XIII_Cheiro de uva
Aquilo não podia estar acontecendo. Miranda não enxergava nada e, ainda por cima, não sentia as pernas. Aquele momento parecia um pesadelo, mas um pesadelo do qual eu sabia que não acordaria se me beliscasse.
— O que tá acontecendo comigo?— Miranda chorou.
— Se acalma por favor.— Luiz tocou a mão de minha irmã— Pode ser um efeito da pancada. Vamos fazer todos os exames necessários. Você vai ficar bem, vai ver.
— Eu quero ficar sozinha.— Falou com voz baixa e triste e começamos a sair— Você fica, Miguel.— Miguel se virou e fechamos a porta.
— Eu tô aqui Miranda.— Segurou sua mão.
— Me fala uma coisa?
— Até duas.
— Eu tô bonita?
— Como sempre.
— Então por que não me quer mais?
— Porque a beleza não é tudo em um relacionamento. Vai muito além disso.
— Então você realmente vai me deixar?
— Não vou. Já terminamos, mas isso não significa que eu vá te deixar.
— E vai ficar com a Maria?
— Não sei. E não tenho que te falar sobre esses assuntos. Muito menos na situação em que você está.
— Não me veja como uma coitada.
— Não estou vendo. Mas você está sim com a saúde fraca e não tem por que ficar se aborrecendo.
— EU NÃO TENHO POR QUE FICAR ME ABORRECENDO?— Ela gritou— VOCÊ TÁ ME TROCANDO PELA MINHA IRMÃ! A IRMÃ QUE SEMPRE QUIS TUDO O QUE ERA MEU! SABE A VERGONHA QUE VOU PASSAR COM AS MINHAS AMIGAS? NÃO! NÃO SABE, PORQUE SE SOUBESSE NÃO ESTARIA FAZENDO ISSO COMIGO!— Ela logo abaixou o tom— Poxa, eu te amo!— Começou a chorar— Sempre te amei! Desde menina! Perdi anos da minha vida tentando te conquistar pra você fazer isso comigo?
— Não deu certo.
— É isso que tem a me dizer? Que não deu certo? Que eu perdi um tempo valioso da merda da minha vida correndo atrás de uma coisa que não deu certo? Eu posso ficar cega e aleijada agora! Tudo por que? Porque não deu certo e você foi ver se dava certo com a Maria! Sabe quantos homens vão me querer assim? Te garanto que nem a metade, que nem 1℅ dos que me queriam quando eu estava com você.
— Me perdoa Miranda.— Ele soltou a mão de minha irmã.
— Não solta a minha mão.
— Eu não posso mais. Me perdoa, de verdade, mas não posso. Conta comigo pra sempre como um amigo, mas nada mais do que isso. Perdão... Perdão.— Ele saiu.
— Miguel! Miguel! Não solta a minha mão! Não me deixa aqui sozinha! Miguel!!— Gritou o nome de Miguel, mas, quando viu que ele não voltaria, chorou.
...
Na fazenda dos Fernandes, Felipe acabava de colocar sua camisa e fechar o cinto.
— À noite eu volto, minha princesa.— Falou com uma mulher de cabelos castanho claros que o observava, envolta por lençóis, enquanto segurava uma pequena mochila— Me espera, hein?— Ele a beijou, pegou a mochila e saiu.
...
Juliano correu até o quarto onde Miranda estava. Ela chorava muito e ele a abraçou. Um abraço apertado e carinhoso.
— O que tá acontecendo?
— Ele não me quer mais. Eu tô cega, aleijada e o amor da minha vida não me quer mais.— Chorou— Não sei por que é que estão tentando me ajudar! Eu não tenho mais pra que estar viva!
— Claro que tem! Você tem uma vida inteira pela frente.
— Aleijada, cega e sozinha?
— Você não tá aleijada.
— Dá no mesmo.— Ela fez cara de desprezo.
— Não, não dá. O Luiz ainda ta estudando o seu caso, mas acha que é temporário, por causa da pancada. E sem falar que você não está sozinha.
— Claro que estou. O Miguel não me quer mais. Acha que alguém vai me querer? Pra ter que ficar de babá cuidando de mim o tempo inteiro?
— Você não vai ficar assim. Vai ver. Vai ser só por um tempinho.
— Obrigada. As suas palavras me confortam. É novo aqui? Não conheço a sua voz.
— Sou sim. Cheguei faz uma semana pra fazer minha residência.
— Que legal! Qual a sua área?
— Obstetrícia.
— Que legal! Quando eu tiver um filho... Se eu tiver... Quero que faça o meu parto. — Brincou.
— Vou ficar muito feliz em participar de um momento tão bonito._ Sorriu, mesmo que ela não pudesse ver seu sorriso.
— E conhece o Luiz de onde?
— De... De um curso que fizemos. Nos tornamos amigos e eu resolvi vir para cá.
— Nossa... Pra cá? Não tinha cidade melhor?
— Eu gosto daqui. É pacata, mas com muita infraestrutura. É difícil encontrar cidades assim.
— Pois é...
