XLIII_Fim? (Capítulo Final)
— Precisamos levar as duas pra um hospital, esse sangue todo não é só da Maria.— Karla falou assustada.
— De onde tá vindo o sangue da Miranda, ela tomou um tiro também?
— Não, parece que tá vindo da...— Ela percebeu que o sangue já manchava toda a calça da minha irmã— Tem alguma chance de a Miranda estar grávida? Porque é como se ela estivesse sofrendo um aborto.
— Então temos que correr mais ainda e levar as duas ao mesmo tempo. Você dirige?
— Não na estrada e com essa pressão, vou chamar o Manu, onde ele tá?
— Ele tinha ido pra cachoeira pouco antes do barulho.
— Pera ele... Ele tava na cachoeira?
— Acredito que sim, corre lá e chama ele pra levarmos logo.
— Chama mais três empregados, vai segurando a Maria e não dirige. Eu vou atrás do Manoel, ele provavelmente viu o tiro e acha que a irmã tá morta.
Ela correu em direção à cachoeira e Miguel chamou um funcionário, que chamou outros dois para que nos levassem até o hospital da cidade.
...
— Felipe!— Cecilia gritou desesperada ao vê-lo caído em uma pedra alguns metros abaixo.
— Garota estúpida!— Fernando gritou.
— Não venha jogar a culpa pra cima de mim, porque se eu não tivesse impedido ele teria dado um tiro na cabeça por causa da sua crueldade em mandar o Felipe matar uma pessoa sob pressão.
— Agora a culpa é minha?
— Sério, não é hora de encontrar culpados, e sim de ajudar o Felipe.
— Acha que ele tá vivo?
— Eu quero acreditar que sim. E nós vamos ter que superar as nossas diferenças pelo menos por agora, porque a vida do seu filho, do homem que eu amo e que é o pai do meu filho, está em jogo.
— E o que pretende?
— Vamos descer, estabilizar a coluna e carregar ele até uma caminhonete pra correr até um hospital.
Eles se ajudaram a descer rapidamente pelas pedras até chegar ao local onde Felipe estava. Lá, Cecilia avaliou o pulso e respirou aliviada ao saber que ele estava vivo.
— Ceci!— Rodolfo começou a gritar logo que chegou ao topo do morro.
— Rodolfo! Eu tô aqui embaixo!
— O que tá acontecendo?
— O Felipe caiu e nós precisamos correr com ele pra um hospital, só que tô com medo de eu e o Fernando sozinhos não conseguirmos estabilizar a coluna.
— O mais certo é chamar o resgate e esperar aí com ele, senão vai afetar muito a coluna.
Foi então que Cecilia e Fernando sentiram a pedra ceder um pouco e ela gritou:
— Não dá tempo! Você tem que descer agora e temos que sair correndo antes de a pedra ceder.
— Merda! Tá, eu tô descendo.
— Não acha perigoso demais?— Fernando perguntou para Cecilia— Meu filho pode ficar sem andar, caiu de muito alto.
— Mais perigoso é deixar ele aqui pra cair lá embaixo, a gente tem que levar agora.
Rodolfo chegou rapidamente e a pedra oscilou mais uma vez. Apoiaram Felipe o mais rápido que puderam e saíram com cuidado por entre as pedras até que chegaram na base da cachoeira e puderam andar em um terreno mais plano. Mas logo que pisaram em terra firme escutaram a pedra cair por completo em cima das outras.
...
— Meu amor você tem que ser forte.— Miguel chorava enquanto acariciava meu rosto, cada vez mais pálido.— Por mim, pelo nosso amor, pela nossa filha. Fica comigo. A nossa história não pode terminar agora e nem desse jeito. Não pode.
...
— Manoel!— Karla gritava por entre as árvores próximas à cachoeira até que escutou um barulho vindo da caverna que os dois haviam descoberto.
Ao chegar lá ela o encontrou nadando no lago que se formava no centro, ainda vestido, afundando e levantando a cabeça enquanto gritava:
— Eu quero acordar desse pesadelo! Eu só quero acordar!
— Manu!— Karla o chamou na tentativa de acalmá-lo.
— Karla eu não aguento mais. Primeiro o meu pai e agora a Maria.
— Se acalma por favor e sai daí porque essa água é gelada e vai te fazer mal.
— Eu não tava lá pra ajudar a Maria a segurar o papai 20 anos atrás e também não consegui segurar ela hoje!
