28 de Março de 1951

Quarta-feira, 28 de Março

Senhores, para um homem como eu, que há meses se pôs de joelhos a uma mulher e não mais levantou, é no mínimo curiosa a sensação de estar — ao menos uma vez — ganhando. Decidi prolongar minha rejeição à cama de Mel por dias. Junto, claro, intensifiquei a minha indiferença a tudo que ela fazia parar chamar por minha atenção. Quando voltávamos do jantar, a minha doce menina sentava em sua cama, estendendo a perna pelo vão entre os dois leitos, tentando tocar o meu colchão com a ponta de seu pé. Chamava, em silêncio, por mim. Enquanto que eu, senhores, sequer depositava um olhar a sua tentativa. Senti-me tão triste nos três primeiro dias, meu coração definhou, suplicando-me para que eu tomasse aquele pezinho para mim, beijando-o e a acariciando-o enquanto falava de amor à minha menina. Ignorei a ela, ignorei a minha dor e a toda e qualquer tentação que ela me punha. Não tardou, senhores, para que meu querer em tornar a humilhar-me à Melinda transformasse-se em puro sentimento de triunfo. De forma dolorosa, fui eu deixando de ser parvo; vi-me por cima e, caros, não pretendo largar jamais a essa posição. Percebi, então, que me era muito mais vantajoso virar as costas aos encantos de Melinda do que prostrar-me a eles; minha submissão permitia que ela fizesse o que bem quisesse comigo. Fui tolo por muito tempo, não me importa, hoje estou acordado à Melinda e, o melhor, tenho-a da forma mais estreita que já pude.

De forma inútil, minha menina tentou sua última sacada contra mim. Começou quando eu lhe contei que voltaria a trabalhar. Depois de quase dois meses longe de uma renda fixa mensal, o dinheiro finito alertou-me de sua escassez futura. Para evitar qualquer confusão muito em breve, optei por começar o quanto antes. Isso implicava, claro, em deixar a minha Mel sozinha em casa, por um longo tempo. Por mais que meu horário batesse com o dos estudantes infelizes e que eu desconsiderasse uma traição por parte de Melinda, ainda me foi custoso demais permitir que essa ideia fosse para a realidade. E se, por um acaso, minha menina desse voz a sua natureza perversa e me traísse pelas costas? Por mais que eu tivesse certeza que traições amorosas fossem impossíveis da sua parte, desconhecia sua cabeça adolescente e volátil. Num dia, quem sabe, deixaria sua raiva se sobressair e chegaria a conclusão que nada me faria mais infeliz que uma traição sua. Ela que já se deu conta da minha indiferença, quer apenas uma reação da minha parte. Um beijo ou um toque em outro poderia trazer essa minha reação, ela pensaria. Chegando a esse pensamento infeliz, trair-me-ia.

Logo precisaríamos de dinheiro, não havia outro jeito senão eu começar a fazer os testamentos e divórcios que largara por décadas. Ao contar para Melinda que a partir da manhã seguinte eu teria que deixa-la sozinha por um tempo, seus olhinhos se abriam como um leque e ela levantou-se em um sobressalto, perguntando-me o porquê. Só por essa sua demonstração, eu soube ainda mais que aquela cabecinha não cogitava planos de ficar sozinha para trair-me. Estava claro como uma demão de sol que minha menina não pretendia — como sua cena fingida sugeria — ficar a sós com Cássio ou outro. Expliquei-lhe os motivos da minha ausência e ela se deu por satisfeita, não deixando de lado uma suplica que me pedia para não demorar muito nos trabalhos. Dei-lhe minha palavra, porém, sem que eu percebesse ou fosse minha intenção, cada dia chegava na pensão alguns minutos mais tarde; transformaram-se, então, em horas. Não era culpa minha, fora somente mais trabalhos que eu ia conseguindo e não rejeitando. De toda forma, Melinda julgou meu atraso como uma afronta pessoal a ela. Passou, então, a aproveitar-se da horinha mais atrasada que eu chegava — dentre as três às quatro da tarde —, para pôr em prática mais uma de suas tentativas para retornar a se sobrepor a mim. Depois das duas e meia, os dois infelizes estudantes já se encontravam na casa. Mel, meu doce mais amargo, tirou proveito de todas as conjurações que as horas formavam para atiçar meu ódio. Na primeira vez, cheguei e a encontrei em pé, conversando com Cássio que se sentava à mesa. Na segunda, lá estava ela lado a lado dele no sofá. Assim se foi indo minhas voltas para a pensão, com Melinda sempre levantando-se à minha presença e subindo para o quarto comigo. Eu não lhe repreendia, fazia parte da minha indiferença, sabia que era uma de suas manipulações para fazer-me ajoelhar-me aos seus pés e jurar amor eterno. Mais uma vez, fiz o contrário. Mas meu ódio era tanto, senhores, que passei até a investigar a vida do rapaz imbecil, atrás de algum podre que lhe arrastasse para uma prisão, para o inferno, a distância que fosse! No entanto, o rapaz era sem graça e nada tinha senão vinte anos e um tom pedante na voz. Enquanto eu dava a Mel o meu desprezo, ela me corroía por dentro. Meu triunfo, que outrora se encontrava nas alturas, despencou. Oh, lá estava ela conseguindo o que queria! Mas eu já tinha tanta raiva que me tornei incapaz de pôr-me novamente às suas vontades, tive nojo das vezes que voltava para casa e a via com ele no sofá, acabando com seus risos assim que eu punha o pé dentro.

