Descobertas E Emoções À Flor Da Pele
×Visão de Aaron
– Segura! – Tom fala me arremessando a bola e depois de pegá-la saio correndo.
Estávamos treinando para mais um jogo da temporada que aconteceria no mês que vem. Fazia mais de 1 semana que eu estava sem Finn, ele tinha ido para os treinos para tentar entrar na equipe de pilotos de teste da Mercedes.
Após o treino, fui tomar meu banho e me arrumar para encontrar Amber e Karen, que estavam sentadas juntas. Como de costume, esperei Alec tomar seu banho e depois saímos dali. Quando chegamos na praça de alimentação, elas estavam sentadas lado a lado, olhando algo no celular.
– O que estão vendo? – pergunto, chegando na mesa e colocando minha bolsa em cima dela.
– Enviando os convites pra minha festa, amanhã.
– Espero que a sua mãe não te mate. – falo. Amber tinha prometido que a festa seria íntima, mas é claro que nessa brincadeira ela já tinha convidado mais de 200 pessoas.
– Ela não vai, já tá tudo certo. Vocês vão, né?
– Não sei, tô sem o Finn e me sinto indisposto.
– Pode parar de palhaçada que você foi o que mais me ajudou em tudo, se não for vou ficar bem chateada. – Amber rebate e eu me vejo pressionado.
– Você convidou as outras lideres? – Alec pergunta.
– Claro, quero que elas vejam que eu estou bem com ou sem elas. – Karen começa a rir.
– Quais delas você convidou?
– Lindsay, claro... Jenna, Alyssa, Berta, Diana, Neth, Iva... – Amber começa a conta e eu percebo que não quero saber.
– Tá, tanto faz, não importa.
– São muitas meninas. – Alec observa.
– São, e todas elas vão me ver naquele vestido lindo. – Amber fala.
– Que só vai ficar perfeito nas primeiras horas de festa, porque depois... – começo uma reflexão em médio tom e Amber me encara. Só aí eu percebo que falei demais.
– Depois eu vou me acabar de dançar, e quem sabe conseguir o Simon. – Amber completa.
– Oh claro, grande Simon. – Alec provoca. Ele tinha tido alguns problemas com o Simon no treino de hoje.
– Para de graça, Alec. – Amber rebate, tacando um pacotinho vazio em Alec.
– Que graça? Eu só tô comentando do grande salvador Simon. – ele responde, em tom irônico.
– Você é ridículo... – ela o encara com os olhos semicerrados.
– Você que é, não para de falar desse cara nunca.
– E você, Alec... quando vai arrumar uma namorada? – Karen pergunta e eu encaro Alec, esperando sua resposta.
– Quem disse que eu gosto de mulher? – estranho sua resposta. Já tinha visto ele ficar com algumas meninas.
– Não gosta? – pergunto.
– Gosto, mas não apenas de mulher. – Alec explica e só aí eu entendo e começo a comer meu almoço.
– Bissexual? – Amber pergunta.
– É, e se me chamar de confuso eu vou embora. –ele protesta. Eu sabia que era ignorância chamar um bissexual de confuso, eles apenas gostam de ambos os gêneros, sem barreiras de preferência por causa de genitais.
– O que te faz gostar de homem e mulher? – Amber questiona, curiosa.
– Depende, o que te faz gostar de homem? – Alec rebate.
– Não sei.
– Leva isso como minha reposta também. – Alec diz, dando uma mordida em seu sanduíche.
– Alec, me fala um cara muito bonito e uma garota muito bonita da escola. – Karen pede.
– Você e o Aaron. – ele responde, rapidamente, sem se importar muito com o papo.
– É sério, quero saber alguém que você acha bonito e talvez ficaria.
– Não. – Alec corta. – Se algum dia eu quiser te pegar, pode deixar que eu e falo.
– Tudo bem, eu você sabe que eu sou super a fim do Simon. O Aaron do Finn e a Karen da Alyssa. Só falta você.
– Primeiro, quero deixar claro que esse assunto é tão chato, quanto perguntar pra um casal de homossexuais quem é o ativo e passivo. Eu sei quem vocês gostam, porque vocês falaram, não porque perguntei.
– Não pode perguntar? – Amber pergunta.