— Manu não precisa ficar aí se culpando. Sai dessa água que tá me dando agonia.
— Eu sou um inútil e não consigo nem ajudar as pessoas que eu amo.
— Tá tudo bem, para de se culpar.
— O sangue dela tá amaldiçoando aquela água igual o do meu pai, não tá? Fala que a gente vai conseguir fazer um velório por favor.
— Manoel não vai ter velório, eu e a Miranda seguramos a Maria e elas já tão indo pro hospital.
—Como assim? Ela tava na beirada, eu tentei cortar caminho por esse lado pra ajudar mas escutei o tiro antes.
— Ela começou a cair, mas nós duas seguramos. Tá tudo bem, agora sai daí.
—Jura que a Maria tá bem?
— Não juro porque não sei como tá sendo no carro, mas eu deixei ela viva na porta da casa pro Miguel levá-la. Ela e a Miranda precisam de você, vem cá.
— Que bom que você chegou, eu tava quase congelando aqui.— Ele começou a nadar em direção a Karla, mas logo parou—Ai!
— Que foi? Por que não tá vindo Manu?
— A minha perna, não tô conseguindo nadar.— Ele começou a afundar, mas logo, com muito esforço dos braços, retornou à superfície— Acho que é câimbra.
— Consegue vir só dando braçada.
— Acho que nã...— Ele novamente afundou.
— Manoel pelo amor de Deus não brinca comigo, sabe que eu tenho medo.
— Karla não tá dando.— Ele afundava com cada vez mais frequência e demorava cada vez mais para voltar.
— Manoel não faz isso comigo.
— Kar...— Ele afundou e, depois de alguns segundos, ela não o viu retornar.
— Manoel pelo amor de Deus volta, eu não consigo.—Ela se esticou ao máximo na beirada, como se pudesse alcançá-lo.
Ao ver que Manoel já não voltaria, Karla tirou rapidamente suas botas e o vestido que usava e, só com a calcinha e o sutiã, pulou para resgatá-lo. Não olhou para o que havia no fundo, só se esticou, pegou Manoel pela camisa e o levou de volta à terra firme.
— Agora acorda, não fala que eu fiz tudo isso atoa.— Ela fazia massagem cardíaca, tentando fazer com que ele cuspisse a água que tinha engolido, e depois de algumas tentativas, conseguiu.— Graças a Deus, nunca mais faz isso comigo ok? Eu não sei como viveria sem você.— Sem perceber o que estava fazendo ela o beijou.
— O que tá acontecendo.— Ele abriu os olhos e sentiu o toque do beijo da amiga, e logo a viu, quase sem as roupas, ao seu lado— Eu morri e fui pro céu?
— Para de ser palhaço.— Ela rapidamente colocou o vestido e começou a calçar as botas— Eu tirei o vestido pra chegar mais rápido até você e você vem com essas gracinhas.
— Desculpa, mas você que me beijou.
— Foi uma atitude impensada. Vamos sair daqui rápido senão você vai ficar doente.
— Não acha que a vida é curta demais pra pensar em cada atitude que vai tomar?
Ele se aproximou lentamente e a beijou, enquanto acariciava seu rosto com uma das mãos e a segurava pela cintura com a outra. Mas depois de alguns momentos se sentindo no paraíso, Karla se afastou rapidamente.
— Não, isso não tá certo.
— Não tá certo eu gostar de você e você de mim?
— Não, não tá certo a gente estragar uma amizade tão bonita com um romance que pode não funcionar.
— Pelo menos se permita tentar.
— Eu já tentei coisas demais por hoje.— Ela se virou e saiu da caverna.
...
Miranda chegou consciente ao hospital e sorriu ao ver Juliano.
— Cuida do meu bebê por favor.
— Eu vou cuidar dos dois, pode ficar tranquila.
— Quero que cuide como se fosse seu filho, porque ele vai ser se você quiser.— Aquelas palavras soaram como música nos ouvidos de Juliano e seus olhos encheram de lágrimas.
— Eu juro que sim.— Foi o que ele conseguiu falar antes que ela adormecesse por cauda da anestesia.
...
Não me lembro quem me atendeu e o que aconteceu comigo durante os três dias que dormi. Só me lembro de acordar e sorrir ao ver Miguel na minha frente.
— Você tava me esperando acordar?— Perguntei, ainda sonolenta.
— Não saí do seu lado por um segundo sequer.
— E isso foi muito tempo?
