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CAPÍTULO 10
Apenas Nós | Livro Um
O copo que há segundos atrás estava pela metade, encontra-se vazio em minha mão. Eu não costumo beber, e não seria agora que eu faria isso loucamente, sabia o meu limite e já tinha decidido ser o último, mas enquanto dançávamos Marcos surgiu com um líquido vermelho dentro de um copo transparente e eu não sei se a cor chamou minha atenção, mas eu quis sentir o sabor, mas se eu soubesse que aquilo me lembraria, de alguma forma, o sabor do beijo de Adam não teria engolido uma gota sequer. Na verdade, eu acho que era apenas o meu subconsciente pregando mais uma peça em mim, por isso devolvi o copo para o meu amigo e sentei-me no sofá.
Não encontrei Anne novamente, e instintivamente procurei por Estevão em todos os recantos da sala, e como pensado, ele também havia sumido, e de repente eu senti raiva pelo que aconteceu mais cedo e soltei um suspiro de frustração atraindo a atenção de Marcos — Não me diga que está entediada.
Seu comentário consegue me arrancar uma risada, e eu nego em um aceno, afinal eu não sabia sequer o que estava sentindo, mas tinha noção de que a cena que não parava de se repetir em minha mente havia ocasionado algo dentro de mim — Eu não, mas você deve estar por ficar de babá — comentei sorrindo, pois desde que cheguei ele não saiu do meu encalço, e sei que veio para se divertir e não ficar sentado me vendo bebericar um gole ou outro — Aquela morena deve estar me odiando, faça alguma coisa Marcos — apontei discretamente para a garota a pouco espaço de nós dois, que não parou um segundo sequer de secar Marcos.
Ele me lançou um sorriso, em seguida levando o copo até a boca umedecendo os lábios — Conheço ela — comentou casualmente olhando para a garota — Mas não vou deixar você sozinha.
Fiz uma careta, porque eu estava realmente atrapalhando algo entre os dois — Não estou sozinha, Anne daqui a pouco aparece — menti, pois sabia que a essa altura a loira estava longe. Marcos abriu a boca para resmungar, mas me adiantei — É sério, vou ficar bem.
— Está bêbada? — certificou-se.
— É claro que não — realmente, eu não estava, foram apenas dois copos pela metade e um pouco do líquido estranhamente vermelho de Marcos, e eu não sentia nada fora do normal — Vai lá — pedi, mais uma vez confirmando que estava bem, e só assim Marcos caminhou até a garota, e menos de dois minutos eles sumiram entre os cômodos.
De repente, até o sofá passou a ficar desconfortável, e me coloquei de pé indo em direção a lateral da escada, onde perfeitamente eu conseguia ver o que estava rolando no andar de baixo, e em uma dessas olhadas instantaneamente encontrei ele, no recanto de uma parede com o corpo encostado na mesma conversando com o mesmo cara que o vi no estacionamento, e quando penso em desviar para não ser pega no flagra, como um imã Adam encontra o meu olhar, e sem esforço o prende inteiramente para si.
Tive dificuldade em me livrar do seu olhar penetrante, que tão pouco se afastou do meu, mas consigo me desvencilhar do devaneio, e querendo concentrar minha atenção em qualquer coisa busco o celular no bolso do jeans descobrindo que já passara da meia noite, e olhando em volta a casa parecia ainda mais lotada do que a hora em que cheguei.
Girei os calcanhares decidida a ir embora, mas quando fiz colidi bruscamente com um corpo — Está indo embora? — encontro um rosto desconhecido em minha frente, impedindo que eu avance, mas ao analisar suas feições recordo-me ser o mesmo cara com quem esbarrei no andar de baixo, assim que cheguei.
Formei uma linha reta nos lábios, não gostando da sua atitude em invadir completamente o meu espaço pessoal e com desconforto falei — Ah, sim — não queria prolongar uma conversa, e por isso desviei a direção, mas ele foi mais rápido me encurralando novamente — Você pode me dar licença? — questionei, já sentindo o estômago embrulhar ao perceber o sorriso carregado de malícia em seu rosto.
