24 - A Sereia Escarlate

   –Ótimo trabalho senhores! – Matthew exclamou, cheio de contentamento. – Anetrix são mesmo muito úteis!

   Ninguém ousou responder.

   –Acho que acabamos por aqui... – Continuou, dando uma boa olhada no horizonte. – Ainda tem muitos pirralhos escondidos por aí!

   –Nossa missão não é esta Matthew Grace. – Um membro da nova geração de soldados se pronunciou. – O comandante McCollen não tolerará nenhuma falha.

   –Disso eu já sei... – Matthew respondeu, com desdém. – Vocês conseguem ser piores do que um Vespa!

   Silêncio...

   –Para onde fomos designados? – Voltou a perguntar, depois de incontáveis segundos calado.

   –Voltaremos à Hack para a inspeção protocolar. – O Anetrix respondeu, calmamente. – Nosso comboio partirá em algumas horas.

   –E o que fazemos até lá?

   Silêncio...

   –A ordem expressa é de retornar para Siren... A base está sendo esvaziada.

   –Mas por quê? – Matthew pareceu estar muito surpreso.

   –Um novo ciclo deverá ser iniciado no mês que vem... – O soldado fez uma pausa. – Novos Anetrix precisam ser produzidos antes da grande queda.

   Matthew se deu por satisfeito, enquanto chutava cadáveres inanimados, só para nutrir o seu sadismo.

   –Então só nos resta voltar para a base. – Concluiu. – Antes de nos despacharem de volta para Hack... Urgh! Odeio aquele lugar.

   –É aconselhável Matthew Grace...

   Depois de muito tagarelar, o Vespa e seus fiéis companheiros voltaram a caminhar por entre as árvores, imersos na satisfação do dever cumprido. Embora fossem robóticos e, de certa forma, muito estranhos, os Anetrix demonstravam ser bem mais humanos do que os Vespas. A única similaridade que compartilhavam era a notável falta de misericórdia e o sangue frio, com o qual executavam suas tarefas. O que, parando para pensar, pode se tornar uma vantagem assustadora, futuramente.

   Alec se escondia embaixo de um véu de culpa e vergonha, nublada pela tristeza, que lhe arrancava a paz e a sanidade, entranhada em segundos e mais segundos de silêncio puro e absoluto. Seu corpo doía terrivelmente, assim como a sua exaurida alma, morrendo, pouco a pouco, sobre as profundezas da pele. Os olhos miravam os restos de Ryan, sujos de sangue e folhas mortas, já sem vida dentro deles, ou a cabeça, que lhe faltava. A confusão de carne, ossos, roupas e armas se destacava entre os tons de marrom e verde, nada naturais para a ocasião, mas morbidamente fundidos numa simbiose estranha. Um filete vermelho escorria pelo chão úmido, denso e grosso, como uma perigosa serpente escarlate. Sua silhueta densa se perdia pela terra, de onde nunca mais iria voltar, juntamente com toda a esperança e a felicidade que havia sobrado.

   Acabou... Não sobrou mais nada.

   Reunindo um pouco de coragem, Alec se ergueu do seu esconderijo, atordoado o bastante para perder a voz. As dores reclamaram, mas ele não deu a menor importância, pois, por pior que fosse, nenhuma dor era tão angustiante quanto o buraco aberto dentro do seu peito. Alec encarava os cadáveres, sem uma emoção que pudesse dar sentido àquele momento, ou, ao menos, encher o vazio com o fogo inebriante da fúria.

   Apenas silêncio...

   E então, encostado sobre pedras cheias de limo e raízes mortas, o garoto se permitiu desabar num choro dolorido e desesperado, contido apenas pelo medo de ser ouvido. A solidão mostrava seus dentes, tão poderosa quanto um pesadelo assustador, combatido apenas com a luz, mesmo que ínfima, de uma esperança valente. Algo muito difícil de encontrar, num imenso mar de desespero.

   No entanto, Alec sentia algo diferente brotando dentro dele. Uma coisa obscura e tenebrosa, que se nutria de vingança e raiva, enquanto se arrastava nas sombras do medo. Aquilo era ódio, tão imundo quanto o mais sórdido veneno. Ele não gostava de sentir aquilo, mas, por mais que não percebesse, o ódio era a única coisa que o impedia de cometer suicídio, ou enlouquecer de uma vez por todas.

   Quer saber... Dane-se! Eu vou morrer mesmo...

   Assim, depois de chorar por horas, ou quem sabe por alguns minutos a mais, Alec se pôs de pé, amargando a dor lancinante que lhe acertou com o melhor dos seus golpes. Cambaleante, recolheu e vestiu a velha jaqueta, pela qual nutria imenso carinho. Guardou a sua preciosa Sig Sauer dentro do bolso, junto com o último pente de balas restante. Limpou a sujeira do jeans surrado e deu um longo e audível suspiro, enquanto deixava uma última lágrima escorrer pela bochecha.