— Tempo o suficiente pra você passar por uma cirurgia e ter 3 paradas cardíacas.
— Me desculpa pelo susto.— Me movimentei na cama e senti uma dor no local do tiro— Ai.
— Tá se sentindo mal?
— Não, só tá doendo. O pior já passou, não é?
— Já sim, e agora o que nos espera é uma vida longa e feliz juntos.
— Vai ser meu amor, vai ser.
Ele se aproximou e nos beijamos.
...
— Fico feliz que tenha acordado, tá se sentindo melhor?— Cecilia segurava a mão de Felipe.
— Eu já falei que não quero te ver.
— E eu já falei que não vou sair do seu lado porque você precisa de companhia.
— Já tirou o meu pai daquele lugar?
— Não e nem vou, sabe muito bem disso.
— O meu destino é o mesmo dele.
— Não é não. A Maria já acordou, tá super bem, as gravações tão com a polícia e qualquer juiz que escutar as ameaças que o Fernando fez contra você vai te declarar inocente.
— De que adianta ficar livre e preso a uma cama?
— Agora você tem que agradecer que tá vivo.
— Agradecer pra quê? Minha vida vai ser um inferno e a culpa é sua por ter me levado de lá por conta própria.
— A pedra caiu, você ia morrer.
— Será que não teria sido melhor que isso?
—Eu já tô me torturando demais pelo que fiz, você não precisa fazer o mesmo.
— Acha que eu tô feliz com o que tô vivendo?
— E o que eu posso fazer pra compensar, pra te fazer se sentir melhor?
— Nesse momento a única coisa que você pode fazer é sair de perto de mim.
— Não pode me pedir isso.
— Não tô pedindo que se esqueça de mim, tô pedindo que saia daqui enquanto eu tô nessas condições.—Ele batia nas pernas e elas não respondiam.
— Eu quero estar com você nas horas boas e ruins.— Ela chorava.
— Me perdoa, mas eu não tô em paz tendo a mulher mais linda do mundo na minha frente e não poder caminhar até ela pra beijá-la.
— É por isso que você tá me tratando desse jeito?— Ela caminhou até ele e começou a beijá-lo, mas ele logo a empurrou.
— Quando você vai entender que você pode me beijar, pode ficar nua na minha frente, pode fazer o que quiser, que eu simplesmente vou poder te desejar e mais nada.
— Meu amor eu não preciso de nada disso, só da sua companhia, do seu cheiro, do seu abraço.
— Mas EU não me sinto bem com isso. Me sinto humilhado, me sinto um lixo.
— Você não é menos homem porque não sente nada da cintura pra baixo, para com esse pensamento idiota.
— Essa é a MINHA forma de lidar com isso. Agora me deixa em paz e tenta me esquecer até eu melhorar, tenho certeza de que vai sofrer bem menos desse jeito.
— Eu não tenho como te esquecer, entende isso pelo amor de Deus.
— Então eu vou ter que fazer isso. Agora sai daqui.
Cecilia ficou por alguns segundos olhando para Felipe, até que ele se virou de costas, ela enxugou as lágrimas e saiu.
...
— Não acredito que eu tô aqui, tricotando roupinhas pro meu bebê.— Miranda sorriu, enquanto colocava um lindo casaquinho sobre a barriga já crescida. Haviam se passado alguns meses e todos felizmente estávamos bem.
— Eu também te juro que nunca te imaginei como uma mãezona.— Karla sorriu, deitada no sofá da sala de jogos da fazenda e lendo uma revista— Mas confesso que tô surpresa e feliz.
— Acho que isso de quase ter perdido meu filho fez meu lado de mãe aflorar.— Foi então que duas mãos tamparam seus olhos— Hmm... Eu conheço esse cheiro.
— E desde quando eu tenho cheiro?— Juliano perguntou.
— Tem e é muito bom.— Miranda se virou para ele e sorriu.
— Eu vou sair e deixar os pombinhos sozinhos.— Karla falou já se levantando e saindo— Não quero segurar vela.
— Você não precisaria segurar vela se desse uma chance pro Manoel.— Miranda falou sorrindo, mas Karla não gostou da brincadeira e saiu brava.
— E como tá meu meninão?— Ele perguntou, beijando a barriga de Miranda.
— Tá crescendo cada dia mais.— Ela passou a mão na barriga e sorriu.
— Será que ele me deixa roubar a mamãe dele um segundo? Porque eu preciso falar com ela.