Há cinco dias, senhores, dado por terminado meus afazeres jurídicos do dia, procrastinei pela rua, adentrando em becos, rodando a praça Raul Soares ao menos umas sete vez. Estava disposto a dormir ali para não ter que voltar à pensão e ver a cena que atrapalhava meu sono e minha vida. Era tudo aquilo fingimento, sabia. Mas sentia falta de ama-la, de proibi-la de suas inconsequências, dar-lhe meus beijos tão íntimos e de juntar nossas camas no final do dia. E o sorvete de creme? Há tanto não lhe dava, há tanto não sugava da boca dela aquele sabor! Naquela noite, o cume do meu desespero fora tamanho que soube; se eu colocasse o pé na pensão, iria ajoelhar-me para ela. Pediria perdões pelo nada, clamaria por seus beijos e dormiríamos juntos como antes. Colocaria tudo a perder, então. Mas que tudo, perguntei-me? Estava cansado de despreza-la! Que eu corresse para aquela pensão e me enfurnasse em seu abraço! Não fiz a isso senhores, ainda bem que não. A vontade de regressar era grande — crente que minha indiferença de nada havia adiantado —, mas meu ódio fora maior. Quer tentar fazer-me ciúmes com supostas traições? Pois bem, eu traio de verdade. Nem sei se encontrarão lógica nisso, caros, mas para mim fez — e faz — todo o sentido.

Juro-lhes, senhores, que jamais toquei em Melinda. Dei-lhe meus beijos, meus carinhos, mas nunca transpus para além de suas roupas. Desejo nunca me faltou — e não me falta —, mas nunca aconteceu dela demonstrar querer-me de tal forma. Aguardava impaciente por alguma reação de sua parte, no entanto, sempre permaneci um cavalheiro nesse aspecto. Porém, meus desejos carnais de homem estavam — e estão — longe de terem desaparecido. Acontece que, desde que Melinda tornou-se minha vida, não deitei com ninguém. Quando ainda morava em Vila Doracy, sequer pensava nas mulheres da vida de Ouro Branco. Não imaginava que um dia teria Mel, tampouco imaginava-me com ela de modo tão íntimo. Minha reclusão da vida carnal se deveu a minha falta de interesse e a minha total dedicação a essa menina. No entanto, meus desejos eram muitos e poderiam ser bem usados naquela situação. Eu a trairia em silêncio. Nem tinha certeza se isso a afetaria ou não, mas naquela hora me fora sensato pensar que um dia — não muito distante — poderia eu jogar-lhe na sua cara juvenil que havia dormindo com uma mulher — ou mulheres.

É com imensa vergonha que admito-lhes que fui até um bordel, o primeiro que vi, não muito longe da Rua da Bahia. Mas, oh, senhores, quando entrei naquele ambiente deplorável e dei a minha visão àquela cena que nada tinha de bela... quis minha Mel. Tive ainda mais vontade de voltar correndo para os seus braços, já nem estava tão distante deles. Forcei-me a ficar, pedi uma bebida, sentado sozinho no balcão enquanto algumas mulheres repugnantes insinuavam-se para mim. Cansado e sentindo um mal estar nauseante, larguei a cadeira de modo abrupto e raivoso — assustando até a alguns —, deixando o lugar com uma penca de culpa por me submeter aquilo. Que estava pensando eu? Sujar-me de mãos imundas, beijar uma boca que não fosse a da minha menina, tudo para provar-lhe algo. Exausto de fingir menosprezo por minha Mel, retornei à pensão, pronto para retroceder a todo o progresso que havia feito. Quando entrei, os vários pares de olhos dos hospedes desceram em mim, estavam todos exatamente como nas outras noites, reunidos na sala. Melinda estava junto a eles, não com o imbecil, mas sozinha no canto, olhando para uma janela que dava para uma parede. Ao me ver, exclamou um Pai! E correu para mim, colocando-me dentro de seus bracinhos.

