Falta De Conhecimento Traz Ignorância

×Visão de Aaron

– Fala o que você quer, Mitchell. – falo, vendo ele entrar na minha casa.

– Que recepção calorosa, obrigado, meu melhor amigo carinhoso. – ele responde em tom irônico e eu reviro os olhos. Estava agoniado para o meu passeio com Finn.

– Anda logo, eu tô ocupado. 

– Vai pra algum lugar? – Mitchell pergunta, me encarando com aquela cara de imbecil.

– Vou. Vou tomar um café... Anda, fala logo. – tento apressá-lo.

– Tá, tanto faz. – Mitchell fala, desistindo de me perturbar e eu agradeço mentalmente por isso. – É que a Rachel vai dar uma festa na casa dela mais tarde. – eu o encaro.

– Não, valeu.

– Mas amanhã nem tem aula... – ele tenta insistir, vindo atrás de mim.

– Não. – repito.

– Olha, eu vou te mandar a localização. Se você tiver vontade você vai? – ele insiste. Eu sabia que não ia desistir.

– Não.

– Por favor, me promete que vai, que eu vou embora. – Mitchell fala. Ele sempre ganhava quando queria me convencer de algo.

– Tá, se eu estiver com vontade, vou. – ele abre um sorriso largo.

– Vai pra festa de aniversário da cidade amanhã?

– Não sei, você pode sumir agora?

– Tá, amanhã a gente conversa. – Mitchell fala dando as costas e saindo dali.

Eu logo corro para o meu quarto e vou tomar meu banho. Eu queria que a minha tarde com Finn fosse excelente. Após meu banho, arrumei meu cabelo, coloquei um de meus moletons preto, calça preta e tênis branco. Quando fui sair, percebi que esfriou bastante e acabei colocando um cardigan longo cinza por cima do moletom.

– Você vai sair? – Lisa pergunta quando percebe que eu desço as escadas já arrumado.

– Vou.

– Mas já está escurecendo e sua mãe chega hoje. – Lisa fala.

– E depois de sair vou à uma festa. – aviso. Nem sabia se ia, mas queria voltar tarde pra não esbarrar com a minha mãe.

– Aaron, vocês precisam conversar. – Lisa tenta. Embora ela quisesse fazer o papel de apaziguadora dos ânimos, eu não gostava da ideia.

– Hoje não, Lisa. – afirmo, tentando manter um sorriso simpático para ela. Lisa era sensível e eu não queria magoá-la.

Após alguns minutos, o som de um toque leve de buzina aparece na frente de casa e eu ando em direção à porta depressa, mas tentando não mostrar que estava eufórico pela minha saída. Dou um aceno rápido para Lisa e saio de casa com as mãos no bolso, no meu bolso direito do cardigan eu levava meu celular e no bolso da frente da calça a minha carteira.

Quando entrei no carro de Finn, ele me olhou e sorriu. O perfume dele tomava conta de todo o lugar e quando coloquei o cinto ele finalmente saiu. Finn ligou o ar quente do carro e quando já estávamos na estrada, ele ligou o som em um volume baixo. Só nesse momento eu posso reparar direito em sua roupa. Naquele dia de frio ele estava com um moletom azul claro, calça jeans azul com alguns rasgados e tênis preto.

– Como foi a aula hoje?

– Você fez sucesso. – afirmo e ele parece olhar para a outra janela, desviando a atenção de mim a todo custo.

– O que?

– As meninas gostaram de você. – ele sorri. Esse simples ato faz com que a minha barriga esfrie imediatamente.

– Elas me deixaram tenso a manhã e a tarde quase toda. – Finn fala, mas pela sua beleza eu duvido que tivesse sido a primeira vez que ele recebia tanta atenção.

– Elas são legais. 

– Talvez sejam. – fala e me olha. – Está com frio mesmo, hã? – pergunta, avaliando minhas roupas que revelavam que eu estava realmente com frio, mas como o ar quente estava ligado eu pude tirar minhas mãos do bolso e deixá-las livres.

– É, eu tenho problema de imunidade baixa. –Falo e ele parece entender.

– Eu achei estranho, estava calor hoje de manhã. Geralmente aqui não é assim, mas como o clima do mundo vem ficando estranho, nem posso falar nada. – Finn afirma. Eu sabia que ele estava tentando evitar qualquer assunto que pudesse gerar sensações, mas eu não consegui evitar.

