03

CAPÍTULO 03

Apenas Nós | Livro Um

♥︎

Encarei a porta de vidro em minha frente, já conseguindo contemplar a beleza dos livros em perfeita ordem nas prateleiras de madeira. Hesito em entrar, mas quando percebi a placa que indicava em letras grandes "aberto" empurrei a porta devagar e entrei, sendo ligeiramente envolvida pelo aroma único de livros novos. Busco por algum rosto, mas não encontro ninguém e se não estivesse tão fissurada em passear entre as prateleiras, teria ido embora, mas quando me dou conta já estava entre a sessão de romance com um livro em mãos, enquanto percorria os olhos pelo local gravando cada detalhe. As luzes amareladas em contraste com as paredes de tijolos dão um ar rústico ao mesmo tempo em que não deixa o moderno de fora, com alguns quadros expostos na parede, e em letras grandes e brancas o nome "leitura" em destaque.

Caminho por entre as estantes, observando com fascínio as obras em exposição, e claramente criando um mapa mental sobre quais eu preciso ter para saborear a escrita do autor. Imersa em meus pensamentos, folheando as páginas de um livro qualquer dei alguns passos à frente, mas fui impedida de prosseguir quando meu corpo colidiu com algo, uma parede feita de ossos, pele e músculos, que para o meu azar tinha algo em mãos, gelado, úmido e causador de um enorme calafrio em meu corpo.

Eu estava encharcada.

— Droga — resmungo, ao notar parte do vestido grudado em meu corpo.

— Quem é você? — uma voz grave e rouca chega até meus ouvidos atraindo inteiramente minha atenção, tornando irrelevante o estrago em minha roupa.

Ergo a cabeça, e instantaneamente encontro um par de olhos avelã fixos em mim, uma cor enigmática e terrivelmente hipnotizante. Tanto que preciso de alguns segundos para conseguir me desvencilhar do fascínio que aqueles orbes entregam. Desvio a atenção, mas apenas para percorrer os olhos em cada detalhe de quem quer que fosse ele, os cabelos negros caindo sutilmente sobre a testa em contraste com a pele clara, as sobrancelhas grosas, o nariz afilado, mas apontando uma leve protuberância no dorso, a mandíbula definida entregando a sombra de uma barba, e os lábios finos levemente rosados. Só quando desço os olhos para o seu corpo magro, mas ainda assim musculoso apertado em uma camisa preta é que percebo o quão perto estamos, e ligeiramente me afasto.

Ele é ainda mais intimidador com alguns centímetros de distância. E alto, bastante alto, contando que estou usando sandálias de salto e ainda assim me sinto incrivelmente pequena diante dele.

Sua sobrancelha esquerda vai ao alto, enquanto me encara com vigor. Pigarrei, focando em um ponto qualquer que não fosse a sua beleza e então consegui responder — A placa... vi que ainda estava aberto e por isso entrei.

Sua expressão séria suavizou após me ouvir, e agora é ele quem percorre os olhos em mim, me analisando completamente e descaradamente, até que solta um suspiro baixo e novamente fixa a atenção em mim ao murmurar — Bem... você me deve uma bebida.

Franzi o cenho, e quando ele ergueu o braço foi que notei o pequeno cantil quadrado, prateado e provavelmente vazio em sua mão, afinal o que estava ali foi totalmente jogado em meu corpo. Tive que segurar a pergunta na ponta da língua, quem viria a uma livraria afogar-se em pequenas doses de Whisky — Na verdade você esbarrou em mim, eu não tive culpa alguma — comentei, com naturalidade enquanto colocava o livro em seu lugar na estante, que para o meu alívio não havia sido danificado.

— É, mas você não deveria estar aqui — afirmou, com um sorriso torto nos lábios revelando uma covinha solitária no lado esquerdo do rosto.

Dei de ombros, e sem querer prolongar uma conversa eu disse — Reclame com quem deixou a placa indicando outra coisa.