   –Me perdoe... – Sussurrou, acocorado ao lado do corpo de Ryan, lutando para não cair no choro novamente. – Juro que queria ajudar, mas eu sou um covarde... Por favor, me perdoe.

   Ele nunca responderia ao pedido...

   Buscando por algo que pudesse servir como uma lembrança do velho amigo, Alec tomou uma antiga faca, escondida num dos bolsos do cadáver. O cabo envelhecido se fez, entre o sangue viscoso e a umidade escorregadia, onde uma afiada lâmina jazia aprisionada. Talvez ela fosse extremamente útil no futuro, mas, para Alec, a faca era apenas uma recordação do que Ryan costumava ser. Assim como o colar de Claude, bem preso ao pescoço do seu guardião. O garoto também recolheu o anel que Andrew segurava entre as mãos e uma granada, guardada por Bruce, num dos compartimentos da sua farda. Bom, carregar tantas coisas poderia ser imprudente, mas Alec não ligava mais para normas e regras.

   Só lhe restou uma lista de amigos mortos...

   –Vou atrás daquele maldito! – Alec prometeu para si mesmo.

   E então, num rompante corajoso e decidido, o garoto se atreveu a dar longos passos, ignorando todas as reclamações do corpo. Para a sua sorte, a vala não era muito profunda e, depois de algumas tentativas, ele pôde se elevar, vitoriosamente, diante de uma silenciosa floresta. No alto de troncos vertiginosamente altos e folhagens oscilantes, o céu escuro se elevava, coberto por nuvens densas e chorosas, prestes a desabar uma volumosa tempestade. A neblina começava a baixar, deixando para trás, o cheiro de grama recém cortada e pelo molhado, misturados à putrefação de folhas contra o chão.

   E vou encontrar ele! Vou encontrar!

   Alec seguia os rastros de Matthew e seu esquadrão de Anetrix, enquanto ouvia a sua enlouquecida mente, girando numa velocidade absurdamente rápida. Os acontecimentos catastróficos daquela noite não lhe saiam da cabeça, assim como todo o sangue e todas as mortes. O modo como todo um plano foi desmantelado, a forma com que todas as certezas caíram por terra tão repentinamente e a intensidade que poucas horas foram capazes de demonstrar.

   Confuso demais...

   Alec vencia o terreno irregular, passo após passo. Escorregou por uma íngreme declinação e se viu plantado bem no meio de uma rodovia deserta, estendida para além de onde a vista pudesse alcançar. O asfalto cinzento acolheu seus sapatos, assim como o rastro barrento de quatro rodas, carimbadas contra a mistura de piche e rochas fragmentadas. Sem se demorar mais, Alec passou a tomar o caminho até Siren, se guiando através da vaga noção que tinha da localização da base.

   O que é muito perigoso, para alguém que não tem a menor ideia do que está fazendo...

   Alec continuava focado, tentando manter todos os seus traumas quietos e a raiva ardendo com vigor e intensidade.

   Até ouvir o som de tiros...

   Algumas horas depois de começar a sua jornada, Alec foi obrigado a se enfiar de volta na mata, sem saber direito o que estava havendo, mas ciente de que precisaria lutar. Às pressas, ele se guiou para o conflito, com esperança de que pudesse encontrar alguém vivo, sob a ameaça de Matthew e seus comparsas. Já com a Sig Sauer em mãos, Alec se esgueira por entre troncos, ouvindo gritos e disparos furiosos, embalados pela quantidade de adrenalina no seu sangue. 

   Potente o suficiente para fazê-lo esquecer suas dores...

   E então, amparados por uma clareira vazia, as formas do inimigo se fizeram presentes para os olhos do garoto, tão desprezíveis quanto já haviam demonstrado ser. Ao que parece, Matthew e seus Anetrix acabaram topando com um grupo maior de sobreviventes, o que resultou num combate voraz por ambas as partes. Alí, escondido nas folhagens, Alec observava a rapidez com que os soldados modificados davam saltos acrobáticos, combinando agilidade, precisão e uma mira perfeita. Levando a morte, por onde ousavam passar.

   No entanto, por mais que a carnificina fosse assustadora, Alec desviou sua atenção para o corpanzil arrogante de Matthew, abaixado, sobre a guarda de uma árvore. Enquanto os outros cuidavam do ataque, ele se escondia, preocupado apenas com a própria segurança e bem estar, em primeiro lugar.

   Eu poderia matar ele agora!