— Qual é linda, a festa apenas começou — ele disse, e o hálito quente de álcool entregou o seu estado de embriaguez — Vamos nos divertir.
Eu estaria mentindo se negasse que seu olhar sobre mim não me assustou, de repente me senti paralisada, as mãos suando em agonia e instantaneamente fui transportada para três anos atrás, quando eram as mãos dele em mim, me encurralando da mesma forma que esse cara, fechei os olhos tentando me localizar e jogar as lembranças auto destrutivas para o mais fundo da minha mente, e pedi — Me solta, agora — minha voz soou firme, embora eu soubesse a realidade por trás.
— Vamos só brincar um pouco — a ânsia de vômito estava me sufocando, assim como meus batimentos cardíacos, ele segurou uma mecha do meu cabelo e seu corpo estava tão próximo do meu, que sinto repulsa.
— Não — eu disse, mais uma vez e estava me preparando para empurrá-lo, quando o seu corpo foi jogado bruscamente para trás, e eu finalmente consegui respirar em alívio.
— Ela falou não, você sabe o que isso significa, certo? — a voz que passei a conhecer menciona, e só então percebo Adam segurando o loiro pela camisa — Ou você prefere que eu reforce de outro jeito — o tom era ríspido e seu olhar entregava algo que eu nunca vi, era raiva, angústia, um misto de confuso.
— Adam — chamei, pedindo com o olhar que não continuasse, e assim ele fez, soltou devagar a pressão que fazia com o pulso cerrado e virou-se em minha direção.
Mas o nojento do cara, provocou — É só mais uma vadia, Miller, não sei porque se importa — neguei com a cabeça pedindo que Adam não desse ouvidos, pois eu vi o seu olhar mudar drasticamente e em um segundo tudo não passou de um vulto.
O primeiro soco é forte, sem dó, mas não derruba seu adversário que logo rebate, e de repente, os dois estão se esmurrando bem diante dos meus olhos, e eu não sei o que fazer. Mas Adam com certeza sabe, porque nenhum movimento seu é perdido, e muito menos é acertado pelos punhos do loiro — Adam, para — eu peço, com desespero enquanto as pessoas nos cercam adorando o show — Por favor, vamos embora — gritei, mas não adiantou de nada e o punho fechado dele colidiu severamente no maxilar do cara, que cai no chão, e Adam avança com fúria, mas antes que alcance, Rafael surge e intervém.
— Chega Miller — ele grita, e só então Adam desperta de um transe, respirando pesadamente ele me olha desvencilhando-se do seu amigo caminha até mim, mas já estou descendo as escadas ligeiramente.
O vento forte da madrugada me atinge com tudo, e sinto meu rosto gelar, não lembro em qual momento comecei a chorar, mas posso sentir as lágrimas molhando minha face, e me condeno por permitir que isso tenha poder sobre mim trazendo à tona as minhas piores lembranças. Mas consigo respirar com calma, e em minha mente tento canalizar que já passou, e nada aconteceu — Giulia — a voz de Adam chega até mim, e rapidamente limpo o rosto molhado — Você está bem? — ele pergunta, com o maxilar trincado me encarando ao notar o óbvio.
Limpo a garganta para afastar o nó que se fez presente — Sim, está tudo bem — afirmo, e é mais para mim mesma do que para ele — Obrigada.
Vasculho o celular e começo a procurar por um motorista no aplicativo, mas pelo horário não estou tendo muita sorte e Adam percebe quando bufo irritada — Posso te deixar em casa, não precisa...
Interrompo — A festa não acabou Adam, eu chamo um Uber — comentei, ainda com a pesquisa em andamento.