– Poder pode, mas eu só respondo quando eu vou transar com a pessoa. Acho desnecessário alguém perguntar pra um gay se ele é ativo ou passivo. Fora que essa pergunta em si é desnecessária, não importa pra quem seja.
– Eu também acho. Já me perguntaram aqui na escola, aí eu disse "Por que quer saber? Vamos transar?" nunca mais me perguntaram depois disso. – falo e Alec me olha, rindo em seguida.
– Agora que você já fez sua observação, pode responder. – Amber puxa novamente o assunto das preferências de Alec e ele me encara.
– Responde logo se não elas não vão te deixar em paz. – falo, comendo mais da minha comida e Alec suspira, vencido pelo cansaço.
– Tem que ser do time ou das líderes de torcida?
– Não, pode ser qualquer pessoa, mas a gente tem que conhecer. – Amber fala, ficando empolgada pela futura descoberta. Seria a primeira vez que Alec abriria sua vida pessoal.
– Pra ter certeza vou falar do time e das líderes mesmo.
– Tá. – Amber diz, aguardando que ele diga. Eu só observava essa situação.
– Do time, acho o Evan um gato. – Alec expõe, mas o tom acaba saindo mais alto do que ele queria.
– Também te acho um gato, gracinha. – Evan responde, passando por trás de nós.
– O que? – Alec fala, olhando pra trás e ficando extremamente corado de vergonha.
– Vocês não contam e eu não conto. – Evan comenta, se sentando ao lado de Alec e mandando uma piscada pra ele, que fica sem reação. –Vai pra festa dessa ai amanhã?
– Vou, por quê? – Alec responde.
– Nada, só tava vendo se a boca que eu quero beijar vai estar presente. – Evan fala, piscando mais uma vez pra Alec.
– Vaza, Evan! – Alec fala constrangido, empurrando-o e ele se levanta com sua bandeja.
– Tá bom, tanto faz... – ele responde, enquanto sai andando.
– E menina? – Amber pergunta, mas Alec parece não ouvir. – Ei, Alec... – ela chama, estalando os dedos na frente de Alec que desperta da viagem que tinha ficado desde as provocações de Evan.
– Oi. – ele encara ela.
– E menina?
– Que saco...
– Fala logo.
– Sei lá, a Faith.
– A Faith é gata mesmo, aqueles cabelos enrolados negros dela me levam ao delírio às vezes. E ela tem uns peitões né? Uma gata. – Karen comenta e todos rimos. – Melhores treinos são quando eu tô do lado dela.
Durante o resto do dia minhas aulas foram comuns. Eu saí do colégio, entrei no meu carro e fui pra casa. Quando cheguei nela, percebi que estava vazia, como vinha sendo a alguns dias desde que Finn foi pro Texas e meu pai viajava para suas reuniões intermináveis. Tenho que dizer que eu até sentia falta de quando Mitchell vinha pra cá pra se livrar do pai, pois eu odeio ficar 'sozinho' em uma casa tão grande.
Como estava ali, fui estudar, mais tarde fui treinar e gravar pro canal. Eu não administrava ele, quem cuidava de tudo era a minha equipe, pois por falta de tempo eu não tinha como editar e postar com recorrência. Naquele mesmo dia, depois das minhas obrigações, fui comprar alguma roupa pra festa estilo baladinha da Amber e mandei mensagem pro Finn.
Ele não estava me respondendo sempre, mas quando fazia era o mais fofo possível, o que fazia meu peito apertar de saudade. Eu via que o Finn estava animado e isso me deixava animado também, embora eu soubesse que quando ele se tornasse um piloto mal o teria pra mim.
Por causa da impressão negativa que a mídia tinha recebido na última matéria sobre mim, os paparazzi perceberam que a minha fonte de cliques secou e eu tive paz durante o tempo que estava ali, lutando para continuar nos meus treinos e ir bem a cada jogo. Eu teria um jogo daqui um tempo para ir para as quartas de final e o time estava louco para mostrar seu desempenho.
No dia da festa a escola estava eufórica para ver como seria o que Amber estava preparando e eu via ela nos corredores, conversando sobre o que teria lá e recebendo seus parabéns. Nem parecia a menina que tinha sido recusada por todos um tempo atrás.
