
― Eu ia dizer estranho ― Steven olhou-a, indignado ― Depois os meninos somos depravados.
― Pergunte de uma vez! ― reclamou Karen.
― Qual o sonho mais estranho que você teve? ― refez a pergunta.
Minha amiga olhou para cima, parecendo pensar.
― Eu era abandonada entre os sem facção ― ela disse ― Acho que tive esse pesadelo depois de...
― O julgamento ― completou Reilly, pesarosa ― Sim, a história daqueles garotos é mesmo triste.
― O nome deles é Rachel e Evan ― intervi, irritada.
Mischa olhou-me com o cenho franzido, mas não disse nada.
― Certo ― Karen disse, em voz mais alta que o normal, girando a garrafa sem permissão.
Mischa X Pacey.
― Você já usou uma arma? ― ela perguntou.
― O que você considera uma arma? ― ele perguntou, nervoso.
― Uma pistola, uma faca... ― explicou Mischa, impaciente.
― Quer dizer, para machucar? ― perguntou Reilly.
Mischa bufou, irritada.
― Não precisa nem responder ― disse, por fim, olhando desdenhosamente para os dois.
Jesse chutou a boca da garrafa.
― Cuidado! Vai quebrar! ― reclamou Nolan, ajeitando-a, já que ela afastou-se do centro da roda.
Reilly X Pacey.
― Quais são as suas metas de vida? ― perguntou, timidamente.
― A de todos... ― ele deu de ombros ― Passar na Revelação amanhã, conseguir um bom emprego, casar, ter filhos...
― Minha mãe nunca me disse que eu não era todo mundo, mas, aparentemente, eu não sou ― brincou Jesse.
― Você fala disso tão sem emoção ― disse Reilly ― Como se fosse a obrigação do ser humano procriar.
― Ele era da Erudição, Rey ― disse Mischa ― Há ideais que não mudam.
A loira parecia decepcionada, mas tentou disfarçar.
Nolan X Mischa.
― Qual o seu maior medo? ― ele perguntou, os olhos brilhando de expectativa.
Ela gemeu, cobrindo o rosto com as mãos, e murmurando algo.
― Não escutamos ― insistiu Nolan.
― Cair ― ela suspirou.
― Tipo, de uma altura alta? ― perguntou Karen ― Não vejo nada de errado nisso.
― Mas a Audácia vive desafiando a altura ― lembrei-lhe.
― Tanto faz... ― resmungou Mischa, mal humorada.
Karen X eu.
Ela respirou fundo, e olhou nos meus olhos. Estranhei sua atitude.
― Você faria qualquer coisa por amor? ― perguntou.
― Eu não sei... Eu desisti da minha família para vir aqui ― respondi.
― Não estou falando de amor entre familiares ou amigos, Aeryn ― ela explicou, pacientemente ― Falo de amor entre homem e mulher.
― Homofóbica ― murmurou Jesse, gerando risada dos outros.
Eu continuava olhando para Karen, sem entender por que ela insistia tanto nesse assunto.
― Eu não posso saber, se nunca me apaixonei ― retruquei, seca.
― Você não está acostumada com a sensação. É diferente ― ela disse, o olhar ainda fixo em mim.
Reilly e Mischa trocaram olhares, percebendo que tinha algo estranho entre nossa conversa.
Escutava meu coração bater, logo atrás de meus ouvidos.
Eu não estava...
― Eu não sei ― disse, levantando-me.
Ela não disse nada, e eu saí do quarto, sem me importar em ser pega. Trudie não nos castigaria faltando um dia para a Revelação Completa.
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