   O sangue lhe ferveu nas veias, aquecendo a atmosfera congelante, concedida pela fraca luz do dia nublado. Sob tremores, Alec apontou a Sig Sauer para aquele desprezível alvo, ansiando por dar um fim à quem só trouxe desgraça para a sua vida. Porém, por mais que quisesse, matar Matthew só atrairia a atenção dos Anetrix para si próprio, culminando na sua rápida e, possivelmente trágica, morte.

   O melhor é esperar o momento certo.

   Com um suspiro de frustração, Alec baixou a arma e se voltou para o combate, travado à metros de onde ele buscava abrigo. Pelo andamento dos fatos, a luta acabaria bem mal para aqueles que estiveram do lado de Many Desmond.

   Não havia ninguém que Alec conhecesse naquele grupo...

   –Eu ajudaria, se pudesse... – Sussurrou, enquanto engatinhava para mais perto dos Anetrix.

   Pois, Alec tinha um trunfo escondido dentro da manga...

   –Espero que dê certo. – Sussurrou novamente, apertando fortemente a granada que recolheu do corpo guilhotinado de Bruce.

   A iminência do combate mantinha os sentidos de Alec em alerta máximo, até porque, ele só teria uma única oportunidade de agir, antes de ser descoberto e fuzilado, logo em seguida. Os gritos agonizantes de pessoas morrendo atingiam o seu cérebro com a mesma intensidade de uma bala perdida, alimentando as chamas do terror e todas as lembranças ruins, até então, cercadas por um mar de foco e determinação.

   Não, não... Eu preciso continuar!

   Imagens perturbadoras invadiam a sua consciência, o desviando dos seus objetivos e da sua própria sanidade. Alec parou repentinamente, cedendo sob pensamentos compulsivos e gemidos de agonia, ambos misturados aos berros aterrorizantes do pânico. Submergindo sua mente em alertas de perigo mortal e iminente.

   Droga! O que está acontecendo comigo?

   –Ótimo trabalho meus caros! – A voz estridente de Matthew arrancou Alec da crise de estresse pós traumático, na qual estava se afundando. – Esses deram trabalho! Não é mesmo?

   Ninguém respondeu.

   –Nossa, que animação! – Ironizou, se aproximando cada vez mais.

   –Não temos emoções Matthew Grace... – Os Anetrix disseram, em uníssono.

   É agora...

   Alec arrancou o pino da granada, acompanhando o compasso do seu coração acelerado. Num esforço derradeiro, o garoto se levantou sobre os seus joelhos, esperando não ser baleado no processo e contemplar a face perplexa de Matthew. Com um último impulso eufórico, Alec arremessou o pequeno explosivo pelo ar, em direção ao grupo onde os quatro atiradores de elite se amontoavam.

   De costas para a invisível ameaça...

   –PRO CHÃO! – Matthew gritou.

   Mas já era tarde demais...

   Alec só teve tempo de meter a cabeça entre os braços, quando, num piscar de olhos, o som assombroso de uma explosão fez a paz voar pelos ares, acompanhada de uma nuvem de poeira e detritos. Sem perder mais nenhum segundo, ele se voltou para onde havia jogado a granada, certo de que o golpe tinha sido certeiro.

   Ou quase...

   Ignorando o zunido surdo dentro do crânio e a força esmagadora da visão embaçada, Alec reconheceu os membros destroçados dos quatro Anetrix, espalhados por toda parte, junto daqueles que tinham acabado de matar. Alguns deles aparentavam estar vivos, embora houvessem recebido a maior parte do impacto e, por incrível que pareça, se afundavam em espasmos musculares. No entanto, correndo através de uma nuvem de poeira e fumaça, a silhueta esguia de Matthew se lançava para dentro da mata, cambaleante e ferido, mas ainda vivo...

   –Esse desgraçado não morre! – Alec praguejou, pronto para se embrenhar numa perseguição perigosa.

   Sem hesitar, o garoto saltou da sua posição submissa e desatou a correr o mais rápido que podia, sem se importar com nenhuma das suas feridas abertas. Matthew tropeçava nas próprias pernas, desorientado, mas disposto a ter alguma vantagem, por mínima que seja. Alec também se deslocava com dificuldade, tentando não tirar os olhos do seu alvo e não desmaiar, ao mesmo tempo.

   –Está querendo acertar as contas novato? – Matthew gritou, amparado por o tronco maciço de um pinheiro. – Ou quer levar outra surra?

   Alec sentiu a raiva arder dentro das veias...

   –APARECE... – Berrou, empunhando sua arma firmemente. – VAMOS DESCOBRIR!

   Matthew riu.