– Parabéns! – falo, me aproximando dela que me abraça.
– Obrigada... – ela responde, de forma tímida.
– E então, animada? – pergunto, quando nos soltamos e ela pega alguns livros em seu armário.
– Um pouco, tô nervosa.
– Um nervosismo bom?
– Um nervosismo ótimo.
– Todo mundo já confirmou presença? – pergunto, olhando ao redor.
– A maioria, o lado bom é que o Simon vai... – Amber fala animada.
– Se você quiser eu te consigo seu homem dos sonhos.
– É sério? Eu quero.
– Oi pessoal, do que estão falando? – Alec pergunta, se aproximando de nós.
– De conseguir o Simon pra Amber. – respondo e ele revira os olhos.
– Que bobagem. – Alec comenta.
– Fala sério, não está animado pra ver como eles ficariam juntos?
– Não? – Alec pergunta de volta, como se fosse óbvia sua desaprovação sobre o assunto.
– Eu, hoje, vou sair mais cedo por causa da festa, então se eu não estiver na mesa saibam que não estou pegando ninguém no banheiro. – Amber fala, em tom de brincadeira, fechando seu armário.
– Ainda bem que disse, se não eu ia pagar alguém pra verificar pra mim.
– Engraçadinho... agora tenho aula de literatura, espero vocês lá na festa. – ela passa por nós.
– Pode deixar, sol do meu planeta... – Alec fala, em tom sarcástico.
– Você tem umas colocações estranhas. – ela responde, enquanto se distancia.
– Todos temos! – Alec fala e me encara. – Todos temos... – repete em baixo tom.
– Assim você nunca vai conquistar ela. – falo, colocando uma mão no ombro dele e ele me encara.
– O que? Quem disse que eu quero?
– Isso, fica achando que me engana, Alec. – digo, passando por ele para ir até minha aula de matemática.
×°×
Tive minhas aulas e nada demais aconteceu. À noite, mandei uma foto para Finn de como eu estava, mas tinha certeza que ele só veria no outro dia quando fosse acordar para ir treinar, já que quando chegava ele ia dormir sem dar atenção para celular e só olhava no outro dia de madrugada. Fui pra festa com um casaco da Supreme preto, bermuda moletom cinza e tênis branco da Nike. A festa seria estilo balada e eu não estava nada animado pra ela. Na verdade, estava indo apenas porque se eu não fosse, Amber me mataria.
Chegando na festa, percebi que o lugar estava cheio de gente, a decoração estava toda em neon e tinha bastante bebida. Alguns dos meus colegas de classe fumavam maconha, mas não vi ninguém do time consumindo, o que me fez ficar mais relaxado.
– Você veio! – Amber aparece. Ela já estava um tanto quanto alterada, principalmente por eu ter chegado mais tarde que a maioria das pessoas.
Ela estava com um vestido bege com lantejoulas em algumas partes, o vestido era colado e com no corpo de Amber, deu ainda mais ênfase a sua beleza marcante. O vestido combinou bem com seu tom de pele preto claro e seu cabelo.
– Se eu não viesse você me mataria.
– Sim, eu mataria. – ela passa o dedo no meu nariz.
– Já viu o Simon? – pergunta, olhando ao redor e me lembrando da minha promessa de mais cedo.
– Não, não vi...
– Você pode procurá-lo? Me ajuda com ele, vai... – pede.
– Ajudo. Vou procurar sim. – ela sorri. Eu saio andando pela festa procurando Simon e encontro ele em um dos grupos dos jogadores. Ele bebia e já parecia estar mais pra lá que pra cá. – Ae, Mané... quero falar com você.
– Claro. – ele fala, ficando de pé. – Ao seu dispor. – fala, com a língua enrolada.
Ele vem andando atrás de mim, enquanto íamos para alguma parte sem muito movimento da festa. Simon estava vestido com uma blusa polo colada, calça preta e tênis. Eu nunca entendi bem essa coisa dos meus colegas de vestir um tamanho menor que o que geralmente vestem para deixar as roupas coladas e mostrar os músculos, mas respeito.
– Então, quero falar uma coisa pra você.
