Capítulo dezenove
— Trudie está realmente focada em nos formar — disse Reilly, desgostosa.
— O que houve? — perguntei.
— Eu quero visitar Petal — ela murmurou.
— Então vá! — Mischa deu um sorriso de canto.
— Mas... Trudie não nos permitiu — Reilly arregalou os olhos.
— E daí? É sua melhor amiga! — exclamou Mischa.
— E se me pegarem? — perguntou Reilly — Eu posso perder pontos...
— Isso é mais importante do que a sua melhor amiga? — perguntou Mischa, levantando uma sobrancelha.
Isso foi o suficiente para que um plano se formasse.
Passamos a manhã inteira com Trudie, ela parecia com medo de tentar uma simulação novamente, depois do meu desmaio. Então, voltamos para a parte entediante de avaliar as pastas, eu já estava considerando a ideia de joga-las pela janela, simulando um acidente.
— O que vocês estão aprontando? — Todd veio nos perguntar, na hora do almoço.
"Droga de facção que não nos permite mentir" pensei.
— Vamos ajudar a Reilly a visitar a Petal no hospital — disse Mischa, tranquilamente.
— Eu e a Karen sabemos os corredores vazios — ele começou a falar, mas parou ao ver nossas sobrancelhas erguidas.
— Parece que estiveram muito tempo procurando — disse Mischa, e Todd ficou vermelho de vergonha.
— Eu não confiaria nesses dois juntos — eu disse para Reilly, segurando o riso pela situação.
— É só eles nos falarem os lugares — a loira disse, dando de ombros — Se fosse para vigiar, aí mesmo que eu não confiaria...
— Tanto faz — Todd nos interrompeu, engasgado — Eu vou procurar um papel pra desenhar a planta da sede.
— Obrigada — agradeceu Reilly.
Quando sentamos em nossos lugares, Karen e Steven discutiam sobre sorvete de laranja.
— Existe isso? — Mischa perguntou, incrédula.
— É claro que existe! — exclamou Steven, indignado.
— É claro que não! — contradisse Karen.
— Eu já provei — disse Steven.
— Nunca fizeram esse sabor aqui — retrucou Karen.
— Essa discussão vai ser longa... — Nolan murmurou.
— Desde que o final não seja o mesmo das discussões da Karen com o Todd... — deixei no ar, fazendo Karen se calar e Steven começar a gargalhar.
— Vocês são fofoqueiras, hein? Meu Deus! — reclamou a garota.
— Omissão é uma forma de mentira — cantarolou Mischa.
— Você ama isso, não? — perguntou Jesse.
— É lógico! — Mischa disse, entre risos.
— Desde que ela era da Audácia — disse Jesse, virando-se para nós — Ama jogar verdade na cara dos outros, pra provocar, arrumar briga...
— Eu faço isso com gente que se acha mais do que é — explicou Mischa — É divertido!
— Temos ideias diferentes de diversão — disse Karen.
Mischa deu de ombros, dando a entender que não se importava com a nossa opinião.
— Se você tivesse apenas 24 horas de vida, o que você faria? — Karen jogou a pergunta para Mischa, de repente.
— Você vai fazer o jogo da verdade aqui? — ela franziu o cenho.
— Responda! Estou entediada — eu disse, apoiando meu rosto em minha mão.
Ela bufou, mas resolveu colaborar com a brincadeira.
— Eu me jogaria da tirolesa de um prédio — ela respondeu, com o olhar perdido — É a iniciação da Audácia.
— E nós iríamos juntos, pra rir da sua cara quando gritasse, e te pegar lá debaixo — brincou Nolan, recebendo um soco em seu braço.
— Quando e com quantos anos você deu seu primeiro beijo? — eu perguntei.
— Foi em um jogo de desafios — disse Mischa, e não me surpreendi com isso — Aos... 7 anos.
— 7 anos? — exclamou Karen — Meu Deus!
— Ei! Isso não é nada na Audácia — ela deu de ombros.
— Está bem... Qual seu maior segredo que você nunca contou pra ninguém? — perguntou Reilly.
