XXXI_Um novo tempo
Felipe estava debruçado sobre o parapeito do terraço de pedra, virado de frente para a plantação, de onde felizmente não podia ver a Miguel e a mim. Mas ele também não se incomodaria, felizmente estava com o olhar fixo em toda aquela imensidão.
- Está pensando em quê?- Miranda chegou atrás dele- Em como conseguir conquistar a Maria depois que ela terminar com o Miguel?
- Em tudo isso.- Ele continuava olhando para o horizonte, então Miranda se posicionou ao seu lado e forçou os olhos tentando ver do que ele estava falando.
- Na plantação?
- Em todo o poder que isso nos proporciona. E quanto poder poderia nos proporcionar.
- O que quer dizer com isso? Tá querendo a Maria só por poder?
- Não somente por isso, mas você tem que entender que a vida não é feita só de amor. Um casamento vantajoso pode te proporcionar bons frutos, e esses frutos vão ser colhidos pelos seus filhos, pelos seus netos... A gente não tem que escutar só o coração, porque todos sabemos que amor não enche barriga e nem te dá poder.
- Tá falando que o Miguel não seria um casamento vantajoso pra mim?
- Não tô falando de você.
- Então tá falando da sua garota que tem cheiro de morango? Não tenho te visto lá na plantação ultimamente, talvez tenha ido embora.- Ela percebeu o olhar triste de Felipe olhando para aquela imensidão, como se ainda procurasse a mulher que tanto amou- Pera, ela realmente foi embora e você tá magoado por isso?
- Ela foi só uma aventura.
- Mas uma aventura que te marcou muito pelo visto.
- Ela é uma pobre coitada, não tem sobrenome, não tem dinheiro, não tem nem família verdadeira, é só uma pobre órfã.
- E você é rico demais, isso não seria problema.
- Sim, seria. Meu pai nunca aceitaria me ver casado com uma empregada. Ela trabalha pra mim!
- Você tá apaixonado, e tá tentando disfarçar pensando que não seria bom continuar com isso.
- Vai pro inferno com essa sua história de amor, não vai conseguir me fazer virar um apaixonado histérico como você!- Ele saiu pisando forte.
Miranda escutou que Miguel e eu ríamos na cachoeira e foi olhar o que era. Desceu uma escada de três degraus que levava do terraço à trilha para a cachoeira, caminhou morrinho abaixo em direção à borda e, de lá, atrás de uma árvore e alguns arbustos, ficou observando seu pior pesadelo virar realidade.
...
- Eu nunca me senti tão feliz em toda a minha vida!- Me joguei na água, já depois de recolocar a calça e a blusa, e comecei a boiar.
- Eu sabia que isso te faria feliz meu amor, que tudo isso te faria feliz.- Miguel apoiou sua mão atrás das minhas costas.
- É o início de uma nova fase na minha vida!- Sorri- E devo isso a você meu amor, você me fez ser uma mulher diferente.
- Você é a mesma, só não tem mais esse medo agora. E é claro, agora me conhece mais que nunca, assim como eu te conheço também.
- Meu Deus você me trouxe aqui pra me sentir perto do meu pai e agora eu me sinto como se tivesse acabado de transar na frente dele.
- Ok, então vamos mudar de assunto.- Ele sorriu.
- Mas agora, falando sério, eu te garanto que a partir desse momento, do momento em que perdi o medo de mergulhar aqui, a minha vida mudou por completo. Eu te garanto, e vou te agradecer sempre por isso. Libertou a alma do meu pai com essa atitude e ainda me fez a mulher mais feliz do mundo com o que veio depois.- Eu o abracei.
- A minha alegria é te ver feliz meu amor, por falar em felicidade, eu... Eu quero te fazer uma proposta.
- Que proposta?- Olhei assustada para ele.
- Eu não tenho aliança, mas quero te pedir aqui, nesse lugar que é tão especial pra você, nesse lugar onde você sente a presença do seu pai, onde nos amamos pela primeira vez... Quero pedir que você se case comigo. E aproveito a presença do seu pai pra pedir a sua mão pra ele também.