– Quer ficar comigo, capitão? – Simon pergunta e eu estranho aquela pergunta.
– O que? – pergunto, fingindo não ouvir aquele idiota.
– Eu também tava doido de desejo em você. – ele tenta se aproximar de mim e eu o paro, colocando minha mão em seu peito.
– Eu namoro, animal. – respondo em tom arrogante e ele sorri de lado.
– Mas ninguém vai ficar sabendo, eu sou um cara discreto.
– Você tá bêbado... – falo, mas como se pensasse pra mim mesmo. – Pensando melhor, não acho que seja o melhor pra ela.
– Pra ela quem? Vai ser ménage?
– O que? Vaza, idiota.
– Não se faz de difícil que eu apaixono, capitão. – ele tent se aproximar de mim, mesmo eu ainda o empurrando.
– Olha aqui... – me aproximo dele e ele me olha nos olhos com dificuldade. –E u lutei jiu-jítsu por 3 anos, se você tentar mais alguma coisa eu quebro o seu braço. Vaza.
– Tá, relaxa Tyler... – ,fala em tom de rendição e eu o puxo pela gola da camisa.
– Do que você me chamou?
– Capitão.
– Foi o que eu pensei. – o solto e saio andando.
– Encontrou ele? – Amber pergunta e eu ponho minha mão na cabeça, sem saber o que dizer pra ela.
– Olha, eu não acho que ele seja a pessoa certa pra você nesse momento. – ela parece confusa.
– Por quê? – Amber pergunta, mas parece ver algo atrás de mim. Quando me viro, vejo Simon beijando Lindsay. Volto a visão para Amber que estava ali, vendo tudo e a puxo para o meio da festa. – O que você está fazendo?
– Te arrumando um par melhor. – falo. – Martin... – chamo Martin, que estava com um copo de refri na mão. Ele tinha comentado que seria o motorista da vez na festa.
– Sim senhor, capitão?
– Lembra na semana passada quando você me disse que a Amber estava linda, mais linda do que nunca?
– Lembro sim... – ele fala e só ai vê que ela está atrás de mim. – Ah, oi Amber. – Martin fala sem graça.
– Esse é um cara legal. – falo para Amber. – E não precisa beber pra se soltar. – digo ouvido dela, que sorri de lado.
Acabo deixando os dois conversando e saio andando pela festa. Pego uma das bebidas sem álcool e me encosto em um canto qualquer, bebendo e observando a festa. No outro canto, posso ver Evan e Alec aos beijos, mas logo volto a passear meus olhos por todos que estavam ali, fora eles.
– Oi, Aaron. – alguém fala e quando olho para o lado Tom estava ali. Para a minha surpresa ele também estava com a mesma bebida que eu, sem álcool.
– É a primeira vez que me chama pelo meu nome.
– Eu ainda prefiro te chamar de Tyler.
– Vai se foder. – ele sorri.
– É um nome bonito, acho um puta desperdício. Além de deixar claro que ele te irrita e eu curto te ver irritado, querendo me matar. – Tom fala e eu sorrio, ainda não acreditava no quanto ele era insuportável.
– Eu ia fazer isso, se não tivéssemos virado amigos. – digo e ele parece estranhar.
– E quando viramos amigos? Eu ainda quero ser o capitão. – ele me lembra da nossa competição pessoal pela conquista do time.
– É?
– É, mas fico feliz que seja você. Um cara que sabe liderar. – ele testa um tom amigável.
– Já te agradeci pelo o que fez no campo? – ele dá de ombros.
– Não precisa. – Tom fala. – Não fiz por você, fiz pelo meu ego. Só eu posso odiar você.
– Eu falei pro Blaney que você é louco, Thompson.
– Se você me chamar assim de novo a gente vai, finalmente, cair na porrada. – sorrio, tomando mais daquela bebida. Acho que era suco.
– Vemos alguém que não gosta do nome também...
– Cala a boca. – Tom fala e me empurra. – Você sabia que o Evan era gay? – pergunta, olhando o beijo de Alec e Evan.
– Ele não é, é bissexual. O Alec também...
– Será que eles deixam eu me meter ali? – o encaro, completamente confuso.
– Você é bissexual também? – pergunto. Nem eu conhecia esse lado arco-íris do meu time.
