20 - Player One

   Alec começou a acordar, lentamente...

   Segundo após segundo, ele sentia o vazio da inconsciência desaparecer completamente, assim como o despertar, depois de uma noite de sono. O ar ia e vinha dos pulmões, numa constância fraca e frágil, suficiente apenas para lhe manter vivo. Nas costas, o grande rasgo aberto pelo Ceifeiro se escondia embaixo das bandagens, dos curativos e da sutura, feita meio às pressas. A dor, antes insuportável, agora havia sido substituída por uma leve dormência, que nascia no ombro e terminava na base das costelas.

   E, por fim, abriu os olhos...

   Alec estava deitado, num lugar desconhecido por ele, bem arrumado e limpo, decentemente, ao contrário da maioria dos becos de Hack. Um amontoado de objetos e comprimidos se espalhavam por uma mesa, ao seu lado, iluminada pela luz ofuscante de uma vidraça.

   –Até que enfim você acordou... – Uma voz familiar soou aos seus ouvidos, dando fim a  confusão mental em que estava metido. – Quase deixamos você para trás.

   Alec encarou os olhos esmeralda de Eva, sentada ao lado de sua cama. Marcas de leves escoriações se desenhavam no seu rosto, cicatrizando, a medida que o tempo passava. Ela parecia ser a mesma de sempre, embora parecesse um tanto quanto cansada. Sustentando o mesmo olhar superior e o sorrisinho maldoso, comum de seu uso. Mas, hoje, Alec não podia deixar de notar uma pequena quantidade de tristeza oculta dentro das íris luminosas de sua líder.

   –Faz quanto tempo que estou aqui? – Perguntou, se sentindo muito estranho em ter seu corpo de volta novamente.

   –Três dias... – Respondeu.

   –Mas e o Ryan? O Ceifeiro... O que foi que... – Alec se levantou, sentindo toda a preocupação despertar os seus nervos dormentes.

   –Calma aí Alec... – Eva riu, o forçando a voltar para o seu descanso. – Números cinco se recuperam mais rápido, mas não tão rápido assim!

   Ela suspirou.

   –Ryan está bem... – Disse, para o alívio de Alec. – Queimou as mãos tentando descer aquela corda e está todo quebrado, depois de arruinar a catedral inteira, mas bem... Ele está bem.

   Alec riria junto com Eva, mas estava assustado demais para ter outra reação a não ser espanto.

   –E onde ele está? – Perguntou, depois de alguns segundos em silêncio.

   Eva se virou para a direita, permitindo que Alec visse o que estivesse oculto pelo seu corpo. E, apoiado tranquilamente sobre uma acolchoada poltrona, jazia o corpo adormecido de um esfolado Ryan. Suas mãos se escondiam embaixo de bandagens, assim como o braço direito e parte da coxa esquerda. O rosto também acumulava escoriações leves e provavelmente uma das suas costelas estaria quebrada. No entanto, Alec mal podia conter a felicidade de vê-lo vivo.

   –Ele disse que não sairia daqui, enquanto você não acordasse. – Eva voltou a sua posição original.

   Silêncio...

   –Ryan salvou a minha vida... Nunca vou conseguir retribuir.

   –Não se preocupe, – Eva o tranquilizou. – Conheço você... Sei que faria a mesma coisa por todos nós.

   Embora estivesse preocupado com a saúde de Ryan, Alec ficou feliz em saber que alguém zelava pelo seu sono, no período em que esteve ausente.

   –Mas... – Eva trocou o semblante tranquilo por um mais sério. – Nem tudo saiu como o planejado.

   Os alertas internos de Alec começaram a soar desesperadamente...

   –O que aconteceu? – Perguntou, esquecendo-se até da dor que estava sentindo.

   –Os Vespas armaram uma emboscada para o Many e o Cruz naquele dia... – Eva sentiu o peso do mundo recair sobre suas costas. – Atacaram o Dente do Javali.

   O silêncio de suas palavras encheu aquele quarto.

   –Mataram muitos dos nossos...

   Que droga!

