CAPÍTULO SETE.
Caminhei junto com o grupo, meio indecisa se estava fazendo o certo. Sentamo-nos em cima de uns muros que impediam a terra, debaixo de árvores, de se espalharem pelo chão de pedra da praça. Olhei para trás, o Merciless Mart não estava mais visível, quase nos aproximávamos da sede da Erudição.
― Onde ficam os adultos nessa hora? ― perguntei, voltei meu olhar para nós.
― Relaxa! Só vamos ficar por um tempo ― disse Todd, revirando os olhos.
― Eles ficam presos em suas salas, resolvendo as coisas ― disse Karen, dando de ombros.
― Você fuma! ― gritei quando vi Todd tirar um cigarro de dentro do casaco.
― Ei! Se acalma! Isso é normal! ― disse Todd, relaxado.
― Me acalmar? Agora entendi por que queria vir aqui ― olhei-o acusatoriamente.
― Tá agindo feito uma Careta ― disse Nolan, pegando um cigarro de Todd.
"Careta" era como as pessoas da Abnegação eram chamadas, principalmente pelo pessoal da Audácia.
― Talvez eu aja como uma mesmo ― desafiei-o.
― Qual é, Aeryn! ― exclamou Karen, acendendo o cigarro de Todd.
― Melhor nem perguntar se ela quer, ou irá dar o mesmo tapa que deu na Elspeth ― murmurou Nolan.
Todd começou a engasgar e, de alguma forma, senti que não era por causa da fumaça do cigarro. Jesse derrubou o cigarro que tinha posto na boca, olhando para mim e deixando o fogo do isqueiro se apagar.
― Você o que? ― perguntou Todd, quando se recuperou.
― Não entendo o espanto ― Karen deu de ombros ― Não é tão difícil assim... Você abre a mão, pega impulso e bate. Quer que eu te mostre como funciona?
― Não, muito obrigado ― resmungou Todd.
― Se eu me lembro bem... A Elspeth tava de implicância contigo ― disse Nolan, dando um sorriso debochado ― Por que isso?
― Eu só disse a ela a verdade ― disse Karen, sorrindo inocentemente.
― Qual? ― perguntei, também curiosa.
― Acredite ou não, ela tinha um namorado ― disse Karen, trazendo as pernas para perto da barriga ― E ele tava pondo os chifres nela.
― Por favor, não me diga que é irmão dela ― disse, hesitante para Nolan.
― Os da Audácia não nos... Se metem nas brigas dos outros ― Jesse se corrigiu no meio da frase ― Mesmo sendo parentes.
― Primo dela, mas relaxa ― explicou Nolan, soltando fumaça enquanto falava.
Franzi o nariz para o cheiro e percebi que talvez não fosse a melhor ideia ficar por ali, com o cheiro forte de cigarro, que descobri odiar.
― Você é mais agradável que ela ― observou Karen, com naturalidade.
― Ela é a parte mais agressiva da família ― ele disse ― Deve ser porque é mulher...
Karen deu um chute na perna dele e Jesse começou a rir.
― Uma tragada? ― ofereceu Todd.
― Não vou colocar o seu cigarro na minha boca ― respondeu Karen, fazendo cara de nojo.
― As coisas estariam melhores com um pouco de bebida alcoólica ― disse Nolan.
― Receba nossos convidados, Karen ― brincou Todd.
― Não sou empregada de ninguém ― ela retrucou, embora com pouca convicção.
― Vamos! Você está louca pra tomar um pouco ― provocou Todd.
― Não nego ― suspirou, olhando para o outro lado.
― É permitido aqui? ― perguntei, embora desconfiasse da resposta, considerando que gostavam de fumar.
― A bebida solta a língua ― disse Karen, evasiva, levantando-se ― Eu vou lá pegar!
― Não! Deixe que eu pego ― me ofereci ― Onde eu consigo?
Jesse começou a rir com a minha fala.
― Não é por nada não, Amizade, mas... Você vai pegar bebida? ― ele debochou de mim ― Eu não sei como fazem aqui, na Franqueza, mas quando estava na Audácia, eu arrumava com os sem facção.
― Sei que bebida solta a língua, mas dá para pedir pro cozinheiro de boas? ― disse Nolan, incrédulo.
― O que eu dou em troca? ― perguntei, de braços cruzados.
― Você não pode estar falando sério, Aeryn! ― exclamou Karen, arregalando os olhos.
― Procure por Rachel Ward e diga que ela deve um favor a Nolan Denski ― disse Jesse, trocando um olhar com Nolan, que deu de ombros, de acordo.
― Certo ― disse, levantando-me.
― Você não está falando sério! ― exclamou Karen ― Essa gente é perigosa.
Não dei-lhe ouvidos, afastando-me da fumaça do cigarro. Teria que caminhar bastante até chegar na parte abandonada da cidade.
― Aeryn! Você não precisa provar nada para esses idiotas ― ela veio atrás de mim.
― Não estou provando ― resmunguei, embora isso não fosse exatamente verdade.
― Pensei que não se sentisse confortável mentindo ― retrucou Karen.
Suspirei, derrotada. Parei de caminhar, estávamos bem longe da sede da Franqueza.
― Escuta ― disse ― Eu quero provar, sim. Mas também fico curiosa sobre como são... Essas coisas.
― Garotos da Amizade não se drogam com maconha ou coisa do tipo? ― ela perguntou.
― Enviadas para a Erudição. Fins medicinais ― expliquei ― De qualquer forma, nunca me juntei muito com esses grupinhos.
― Tudo bem! Eu vou contigo ― disse Karen, segurando meu braço ― Eu sei que você conseguiu tranquilamente dar uma lição na Elspeth, mas ela era só uma. Sem facção andam sem bando. Além do mais, te devo uma.
― Pensei que eram incapazes de andar em conjunto ― eu disse, e voltamos a caminhar.
― Instinto de sobrevivência. Não se pode viver isolado da sociedade ― explicou ― E é melhor nos apressarmos. Tenho certeza de que Trudie irá no dormitório depois do anoitecer.
― Estudarei feito uma erudita, de madrugada ― brinquei, e nós duas rimos.
***
O céu estava azul escuro quando chegamos nos prédios abandonados. Considerando o número de sem facção, eu não tinha ideia de como iríamos encontrar aquela garota. Karen estava tentando me convencer de voltarmos, mas eu já estava ali, e não iria desistir.
― Olha o que temos aqui!
Nos viramos rapidamente, dando de cara com um cara com roupas de todas as facções, fosse por doação da Abnegação ou por roubo. Eu esperava que fosse a primeira alternativa.
Ele era moreno e magrelo, embora não me surpreendesse por isso. Parecia ter a nossa idade, o que me fez perguntar o que aconteceu com ele. Fugiu de casa? Ou desistiu da Cerimônia de Escolha? Sabia que não era a melhor coisa lhe perguntar essas coisas, então me mantive quieta, com as dúvidas.
― Não costumamos ter muitos adolescentes por aqui ― ele disse, se aproximando ― Só da Audácia ou Abnegação.
― Procuramos por Rachel Ward ― interrompeu Karen.
Ele olhou para ela fixamente, e assentiu com a cabeça, frustrado.
― Os negócios dela? ― perguntou retoricamente.
― Ela deve um favor a um amigo ― disse Karen, permitindo-se dar um sorriso de lado.
― Certo! Certo! ― ele pareceu meio desconfiado daquela frase, mas deu de ombros ― Me sigam.
Não tinha mais volta.
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