– Não, sou hetero.
– E o que você quer ali? – cruzo os braços e Tom sorri sem graça.
– Um homem hétero não pode ter suas experiências?
– Eles vão te julgar, como fizeram comigo.
– Eu falo que tava bêbado e ameaço quem vier de graça. – o encaro com cara engraçada.
– Aí nem tem álcool. – falo, apontando com os olhos para seu copo e Tom olha para seu copo também, tomando o resto do suco e colocando o copo em uma mesa qualquer.
– É, mas ninguém vai saber.
– Você tá melhor que no começo do ano letivo...
– Ver a sua luta pra ter respeito mudou muita gente, capitão. E nós estamos em uma festa. Tem gente beijando gente do mesmo sexo, do sexo oposto... você chegou no meio da festa, todo mundo já perdeu os limites. – olho ao redor.
– Então vai em frente, se solta. – Tom sai andando até Alec e Evan.
Eu continuei no mesmo lugar que eu sempre estive, olhando todo o movimento da festa. As horas foram se passando e ficar ali parado foi me cansando, por isso eu fui me sentar. As músicas eram boas e a animação dos meus colegas parecia incessante, mas eu não estava nem um pouco confortável ali, no meio de todos aqueles bêbados.
– Ficar sozinho não vai melhorar sua noite. – Edgar fala, se sentando ao meu lado.
– Você também tá aqui?
– É, eu vim porque... nem eu sei o porquê. – ele responde, confuso e coçando a cabeça. A cara confusa dele me faz rir.
– E já viu coisas que não deveria?
– Muitas. Você sabia que o Alec, Tom e Evan eram gays? – sorrio, negando com a cabeça.
– Eles não são gays. São casos isolados.
– Quero só ver o que a namorada do Tom vai fazer quando ficar sabendo. – arregalo meus olhos, encarando-o.
– Ele namora?
– Claro. Olha, eu sei que você e o Tom não estão mais naquela guerra intensa que tinha começado no início do ensino médio, mas você tem que saber que ele não é um cara confiável. Não é porque ele não está querendo fazer você ameaçar de quebrar a cara dele o tempo inteiro, que magicamente se transformou em alguém bom. O Tom é traiçoeiro. – sinto um lado tendencioso naquele tom de voz.
– E você falando mal dele, não é?
– Eu não sou amigo do Tom, não gosto dele e não o quero perto de mim.
– Ele já fez alguma coisa de ruim pra você? – pergunto.
– Sim, ele traiu a minha irmã com dois caras do time. – Edgar fala e eu fico sem reação, acabo voltando minha atenção para a festa sem falar nada.
Naquele dia quando cheguei da festa, fui dormir. Estava cansado, com dor de cabeça e bem triste, por causa da saudade de Finn. No dia seguinte, passei o dia inteiro treinando, procurando formas de ocupar minha mente pela falta do meu amor. Acabei estendendo os meus treinos o final de semana inteiro.
Nos almoços, almoçava com Finn por vídeo chamada. Contei tudo o que aconteceu na festa da Amber e ele ficou impressionado pela notícia do beijo gay de Tom. Achei que nunca viveria para ver Tom se aventurar no vale e por isso finalmente entendi quando Finn falava que "nunca" e "sempre" eram palavras fortes demais.
No meio da semana seguinte, decidi ir visitar Mitchell, que estava passando para a fase final da desintoxicação. Ele, segundos os médicos, estava mais agressivo e muito carente, além de ter crises alucinógenas e surtos com frequência.
No dia de visitá-lo eu gravei pro canal e mandei o vídeo sobre "sexualidade e sociedade" para meu editor e para a minha equipe. Em seguida eu troquei de roupa e fui diretamente para a clínica, ver como meu melhor amigo estava. Eu ia lá com frequência depois da primeira vez, assim como todos do time que gostavam de Mitchell.
Ninguém deixou Mitchell passar por essa barra inteira só, todos deram apoio, além de muitos fãs dele também irem lá para dar abraços, força e desejar melhoras. Naquele dia, quando cheguei, fui avisado que Mitchell estava com uma das piores crises de abstinência que tinha vindo durante todo o tratamento, mas mesmo assim eu queria vê-lo e não iria desistir.