   Alec suspirou, aturdido pelas notícias que teve, ao acordar. A incapacidade de fazer alguma coisa assombrava o seu coração, transbordando de medo e todas as emoções que Hack costuma despertar nas pessoas. Agora, ele não tinha mais certeza se o plano poderia mesmo dar certo, ou ao menos se poderia ser posto em ação.

   –Vamos deixar a cidade muito em breve. – Eva voltou a falar. – Então é melhor você se preparar.

   Ela riu, transformando o silêncio em tranquilidade.

   Mas Alec só conseguia encarar a sua líder com o mais genuíno medo.

   –E onde estamos agora? – Perguntou.

   –Um lugar não muito longe. – Respondeu. – Descanse Alec... Temos um longo dia amanhã.

   Eva se levantou, ajeitou suas roupas e estalou uma meia dúzia de dedos. Suas olheiras evidenciavam falta de sono, assim como o tom apagado dos cabelos e as rugas cavadas na testa. Os últimos dias foram muito duros para todas as pessoas em Hack, deixando para trás dezenas de feridos e uma pilha de mortos. E agora teriam de se lançar sobre os caminhos duvidosos de Player One.

   –Volto logo... – Disse Eva, desaparecendo atrás da porta. – Vê se melhora logo, ouviu?

   –Pode deixar...

   Alec se virou para o rosto adormecido de Ryan, praticamente desmaiado sobre a poltrona. Ele também parecia estar muito cansado, embora dormisse tranquilamente, por baixo dos olhos bem fechados e o manso ressonar dos seus sonhos. Nunca, em toda a sua vida, alguém se arriscou tanto por ele, quanto Ryan tinha se arriscado. E, alí, deitado sobre uma cama, com o seu tronco desnudo, Alec se lembrava de Maggie, de Claude e todas as outras pessoas que morreram nas últimas semanas.

   Pessoas que ele mal conhecia, mas que conquistaram a sua total admiração.

   Talvez isso tudo tenha sido um acidente, obra do destino ou apenas uma grande fatalidade. Toda a brutalidade, o sangue, a dor, a perda e a perplexidade diante dos fatos. Cenas que viveriam para sempre, dentro da cabeça de pessoas sob perigo iminente, mesmo que o tempo passe, e a velhice leve embora as memórias mais valiosas.

   –Não aguento mais ficar deitado... – Depois de muito cuidado, Alec pôde se sentar na cama, de onde poderia mirar as paredes azuladas, o corredor e a imensa vidraça, inundada pela luz pálida do dia.

   –O que você está fazendo? – A voz sonolenta de Ryan interrompeu a exploração visual em que Alec estava metido.

   –Nada... Eu só...

   –Você dormiu o maior tempão! – Alec imaginou que ele devesse estar aborrecido, mas para a sua surpresa, Ryan estava rindo.

   –Acho que estou lhe devendo um obrigado... – Disse, depois de alguns segundos em silêncio.

   –Aquilo? – Ryan parecia nem se lembrar. – Não foi nada... Eu e você já estávamos bem cansados daquele Ceifeiro idiota, não é verdade?

   Ambos riram.

   –Tem ideia do que o Many vai fazer agora? – Alec trouxe a seriedade de volta para dentro daquela sala.

   Ryan suspirou, depois de se esticar todo num bocejo.

   –Bom, acho que vamos ter que atacar pontos específicos em Player One. – Ele fez uma pausa, para coçar o queixo. – O Desmond queria partir para a pancadaria, e é claro que vai dar errado... Mas, nem tudo está perdido.

   Um brilho esperançoso surgiu nos olhos de Ryan, fitando Alec com empolgação.

   –Podemos libertar os Flags presos na ilha e obrigar todos eles a se meterem na briga.

   É insano, complicado e até meio tosco... Mas é um bom plano!

   –Se eles ainda estiverem vivos, é claro. – Continuou. – Mas, vamos ver no que vai dar.

   –É... – Alec concordou, com um suspiro.

   –Tá afim de dar uma volta? – Sugeriu. – O Desmond vai dar um esclarecimento pra todo mundo daqui a pouco. Acho que você também iria gostar de ver isso.

   Alec assentiu, aliviado em poder sair daquela cama e explorar o lugar onde toda a coalizão se enfiou. Desde que foi abalada por uma grande derrota.