Adam bufou, atraindo minha atenção ao juntar as sobrancelhas grossas — Pra mim já acabou faz tempo, eu levo você — dito isso, ele me dá as costas e segue em direção ao outro lado da rua, ponderei em aceitar, mas sou incentivada quando o meu celular simplesmente desligou-se.
♥︎
Mais uma vez eu estava sentada no banco do passageiro do carro de Adam, e mais uma vez a sensação imponente percorria meu corpo sem o meu consentimento, Adam ainda não havia ligado o carro e o silêncio entre nós dois estava começando a me deixar inquieta, até ele se pronunciar — Meu apartamento fica aqui perto, e tem um drive-thru no caminho caso esteja com fome. O que acha de conversar um pouco? — seu convite me pega totalmente desprevenida, e tenho certeza que a expressão em meu rosto entrega o meu espanto, pois ele adianta-se — Não vou tentar nada Giulia, a não ser que você queira.
Fico tensa no mesmo instante, e fleches do nosso único beijo invadem meus pensamentos me deixando com sede. Mas o feitiço é totalmente quebrado quando a cena entre ele e Anne substitui o nosso curto e intenso momento, pigarreio e em um dilema sobre ir ou não, acabo deixando que a emoção me guie e surpreendendo não somente Adam, como a mim mesma respondo — Tudo bem — e ele avança com o carro.
O caminho é feito em silêncio, dessa vez Adam não coloca uma música e posso facilmente ouvir a respiração dele, um tanto descompassada enquanto dirige e vez ou outra deixa seus olhares caírem sobre mim, algo que eu estou tentando não fazer concentrando a minha atenção no mundo a fora através da janela. Até que paramos em uma pequena fila de carros, e vejo que estamos no drive-thru do Mcdonalds, e como quem soubesse exatamente o que iria acontecer, a minha barriga dá sinal de vida.
— O que vai querer? — Adam pergunta, quando falta apenas um carro à nossa frente ser atendido.
— Qualquer coisa que não tenha picles — respondi, com uma careta, podendo claramente sentir o gosto estranho que aquilo tem.
— Problemas com os picles, hum — murmurou com diversão, e acabo sorrindo também ao confirmar.
Adam fez o nosso pedido, e uma discussão foi iniciada quando chegamos ao caixa, ele não deixou que eu pagasse pelo meu e embora eu tenha protestado diversas vezes, quando notei ele já havia feito, não demorou para que chegássemos ao condomínio em que ele mora — Seus pais não moram com você? — eu perguntei, por curiosidade e para tentar substituir o silêncio entre nós.
— Não — respondeu, enquanto apertava o botão do elevador para o quinto andar, e não prolongando concluiu — Já tem um tempo.
Assenti, no exato momento em que paramos no quinto andar e as portas do elevador abriram. Adam caminhou pelo corredor comigo em seu encalço, e deu espaço para que eu entrasse quando abriu a porta do apartamento, e assim fiz sendo recebida pela escuridão do lugar, me deixando em alerta para não esbarrar em algum móvel, mas logo Adam ascendeu as luzes e eu relaxei enxergando um cômodo bastante organizado, e acho que ele notou a minha surpresa — Achou que ia encontrar minhas roupas pelo apartamento todo? — seu tom era divertido quando questionou.
— Talvez — respondi, sorrindo ao dar alguns passos ficando de frente para o sofá de cor marrom.
— Não sou um homem das cavernas, Giulia — comentou, retirando a jaqueta e sentando-se no sofá ao colocar a sacola da comida no pequeno móvel de vidro a nossa frente, fiz o mesmo e me sentei ao seu lado deixando alguns bons centímetros entre nós. Em silêncio começamos a devorar a porção de batatas fritas, acompanhada de dois copos de milk-shake.
— Então, o que anda lendo? — sua pergunta me pega desprevenida, enquanto me esforço para engolir uma boa quantidade de fritas, arrancando um riso nasalado dele que me olha com diversão.