   –Pra você me matar? Não... Isso não é dividido... Você tem que me dar a chance de brincar também. – Zombou, deixando Alec ainda mais furioso.

   –Acho melhor você ir pro inferno logo de uma vez!

   O inimigo riu ainda mais.

   –Tudo bem... – Disse, ofegante como um animal indefeso. – Vamos brincar de pique da morte... Quem atirar primeiro ganha!

   Alec mal teve tempo de dar uma resposta à altura, quando a ardência de uma bala passou de raspão pela parte mais baixa do seu pescoço.

   Mas que droga!

   O garoto se jogou contra o chão, tentando conter o sangue que escapava pela nova ferida e sair da linha de fogo. A arma já havia lhe escapado das mãos, assim como as chances de vencer o inimigo e vingar a morte de Ryan. Mais uma vez, Alec se viu derrotado, enquanto lutava para sobreviver e se manter a salvo do perigo, num mundo tão hostil e solitário. Só lhe sobrava a frustração de falhar, vez após outra, não importa o quanto tentasse fazer diferente. Ao fundo, caminhando tranquilamente, vinha Matthew, trazendo uma pistola na mão direita e um enorme sorriso estampado no rosto. Seus ferimentos e escoriações eram notáveis, mas eles não o deixavam menos desprezível, do que sempre demonstrou ser.

   –É assim que acaba... – Disse, pressionando a arma contra a testa de um aturdido Alec. – Você morre, nós ganhamos... Pra sua sorte, vai ser bem rápido!

  Com um estalido metálico, uma nova bala foi engatilhada...

   –Não... – Respondeu, encarando o agressor com todo o ódio dentro dele. – Ainda não...

   Num ato desesperado e furioso, Alec partiu para cima de Matthew, o jogando contra o chão duro, onde as coisas poderiam ser mais justas. Com o golpe repentino, a arma que o inimigo portava se perdeu, oferecendo a oportunidade para que Alec ganhasse um pouco mais de tempo para pensar no que fazer. Usando o seu peso como vantagem, ele manteve o corpo do seu oponente imóvel, se valendo da pressão que o antebraço esquerdo fazia contra o pescoço de Matthew, só para impedir que ele tente alguma gracinha.

   –Quem é o espertão agora? – Perguntou, à centímetros de distância do rival.

   Ele apenas riu em resposta, cheio de si mesmo...

   Com o punho cerrado, e o coração envolto em mágoas, Alec lhe aplicou um poderoso soco no nariz, de onde o sangue começou a brotar loucamente.

   –Onde está a porra da sua graça agora? –  Voltou a perguntar, encarando o inimigo com frieza e fúria. – RESPONDE!

    –Está enfiada no meu...

   Antes que Matthew pudesse terminar de dizer alguma grosseria, outro doloroso soco explodiu na sua cara, com ainda mais força do que o anterior.

   –Viu só? – Matthew perguntou, com um sorriso ensanguentado no rosto. – Olha só o que você é agora novato... O McCollen tinha razão em querer te poupar.

   De furioso, Alec passou a estar curioso.

   –Por que o McCollen me quer?

   Matthew voltou a sorrir.

   –Você acha que eu vou contar?

   E o punho de Alec acertou o adversário novamente, pela terceira vez...

   –Se você quiser continuar vivo, acho melhor ir abrindo o bico!

   Matthew ficou em silêncio, lutando para cuspir o sangue que lhe invadia a garganta.

   –FALA LOGO! – Alec gritou, enquanto intensificava o aperto.

   –Está bem! Okay! – Respondeu. – O McCollen mantém vivas algumas pessoas que estão sob a proteção de Marisa Allen.

   Silêncio...

   –A presidente da Omnigon?

   –Ela mesma.

   Alec tentava juntar as peças do quebra-cabeça, mas não obtinha conexão nenhuma.

   –Mas Por quê? – Perguntou, no mesmo tom ameaçador de antes.

   –Tudo o que eu sei é que essas pessoas não são normais... – O rosto do garoto se contorceu em uma careta de dor. – Tipo, são modificadas geneticamente.

   Mas isso não faz o menor sentido!

   –E o que eu tenho haver com isso?

   Matthew soltou outra risadinha maldosa.

   –Não é óbvio? – Disse, no seu costumeiro modo arrogante. – Você é um dos ratos de laboratório deles!

   Alec vacilou por um momento, sem colocar um pingo de confiança no que Matthew dizia. Era inconcebível cogitar tal possibilidade tão absurda. Aquele maldito só estava esperando por uma oportunidade de atacar, enquanto dizia mentiras sem nexo. No entanto, contra a sua vontade, Alec não deixava de pensar em como teria sido enganado durante a sua vida inteira, pois, no final das contas, ele foi apenas um embrião dentro de um laboratório.