   –Se você acha que está arrebentando, espere até ver o estado do Many. – Ryan passou uma camiseta à Alec, que estava jogada sobre a cabeceira da cama.

   Ambos riram.

   Com muito cuidado, e com o auxílio de Ryan, Alec conseguiu se por de pé, cambaleante, como uma criança aprendendo a andar. Dados alguns passos, ele se viu atravessando corredores e escadarias intermináveis, para o alto de um edifício que ele mal conhecia. Dead Mans, Spiders, Andarilhos e Libélulas passavam uns pelos outros, ocupados e preocupados demais para dizer alguma coisa. Todos eles pareciam estar indo na mesma direção, em grupos esparsos e numerosos. A mesma direção em que Alec seguia, observando as paredes desgastadas e uma multidão de armas, roupas e munição espalhadas por toda parte.

   –Cuidado com o degrau... – Ryan alertou, assim que ambos chegaram ao local onde Many Desmond deveria estar.

   Uma sala pequena se desenhou diante de Alec, ocupada por nada além de panfletos abandonados e o piso limpo. Lá dentro, o porte imponente de Éric Cruz se apoiava, despreocupadamente, na parede, ao lado de Many, Emanuelle e Athena, que guardava sua ferida Ethelwin dentro do sobretudo.

   Pelo visto, Éric e Athena estavam esfolados demais até para brigarem entre si.

   –A Bela Adormecida finalmente acordou! – Kat surgiu do nada, puxando Alec para um abraço desajeitado.

   –É bom ver você também Kat... –  Disse, sentindo o seu ferimento gritar de dor.

   Ela o soltou, só para dar um grande soco no ombro de Ryan, rindo da cara que ele fez ao receber o repentino golpe.

   –Vai ter volta! – Ameaçou, com um certo tom de riso.

   –Tente a sorte... – Retrucou, desferindo outro golpe certeiro no ombro sadio de Ryan.

   Vocês são dois loucos...

   Many soltou um pigarro forçado, atraindo a atenção de todas as pessoas que se espremiam dentro daquela sala apertada. Kat e Ryan pararam de se estapear assim que o olhar ameaçador de Eva os fuzilou, do outro lado da sala, onde ela e Emanuelle Bumont conversavam.

   –Os últimos dias foram muito difíceis para todos nós... – Many começou o seu discurso, da mesma forma calma e coerente de sempre. – Também sei que muitos aqui estão em dúvida se devemos mesmo ir para Player One e enfrentar o McCollen.

   Silêncio. A multidão de pessoas feridas encarava os grandes cortes e arranhões no rosto de Many Desmond. O leve mancar que demonstrava, toda vez que mudava de ponto de apoio ou o imenso olho roxo estampado no rosto. Mas, mesmo sob o alto custo, Many decidiu continuar tentando, e ele faria de tudo para motivar aqueles que sentiam a agulha da hesitação alfinetar suas intenções.

   –Eu estou tão cansado e ferido quanto vocês... – Continuou. – Mas não vim aqui pedir para que lutem por mim... Vim pedir para que lutem por si mesmos e decidam o que querem fazer agora... Eu não sou o líder das suas vidas.

   Ele parecia estar sem esperanças, assim como Éric e Athena, encostados na parede, observando Many falar, sem dar a devida atenção às palavras dele.

   –Não vou mentir... Nossas chances não são nada boas e a desvantagem só aumenta cada vez mais... Mas, ainda podemos ter uma carta na manga.

   Many sinalizou para alguns dos seus soldados de confiança, que partiram e retornaram, depois de intermináveis minutos de sumiço. Trouxeram com eles, algo que deixou todas as pessoas aterrorizadas, incapazes de conter o próprio assombro.

   Possivelmente ferido, com o rosto oculto por um capuz, a farda negra de um Vespa se arrastava, com dificuldade, sob as mãos fortes de dois grandes Dead Mans.

   –O Vespeiro não é o único que tem infiltrados. – Many disse, sorrindo orgulhosamente.

   Wow...