– Senti sua falta hoje. – falo, com medo de ele achar que eu estivesse indo rápido demais.

– É? – ele me olha rapidamente. – Poderia ter ido te ver antes, se você não estivesse na escola.

– Hoje não tive entrevista pra me arrancar dela mais cedo. – ele sorri novamente. – Sua barba tá crescendo. – falo observando e acariciando todo o seu rosto.

– É, eu gosto dela grande. – ele comenta, sentindo meu toque. – Quero que ela volte logo.

– Eu acho que você vai ficar bonito com barba. – digo, recuando minha mão.

– Acha? – ele pergunta me olhando rapidamente novamente e olhando para a estrada em seguida.

– Tenho certeza. – falo, levando minha mão até sua perna. Finn então olha pra ela e desce sua mão direita até a minha, deixando que nossos dedos se entrelacem.

Ele estava quente, provavelmente pelo tempo que deve ter passado dentro do carro e foi dirigindo com calma até a cafeteria em Boulder. Quando chegamos, pedimos nosso café e nos sentamos em um lugar distante da janela. Eu fiquei de costas para as pessoas que estavam no lugar e com meu capuz, evitando que qualquer pessoa me reconhecesse como o filho do governador.

– O que é isso? Sua carteira de motorista? – pergunto, vendo que ela caiu de seu bolso no momento que ele foi pegar sua carteira para guardar o troco dos cafés.

– Me devolve... – ele pede e eu não deixo que ele pegue. Finn então se senta de frente pra mim e tenta pegar novamente, mas mais uma vez eu desvio e não deixo com que ele pegue.

– Finn Kyan Longford? Como se pronuncia? Kaian? – pergunto, fazendo graça.

– É, agora... anda, me devolve. – ele fala de forma séria e eu entrego sua carteira.

– É um belo nome. – digo, colocando minhas mãos na mesa, segurando o meu copo com café.

– Eu odeio ele.

– Eu te entendo, eu também tenho um nome que odeio. – falo e ele toma um pouco de café, me olhando em seguida.

– É? E qual é? – Finn pergunta e eu respiro fundo.

– Tyler. 

– Tyler? – ele pergunta, como se não entendesse minha revolta.

– É, meu nome é Aaron Tyler McDevitt.

– O meu Kyan é do meu pai. Ele batia na minha mãe e era um ignorante, logo ele não me representa. 

– Desculpa por ler, eu não sabia. – estava me sentindo mal por ter lido um nome que trazia uma sensação tão ruim a ele. Eu então seguro as mãos de Finn por cima da mesa e ele me olha.

– Eu sei que não sabia. – ele fala, puxando uma das mãos para tomar mais café. Eu então recolho minhas mãos e tomo um gole de café também.

– O Tyler é da minha mãe. Ela é a pessoa mais ausente que eu tenho na minha vida, meu pai pelo menos aparece no meu aniversário, ela não.

– Deve ser ruim isso. 

– E é. Meus colegas de time conhecem esse nome e um deles me chama por ele sempre que pode, por me irritar fácil. 

– Ele deve ser uma pessoa um tanto quando traiçoeira... – Finn fala me fazendo sorrir enquanto tomo mais um gole de café.

– Quem usa isso hoje? 

– O que?

– Traiçoeira? Podia ter chamado ele é filho da... – quando vou terminar ele me interrompe.

– Não, não uso essas palavras. Minha irmã nunca me ensinou a diferença de níveis pra palavras de baixo calão, então eu evito. 

– Como assim? 

– Bom, é esse assunto que eu preciso falar com você. – Finn fala e eu fico sem entender.

– Então pode falar... – digo e ele toma mais um gole de café, como se tomasse um gole de coragem com o ato.

– Eu tenho uma coisa, na cabeça... – Finn fala e eu já sinto meu coração apertar.

– Se você me falar que vai morrer daqui alguns meses, eu vou chorar muito. – rebato já nervoso e ele sinaliza um "não" com a cabeça, olhando para o lado como se procurasse palavras para falar algo.

– Não, não é isso. Eu me encontro dentro do Espectro Autista – Finn fala, mas se ele esperava que eu soubesse o que era tinha falhado.

– Você vai ter que me explicar melhor.

– Eu tenho um grau leve de autismo. – ele fala e eu o encaro com os olhos semicerrados.

– Então você é autista? Mas como eu não percebi nada de diferente?