   Nem uma mãe eu tive...

    O garoto se distraiu, e se distraindo, afrouxou o aperto que continha seu prisioneiro na linha...

    Num giro repentino, Matthew se libertou da prisão e acertou Alec com um golpe certeiro no rosto, arrancando toda a determinação que ele sustentou. Agora livres, os dois garotos se meteram num combate corpo a corpo, rolando pela terra crua. Onde somente árvores e cadáveres poderiam assistir o desfecho daquela maldita rivalidade.

   Desgraçado!

   Alec, até então agindo como o agressor, tornou-se o agredido, na mesma velocidade dos seus pensamentos acelerados. Matthew lhe arrastou pela lama, usando de sua posição superior, fazendo o possível para alcançar a sua arma, jogada à alguns metros dele. Alec, por sua vez, se via em maus lençóis, sentindo o gosto do próprio sangue, quando Matthew lhe devolveu os socos que tomou.

   –Só um de nós dois vai sair vivo dessa! – O Flag traidor bradou, pressionando Alec contra o chão.

   Usando de um pontapé bem dado, o agredido voltou para a posição de agressor, golpeando a face de Matthew com um potente gancho de direita, logo em seguida. Entretanto, mesmo atordoado, sua mão direita tateou o chão e alcançou uma pedra, largada ao acaso, com a qual atingiu a têmpora de Alec e o jogou de volta para a lama, perdendo mais sangue.

   –Filho da mãe! 

   Matthew não perdeu tempo. Voou por sobre o peito do rival e lhe agarrou o pescoço, movido pela vontade de estrangular aquele que tanto lhe deu trabalho e seguir com o seu caminho. Sob os efeitos do ataque, Alec sentiu o ar faltar nos pulmões, juntamente com a pressão dentro do crânio, aumentando a medida que os segundos se arrastavam e a luz desaparecia. A consciência escapava entre os seus dedos, como o sangue lhe foge das feridas, numa torrente constante e fatal.

    Os sentidos começavam a falhar...

   Droga! Eu não posso morrer aqui... Não nas mãos dele... Isso não é justo! Vamos lá... Pense!

   E então, no auge do seu desespero,  Alec teve um estalo súbito.

   A faca!

   O garoto meteu a mão dentro bolsos, agradecendo a Ryan, que, até após a morte, vinha lhe salvar. A sensação agradável da madeira roçou os dedos, recolhida como alimento para um alguém faminto. Aquilo era a chance de lutar contra a impotência, e vencer, mesmo que tudo pareça estar perdido.

   –Morre de uma vez! – Matthew sussurrou, lutando para conter a força do oponente.

   –Vai... pro... inferno. – Respondeu, no limite das suas forças.

   Com um sorriso triunfante, Alec cravou a lâmina entre as costelas de Matthew, afundando através do mar de carne, ossos e músculos, até os órgãos mais valiosos e pulsantes, desprotegidos por fissuras na armadura. O som estridente do seu urro fez Player One tremer, tão intensamente quanto um trovão, sacudindo a imensidão nublada do firmamento.

   Alec finalmente pôde respirar novamente...

   Matthew caiu por sobre a terra, tentando conter o sangramento e a vida, fugindo através do corte, terrivelmente profundo. Ele sabia que não havia mais tempo para se salvar, então, num rompante desesperado, voou até a sua arma, ciente de que, se fosse para morrer, arrastaria seu assassino junto com ele.

   Mas, desta vez, Matthew não usaria seus truques sujos...

   Outro soco o jogou contra o chão, tão forte e poderoso quanto todos os outros.

   –Onde você pensa que vai? – o agressor surgiu, ainda sob o efeito inebriante da adrenalina.

   Mais uma vez, a faca que Alec portava encontrou a pele macia de Matthew, se aprofundando, a medida que os repetidos golpes abriam novas aberturas. Dos céus, a chuva voltava a cair, lamentando aquela cena violenta e bruta, embebida em vingança e doses venenosas de ódio.

   –Você é mesmo o monstro que eles criaram... – Matthew sussurrou, se entregando aos braços abertos da morte.

   Com um suspiro suave e engasgos violentos, o reinado do traidor enfim encontrou o seu final.

   –VOCÊ NÃO ME DEU ESCOLHA... – Alec berrou, à beira da loucura. – POR QUE ME OBRIGOU A FAZER ISSO?

   Mas, não importa o quanto gritasse, o cadáver de Matthew nunca mais voltaria a destilar o seu cinismo novamente.

   –MERDA! – Praguejou, perdido entre fúria e choro. – Por que preciso fazer essas coisas? Mas que droga!