   O capuz foi arrancado, com força, revelando um rosto conhecido para Alec. Embaixo de ferimentos leves, os mesmos olhos asiáticos e o cabelo negros de Bruce, o Vespa que caminhou com Alec no deserto,  se desenhou para a assombrada multidão. Ele ainda era o mesmo, apesar de estar um tanto quanto aborrecido em caminhar por aí, arrastado e encapuzado, sem saber direito, para onde ia.

   –Eu estou do seu lado. – Disse, visivelmente ultrajado. – Pra que esse tratamento?

   –Quando se trata de Vespas... Não se pode dar mole. – Many respondeu, encarando Bruce, ameaçadoramente.

   Alec nunca esteve tão perplexo.

   –Vocês pirralhos são tão desconfiados... – Disse, se libertando dos braços que o prendiam.

   O mau humor de Bruce era notável. Nessa altura do campeonato, Alec jamais seria capaz de, ao menos supor, que acabaria o vendo novamente. Sem mencionar, a grande surpresa em saber que Many Desmond tinha Infiltrados no Vespeiro.

   –Vai logo abrindo o bico... – O líder de Dead Man disse, dando fim a todos os rodeios. – Qual é o plano dos Vespas?

   Bruce riu.

   –Eu sou um soldado raso, – Disse. – Só cumpro ordens, não dou as cartas.

   –Mas garanto que você sabe mais do que todos nós aqui. – Many fez jus a sua fama de austero e cruel, na aspereza das suas palavras.

   –Vão lançar um ataque final à Hack... – Bruce deixou as palavras escaparem da garganta. – Vai acontecer amanhã... Quando o sol nascer.

   Murmúrios de terror voaram por toda parte.

   –A limpeza não iria acontecer daqui à semanas? – Uma voz sem dono conhecido se sobressaiu entre as demais.

   –Estão desconfiados. – Respondeu. – Vocês estão se reunindo... Eles também.

   Silêncio. Todos estavam espantados demais até para murmurar.

   –Então porque você está do nosso lado? – Para o seu próprio espanto, Alec perguntou, recebendo um sorrisinho de satisfação vindo de Bruce. – Por que quer ajudar? Seria muito vantajoso para os Vespas nos enganar e nos atrair para uma armadilha agora.

   Many pereceu muito impressionado.

   –B-022... CTM-438, faceta C.083... seis de junho de 2036... Dezoito de fevereiro de 2044... – Bruce dizia, mas ninguém entendia absolutamente nada. – Eu estive em Hack antes... Quando ainda era um pirralho, como vocês.

   Crescemos no mesmo CTM...

   –Depois... – Bruce continuou. – Depois que mataram todos os meus amigos e fizeram o que bem entendessem comigo... Me jogaram de volta às ruas e disseram que eu era só uma falha.

   Até mesmo a frieza de Many não resistiu ao calor da sua curiosidade.

   –Mas a questão é... – Bruce sorriu. – Eu sobrevivi... Uns anos depois entrei para a academia da Omnigon e me alistei na tropa Vespa... Mudei de nome, de vida, e hoje estou aqui, tentando ajudar.

   Então algumas pessoas sobreviveram à limpeza...

   –Jurei nunca deixá-los ganhar de novo. – Bruce se afundava em suas memórias. – Vocês não vão querer saber o que vem depois... O que querem fazer... É terrível... Todo mundo morre se eles conseguirem vencer!

   Um arrepio percorreu a coluna de Alec, até então hipnotizado pelas palavras do Vespa.

   –Mas tem um jeito... – Disse, cheio de esperança. – Vocês terão essa noite... Somente esta noite, para acabar com todos os Vespas, de uma vez!

   E os murmúrios voltaram a imperar, tão intensos quanto antes.

   –Os Flags capturados estão em Cold Ocean, a base costeira... – Bruce continuou, emanando toda a sua tensão. – McCollen... Todo mundo... Vão estar em Siren até às três da manhã. Depois disso, não há mais tempo, o ataque vai começar e vocês vão perder.

   Vai ser uma longa noite...

   –Droga! – Many se jogou contra uma cadeira. – As coisas só se complicam.