– Eu não tenho retardo mental que me atrapalhe em nada e nem problemas na fala. 

– E então? – pergunto. Aos poucos sinto que meu tom começa a sair ríspido.

– Eu tenho sintomas antissociais, alguns tipos de sensibilidades e... – antes que Finn termine, eu começo a refletir.

– É por isso que você fala tudo o que pensa. – concluo, olhando para a mesa e me preparando para sair dali.

– E é por isso que eu sou extremamente focado em carros. É uma das questões... eu... sou hiperfocado em mecânica. Bom, atualmente eles chamam isso de TEA, que tá dentro do transtorno do espectro autista, mas eu ainda tento me adequar com isso, por ter crescido ouvido que eu tinha "Asperger". – Finn fala e eu tomo minha decisão depois de avaliar o dinheiro na minha carteira.

– Eu acho que eu vou embora. – falo e Finn fica me olhando por alguns segundos.

– Aaron... – ele me chama e o olho. – Eu não vou mudar com você. Você me conheceu como eu sou de verdade, agora você só vai poder conhecer mais de mim. Eu sou o mesmo Finn... – confirmo com a cabeça.

– Não vem atrás de mim, tudo bem? – peço e vejo um sorriso de pura decepção surgir em seu rosto, como se ele já tivesse vivido isso outras vezes.

– Eu não vou. Disso você pode ter certeza. – Finn fala e eu começo a andar. – Mas você sabe onde eu moro. – ele fala e eu saio da cafeteria andando. Eu penso diversas vezes em olhar para trás, enquanto mantenho minha mão no rosto e limpo as lágrimas que desciam, mas não faço.

Puxo meu capuz ainda mais para baixo, tentando tampar mais meu rosto e vou andando até uma rua movimentada da cidade, a procura de um uber que fosse até Denver. Conforme fui andando, eu consegui chamar um carro, que me levou de volta em Denver. Como ainda estava cedo, fui direto pra casa de Mitchell.

– Olá, senhor McDevitt. – A empregada dele fala atendendo a porta.

– O Mitchell tá aí ainda, Marie? 

– Tá sim. Ele está se vestindo para sair. – passo por ela.

– Olá Aaron! – a mãe de Mitchell, Liz, fala, se aproximando de mim.

– Olá, senhora. Como vai? – pergunto, tentando não transparecer que não estava muito bem.

– Eu estou ótima, você que parece abatido. – ela conhecia meus problemas de saúde com a minha imunidade, então eu estava torcendo para que ela achasse que eu estava doente.

– É que eu tô um pouco cansado.

– Tudo bem. E como seu pai está?

– Pra ser bem sincero, eu não sei. –falo, me saindo dela. – Eu... Vou no Mitchell, tudo bem?

– Claro. Ele está lá no quarto dele. 

– Obrigado. – falo, saindo dali e indo até o quarto de Mitchell.

Quando chego lá, Mitchell está colocando sua camisa, quando se vira ele dá de cara comigo e me encara. Ele percebe que eu não estou legal e logo se senta na cama, me chamando para que eu me sente ao seu lado enquanto ele calça o tênis.

– Pode falar o que rolou. – ordena.

– Nada, é que eu tô decepcionado. – falo e ele me olha por alguns segundos, voltando a atenção para o tênis em seguida.

– O cara lá te fez mal? Posso juntar uma galera e dar um jeito nele.

– Não, seu idiota... ele não fez nada. 

– Então? – Mitchell pergunta.

– É que ele me disse hoje que tem um problema.

– Qual? – Mitchell pergunta. Era estranho conversar com ele sobre o Finn, mas eu sabia que podia confiar nele. Quando vou abrir a boca para falar, sou interrompido.

– Chegamos! – Lindsay e outras meninas da nossa turma aparecem no quarto. Elas estavam todas prontas para a festa e muito animadas, eu então calo a minha boca instantaneamente.

– Desculpa cara, eu disse que ia dar carona a elas. – Mitchell fala e eu confirmo com a cabeça, me levantando da cama e indo até a porta. – Não vai pra festa?

– Pensei que fosse dar carona a elas. 

– É, mas nós somos a dupla dinâmica, elas vão, mas você também. – Mitchell fala e sorri, me fazendo sorrir com ele.

Mais tarde fomos para a festa. As meninas estavam animadas e quando descemos do carro o pessoal da nossa escola veio nos cumprimentar, afinal éramos os garotos mais conhecidos da cidade. Não demorou muito, até nos enfiarmos em um grupo que estava bebendo com Rachel.