   Alec atirou a faca para longe, temendo que as últimas palavras de Matthew sejam verdadeiras. A chuva lhe encharcou as roupas, varreu todo o sangue para longe e se perdeu por entre a terra escura, disposta a limpar toda a tragédia que foi derramada naquele lugar. Em choque, Alec fitava um cadáver inerte, enquanto se afundava dentro de uma turbulenta confusão mental.

   O que eu faço agora?

   Pra onde preciso ir?

   Eu matei ele...

   ...mas não queria ter matado...

   ...isso não importa, eu matei ele!

   Foi melhor assim.

   Não, não foi!

   Envolto em uma dolorosa crise de culpa e identidade, Alec se levantou, amparado por raízes mortas e troncos lisos. Agora que a intensidade do instinto tinha ido embora, ele se concentrava no que deveria ser feito agora, já que nada saiu como o esperado. No entanto, por mais que tentasse evitar, o garoto não deixava de pensar naquilo que Matthew havia dito, pouco antes de morrer. Pois, se isso for mesmo verdade, ele não passava de um experimento em curso, sendo preparado para um propósito maior e, com certeza, nada benéfico.

   Talvez só Leonard McCollen tenha as respostas para aquelas perguntas tão perturbadoras.

   Dane-se! Eles querem um monstro? Vou dar um à eles.

   Ignorando dores e culpas, Alec se dirigiu ao cadáver de Matthew, o encarando com um misto de raiva e tristeza, mas disposto a passar por cima disso também. Com cuidado, removeu a armadura e o uniforme de Vespa, imundos e sujos de sangue, mas cruciais para que um dos seus planos desse certo. Sob a tempestade gelada e a lama, Alec se vestiu como um impiedoso Vespa, com uma certa dificuldade, pois ele era grande demais para o equipamento.

   –Onde está o capacete? – Disse, para si mesmo, enquanto tentava afastar o frio e o horror de fazer tal coisa.

   Com um grande suspiro, Alec encarou o que havia restado de Matthew, agora vestido com a camiseta surrada do seu assassino e o uniforme que os Vespas vestem por baixo da farda. Ele lamentava ter o matado, mesmo que houvesse prometido fazer isso. No final de todas as contas, a vingança e a raiva só levam ao horror e a perda de si mesmo.

   Depois de encontrar a última peça da armadura, Alec recolheu seus objetos mais valiosos e os guardou onde pudesse encontrar, num futuro próximo. E então, disposto a chegar ao fim daquela história, o garoto encontrou munição e equipamentos no veículo pertencente aos Anetrix, incluindo explosivos e um detonador manual, objetos que escondeu, como pode, em todo o espaço que pudesse aproveitar.

   Vou descobrir o que está havendo, nem que eu precise arrancar o ferrão da abelha rainha!

   E então, sob a chuva e a névoa, Alec rumou para Siren, usando a floresta como atalho. Sua mente ainda continuava enevoada, mas ele se mantinha focado nos passos que deveria dar, se não quisesse ser pego e morto.

   –Estou quase lá...

   Siren surgiu por entre as árvores, tão imponente e sombria quanto sempre demonstrou ser. Suas torres se projetavam para o alto, sustentadas por armações de metal muito bem juntas e organizadas. Dezenas de veículos transitavam no seu entorno, apinhados de armas e Vespas bem treinados, agora misturados aos Anetrix que Cold Ocean produziu. Tudo parecia correr na mais perfeita ordem, como se nenhum combate sangrento tivesse sido travado na noite anterior.

   Alec desceu a encosta, fazendo o máximo possível para não ser notado. Receoso, cruzou a clareira onde Many Desmond e seus companheiros perderam a vida, tentando manter a calma, embaixo de um arriscado disfarce.

   –Se as câmeras de segurança me pegam fazendo algo suspeito, estou ferrado. – Sussurrou, enquanto tentava localizar o melhor ponto de entrada.

   Aproveitando a aparição inesperada de um caminhão militar, Alec se esgueirou atrás dele e passou pela entrada, longe dos olhos atentos de aparelhos eletrônicos. Agora que já estava infiltrado, o falso Vespa caminhou calmamente pelo pátio, acompanhando um grupo maior de soldados, até a entrada principal do prédio.

   Pra onde vou agora?

   Sem saber direito qual direção tomar, Alec contemplou o interior da imensa base, forjada em grossos pilares de granito polido e arabescos de alumínio. Dezenas de portas eletrônicas davam acesso a diversos setores de Siren, por onde toneladas de cientistas e soldados entravam e saíam, em uma harmonia desconexa e muito coerente. A fraca luz dava um aspecto lúgubre ao hall principal, o tornando um ambiente estéril e silencioso, povoado apenas pelos sons de passos e murmúrios baixos.