— O meu maior segredo, eu já contei — ela olhou de soslaio para mim, quando disse isso, e entendi que se referia à sua mãe.
— Então pense em um segundo maior — Reilly insistiu.
— Não é tão fácil assim... — Mischa deu de ombros.
— Os audaciosos não são cheios de segredos? — perguntei.
— Eu bebi pela primeira vez aos 11 anos — ela disse, embora fosse óbvio que aquilo não era algo alarmante na Audácia.
— E a piranha não teve ressaca — Nolan resmungou, olhando para ela.
— A resistência vem de família — Mischa sorriu debochadamente para ele, sem se importar com o xingamento.
— Minha família era bem resistente! — Nolan pareceu ofendido.
— Então, você quem era o fracote mesmo — ela disse, despreocupada.
Alarmei-me com a faísca de fúria nos olhos dele. Sabia que eles eram amigos, mas se até mesmo casais se batiam... Não queria imaginar como aquela série de provocações poderia acabar.
— Vamos! — Trudie nos chamou, para continuar a treinar.
A tarde parecia passar lentamente, considerando que estávamos planejando fazer algo "errado". Foi um alívio ver a noite cair do lado de fora dos vidros, e a hora do jantar ser anunciada.
— Ai, droga! — ouvi Karen resmungar, ao meu lado — Rey, pode pegar o sal para mim?
Ela levantou o olhar para Karen, desconfiada.
— Claro — respondeu, por fim, antes de se levantar.
Todd esbarrou em Nolan, e Karen me passou um pedaço de papel. Abri discretamente, por baixo da mesa, e vi que era um mapa da sede. Dobrei-o e escondi em minha meia curta, em um movimento rápido.
— Tudo bem, Aeryn? — perguntou Steven, perspicaz.
— Sim — respondi, franzindo o cenho.
— Abaixou-se — ele constatou o óbvio.
— Estava escondendo um bilhete que a dei — interferiu Karen.
— Bilhetinho de amor? — brincou Mischa.
— Estou perdidamente apaixonada — brincou Karen, fazendo Todd engasgar-se.
— Calma aí, garanhão! — Steven bateu nas costas dele — Duvidando da heterossexualidade da tua ficante?
Ele precisou se retirar mais cedo do jantar, acompanhado por Todd e Karen, corados e furiosos.
— É com a gente agora — Mischa murmurou.
Fomos ao nosso dormitório, e esperamos por um tempo, ainda com nossos uniformes.
— Certo — murmurou Reilly, desdobrando o bilhete.
Seguimos o caminho indicado com cautela, para não sabermos pegos. Se fôssemos, que fosse na volta, quando Reilly já tivesse visitado a Petal.
— O hospital não tem horário para visitas? — perguntei.
— Não será a primeira regra que quebraremos nesta noite — retrucou Mischa.
Foi um alívio chegarmos ao parque. Já desconhecia aquela paisagem, pelo tempo que passei trancada na sede.
— Vocês não vêm? — Reilly perguntou.
— Você é a melhor amiga, ficaremos vigiando — disse Mischa, o que não era reconfortante, por sermos membras da Franqueza.
Ela acabou concordando, e sumiu pelos corredores, agora, vazios.
Quando ela começou a demorar, não nos preocupamos, era compreensível, embora nossa situação piorasse, se assim fosse.
— Rey! — exclamou Mischa, quando ela passou correndo por nossa frente.
Não demoramos a segui-la, seríamos todas descobertas.
Ela parou de correr no meio da praça, ofegante e chorando, isso fez com que eu percebesse que havia algo de errado.
— Ei! O que foi? — Mischa ajoelhou-se, envolvendo-a com seus braços.
— Ouvi os médicos conversando... Ela não estava lá — ela contou, entre soluços.
Ela tentou continuar falando, mas os soluços a impedirem.
— Calma! Vai ficar tudo bem — consolou-a Mischa.
— Morta — a palavra escapou, entre os gemidos incompreensíveis — Não vai voltar! Petal está morta!
O grito ecoou pela praça vazia.
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