— Por onde andou? — perguntou-me com a voz prevendo lágrimas.

Oh, como fui besta! Lá fui eu correndo para aquele edifício, pensando em prostrar-me de novo a Melinda e voltar a ser menor que ela. A menina estava em meus braços, quase chorando por minha ausência, burrice seria jogar para os ares todo aquele progresso.

— Na rua — respondi-lhe, com o meu triunfo voltando com tudo.

— Perdeu o jantar — alertou Vânia do outro lad0.

— Já contava com isso. Vamos, Mel, já deve estar tarde.

Subimos e deixei que ela fosse sozinha para o quarto; tranquei-me no banheiro e, apesar de me sentir vitorioso, chorei. Lastimava-me enquanto olhava para o espelho e sentia-me puro nojo por ter premeditado fazer tal coisa com a minha menina. Tão inocente e pura! Seria traída por um capricho meu. Estaria meu olhar a denunciar que eu fui um infeliz? Lavei o rosto, esperei que ele cessasse com a vermelhidão, e parti para o quarto. Quando entrei, tinha minha menina tinha juntado em uma só as duas camas que há semanas não ficavam juntas. Deitada nelas, Melinda me encarava com toda ternura desse mundo.

— O que está olhando? — quis saber — Não gostou? Pode voltar com a sua cama se quiser.

Era mais uma de suas brincadeiras. Queria, com aquela sugestão, fazer-me abraça-la e agradece-la por aquele gesto de carinho. Pode voltar com a cama se quiser. Que resposta poderia eu dar-lhe para que minha indiferença permanecesse a mesma?

— Estou cansado demais para fazer qualquer coisa....

Com isso, deitei-me, minha costas virada para ela. Bastou meio segundo para que minha Melinda estivesse com a mão englobando minha barriga, apertando seu corpinho contra o meu. Sussurrou um "senti sua falta hoje" e beijou meu pescoço. O gosto da culpa subiu pela minha garganta, a vontade de ama-la enrijeceu minha pele. Dane-se, se estava ela a ser tão carinhosa e amável, fora porque tinha medo que eu fosse embora para nunca mais, temia perder-me. Desejava pelo meu amor e só demonstrava porque fui-lhe indiferente. À sua fala, acariciei um pouco a sua mão, depositando um carinho em meio ao meu desdém. Não é viável ser neutro durante todo o tempo, é mais que necessário uns arroubos momentâneos, para que a ternura continue a morar em Mel; um beijo ou um cafuné aqui acolá... fazem-se essencial para que ela saiba que não estarei isento de carinho; só precisa continuar tentando me agradar e eu lhe darei. Nunca exceder é a regra fundamental; num instante volto a ser o submisso que eu era.

Na manhã seguinte, enquanto eu calçava meus sapatos para partir, Mel olhava para a vista da janela, com ar despretensioso, parecendo meio ansiosa para começar um assunto. Não tardou para que falasse e a dar-me toda a reposta do porquê de sua última atitude com Cássio.

— Sabe... o senhor vai demorar hoje? — perguntou como quer não quer nada.

— Por que quer saber?

Deu de ombros, desencostou-se da janela e cruzou os braços.

— Bem, por nada. Apenas me sinto muito sozinha sem o senhor aqui... por isso ando ficando mais com os meninos....

Oh, senhores, estava ela — com suas conversas e risadas com o imbecil — tentando fazer-me mais presente. Há um fundo doce nisso tudo, mostra-me que não estou errado em acreditar que Melinda me ama mais do que penso. Tentou, com sua fala, deixar-me inquieto pela possiblidade de larga-la cada vez mais e ela ir atrás de outro. No entanto, mal sabia que confessava-me seu amor por mim. Chegava a ser doce ver minha menina revelando seus pensamentos mais íntimos de forma tão banal; já havia eu notado tudo.