   Onde o McCollen deve estar?

   Envolto em tensão, Alec entrou no elevador, aproveitando o transe em que a multidão estava imersa. Encontrar problemas num lugar como aquele era quase certo, mas Alec se mostrava disposto a procurar por horas, se fosse preciso, sem levantar suspeitas para si próprio. Agora sozinho, ele deu uma boa olhada num painel cheio de botões, esperando por uma pista que pudesse lhe apontar o esconderijo do rei soberano de Player One.

   Acho que é melhor eu começar por aqui...

   Alec pressionou o botão que estava sobre os dizeres "Gabinete Administrativo" cunhados numa placa de aço inoxidável. As portas se fecharam, com o som estridente de uma campainha e o solavanco leve da subida. Segundos mais tarde, Alec se viu transpondo um largo e impecável corredor, estéril, vazio e frio, como toda a Siren foi forjada.

   Seu coração batia loucamente, fazendo o seu corpo tremer de medo e ansiedade. No fim do corredor, as imensas portas de vidro temperado o esperavam, como a certeza de que não há mais tempo para voltar atrás. Alec respirou fundo, pousando as mãos sobre a cintura, onde suas armas esperavam o seu comando e os explosivos se espremiam, perigosamente posicionados.

   É agora!

   Sem hesitar mais, Alec passou pela entrada do gabinete, onde encontrou uma suntuosa sala, ocupada pela luz morna do dia e a silhueta esguia de Leonard McCollen, fitando o mundo através das suas janelas, de costas para o mundo inferior. 

   Alec arrancou o capacete e o jogou contra o chão, na clara intenção de fazer o máximo de barulho possível.

   –Você deveria ser um pouco mais cauteloso senhor A-325... – Disse, para o desgosto de Alec. – O rastreador que colocam em você, quando chegou, ainda funciona...

   Porcaria! Ele está sempre um passo adiantado...

   –Então porque não mandou me matar quando entrei aqui? – Alec perguntou, no tom mais firme que encontrou, enquanto apontava sua arma para o Vespa.

   Leonard se virou, encarando Alec com um semblante tranquilo e despreocupado.

   –Bom... – Recomeçou, se sentando na sua acolchoada cadeira giratória. – Marisa quer você vivo... E quer saber, eu também.

   –Por quê? – Alec voltou a perguntar, cheio de raiva. – O que eu tenho haver com tudo isso? Não sou ninguém, deveria estar tão morto quanto aqueles que você mandou executar!

   Leonard riu.

   –É complicado... – Disse, calmamente. – Você é uma evolução meu caro... Foi criado num laboratório, gerado e agora está aqui... Um assassino muito eficiente! Fiquei sabendo o que você fez com o Matthew. Aquilo foi insano.

   –Eu não sou um assassino! – Respondeu. – E se eu sou só um experimento, porque não sou como aquele bando de Vespas lá fora?

   O sorriso de Leonard McCollen se esticou ainda mais...

   –Esse é o ponto! – Disse. – Você precisa de motivações, e quando às tem, age impiedosamente... Marisa cuidou para que o seu potencial estivesse latente.

   Mas do que este cara está falando?

   –Você cresceu num CTM Alec... Foi reprimido e regrado a sua vida inteira. – Leonard continuava extremamente calmo. – Toda a sua trajetória foi dedicada ao seu amadurecimento humano, em primeiro lugar... Para que se tornasse o queremos que se torne.

   –Isso não faz o menor sentido! – A loucura voltava a contaminar Alec, até então apertando sua arma entre as mãos. – Eu fui um soldado mediano... Nunca fui um talento nato.

   Silêncio.

   –Você nunca foi normal A-325... – Leonard começou a se irritar. – Já percebeu que nunca ficou doente? Que aprende mais rápido do que os outros? E que quando fica irritado faz coisas horríveis?

   –É mentira... – Alec vacilava, tentando buscar brechas na lógica do Vespa. – Está tentando me deixar confuso!

   –Você matou o Matthew porque estava com raiva dele... Por ele ter matado o Ryan, – Leonard se levantou, envolto em cólera e ameaças. – Você quer me matar porque eu mandei matar a Eva... Vê se entende garoto, a raiva é a sua maior força... É por causa dela que você mata. É por causa dela que você está vivo agora!

   A veracidade daquelas palavras acertaram Alec com o máximo da sua força.

   –Cala essa boca de uma vez... Eu tenho que matar você para que toda essa loucura acabe... Para que ninguém mais seja a sua marionete!

   Leonard gargalhou, avançando pelo salão, sem ter medo do tiro que Alec poderia lhe dar.