– Quem brinca disso hoje em dia? – pergunto, enquanto eles começam a organizar uma brincadeira idiota, depois de algumas horas de festa.

– É ridículo. – Evan concorda comigo.

– Vamos, deixem de ser chatos. – Mitchell fala e algumas pessoas começam a organizar tudo para aquele jogo ridículo da garrafa.

– Mas a questão é a seguinte, nenhum desafio vai ser fácil. Desafios leves aconteciam na época que éramos novos. – Rachel fala, já colocando seus planos na mesa.

– Tanto faz, começa logo. – Mitchell fala e Rachel gira a garrafa.

A garrafa para em dois colegas meus e o jogo começa. Beijos de língua rolam em público e com o passar do tempo os desafios ficavam cada vez mais quentes, até que em um momento que eu estava completamente distraído, ela parou em mim.

– Verdade ou desafio, senhor Aaron? – Jenna pergunta e eu encaro ela.

– Desafio. – falo e todos reproduzem alguns sons, esperando que Jenna me falasse o que eu teria que fazer.

– Bem pesado, Jenna. – Tom provoca.

– Você e a Amber lá em cima em um encontro romântico. – Jenna fala e eu me seguro para revirar os olhos. Algumas pessoas batem palmas eufóricas e eu me levanto, estendendo a mão para Amber.

Ela segura na minha mão e saímos juntos procurando algum quarto da casa. Quando chegamos em um quarto qualquer Amber começa a me beijar, mas assim que ela tenta abrir minha calça e tenho que parar o que estávamos fazendo. Eu não conseguia beijar ou me relacionar com uma pessoa pensando em outra.

– Para, para... isso não vai dar certo. – falo, me distanciando dela. Amber era bonita, mas não era o meu tipo, talvez porque o meu tipo não era o tipo feminino.

– Acabou de sair de um relacionamento? – ela pergunta, percebendo meu descontentamento em estar ali.

– É. – afirmo, arrumando minha calça novamente e Amber se senta na cama. Ela era uma garota legal.

– E ainda gosta dela? – ela pergunta, me chamando para sentar ao lado dela e eu me aproximo, me sentando em seguida.

– Não... – falo e ela parece confusa.

– Então?

– Não era uma relação heterossexual. – explico Amber parece entender bem.

– Então você é gay? – ela pergunta em alto tom e eu olho para os lados, com medo de qualquer pessoa ouvir.

– É... – respondo em baixo tom.

– Bom, quer conversar? 

– Você é louca? 

– O que? Por quê?

– Você ia me fazer um boquete dois minutos atrás e agora quer conversar? – pergunto e ela começa a rir.

– Bom, é que eu também saí de um relacionamento amoroso esses dias e vai ser bom conversar com outra pessoa frustrada sexualmente.

– Ei! – digo, lhe dando um leve empurrão de brincadeira.

– Quer?

– Saiu de um relacionamento lésbico?

– Não, hetero. E então, o que acha? Quer conversar? Pra mim vai ser ótimo, se você prometer não falar pra ninguém... eu também prometo não comentar com ninguém sobre o que escutar aqui hoje. Eu precisava conversar.

– Se precisava conversar, porque veio tirando minha calça? 

– Porque a Karon disse que você era rico e... – antes que ela termine eu a encaro.

– O que? 

– Eles fizeram toda aquela brincadeira só pra te arrumar pra alguma líder de torcida. – Amber fala.

– Por que eu sou rico? – pergunto, me levantando.

– Aaron... Se quer saber eu não ligo. – Amber começa. – Se você é rico ou filho de quem é, mas é importante que saiba que muitas pessoas se aproximam de você por isso. – eu encaro ela com os olhos semicerrados.

– Do que você tá falando? 

– Do Mitchell nem tanto, afinal ele é o filho do prefeito apenas, mas o seu pai é o governador. – Amber fala.

– Eu... vou embora. – dou as costas.

– Não, é sério... eu quero conversar. – Amber fala correndo até mim e segurando meu braço. – Abri seu olho, mas ainda espero uma conversa, afinal... você e eu precisamos. – afirma com aquele olhar baixo de tristeza e eu decido ficar.

– Eu tava ficando com ele, eu acho.

– Faz meses?

– Dias. 

