XXXIII - Um Só

Durante um mês, só sabíamos pensar no casamento. Os preparativos estavam a todo vapor, mesmo que da forma mais discreta possível, para não chamar muita atenção, principalmente porque Miranda não deveria saber o dia. Era o mais seguro a ser feito.

Miguel e eu já havíamos comprado um apartamento no centro da cidade, mas a reforma e a mudança só deveriam ficar prontas nos próximos meses.

...

Foi então que o grande dia chegou. Cheguei ao cartório do centro da cidade com quase nada de atraso e Miguel já estava lá. Vestia um terno preto aberto, com uma camisa branca e uma gravata cinza, enquanto eu vestia um vestido branco e justo, 3 dedos acima do joelho, era tomara que caia, com duas fitas grossas trançadas nas costas. Nos braços, luvas que iam dos cotovelos até os pulsos, feitas de renda branca.

Ele me buscou na porta e me levou de mãos dadas até a mesa onde o juiz de paz já nos esperava. Chamamos apenas Karla, Manoel, minha mãe e Fernando Fernandes, mas era estranho vê -lo olhando para mim e sorrindo conforme eu passava por ele.

...

Enquanto a cerimônia acontecia, sem percebermos, Miranda observava tudo pela janela lateral, escondida o suficiente para não ser vista. Quando o juiz disse que já estávamos casados e que já podíamos nos beijar, uma lagrima desceu pelo rosto da minha irmã. Mas ela não a limpou, pois precisava aliviar tudo o que estava sentindo naquele momento: uma mistura de dor, de ódio. Foi então que uma mão tocou seu ombro.

— Sério que vai ficar aí sofrendo?— Era Felipe, que acariciava lentamente seu cabelo por trás.

— E você não tá?

— A Maria é muito bonita e tal, mas não vou ficar sofrendo porque ela se casou com o Miguel, já que tem outras tão ricas e tão bonitas quanto ela.— Ele olhou para Miranda.

— Nem nos seus melhores sonhos.

— Qual é Miranda, eu sou bonito, sou rico... E sem falar que temos quase o mesmo caráter e somos mimados. Somos perfeitos um pro outro.

— Você se acha, não é? Você e eu não somos iguais.

— E o Miguel é?

— Sim, já você é só mais um mauricinho que daqui a pouco vai vender o carro pra comprar drogas porque se viciou enquanto tentava se fazer de descolado. Faça -me o favor!

Felipe a segurou pela cintura.

— Eu posso te fazer rica e poderosa.

— Mas não vai me fazer feliz, e não vou cair na sua armadilha Felipe Fernandes. Fica com a sua empregadinha com cheiro de morango, eu ainda tenho uma última carta na manga.

— Ainda vai tentar separar a Maria e o Miguel?

— Não vou tentar, eu vou conseguir._ O ódio fervilhava em seus olhos enquanto ela se virava e ia embora.

...

Depois que abracei Karla, Manoel e minha mãe, Fernando Fernandes se aproximou.

— Será uma honra tê -la como nora.— Sorriu e me deu um abraço.

— Pra mim também será uma grande alegria.

— Pode contar comigo para o que precisar, viu? E me desculpe se algum dia te causei uma má impressão a ponto de te fazer pensar que eu havia assassinado o seu pai.

— Eu que tenho que pedir...

— Não diga nada, não precisa pedir desculpas. Vamos começar do zero_ Ele segurou minha mão_, sem mágoas, sem rancor, sem ressentimentos. O que acha?

— Eu acho uma excelente ideia._ Sorri, mas era claro que não seria assim. Eu continuava determinada a provar sua culpa na morte do meu pai, nem que para isso tivesse que contar toda a história a Miguel, mesmo que tivesse que morar no covil dos Fernandes para espioná -lo melhor.

...

Almoçamos em uma churrascaria famosa na cidade para comemorar, logo que pedimos a conta, Miguel disse:

— Maria, vamos sair daqui direto pra casa,você vai arrumar a sua mala e vamos correndo para o aeroporto.

— Pra quê?

— Achou mesmo que ia ficar sem lua de mel?— Ele me entregou uma passagem.

— Vamos pra praia?

— Sim, acho que chegaremos até o fim da noite.

— Você é louco? O voo é em algumas horas!

— Então se apresse._ Ele pagou o garçom_ Passo pra te buscar na sua casa._ Me beijou e saiu.

...

— Você sabia de tudo, não sabia?— Perguntei para Karla enquanto ela me ajudava a colocar as roupas na mala.

— Dessa vez eu juro que não escondi o segredo de ninguém, o Miguel não me contou.

— Só ele mesmo pra me fazer viajar pra lua de mel sem ter comprado roupa nova, biquíni...

— Ele quer te ver na lua de mel como você realmente é.

— Mesmo assim podia ter me deixado comprar roupas novas.— Olhei para a mala cheia— Acho que acabamos.

— Eu também acho, qualquer coisa você compra lá.

— Oie!— Miguel apareceu na porta do meu quarto.

— Mas já?

— Vim te esperar pra levar as suas malas.— Me beijou.

— Que cavalheiro!— Karla comentou sorrindo— Espero casar com um desses.

— O Manoel é um cavalheiro, Karlinha.— Brinquei.

— Já começou com a graça...— Ela fez cara de brava— Eu vou procurar o Manoel mesmo e deixar os recém -casados a sós, com licença.— Ela saiu, mas, na porta do quarto, deu de cara com Miranda.