– Mitch? – pergunto, entrando devagar em seu quarto.
– Fecha a porta! – responde em alto tom.
Quando Mitchell apareceu, entendi o motivo pelo qual na semana anterior as visitas a ele foram fechadas, permitidas apenas pra mim e sua mãe. Mitchell estava com um olhar baixo e com olheiras profundas. Sua aparência era magra e doente, seu rosto esquelético e seus cabelos oleosos, além de um corpo sem cor, deixavam Mitchell com uma aparência bem ruim.
– Você? Diz que você trouxe uma dose! – Mitchell grita, me segurando pela minha camisa com força.
– Não Mitch, eu não trouxe. – respondo, com calma. Eu não podia irritá-lo mais do que o efeito da falta da droga.
– Mas eu quero! Seu imundo! – ele fala, me soltando e passando a mão na cabeça. Seus olhos estavam arregalados, confusos, e eu entendi naquele momento o motivo pelo qual Liz só o visitava com seguranças.
Mitchell acabou correndo até o banheiro e começou a vomitar. Ele passou minutos daquela forma, até começar a chorar de dor na garganta. Ele então me olhou por alguns segundos, enquanto eu o observava da porta e se levantou, lavando sua boca na pia em seguida. Seus olhos estavam vermelhos pelo choro e seus músculos tensionados.
– Se acalma, por favor. – peço, suavemente.
– Você só pode gostar de sofrer... por qual motivo ainda vem aqui? – Mitchell pergunta e eu vejo um fio finíssimo de sanidade dele falando.
– Você é meu melhor amigo. – falo e imediatamente seu olhar muda. Se alguém que acreditasse em possessão demoníaca o visse daquela forma, iria jurar que ele estava possesso por algo, pois a forma como ele mudava de personalidade rapidamente era assustadora.
– Sou? Aaron... – se aproxima de mim, de forma súbita. – Você pode me trazer só uma dose? – coloca suas mãos no meu rosto e faz com que eu o olhe nos olhos. – Juro que vai ser a última, só uma dose. Nem precisa ser uma dose normal, pode ser metade.
– Não, Mitchell. – ele me empurra com tudo. Mitchell, então, dá diversos gritos ensurdecedores pelo quarto e puxa seus cabelos com força.
– E você ainda olha pra mim e me fala que sou seu melhor amigo? Eu tô te pedindo uma dose! Uma porra de dose! – Mitchell fala, apontando seu dedo indicador na minha direção.
– Mitchell... se acalma, você tá muito irritado.
– É claro que eu tô. Você chega aqui, olha pra mim e me diz que é meu melhor amigo, mas não me traz uma dose. – ele se joga no chão. – Eu não tô pedindo pra você me trazer várias, tô te pedindo uma dose... Por favor, Aaron... – implora, de joelhos no chão.
– Eu trouxe um livro pra você. – mostro um livro que eu tinha trazido pra ele, que estava sobre a mesa ao lado de sua cama.
– Eu não quero essa bosta. – Mitchell fala e se levanta rapidamente do chão, correndo até o banheiro e voltando a vomitar.
– Você não tá conseguindo comer, né? – pergunto, enquanto encosto no portal, vendo ele vomitar. Pode parecer nojento, mas eu já tinha tantos anos de amizade com ele, já tinha o visto vomitar tanto, quando estava bêbado, que nem ligava mais.
– Não. Eu quero uma dose, não quero comida. Até meu corpo rejeita... – Mitchell comenta, tentando me fazer chantagem.
– Você tem que se manter calmo nessa fase, essa sua irritabilidade pode causar parada cardíaca. – falo, percebendo que ele tremia e que em seu peito seu coração parecia querer sair pela garganta.
– Vai ser melhor morrer do que ficar como eu estou. – ele se levanta, dando descarga no vaso sanitário e lavando a boca e as mãos mais uma vez com sabão.
– Para. Você vai melhorar, é a heroína falando por você. – ele me encara.
– Aaron eu tô muito mal... quero me matar, eu quero morrer logo de uma vez.
– Mitchell... – o chamo, mas ele não me deixa falar.
– O inferno é melhor que isso.