– Tão rápido... – Amber reflete, mas não sinto veracidade na reflexão.

– Você acha? – pergunto e ela nega com a cabeça.

– Não. Só tô falando o que você escutaria de outra pessoa. – Amber fala me fazendo sorrir.

– Eu acho. 

– Nada que envolve sentimentos é rápido. Quem foi o idiota que olhou para os sentimentos e julgou que pra beijar uma pessoa você tem que conhecer ela há certo tempo, pra namorar outro certo tempo e casar outro certo tempo? Pessoas que propagam isso tem que entender que você tem que fazer as coisas quando tem vontade e não quando a sociedade não vai te julgar. 

– Aprendeu isso com quem? – pergunto e ela sorri.

– Sozinha. Aprendi muita coisa sozinha. – Amber fala. – Por que acabou?

– Ele me disse que tinha um problema e eu não soube reagir. – digo, agora me sentindo uma pessoa péssima.

– Diz que você não foi embora quando ele te contou. – Amber torce.

– Fui... – falo e ela me olha com um olhar de "que merda, Aaron".

– Que imbecil. Isso não se faz. Ele usa drogas? Faz algo de errado? Você tem proteção ética se for isso... – Amber fala.

– Ele tá dentro do espectro autista, disse que antigamente chamavam de "Asperger". – falo e ela me encara.

– E você largou ele por isso?

– Você sabe o que é asperger? 

– Meu irmão mais novo tem. 

– Ele é normal? – pergunto e ela parece incomodada.

– Depende, o que é anormal pra você? Aaron, você precisa ler mais e parar de andar com os seus colegas ignorantes. – Amber fala de cara e eu já me sinto mal. – Meu irmão brinca, meu irmão é um amor, carinhoso, fiel e muito dedicado. Ele tem algumas características do autismo, mas isso não faz com que ele seja um monstro anormal. Ele só é sincero, sabe física e sofre mais em alguns momentos específicos da vida.

– Ele tem quantos anos? 

– 8, se interessou por isso aos 6. É coisa da compulsão. Ele não é um gênio, ele apenas descobriu uma paixão, mas fora isso e ser um pouco antissocial meu irmão é uma criança qualquer. – Amber fala abrindo minha cabeça e me mostrando o tamanho do meu ato de ignorância de mais cedo.

– Eu fui um idiota, né? – pergunto e Amber me olha por alguns segundos.

– Foi. – ela fala com aquela convicção que já percebi que faz parte dela.

– Eu falei pra ele não vir atrás de mim. 

– Ele não vai vir, nem adianta. Ele não vai nem olhar pra você, porque tudo o que você fala pra alguém dentro do espectro, ele interpreta de forma totalmente literal a menos que ele tenha sido ensinado a entender as inquietações das pessoas, o que é bem difícil de fazer. E quando é forma de expressão a cabeça dele descarta, por não entender e pra evitar pensar mais do que já pensam. – Amber fala. Só nesse momento eu percebo o efeito que as minhas palavras causariam em Finn.

– E você, o que aconteceu? – ela dá de ombros.

– Ah... Eu tava ficando com um garoto e eu acho que ele me traiu. 

– Você perguntou? 

– Tá, eu vou falar direito.

– Tudo bem. – digo, esperando que ela fale.

– Eu tava ficando com um garoto e eu vi a Berta ficando com ele. – Amber fala.

– Ela sabia de vocês? – pergunto e Amber sorri, confirmando com a cabeça e deixando que seus olhos se encham de lágrimas.

– Do Clarck? Todas as líderes de torcida sabiam. – ela fala, limpando as lágrimas que caiam.

– Eu sinto muito. – digo, colocando minha mão em seu ombro e apertando.

– Eu gostava dele. Eu gostava dele de verdade, mas eu vou superar. Ninguém é substituível, mas todos são esquecíveis... Por causa disso aí a Lindsay não fala mais comigo. As únicas líderes que ainda falam é a Rachel e a Karon. – Amber fala e eu sinto que ela se sente sozinha.

– Pode se sentar comigo na hora da refeição.

– Não, eu sei que é um momento seu e do Mitchell de conversar. – ela fala. Realmente era, geralmente nós resolvíamos alguns assuntos nesse momento e por isso não sentávamos com o nosso grupo, mas tava na hora de mudar isso.