— Já tô sabendo da festa.— Minha irmã encostou na porta— Só não entendi por que não me chamaram.

— E você nem imagina o motivo?_ Perguntei da forma mais irônica que consegui.

— Não, não imagino. Aliás, nem eu e nem o meu namorado, Felipe, entendemos. Só desejo que vocês sejam felizes e que não se arrependam da decisão que tomaram.

— Não vamos nos arrepender Miranda.— Miguel falou— Pode ter certeza disso— Vamos Maria? Já estamos atrasados.

— Vamos sim.— Peguei minha mala, mas Miguel a segurou.

— Deixa que eu levo.— Sorriu.

Nos despedimos de todos e descemos até o carro. De lá seguimos para o aeroporto mais próximo.

...

A viagem foi relativamente rápida e tranquila e chegamos ao litoral no início da noite.

O hotel onde ficamos era luxuoso e de frente para uma praia particular de água quase cristalina. Nosso quarto era na cobertura e tinha uma janela gigantesca por toda a extensão da parede.

— Nada particular, eu diria.— Miguel brincou assim que abrimos a porta— Ei, o que está fazendo?— Ele me segurou quando eu ia entrar.

— Tô entrando, ou vou passar a noite aqui do lado de fora?

— Claro que não, eu vou te carregar no colo. Você é a noiva.

— Não precisa de toda essa palhaçada, sabe que eu não gosto de tradições.

— Mas eu sim. Deixa eu te carregar, não tem mal nenhum nisso.— Ele sorriu.

— Tudo bem, me convenceu.— Sorri e ele logo me pegou no colo, me levando para dentro.

— Quer comer alguma coisa ou tomar banho?

— Preciso de um banho.

— Vai lá então, eu vou ver como fazemos pra pedir comida enquanto isso.

— Beleza então.— Fui até o banheiro.

Voltei alguns minutos depois, vestindo um vestido preto e longo, de alça e gola alta. Miguel havia me avisado que iríamos sair para jantar enquanto eu me preparava para tomar banho.

— Você tá linda.— Sorriu.

— Obrigada.— Sorri de volta e o beijei.

— Me espera tomar banho? Um segundo.

— Claro que sim, vai lá.

Ele correu até suas coisas e pegou uma roupa, depois correu para o banheiro.

Pouco tempo depois já havia voltado, incrivelmente gato com uma calça preta, camisa social branca e paletó preto.

— Acho que estamos indo pra um baile de gala.— Brinquei.

— Vai ser o nosso baile de gala.— Ele sorriu e me beijou.

...

O jantar foi em um elegante restaurante da cidade. Depois de comer, dançamos por muito tempo, até ficarmos cansados, e decidirmos voltar para o hotel, pois a noite ainda prometia muitas coisas.

Assim que entramos, eu reparei novamente na grande janela.

— Acho que não vamos ter muita privacidade com essa janela gigante.

— Isso não é um problema.— Ele foi até lá e fechou lentamente a grande cortina vermelha—Satisfeita?

_ Ainda não._ Sorri e ele se aproximou, também sorrindo.

Me beijou e começou a abrir lentamente o vestido, e eu fazia o mesmo com sua blusa, o paletó já jogado na cama. Não era a primeira vez que fazíamos aquilo, nossa primeira vez na cachoeira havia sido mágica. Mas estar ali, novamente unida ao homem que agora eu tinha o privilégio de chamar de marido, fazia com que borboletas parecessem voar no meu estômago e o nervosismo se misturasse com o prazer, tornando aquele momento ainda mais intenso.

...

Acordei abraçada ao Miguel no dia seguinte, e sentir sua respiração era a mais viva prova de que aquilo que estávamos vivendo era real. Olhei para ele e vi que já estava acordado.

— Bom dia bela adormecida.— Ele sorriu e me beijou.

— Já tá acordado há muito tempo?

— Tempo suficiente pra te ver dormir como um anjo.— Sorriu e eu sorri em resposta— Agora somos só nós, e ninguém mais vai poder nos impedir de sermos felizes. A partir de agora eu sou o Senhor M. Fernandes e você será a Senhora M. Fernandes.

Ele estava sorrindo, mas percebeu que eu havia deixado de sorrir. Foi naquele momento que eu percebi que não somente havia me casado com o filho do assassino do meu pai, mas também carregaria pelo tempo que estivesse casada com Miguel aquele sobrenome maldito.

— O que foi Maria? Se não quiser usar o Fernandes, não tem problema, pode continuar sendo Soares. Se você quiser, eu viro Soares. Também acho caretisse a mulher ter que ficar com o sobrenome do marido. Podemos mudar isso, não tem problema.

— Não, não é isso.

— Então... Por que o seu sorriso sumiu de repente?

— É que eu ainda não acredito que é real. É como um choque de realidade todas as vezes que você fala alguma coisa que me lembra que estamos casados, é tudo tão novo pra mim.

— Pra mim também, mas vamos descobrir juntos o que é um casamento. Você vai me ajudar e eu vou te ajudar.— Ele me abraçou— Agora somos um só.

— Um só.— Repeti

Meu amuleto me protegeria do ódio, e tudo de mal que eu desejava para Fernando Fernandes e sua família iria desaparecendo ao longo do tempo. Talvez um dia eu contasse da vingança para Miguel, afinal, se éramos um só, não deveríamos ter segredos. Mas isso seria outro dia, porque naquele momento eu só queria ser a mulher dele e ter a certeza de que ele era meu homem.

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