   –Se eu morrer, outra pessoa vai surgir Alec... Eu sou só uma pecinha nesse jogo! – O líder dos Vespas continuou vencendo a distância entre ele e o garoto. – Não sou o seu inimigo... Muito pelo contrário, quero ajudar você a liberar a sua verdadeira força.

   –Pra ser mais um dos seus escravos? – Alec levantou a sua fiel Sig Sauer, forçando Leonard a parar. – Prefiro morrer!

   –Eu não queria ter que chegar a esse ponto...

   E então, no intervalo de um segundo para o outro, o corpanzil flexível do Vespa voou até o oponente, lhe arrancando a arma das mãos. Alec mal teve tempo de agir, quando um enorme punho ia em direção ao seu rosto, pouco antes do golpe lhe roubar o equilíbrio e o atirar contra o chão duro, sendo contido pela montanha de força que Leonard demonstrou ter.

   As coisas não poderiam estar mais desesperadoras...

   –Sabe... – Voltou a dizer, contendo um relutante Alec. – Seus irmãos são mais obedientes do que você!

   O quê?!

   –Vai conhecê-los muito em breve. – Leonard gargalhou. – Quando estiver mais calmo.

   Alec tentava se libertar, enquanto assimilava a tonelada de informações que era despejada sobre ele. Leonard enlaçou o seu pescoço, comprimindo a respiração e os  ferimentos, que voltavam a se derramar em sangue. O garoto sentia a agonia aumentar, a medida que a pressão dentro do crânio subia e o ar faltava.

   Uma sensação familiar para ele...

   –Pare com isso garoto... Toda essa resistência não vai levar a nada! – O Vespa dizia, sem um pingo de dificuldade.

   Eu não vou ser o seu cãozinho, Leonard!

   –Desista Alec... É inútil resistir! Fique do meu lado e viva, ou seja contra e morra... Você escolhe!

   O líder dos Vespas era maior, mais forte e muito bem treinado. Alec estava muito ferido, imobilizado, desarmado e prestes a ser recrutado pelo lado negro da força.

   Se acabaram as alternativas...

   Não restara mais amigos, boas memórias ou mesmo o medo da morte, pois, nem se quisesse, Alec seria capaz de se libertar daquele sistema corrupto e ardiloso. A Omnigon estava dentro dos seus genes, lutando para tomar conta do seu corpo e o usar como uma arma. No entanto, por mais que tenha nascido para um propósito nefasto, Alec não se sentia mal ou impotente, pelo contrário, a adversidade só o deixava mais instigado a continuar lutando.

   Mesmo já estando tudo em ruínas...

   Amy me ensinou a dar valor à segurança de todos...

   Maggie me ensinou a rir, mesmo quando tudo está ruim...

   Claude me ensinou a persistir...

   Emanuelle me ensinou a valorizar os momentos...

   Ryan me ensinou a ser forte...

   Eva me deu um propósito...

   É por isso que não posso me entregar, por isso não posso me tornar o monstro que querem que eu me torne...

   Hack me ensinou o valor do sacrifício...

   –Sabe o que existe em comum entre nós Leonard? – Alec perguntou, encarando o inimigo.

   Ele pareceu não entender.

   –Nós dois vamos morrer juntos!

   Alec sorriu, enquanto tomava o detonador manual numa das mãos, pronto para dar início à uma catástrofe...

   –NÃO!

   Leonard tentou tomar o objeto, mas já era tarde demais...

   Alec fechou os olhos, enquanto o calor arrancava a carne dos seus ossos e se espalhava para além dele. O tempo corria lentamente, enquanto sua mente mergulhava em um mar de chamas multicoloridas, ardendo como uma supernova em seu apogeu. Todas as lágrimas e perdas já não importavam mais, pois, o momento de extrema euforia apagava toda a tristeza e queimava os medos, renascendo como coragem e aprendizado.

   Alec finalmente estava livre, livre da responsabilidade e das incertezas, livre da impotência e da desgraça...

   E os céus, que antes eram nebulosos e cinzentos, se encheram com os raios dourados de uma nova alvorada, brilhando nos mais diversos tons de amarelo, laranja e vermelho. Aquilo era o nascer de um sol escaldante, embebido em assombro e o deslumbramento de uma nova era.

   A explosão se alastrou, contaminando dutos de gás, fios de energia e, por fim, a estrutura do prédio, que veio a ruir completamente, esmagando milhares de Vespas e cientistas indiferentes. Que nem mesmo souberam de onde havia vindo o ataque.

   O império de Leonard McCollen ruiu...

   A sereia ardia através do fogo...

   Os que estavam mortos foram vingados...

 

    E Alec, morto.

  

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