– Não. Pode se sentar com a gente, precisávamos de alguém novo e com inteligência... – digo raciocinando e vejo um sorriso de agradecimento surgir no rosto dela. – Obrigado, Amber. – falo em baixo tom e ela me abraça.

– Eu que tenho que agradecer, Aaron.

Quando descemos todos nos olham e acabam fazendo mais sons ridículos e gestos.

– Você vai embora agora? – Amber pergunta antes que eu me juntasse com todos.

– Vou. – falo. –Pode me dar carona?

– Claro que posso. – Amber responde e eu agradeço.

– Vou falar com o Mitchell. – digo e ela concorda com a cabeça. – Tô vazando. – falo quando chego próximo de Mitchell.

– Gostou mesmo, hein? – Jenna fala e todos da roda me olham, Mitchell estava suado e com os olhos quase fechados de tão bêbado.

– Você tá bêbado? – Pergunto a Mitchell, ignorando Jenna completamente.

– Ele tá se divertindo, Tyler. – Tom fala.

– Vai tomar no meio do seu cu, Tom. – rebasto e todos que estavam na festa ficam em silêncio, esperando para ver o que aconteceria dali por diante.

– Tá bravinho? Sexo é pra acalmar, Tyler. – Tom me provoca mais uma vez e eu sorrio de lado.

– Vou te mostrar o Tyler. – falo indo pra cima de tom. 

Alguns dos meus colegas me seguram antes que eu possa alcançá-lo, mas a minha vontade era tanta de bater nesse garoto que eu quase me soltei deles.

– Aaron, vamos... – Amber me chama.

– Me solta, porra. – falo pros meus colegas. – Pode ir, eu tenho que levar ele pra casa. – explico para Amber e ela concorda com a cabeça.

– Mas eu não vou pra casa agora. – Mitchell comenta e eu o encaro.

– Você vai sim. – eu falo em tom totalmente sério e Mitchell concorda comigo, se dizer mais nada.

×°×

Eu levei Mitchell pra minha casa e quando ele deitou na cama dormiu como uma pedra, como sempre. Quando fechei a porta e me virei minha mãe estava de frente pra mim, ela me olhava. Minha mãe estava vestida com sua camisola longa de cetim rosa, com um livro na mão.

– Oi, mãe. – falo, para aquela mulher negra com cabelo liso e olhos pretos que me encarava. Minha mãe era muito bela.

– Onde você estava? 

– Em uma festa. – respondo.

– Não quero você em festas. – sorrio.

– Desde quando você liga?

– O que? – ela pergunta, com os olhos semicerrados.

– Você lembra pelo menos o dia do meu aniversário? Por qual motivo você aparece agora querendo se meter nas minhas coisas?

– Olha como fala comigo, eu ainda sou sua mãe. – sorrio mais uma vez. Meu dia tinha sido complexo demais pra ela chegar falando comigo nesse tom e eu ficar em silêncio sobre isso.

– É? E foi legal a viagem pra França quando seu filho tava fazendo 18 anos? – pergunto, passando por ela pra ir até meu quarto.

– Desculpe-me por isso. – ela vem atrás de mim.

– Se poupe, me esqueça e desapareça né, mãe? 

– Você pode não acreditar, mas eu quero só o seu bem... não acho que seja saudável pra você ir à festas, quando tem aula no dia seguinte. – eu encaro ela, já na frente do meu quarto.

– Esqueceu até da cidade onde mora. – ela fica sem entender.

– O que?

– Amanhã não tem aula, é aniversário de Denver. – falo entrando, fechando e trancando a porta.

Eu tiro a minha roupa e deito na cama de cueca. Pego meu celular e decido olhar meu Instagram. Como sempre, muita atenção. Uma foto minha com Rachel chegou até um número alto de curtidas com diversos comentários falando o quão nós formaríamos um casal bonito...

É, não sei por qual motivo eu sou jogado pra cima da Rachel desde o início do colegial, mas eu não gostava disso. Entre as fotos postadas dos meus amigos também tinham comentários sobre a noite e sobre a minha quase briga com Tom, mas nada que valesse a pena pensar.

Minha cabeça via aquelas fotos do meu Instagram com meus amigos e só pensava no que Amber me falou mais cedo. A pior parte era ser levado de volta aos momentos com Finn e pensar que ele talvez tenha sido a única pessoa que não me julgou pelo o que eu tenho. No fim, acabei pegando no sono com o passar do tempo, mesmo com a mente inquieta, o cansaço ainda foi maior.

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