— Acho que não vai ligar, mas vai ter que ir junto.
— Não vou ligar pra isso.— Juliano sorriu e os dois saíram da casa.
...
— E como estão os preparativos meu amor?— Miguel perguntou— Vamos organizar o máximo que pudermos hoje.
— Não precisa fazer isso hoje, a gente acabou de voltar do julgamento do seu pai.
— Ele não tá morto. Só ta pagando pelo crime que cometeu contra o seu.
— Mesmo assim, ele vai perder parte da vida longe de você, não me sinto bem por pensar em comemorações hoje.
— Você passou 20 anos da sua vida lutando por isso, e ele agora vai passar os mesmos anos na cadeia. É quase uma compensação pra tudo o que você sofreu.
— Miguel eu preciso falar com você.—Cecilia apareceu na porta do quarto com dois envelopes na mão— A Miranda tá por perto?
— Não sei onde ela tá, mas podemos procurar. Já olhou os resultados?
—Não achei que seria justo, então esperei pra ver com vocês.
— Coragem, eu não teria esse controle todo.— Brinquei.
— Pra mim não é tão difícil assim porque, ao mesmo tempo que quero provar que a minha mãe não era louca, não quero ter a certeza de que sou filha daquele cara.— Ela se lembrou que Felipe estava ao nosso lado—Me desculpa, sei que é seu pai.
— Você tem todos os motivos do mundo pra não querer ser filha dele, mas te garanto que me ter como irmão vai ser um bom consolo se o resultado for positivo.— Sorrimos— Me ajuda a procurar a Miranda?
— Se não for incomodar vocês, eu gostaria sim.
—Não é incômodo, eu vou amamentar a Lu agora.
— Então deixa, eu espero. Seria meu sonho que o Felipe estivesse do meu lado quando eu fosse amamentar o Bernardo.
— Nenhuma notícia ainda?— Perguntei preocupada.
— Tirando que ele roubou toda a família e sumiu, nenhuma novidade.—Miguel falou com indiferença e o silêncio se instaurou.
— Eu vou lá pra fora, espero vocês acabarem e depois procuramos a Miranda.
...
— E o que você queria falar comigo Juliano?_ Miranda perguntou, enquanto se balançava no balanço do jardim. Atrás dela, estava Juliano.
— Na verdade não quero falar, mas te pedir uma coisa.— Ele parou o balanço e se colocou, ajoelhado, de frente para Miranda— Quero pedir que se case comigo.
— Juliano eu...— Ela sorriu— Eu não sei o que te dizer.
— Eu sei que fui muito rápido, por isso não precisa me responder agora. Só te peço que pense com carinho.
— Sim.
— Que bom que aceitou pensar.
— Não, eu não vou pensar.
— Mas você falou "sim", não tô entendendo.
— Esse "sim" significa que não vou pensar, ué. Significa que VOU me casar com você.
— Isso é sério?
— Claro, Juliano! E não, você não tá sendo muito rápido, o que nós temos já existe há mais de 10 anos, a gente só não tinha se dado conta.
— Por mim eu me casaria nesse segundo com você.
— Nem pense. Podemos nos casar junto com a Maria e o Miguel, mas agora não, eu tô uma baleia.
— Apesar de eu não concordar que você tá uma baleia, aceito que nos casemos junto com a Maria e o Miguel.
— Então está decidido! Em alguns meses, seremos marido e mulher, e vamos ficar juntos e felizes pra todo o sempre.— Se beijaram, enquanto tinham o pôr do sol de plano de fundo.
— Miranda!— Miguel gritou, e ele e Cecilia caminharam ao encontro dos dois— A gente precisa conversar com você.
— O que houve?
— Os resultados saíram.— Cecilia mostrou os papéis.
— Deixa isso pra outra hora que não estrague o meu momento perfeito. Eu vou casar com o homem da minha vida.
— Ai sério?—Cecilia sorriu— Parabéns, fico muito feliz por vocês e espero que sejam muito felizes. A gente pode deixar pra outra hora então.
— Vocês duas não se cansam de fugir da verdade?— Miguel perguntou revoltado—Eu sei que vocês não acham o meu pai o melhor exemplo de pessoa, eu também não acho. Mas Cecilia, você começou com tudo isso e agora vai adiar o momento de jogar na cara de todo mundo que a sua mãe tava certa? E Miranda, você sempre falou que não se sentia pertencente a essa família. Que tal parar de adiar o momento de, talvez, se sentir parte da minha?