Eu não podia estar escutando aquilo, não acreditava no rumo que tudo aquilo havia tomado. O desejo de me vingar do assassino do meu pai havia me jogado nos braços do filho dele. E eu estava sendo pedida em casamento naquelas águas, nas águas que ainda tinham o sangue do meu pai e que tinham todo o amor que Miguel e eu agora sentíamos um pelo outro.
- E então...- Ele continuou- Você... Você quer casar comigo?
Eu estava sem palavras, nada saía, não sabia o que dizer, não sabia sequer se era certo. Se eu conseguiria viver a vida inteira ao lado do filho do homem que mais me havia feito mal, se eu conseguiria, algum dia, ser sincera com ele em relação aos motivos que me faziam ter tanta obsessão por Fernando Fernandes. Mas de alguma coisa eu sabia: eu queria tentar, eu queria descobrir.
- Eu... Sim, quero me casar com você!
Nos abraçamos e depois nos beijamos. Um novo tempo começava, um tempo de amor, um tempo de alegria, um tempo sem vingança, sem ódio.
...
Ainda escondida atrás da árvore, Miranda nos observava quando uma lagrima desceu por seu rosto.
- Ainda apaixonada pelo Miguel?- Uma mão tocou seu ombro, e quando ela se virou viu Juliano.
- Achei que você não ia voltar.- Ela sorriu e o abraçou.
- Eu disse que voltaria, não disse?
Miranda olhou para a cachoeira e viu quando Miguel e eu saímos da água.
- Vem comigo._- Ela puxou Juliano pela mão e eles desceram chiando por um pequeno barranco até a beirada do rio que descia da cachoeira, onde Miguel e eu não poderíamos vê -los.
- O que foi?
- Não quero que os pombinhos me vejam assim.
- Você tem que superar isso Miranda.
- Eu já superei.- Ela enxugou as lágrimas que tentavam descer por seu rosto_ Já tô até com o Felipe...
- Você não me engana, eu te conheço.
- Como pode dizer que me conhece tão bem assim?- Ela pegou uma pedra e atirou na água para que planasse sobre aquela camada penetrável.
- Simplesmente te conheço.
- Sinto em te informar que você não me conhece o suficiente. Te contei uma boa parte da minha vida enquanto estava no hospital, mas não conhece meus sentimentos.
- Eu só tô querendo te ajudar porque não quero te ver sofrer. Não quero te ver desiludida com o Felipe.
- Pode ficar tranquilo que eu já me desiludi muito nessa vida. Felipe não será o primeiro e, pro meu bem, nem o último, mas tenho que experimentar.
- Só quero abrir seus olhos e te fazer enxergar que o amor vai além do que você já conheceu.
- Eles já estão bem abertos. De verdade Juliano, eu te acho uma pessoa maravilhosa e te agradeço por todo o carinho que tem comigo, acho que depois do Manu você é a única pessoa que se preocupou assim. Mas eu não preciso de uma babá o tempo inteiro. Você cuida demais da minha vida e isso me cansa!
- Se isso te cansa eu já vou, porque o que eu menos quero é te fazer mal.
- Não tô falando isso.
- Não Miranda, eu já entendi e não tô chateado.
- Tá sim. Eu só tô falando que você não pode me colocar dentro de uma bolha e me proteger de todos os perigos porque eu tenho que experimentar e aproveitar essas experiências pra crescer como pessoa. Eu já tô grande, já sou uma mulher, mas parece que nem você e nem o Manoel entendem isso!
- Eu já entendi e você tem razão. Não é justo que eu continue te prendendo em uma bolha como tô tentando fazer. Mas caso você se decepcione, eu vou estar aqui, é só me procurar.
- Eu sei que vai estar!- Ela o abraçou.
Juliano sorriu, depois se virou, subiu o barranco e foi embora. Miranda continuou sentada onde estava, olhando para a cachoeira.
- Ai Papai, por quê você teve que morrer?- Ela chorou- Por quê?
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