   –A única vantagem, é a surpresa. – Bruce ignorou o fervor dos murmúrios. – Siren tem armamento o suficiente para explodir Multiplayer inteira... Mas vocês podem vencer, se forem rápidos e não cometer nenhum erro.

   Silêncio. Até mesmo Eva, que raramente se impressionava, não podia conter todo o seu medo.

   –Você vem com a gente. – Many sentenciou. – Se ao menos uma das suas palavras for mentira, você está morto! Ouviu?

   Bruce assentiu.

   –Atenção todos. – A voz do líder de Dead Man assumiu o controle do caos, que crescia enlouquecidamente dentro daquela sala. – Vocês ouviram o Vespa... Só temos mais uma noite, para lutar por nossas vidas.

   Silêncio.

   –Preparem-se os que quiserem lutar... Pois esta pode ser a noite mais importante das nossas vidas inteiras.

                                   ***

   O dia todo se refez e se desfez na maior confusão que Alec já havia visto antes...  

   Naquele exato momento, quando a tarde já começava a descer no horizonte, todos os sobreviventes e o Vespa Bruce, se preparavam para deixar Hack, em grandes grupos, só para não levantar suspeitas. Carros, cavalos, armas e um bando de outras coisas eram arrancadas dos seus lugares e recolocadas em outras. Tudo era muito corrido, intenso e perigoso, ao mesmo tempo. Alec reforçava seus curativos, temendo que a ferida pudesse reabrir, durante o combate.

   O que com certeza iria acontecer.

   No entanto, as vantagens de ser um número cinco começavam a surtir efeito, de modo que o grande corte aberto já dava sinais de que se fecharia muito em breve. Caso o plano de Many Desmond desse certo, ninguém saberia o que fazer depois, mas, contando que sobrevivesse, Alec já se dava por satisfeito.

   Agora, do lado de fora, sob o asfalto, ele encarava os céus nebulosos de Hack, se recordando de tudo o que havia acontecido, enquanto perambulava pela vastidão de prédios abandonados. Eva, Ryan e Kat estavam ao seu lado, sorvendo o mesmo ar que ele respirava, se despedindo da cidade que presenciou todas as suas insanidades.

   Eles eram bons amigos...

   Assim como Claude, o qual Alec carregava no peito, junto do colar que Emanuelle Bumont lhe concedeu, ao renunciar o direito sobre ele. Se tudo der certo, Maggie ainda está viva e muito em breve seria resgatada, junto com Amy e todos os outros Flags.

   –Vamos partir... – Emanuelle deu o seu sinal, conduzindo o comboio de carros, caminhões e montarias para o portão norte.

   Lenta, mas gradualmente, cerca de quinhentas pessoas partiram por entre uma larga avenida. Se equilibrando sobre veículos superlotados, conduzindo motocicletas ou montados sob o dorso de um cavalo. Mais uma vez, a miríade de edifícios foram trocados pelo reluzir platinado do deserto. Banhado em silêncio e a dança constante do vento, transformando a paisagem, por onde quer que passasse.

   –Independente do que aconteça... – Eva pôs fim ao silêncio dentro do caminhão, ocupado por seus Anjos Noturnos e um bando de Spiders tensos. – Ficamos juntos! Vocês ouviram?

   Os três assentiram, empunhando suas armas.

   –Se eu morrer... – Continuou. – Cuidem uns dos outros, e não deixem os Vespas pegarem vocês, okay?

   –Você não vai morrer Eva. – Ryan respondeu. – Nós vamos sair dessa juntos... Ou morrer juntos, se tudo der errado.

   Ela sorriu.

   –Nós quatro contra o mundo. – Kat disse, abraçando seus três amigos.

   –É... – Eva concordou.

   –Vai dar tudo certo galera! – Ryan insistiu. – Vocês sabem que eu odeio despedidas.

   Os quatro riram, tentando não se desfazer em lágrimas entre dezenas de desconhecidos.

   Amontoados, com medo e transbordando de tensão, os Anjos Noturnos permaneceram juntos, observando o ir e vir da areia, enquanto esperavam a tarde dar lugar ao crepúsculo. Se esticando, como os quilômetros de deserto frio e silencioso, terminando no horizonte, onde o litoral começava a despontar. Junto dele, num ponto longínquo, próximo a um porto arruinado, se desenhavam as formas de um imenso navio militar, escuro como as águas do mar.