Tomo um gole generoso de milk-shake para limpar a garganta, e dou atenção a pergunta que Adam fez — Sigmund Freud, é tudo que tenho lido. Posso facilmente dizer as horas exatas que ele ia ao banheiro, ou fazia um lanche.
Adam gargalha, sua risada reverberando em meus ouvidos de uma forma deliciosa de ouvir — Bem vinda ao mundo universitário, é só o começo, mas o que tá achando?
— Hum, que a qualquer momento posso ser devorada por artigos e seminários..., não é irônico que eu faça psicologia, e esteja a ponto de enlouquecer? — eu realmente estava a um passo para isso.
— É como dizem, você tem que conhecer o lugar do outro pra saber como se sentem, talvez isso seja bom — embora suas palavras possuam um lado verdadeiro e desperte um questionamento interno, fico tentada a sorrir quando percebo a conversa despretensiosa caminhando para um assunto mais diplomático, no entanto sinto alívio quando noto a expressão pensativa e séria de Adam transformando-se em uma risada gutural — Na verdade, é só a vida real de um calouro.
Ficamos um tempo em silêncio, degustando o lanche e saciando a fome que nem sabia que estava, mas eu quis saber — Sabe... — comecei a dizer, pedindo sua atenção — Não pensei que fosse encontrar você, depois daquela noite na livraria — de fato, foi uma surpresa para mim.
Adam não estava mais comendo as batatas, e acho que comprou unicamente para mim, ele apenas tinha o copo de sorvete derretido em mãos, e vez ou outra sugava o canudo, observei enquanto esperava que ele falasse algo — É, eu também não esperava — balbuciou, e de repente um vinco formou-se em sua testa, ele parece hesitar em falar, com os cotovelos apoiados no joelho ele muda o ângulo, e comenta — Por que disse que seria melhor mantermos distância?
Desvio o olhar e com dificuldade termino de mastigar as fritas em minha boca, podia sentir seus olhos queimando em mim, e tentava forma uma resposta menos embaraçosa em minha mente, na verdade não havia outra, se não o óbvio, eu temia descobrir o que poderia acontecer se eu me permitisse sucumbir, sentia quão devastador seria, pois apenas com um simples contato eu ardia em sensações que não recordava-me ter sentido um dia, e isso é terrivelmente assustador para mim — Digamos que é pressentimento.
Adam sorri com a minha resposta, e por dentro eu me condeno pela estupidez que saiu da minha boca. Ele deixa o copo acima do centro, e volta-se para mim se aproximando, uma aproximação perigosa para o meu subconsciente que insiste em me trair — E você está pressentindo o que eu estou me segurando para não fazer? — suas palavras chegam aos meus ouvidos causando um arrepio intenso no meu corpo, me sinto intimidada e em um sussurro nego, mas isso não passa de uma mera mentira, pois sinto exatamente o que não somente ele quer, de alguma maneira, consigo notar a mudança em seu tom de voz, nas pupilas dilatadas e a cor dos olhos mais escura e nublada que o normal, a boca entreaberta assim como a minha deixa totalmente explícito a sua vontade.
Adam pigarreia, e move-se um pouco mais ocasionando um toque eletrizante de nossas pernas uma na outra, sua voz é rouca quando balbucia — Temos um problema aqui, Giulia — junto as sobrancelhas, não entendendo onde ele quer chegar, mas completamente sã de que o clima havia mudado, Adam então ergue o braço e toca o meu rosto, deslizando os dedos suavemente eriçando meu corpo — Por algum motivo e quanto mais conheço você... Talvez eu...
Ele hesita, e nesse momento o meu coração estranhamente acelera — Talvez o que, Adam?
Ele me olha e umedece os lábios com a ponta da língua, e sua mão que antes estava acariciando meu rosto, agora segura meu queixo fixando minha atenção nele — Eu não quero ficar longe de você — e meu coração errou uma batida.
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