— Acho que no fundo nós duas sabemos a verdade, mas temos medo.— Miranda respondeu.
— Então chega de ficar sofrendo atoa e simplesmente olhem o resultado.
— Eu acho que esse momento é de vocês três, vou deixar vocês à sós.— Juliano beijou Miranda e saiu.
— E quem vai abrir os resultados?— Cecilia balançou os papéis.
— Eu não quero, podem ficar à vontade.— Miranda se afastou como se eles estivessem amaldiçoados.
— Tá certo, eu leio.— Miguel pegou os papéis e abriu o primeiro— Miranda... Você pertence a dois lugares e um deles é minha família, o Felipe te falou a verdade.— Ele entregou o resultado de "positivo" para Miranda, que chorou ao recebê-lo, e logo abriu o outro— E Cecilia... Seja bem vinda à família Fernandes. Acredito que, mesmo sem o Felipe por perto, o seu filho vai poder ter o sobrenome dele.
— Grande coisa ter esse sobrenome podre.— Ela olhou novamente para Miguel— Desculpa, eu tenho que me acostumar.
— Somos oficialmente uma família.— Miguel sorriu e esticou os braços para os dois lados, como quem pede um abraço— Abraço em família!
As duas sorriram por trás das lágrimas e, ainda de frente para o sol, que se punha atrás das montanhas que demarcavam o final da fazenda dos Fernandes, os três se abraçaram, celebrando uma história bonita na família que se iniciava a partir daquele momento. Fernando tinha feito mal aos três, mas eles juntos conseguiriam superar isso.
...
Poucas semanas depois, após um parto longo e complicado, Miranda estava deitada na cama de seu quarto na casa da cidade, com um lindo bebê em seus braços. Ela havia dado a luz a um menino.
— Posso entrar?— Perguntei na porta.
— Claro Maria, do que tá precisando?
— De duas coisas. Primeiro vim trazer seu lanche.— Entreguei uma bandeja cheia de comida para ela.
— Nossa muito obrigada, tô morrendo de fome.— Ela entregou o bebê para mim— Pode colocar o Sérgio no berço?
— Claro que sim.— Coloquei ele no berço de madeira ao lado da cama e logo me aproximei dela novamente.
— E qual era a outra coisa?
— Acho que, mesmo tendo nos reaproximado nos últimos meses, nós ainda não paramos pra realmente resolver nossas diferenças.
— Achei que tudo já tinha se resolvido entre nós duas.
— Nós nos machucamos muito e acho que um pedido de desculpas não é o suficiente pra apagar toda a nossa dor, mas tô aqui pra te oferecer as mais sinceras desculpas.
— Não precisa se desculpar, a que mais te machucou fui eu, eu te devo essas desculpas.
— Acho que erramos e amadurecemos com esses erros.
— Com certeza sim, espero que a gente possa ficar bem.
— Por mim já estamos.
Nos abraçamos. Aquele abraço significava muita coisa, principalmente um futuro de mais paz para nós duas, de união, e talvez assim Miranda definitivamente percebesse que sempre pertenceu a algum lugar.
...
Alguns meses depois, o pequeno Sérgio já estava crescido o suficiente para poder ser levado à fazenda. Na capela de lá seriam realizados os casamentos e batizados em alguns instantes.
Eu vestia um vestido branco, mas com alguns detalhes na saia em prateado, como finos arabescos. Não havia mangas, apenas duas finas correntes que trançavam meu pescoço e faziam um lindo detalhe nas costas. Já Miranda (pasmem) foi ainda mais tradicional com seu vestido tomara-que-caia. Claro, que sendo ela, não era assim tão tradicional: na parte de cima, arabescos parecidos com os meus, porém dourados e a saia era curta na frente e comprida atrás.
Miguel e Juliano já estavam ansiosos, parados na frente do altar e esperando que Miranda e eu entrássemos. E foi o que fizemos assim que a marcha nupcial começou a soar, ecoando pela capelinha, e as portas foram abertas. Fomos as duas de mãos dadas com Manoel. Ao invés dos buquês, carregávamos nossos filhos nos braços. As flores estavam com os noivos.
