Parte I
Sorriu quando eu reclamei do ranger da cadeira. Sentado, observei o sol se atrevendo janela adentro, apontando o centro da sala e acariciando a rotação preguiçosa do disco de vinil.
Acho engraçado como sempre soube tocar na ferida.
- Você sempre repete isso, mas nunca resolve!
Minha procrastinação em relação às coisas pequenas, feito óleo que nunca foi pras molas da velha cadeira de balanço, sempre te deram munição para me polir com a beleza de seu bom senso.
Ajeitou a agulha para a faixa seguinte, sem me olhar. Sua pele gritou sob o reflexo da luz, trazendo vida para o cômodo. Deitada, ao lado da vitrola, apoiou o lado da cabeça com o pulso. Sua nudez sempre contrastava lindamente com o tapete de veludo preto, ao centro da sala. Beleza curvilínea, clássica. Hipnotizante.
Daquela vez, verbalizei que eu nem sabia ao certo o motivo de termos uma cadeira de balanço. Se levantou, sorrindo. Veio até mim com os vivos olhos azuis apontados nos meus. Virou-se e repousou o peso do quadril sobre o meu. Alisei seus longos cabelos negros. Nos encaixamos. Dividimos o balanço da cadeira ruidosa.
- Vamos fazer um filho nessa cadeira - sussurrou, docemente.
Com o pé, puxou o tapete para perto, arrastando a vitrola sobre ele sem se descolar de mim. Esticou a perna direita, tensionando o dedão do pé. Sua unha rosada empurrou a alavanca do volume com delicadeza. Aquele jazz preencheu nossos ouvidos. Imaginei a floresta se alegrando com aquela canção, lá fora, compartilhando da trilha sonora. Nosso movimento, lento e apaixonado, seguiu o compasso do saxofone. O ranger da cadeira nos acompanhou, enfeitando a canção.
Nosso amor balançava. Esse amor me balançava.
As molas enferrujadas careciam da lubrificação que nunca lembrei de providenciar, mas nosso aconchego ficava cada vez mais escorregadio.
Suados e felizes.
- Sim, amor. Vamos fazer um filho. Agora - concordei.
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