   Aos poucos, sua silhueta curiosa se alargava, flutuando sobre a maré alta. Como tudo naquelas ilhas, ele era meio desgastado, sofrendo com o avanço dos anos, enquanto lutava para manter sua imponência, onde as fontes de combustível eram cada vez mais raras. Sobre ele, Alec pôde distinguir vestígios de habilitação humana, se movendo irregularmente, sobre um extenso convés. Talvez hajam muitos mais Libélulas do que ele havia imaginado.

   Minutos depois, Alec se viu cruzando um estreito pier, sorvendo o ar úmido da maresia. O porto se bastava em apenas três construções baixas, completamente tomadas pelas intempéries da natureza. Um pouco adiante, vigas sólidas de concreto sustentavam uma passarela, possibilitando o carregamento e o descarregamento de navios cargueiros.

   –Martinez, abra as comportas! – Emanuelle gritou, mirando três rostos assustados, pintados no alto do casco. – Voltamos... E trouxemos uns amigos para a festa.

   Alguns riram alto, observando o andar apressado e a felicidade de três crianças, ao ver que Emanuelle finalmente regressou. Alec pôde finalmente entender o porquê do nome que os Libélulas adotaram para si. Pois, no alto da popa, desgastado pela ação do sal marinho, se insinuava o nome daquela curiosa embarcação, como um lembrete da presença de sua referida tripulação.

Libélula do Mar

   –Irado! – Ryan concluiu, defronte de tanta imponência.

   Tomados por uma onda de curiosidade, os visitantes observaram, embasbacados, uma imensa comporta traseira revelar o espaço necessário para caber, com folga, todo o equipamento arrecadado pela coalizão. O interior do navio parecia ser muito convidativo, ostentando o metal grosseiro e luzes alaranjadas. Por isso, ninguém hesitou muito em ficar do lado de fora, até porque, o vento frio da tarde estava se mostrando terrível.

   Emanuelle recebeu o restante da sua tripulação, emanando o máximo da energia positiva que fluía através dela. A maioria deles tinha menos de quatorze anos de idade, portando expressões assustadas e muita curiosidade. Alec sabia que até mesmo aquelas crianças seriam obrigadas a empunhar armas e matar Vespas e seus Snykers adestrados. Não era nada agradável saber disso, mas, quem sabe o que poderia acontecer se por acaso os jovens Libélulas fossem pegos?

   Segundo Bruce, ninguém iria gostar muito do resultado.

   –Onde eles conseguiram esse barco? – Alec perguntou, admirando a multidão de luzes alaranjadas. – Manter essa coisa funcionando deve dar o maior trabalho!

   Os três Anjos Noturnos riram.

   –Bom, os Vespas são muito prestativos... No começo. – Eva respondeu. – Emanuelle estava do lado deles, então combustível e suprimentos nunca faltavam.

   –Mas, – Ryan continuou. – nada dura para sempre, não é?

   Eva e Kat concordaram, ambas arrastando uma pesada bolsa, cheia de armas e munição para começar uma pequena guerra.

   –Vocês estão na nossa casa agora. – Disse a líder dos Libélulas, sobre um contêiner vazio. – Estaremos em Player One daqui a pouco... Mas, enquanto os tiros não começam, relaxem...

   Por um momento, a tensão pareceu se dissipar.

   –Todo mundo que vive em Multiplayer sabe aproveitar a vida... Mesmo quando é insuportável. – Ela continuou, com o rosto iluminado num sorriso. – Vamos só esquecer que podemos morrer esta noite, e rir um pouco da nossa desgraça...

   Mesmo tentando demostrar sua positividade, Emanuelle parecia estar passando por uma grande tristeza, embora ela não deixasse isso transparecer completamente.

   –Aproveitem a companhia dos seus amigos, das suas caras metades e de tudo o que lhes agradarem... Não se preocupem, dando certo ou errado, ao menos tivemos este momento... Para rir, chorar, lembrar de quem perdemos e nos preparar.