— Olha, eu já vou porque tenho um monte de coisas pra fazer.
— Vai sim.— Sorriu— Foi um prazer, viu?
— O prazer foi meu.— Ele deu um beijo na bochecha da minha irmã e caminhou até a porta.
Quando Juliano saiu, Felipe entrou.
— Oi lindinha!
— Felipe! Como você tá?— Eles se abraçaram.
— Eu tô ótimo. Quem tem que perguntar sou eu. Já melhorou?
— Ainda não. Tô me sentindo um lixo.
— Você tá horrível mesmo.
— Se vai atrapalhar, não precisava nem ter vindo.
— Você não é um lixo. Tem muita coisa em você que vale muito a pena.— Aproveitando que Miranda não sentia, Felipe passou a mão pela perna dela.
— Você tá com cheiro de uva... Desde quando trabalha na plantação?
— Desde que vale a pena estar lá.
— Não está lá só por causa do plantio, não é verdade?
— Claro que não, minha cara... Claro que não.
— E ainda fala que quer ter alguma coisa comigo, enquanto tá pegando qualquer colhedora suada que te dê bola.
— Você eu quero pra estar ao meu lado por um tempo maior. O resto é aventura.
— Vai acabar o plantio, ela vai embora e vocês nunca mais vão se ver.
— Pois é.— Ele falou com uma cara um pouco mais triste do que deveria estar — Mas talvez ela volte no próximo ano.
— Veio só pra me visitar?
— Não. Vim te agradar pra tentar ter uma chance com você, agora que a Maria e o Miguel estão juntos.
— Eles o quê?
— Não tá sabendo? Estavam aos beijos ontem à noite na porta da sua casa.
— Cachorra.
— Não sabia que você não estava sabendo. Nossa, que mancada.— Falou como quem sentisse muito, mas, na verdade, estava sorrindo.
— Não se finja de inocente. Eu tô cega, mas não sou estúpida a ponto de pensar que você realmente não veio me contar de propósito. Mas eu te agradeço pela informação, isso não vai ficar assim.
— E o que vai fazer?
— Primeiro falar com a Maria. Ela precisa entender que o Miguel é meu ar e que sem ele não consigo viver. Mas, se mesmo assim não der certo, a vida daqueles dois vai se tornar um inferno.
— Você é das minhas.— Ele sorriu— Agora eu já vou.
— Vai lá. A plantação te espera...— Ela também sorriu— Obrigada pela visita e pela notícia, somos uma boa dupla, apesar de tudo.
— Às suas ordens.— Deu um suave beijo na mão da minha irmã e saiu.
...
Ainda naquela tarde fui visitar Miranda. Ela estava lanchando. Logo que entrei, a enfermeira saiu levando a bandeja.
— Quem tá aí?— Miranda perguntou.
— Sou eu.— Respondi.
— E o que quer? Jogar na minha cara que tá com o Miguel?
— Eu não tô com o Miguel. Permiti que ele tentasse me conquistar, nada mais.
— Quando pretendiam me contar?
— Quando você melhorasse, até porque não tem nada sério acontecendo entre nós.
— E acha isso certo? Me fazer de trouxa só porque não estou vendo e nem andando?
— O Miguel já terminou com você, e eu repito: não tem nada sério acontecendo entre nós.
— Eu espero, para o seu bem, que isso seja verdade.
— Miranda, você sabe a razão pela qual eu me aproximei do Miguel. Eu não tenho intenção romântica com ele, não desejo me casar com ele ou nada do tipo.
— E ainda assim me separou dele.
— Não, nós tivemos uma conversa sincera como amigos, e ele chegou à conclusão de que não te amava mais. A única coisa que eu fiz foi, como amiga, dar um toque. As decisões foram únicamente dele, e eu não dei a entender que daria uma chance, pelo menos não naquele momento.
— E agora?
— Agora eu tô indo de acordo com a corrente e aceitando o que ele me propõe.
— Por isso estão se conhecendo melhor?
— Sim. Não me culpe pelo seu término, porque eu realmente não sou o motivo pelo qual o Miguel terminou com você. Mas também não venha me exigir amor, porque isso eu realmente não consigo sentir.
— Você é fria.
— Fernando Fernandes me fez ser assim, e eu só vou ser uma pessoa melhor quando ele estiver pagando por todo o mal que nos fez.
— E quando isso acontecer, o que vai ser do Miguel?
— Depois que eu acabar a vingança, não acredito que o Miguel queira ficar comigo. Se ele quiser, vocês vão poder voltar a viver juntos o seu conto de fadas mas, até lá, eu vou fazer as coisas da minha maneira.
— Eu não gosto de dividir o que é meu.
— Isso é problema seu. Eu tô disposta a te deixar livre e feliz com o Miguel, mas só depois de concluir a vingança. Se você não souber esperar, entraremos em uma disputa. Mas eu quero que você seja uma mulher nessa disputa, não uma menina mimada.
— Pode ter certeza que eu vou saber lutar pelo que eu amo de forma justa, mas saiba que eu não sou acostumada a perder.
— Nisso nós nos parecemos, irmã.
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