Os batizados aconteceram primeiro, sendo seguidos pelos tão aguardados casamentos. Ambos os casais escolhemos Karla e Manoel como padrinhos de um dos noivos e o outro casal como padrinhos do outro. Eu nunca havia visto Miranda tão verdadeiramente emocionada quanto a vi quando uma lágrima escorreu lentamente por seu olho ao ouvir o padre falando "Eu vos declaro marido e mulher". Miguel e eu também nos emocionamos muito quando escutamos essas palavras ecoarem pela capela.
Após o fim da cerimônia e do famoso beijo dos noivos, seguimos para uma festa mais simples, preparada obviamente por Miranda, em um espaço da fazenda que havia sido organizado apenas para o dia. A celebração acabou antes do pôr do sol, mas Miguel e eu já havíamos dado uma escapadinha pouco tempo antes, pois ele queria me levar até a casa na árvore.
Assim que chegamos, ele me beijou muito e me deu um presente.
— Então minha princesa...— Ele começou a falar, ainda com o embrulho nas mãos— Quero te dar isso porque tem um significado muito importante pra mim.— Ele me entregou.
— Posso abrir?
— Pode sim.
Quando desembrulhei cuidadosamente o papel de presente vermelho, encontrei algo enrolado em um papel de seda branco e o abri. O que tinha lá era um caderno marrom, assim como o diário que eu tenho para escrever tudo o que aconteceu ao longo da vingança. Esse primeiro caderno, aliás, foi o que eu usei pra escrever essa história que você está lendo agora.
— Esse caderno, Maria,—Miguel começou, segurando a minha mão sobre o caderno— representa uma nova etapa na sua vida. Eu vi que no outro caderno marrom só tem anotações suas desde que você veio pra fazenda, o que me faz acreditar que ele é um diário da vingança.
— Sim, realmente é. O caderno marrom eu quero guardar, como uma lembrança daquilo que eu fui. Ele vai servir pra me lembrar de como eu não devo ser e de como mudei.
— Então esse novo caderno vai ser um recomeço. Conte nele a nossa vida de casados, sua vida de mãe, como você vai ser sem vingança. O que acha?
— Eu acho que essa é uma excelente ideia meu amor. E, aliás, tem mais uma coisa que eu quero fazer. Me espera aqui.
Saí e voltei alguns minutos depois segurando uma lata. Miguel desceu da casa na árvore e fomos até a cachoeira. Lá havia uma espécie de passarela de pedras, que dividia as duas "piscinas" formadas pelas águas, na qual caminhamos até o meio. À minha esquerda, a piscina na qual nadávamos normalmente. À minha direita, a piscina na qual o corpo do meu pai havia caído e onde Miguel e eu tínhamos nos amado pela primeira vez. Me abaixei e coloquei a lata em cima da pedra.
— Pra que isso Maria?— Miguel me perguntou.
— Eu quero deixar a vingança e tudo de mal que ela me causou, que ela NOS causou, pra trás.
Peguei um esqueiro e um caderno preto, AQUELE caderno preto, que estavam dentro da lata. Acendi o esqueiro e o aproximei do caderno, fazendo com que um pedaço da folha começasse a queimar. Joguei tudo dentro da lata e esperei que o caderno e todas as anotações, todos os malditos planos de vingança, se tornassem cinzas. Miguel estava lá, ao meu lado, durante todo o tempo em que a chama queimava.
O sol já acabava de se pôr quando o último resquício de chama se apagou. Tudo havia virado cinzas. Me levantei segurando a lata e, sem dizer nada, despejei as cinzas na piscina da direita. Era como uma oferenda ao meu pai, como que permitindo, agora, que sua alma ficasse em paz.
Olhei para Miguel, que estava segurando meu ombro, ao meu lado, e sorri. Ele também sorriu e nos beijamos enquanto o sol se punha. Era o fim de um ciclo, assim como o pôr do sol representava o fim da fase clara de um dia, mas também representava que, apesar de eu precisar passar por um momento de escuridão para entender tudo o que aconteceria dali para frente, uma hora o sol voltaria a brilhar e tudo seria muito melhor.
E eu sabia que Miguel estaria lá, ao meu lado, como sempre, pra me apoiar, proteger e iluminar meu caminho. Porque, apesar da vingança, eu me apaixonei pelo filho do homem que destruiu meus sonhos, e seu amor foi meu amuleto contra todo o mal que tentasse invadir minha alma outra vez. E com ele e Luciana, meus dois amuletos, meus passos seriam iluminados por eles sempre, para uma vida já sem dor e ódio, para sempre. E esse era o fim de anos de dor, o fim da vingança. Mas será que era o fim dessa história?
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