— Aqueles dois lá? E têm eles algo na cabeça?

— Achei que não gostasse da minha presença com eles....

Estava ela tão inquieta com meu silêncio sobre a situação! Implorava para que eu a proibisse de algo.

— Bem, se tem juízo, não fará coisa que me desagrade, acho que tem...

Havia proibição mais impessoal que essa? Não vinha acompanhada de juras de amor, nem me rebaixava abaixo dela. Elevava-me e me punha em posição superior a de Melinda. Devia ela temer-me e amar-me. Amou-me na noite anterior e agora estava a me temer.

O trabalho daquele dia tratei de terminar mais cedo, voltando para a pensão um pouco depois das quatro, a fim de dar um agrado à minha menina. Talvez pudesse ela me dar um abraço e passaríamos o resto daquela tarde juntinhos. Mas, senhores, lá se foi meu bom estado de espírito quando cheguei. Melinda não estava com Cássio, mas com os dois imbecis, um de cada lado, espremendo-se no meio do sofá. Suas cochas fazendo fronteira com as deles, os braços dos infelizes passando pelos ombros da minha Mel. Empalideci de raiva! Talvez fosse hora de acabar com aquela minha passividade e dar àqueles dois um soco de cada lado do rosto. Trancaria Melinda no quarto e ela continuaria submissa a mim, amuada, porém obediente.

— Pai, o senhor chegou tão cedo — disse minha menina, saltando para fora dos dois moleques.

— Contava com meu atraso? — perguntei-lhe, tomando pela cintura e fazendo com que ela subisse comigo.

— Está bravo? Eu lhe disse que me sinto só... fico com eles porque não há mais ninguém....

Joguei-a contra a parede do corredor, aquela cínica criatura olhando-me assustada.

— Eu lhe empatando de algo? Não!

— Por que fica assim tão bravo, então?

— Não estou com raiva, Melinda, eu estou exausto de você — soltei-lhe da mesma forma brusca e continuei seguindo — Faça o que bem entende, tenho eu minha coisas, também.

Diferente do que presumi, minha menina não continuou a andar comigo de volta para o quarto. Esperei alguns minutos e vendo que não havia rastro seu, procurei no banheiro e no andar de baixo. Não achando, tive um leve pânico por cogitar que ela havia fugido, triste pela forma como eu a tratei. Porém, Vânia me contou que ela havia saído com os dois imbecis, acrescentando um "O senhor não sabia? Ela me disse que havia lhe pedido". Irado, saí pela rua, gastando alguns minutos tentando localiza-la. Sem sucesso, desisti e prometi que quando ela retornasse, minha passividade teria um fim. Esqueceria dos dois infelizes, iria eu corrigi-la. No caminho de volta para a pensão, topei de frente com o bordel do dia anterior. Por que não? Pensei. Estaria Mel com a boca grudada nos lábios daqueles dois desgraçados, as mãos deles pegando em seu corpo que era só meu! Lágrimas, caros! Quase chorei em frente ao estabelecimento insalubre. Nenhuma dor era comparável àquela de pensar em minha inocente Melinda depravando-se com seres tão desprezáveis.

Chovia quando entrei, ávido por qualquer coisa. Aceitaria amor, ódio, carinho ou chibatadas. Meu estado nunca foi tão mínimo e decadente quanto naquela noite. Minha parte impura dizia-me que já era hora de voltar a tocar pele humana, fazer o que há muito eu havia largado pela cegueira que Melinda acometera meus olhos antes tão lúcidos. Ela era preferível a qualquer mulher desse mundo, os imbecis talvez já tivessem se dado conta disso também. Oh, aquelas peles juvenis se tocando! Esbarrando-se, querendo-se, servindo somente ao desejo. Que tinha eu para minha Melinda? Por que agia da forma a mostrara tanto apego por mim, quando sua outra face ela oferecia a outros? Não a entendia em nada! Tinha eu que oferecer minha carne à outra ou não aguentaria passar daquela noite. Melinda com outros, oh, tudo bem, meu anjo, meu amor! Estarei com outras também!