   Emanuelle suspirou, motivada pelo silêncio dos seus telespectadores.

   –Vamos dar o nosso melhor... Se não for suficiente, paciência. – Concluiu, dando de ombros.

   Emanuelle desceu do anteparo que a colocava acima de todos, para se juntar aos seus companheiros de viagem, na clara intenção de colocar a conversa em dia. Assim, todas as pessoas dentro do navio se concentraram em rir umas das outras, relembrar os bons tempos, jogar cartas ou simplesmente observar o ir e vir frenético da multidão.

   Alec preferiu ficar sozinho, na beirada do convés, onde podia observar o deslizar lento da embarcação por entre o mar calmo. Alí, amparado pela parca luz do entardecer, ele mirava as formas de Player One, se tornando maior, a medida que a distância diminuía. Ao seu redor, centenas de ilhotas tentavam se manter acima do nível do mar, aguentando o impacto continuo das ondas. Os céus nebulosos se misturavam com a tonalidade morna das águas, formando uma extensa imensidão cinza, a cor preferida de Hack.

   Este é o último suspiro antes que o pior aconteça...

   –O que você está fazendo aqui sozinho? – A voz de Eva despertou um distraído Alec, imerso em seus devaneios.

   –Alec, você tinha que estar jogando com a gente lá embaixo... – Pelo visto, Ryan também estava junto. – Quase quebrei a cara de um andarilho chamado Fortuna.

   Os três riram.

   –Só estava admirando a vista. – Alec se justificou.

   –Que misterioso... – Disse Eva, rindo mais do que o normal.

   Ela se sentou no limite do casco, de onde poderia sentir o vento cortante adentrar o seu couro cabeludo e atrapalhar o seu cabelo, enquanto se esticava toda para o alto. Perigosamente, como Eva gostava muito de viver.

   –Vocês dois são os caras mais legais que eu conheço. – Disse, puxando Alec e Ryan para um abraço.

   Por que ela está agindo desse jeito?

   "Eva bebeu um pouco..." – Ryan tentava alertar Alec, sem deixar que a sua líder o ouvisse.

   Está explicado...

   –Eu amo muito vocês dois... E sei que vocês se amam também. – Disse, ao soltar seus companheiros de time.

   Alec sentiu o rosto esquentar.

   –Não diga besteiras Eva... – Ryan revirou os olhos.

   –Não é besteira não, eu sou uma garota... Eu sei de tudo! – Ela ria, tentando fugir dos braços fortes de Ryan.

   Alec apenas ria daquela cena.

   –Você exagerou no Whisky... Vem, vamos dar um jeito de trazer a sádica e fria Eva de volta.

   –Nós três poderíamos dormir juntos um dia... – Ela gritou, assim que Ryan conseguiu conter seu pequeno e esguio corpo.

   Os dois caíram na risada, se arrastando pelo convés liso. No entanto, Alec estava envergonhado demais até para manifestar qualquer reação que não fosse espanto. Mas, passado o choque, ele apenas se desdobrou em gargalhadas, observando o contorno de Player One aumentar cada vez mais.

   Mas, momentos calmos e tranquilos como este não costumam durar para sempre. Pois, um quilômetro afrente, se desenhavam as formas de torres escuras, presas dentro de um grosso muro de concreto, lutando por espaço junto de um paredão de pedras pontiagudas.

   A base Cold Ocean se fez presente, sob a proteção do litoral...

   Alec correu para dentro, prevendo que o caos logo voltaria a se manifestar. Mas, mal teve tempo de se preparar, e Emanuelle Bumont já havia sido avisada sobre a iminência do combate, dando ordens à torto e a direito, numa linguagem que só marinheiros eram capazes de decifrar. Éric Cruz e Athena se entreolharam preocupados. Ainda existia muito ressentimento entre eles, mas, naquele momento, ambos dividiam a mesma causa.

   –Preparem-se... Essa vai ser a noite mais longa das nossas vidas! – Many Desmond disse, imperando entre os outros líderes.

   O navio inteiro tremeu em brados eufóricos.

   Prontos para matar e prontos para morrer...

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