– Eu tô com você. – digo, segurando seus braços. – Nós vamos superar isso juntos, como sempre fizemos. – ele me abraça com força.
Passei a tarde inteira com Mitchell. Ele teve crises de convulsão, vomitou muito mais e chorou bastante também. Mitchell, às vezes, se batia, mas eu conseguia o acalmar para que ele não fizesse coisas piores. Entendi o motivo pelo qual tiraram espelhos ou qualquer coisa que ele pudesse usar para tentar suicídio do quarto. Mitchell estava atordoado, magro e bem agressivo.
Em meio a palavras de carinho e agradecimento, às vezes ele vinha com comportamentos agressivos e altamente destrutivos, pedindo para que eu aliviasse sua agonia e lhe desse apenas mais uma única dose daquela droga que tinha acabado com quem ele era, mas é claro que eu o ajudei a ficar firme por todas às vezes que eu fui vê-lo.
Os dias foram passando e minha rotina na escola estava comum. Felizmente, Finn agora vinha com recorrência passar algum tempo comigo, mas nunca era nada que me fazia matar completamente a saudade dele. No sexo tudo tinha ficado mais intenso. Por conta das poucas vezes que nos víamos e com a recorrência da saudade, todas às vezes que ele acontecia, era para expressar o desejo em forma de agressividade na cama – o que era perfeito.
Meu time venceu o jogo que nos levou para as quartas de final e a cada jogo nos sentíamos mais próximos da vitória, mas sem perder ou tirar os pés do chão. 3 meses após a ida de Finn para o Texas, eu já estava me acostumando com aquele namoro a distância, mas não diminuía a minha saudade, tanto que fiz questão de deixar claro isso um dia antes do teste dele para piloto de teste da Mercedes.
No dia do teste dele, era uma segunda-feira fria em Denver. Tão fria, que foram cancelados os treinos e todas as nossas aulas foram dentro de sala. Felizmente, tivemos aulas de estudos sociais e língua inglesa para compensar a falta do treino e eram aulas que eu não desprezava completamente. De qualquer forma, não gostava quando isso acontecia, pois me lembrava que faltavam dias para as férias de inverno.
– Vai pra casa agora? – Alec pergunta, enquanto guardo alguns livros no meu armário.
– Vou, tô cansado de ficar na sala o dia inteiro.
– É um porre ensino integral. – Amber reclama.
– Sempre gostei. – Alec tira onda.
– Fica caladinho.
– Oi, Alec... – Evan fala, se aproximando do nosso grupo.
– Oi, Evan.
– Vai fazer o que hoje a noite?
– Nada...
– Vamos no cinema? – Evan fala e eu faço cara de "que casal fofo". Alec, então, me encara com uma cara engraçada que me faz rir.
– Bora dia 7 do mês que vem? Sai "Extraordinário"... queria muito ver. – Evan sorri.
– Então tá. Se cuida. –pede, dando um beijo na cabeça de Alec e sai andado.
Sim, Alec e Evan estavam em um relacionamento aberto. Eles tinham entrado nisso algumas semanas depois do aniversário da Amber e Alec me disse que estava feliz, mas eu não sei se esse tipo de relacionamento me faria feliz.
Enquanto andava até a saída, percebi uma pequena aglomeração na porta da escola de curiosos e por isso olhei para Amber e para Alec, que entenderam o recado e começamos a andar com mais pressa até onde todas aquelas pessoas estavam.
– Com licença... – falo passando por entre as pessoas.
No local estavam vários paparazzi, paparazzi esses que fazia meses que eu não via, eu sabia que eles me acompanhavam, mas eles nunca mais tinham me perturbado. Eles tiravam fotos frenéticas e quando enfim deixei meus olhos caminhando pelo lugar, encontrei os olhos verdes de Finn. Ele estava com um macacão preto da Mercedes com algumas marcas e encostado em um carro de Fórmula 1. Em cima do carro tinha seu capacete e ele logo sorriu quando me viu.
Nas mãos de Finn, tinha um buquê de rosas vermelhas e ele me olhava, esperando a minha reação, que foi ir até ele e o abraçar com força.
– Eu consegui, meu amor. – sussurra no meu ouvido e eu acabo deixando com que algumas lágrimas saiam de meus olhos.
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