Uma das infelizes almas me abordou, perguntando-me se era eu ontem a ter saído com pressa, passando a mão por minha cocha. Respondi-lhe que sim e pedi por um quarto. Em quatros paredes, aos beijos que não angariavam reação alguma de minha parte, pedi que parasse quando começou a desabotoar minha camisa. Não queria aquilo. Meu corpo e meu coração pertenciam a Melinda! Larguei aquela carne odiosa e corri na chuva até a pensão. Não, senhores, eu não estava disposto a encontrar minha Mel e a declarar-lhe meu amor. Eu estava odiando-a por fazer aquilo comigo. Queria despedaça-la para depois juntar tudo de novo e beijar até o fim da minha vida. Como a amava-a! Não suportava saber que em algum canto daquela cidade ela pudesse estar a serviço de outros. Meu amor, meu mel tão amargo!

Voltei para a pensão e, com isso, voltei para ela. Estava no quarto, com o cabelo meio úmido, as roupas molhadas de chuva para secar na cômoda. Havia saído, aquela boca que eu olhava havia tido outra há pouco. Aquele cínico ser, tão puro e terno, correu para mim e antes que me tocasse, dei-lhe um tapa tão forte que seu corpo desabou, seu choro fino vindo logo depois. No chão, um fio de sangue escorria pelo nariz, apalpou-o, olhou-me incrédula.

— Diga-me, confesse o que fez hoje!

— Nada! — protestou — Eu sai com os meninos, íamos tomar sorvete, começou a chover, pedi para voltar... eu...

— Sem me pedir? Para fazer-me raiva?

— Eu o vi! — gritou, levantando-se e jogando um dedo acusatório ao ar — Enquanto voltávamos, vi o senhor entrando em um... — parou em um soluço de choro — Como ousa me acusar de algo quando o senhor faz aquilo? Odeia-me! Ignora-me, passou a me tratar diferente. Tudo isso porque não consegue me ver além de uma pessoa a quem beija. Não sou nada para o senhor! Mentiu! Mentiu o tempo todo! Trata-me agora assim porque arranjou outra! Eu lhe falei que isso ia acontecer!

Melinda virou-se para a parede e começou a soca-la, indo e voltando com a sua cabeça, enquanto esperneava.

— Eu te amo! Eu te amo tanto! Amo o senhor! — sua voz vinha abafada, carregada de choro e estridente.

Toquei suas costas e a fiz olhar para mim, seu rosto vermelho de choro e o sangue se misturando com as lágrimas.

— Não me ama como filha, não é?

— Amo-a de todas as formas, Melinda! Sabe disso.

— Se me amasse como filha, jamais me abandonaria. O senhor está me abandonando! Disse que estava exausto de mim! Não vê? Quem cuidará de mim senão o senhor?

— Ouça, Mel, o que viu... — poderia desmentir, falar-lhe de como me senti sujo e de como ela era a única mulher que eu queria ter, mas Melinda gritava o seu amor, berrava ao mundo que me amava, jamais conseguiria coisa igual se ela continuasse a desconsiderar a possiblidade de abandona-la — É somente algo carnal. Sou um homem, não percebe? Tenho as minhas necessidades. Não te amo menos por isso e não há por que lhe abandonar.

— Está me largando justamente por isso! Faz semanas que vem me querendo mal, hoje tive a reposta do porquê!

— Sou o mesmo de antes. Talvez esteja um pouco com raiva, mas...

— Por causa dos meninos? Esqueça-os! Jamais irei falar com eles novamente se me prometer que nunca mais irá voltar aquele lugar ou a outro do tipo. Prometa-me, Gregório, fale para mim que não irá me largar! Já disse-me muitas vezes isso, mas há muito não diz! Desistiu? Cansou-se de mim?

Minha menina, tremendo de choro, os cabelinhos grudados na pele e a respiração descontrolada. Pedia-me pelo meu amor e eu não pude fazer outra coisa senão dar-lhe. Agarrei-a, meu rosto grudado em sua bochecha, seu cheirinho tão bom se espalhando à medida que eu passava meu nariz por sua pele. Como eu a amava! Desesperava-se por nada. Não havia a traído, tampouco ela a mim. Fieis um ao outro, não respondi a sua pergunta. Ao invés disso, chorei junto, no mesmo ritmo de suas soluçadas. Ela gritava, ordenando que eu dissesse o que ela queria ouvir.

— Oh, Mel! Nunca mais chegue perto deles de novo, ouviu? Nunca! — apertei-lhe o braço, aos prantos com ela, enquanto sentia sua pele ficar gradualmente quente e avermelhada pela minha força depositada; não conseguia parar, desejava, antes de tudo, ver seu rosto frente à dor — Ouve-me, Melinda? Eu te amo!

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