Uma breve pausa e ele sorriu, e dessa vez não foi um simples curvar de lábios. Pude claramente sentir a satisfação em seu sorriso largo como se houvesse gostado do que eu falei, então ele então avançou um passo em minha direção — Pode deixar que farei isso — sua voz soou mais baixa, e uma estranha sensação passeou por meu estômago.

Ele desviou o olhar do meu, o direcionando para a estante ao nosso lado e comentou — Romeu e Julieta, hum — acompanhei seus movimentos e notei quando pegou o exemplar que eu havia colocado entre os outros — Um clássico da literatura inglesa.

Um sorriso involuntário formou-se em meus lábios, uma parte minha queria estar surpresa com sua observação, mas não consegui conter os pensamentos e tão pouco as palavras, que não demoraram a sair — Essa é a sua tentativa de me surpreender?

O dono dos olhos enigmáticos estalou a língua, e um sorriso presunçoso ganhou forma em sua boca. Ele devolveu o livro para o mesmo lugar, e virou-se em minha direção. Sua atenção estava focada em mim, quando depois de umedecer os lábios começou a citar — "Amor é uma fumaça que se eleva com o vapor dos suspiros; purgado, é o fogo que cintila nos olhos dos amantes; frustrado, é o oceano nutrido das lágrimas desses amantes. O que mais é o amor? A mais discreta das loucuras, fel que sufoca, doçura que preserva."

As palavras ressoavam vagarosamente de seus lábios, conseguindo me prender sem esforço, e seria uma grande mentira se eu falasse que o ouvir não fez com que meus batimentos aceleraram significativamente. Arqueei uma sobrancelha quando sua voz cessou, ele ainda encarava a mim sem pestanejar, até avançar mais um passo — E consegui? — quis saber

Soltei um riso nasalado, enquanto minha mente trabalhava no que falar, não posso negar que despertou uma certa curiosidade em mim, mas quem quer que seja ele não precisa saber o questionamento interno que fiz sobre o quão surpreendente ele possa ser — Talvez — respondi, sorrindo ao dar de ombros.

Ele entreabriu a boca, e estava prestes a falar alguma coisa quando uma terceira voz interrompeu — Adam — chamou, com uma certa rouquidão presente no timbre, me causando um sobressalto. Foi automático virar o corpo a procura de quem falou, eu então encontrei um homem de cabelos grisalhos e olhos castanhos a pouco espaço de nós, um sorriso contido se fez presente em seu rosto quando me olhou e com um breve aceno cumprimentou-me.

— Ele quer falar com você — avisou ao cara atrás de mim.

Desviei minha atenção para um recanto qualquer, não queria ser intrometida, embora estivesse entre os dois. Adam — como o senhor o chamou — assentiu e ignorando o que ele havia avisado, mencionou — Pode deixar que eu fecho tudo quando sair, Fred.

Não olhei para trás, mas consegui ouvir os passos do homem se distanciando. E ele estava novamente com a atenção em mim, aproveitei para questionar — Trabalha aqui?

— Não — respondeu — Ele é o dono, e é meu tio, por isso tenho as chaves — em sua mão ele rodou o molho de chaves, mas logo as guardou no bolso do jeans — Você está procurando por algo específico?

— Ah, não, eu só estava dando um tempo — falei, e só então me recordei que precisava voltar para o apartamento antes que ficasse ainda mais tarde.

Ele assente, e cruza os braços em frente ao corpo evidenciando seus músculos apertando ainda mais a camisa preta — Adam — falou casualmente, confirmando o que pensei — Qual o seu nome? — interrogou após limpar a garganta.

Foi automático responder — Giulia.

Adam repetiu deliberadamente o meu nome, e uma parte minha agitou-se por ter gostado da forma como foi deferido de seus lábios. Sua mão penteou os fios que estavam em sua testa para trás, e com um vinco entre as sobrancelhas ele comentou — Estou tentando imaginar qual é a sua forma de diversão Giulia, já que você está claramente fugindo de uma balada na sexta à noite — concluiu, me olhando ao esperar uma resposta.

Foi impossível não rolar os olhos, embora por um lado ela tenha razão — Eu não estou fugindo de uma balada, só...

Antes que eu pudesse pensar em uma desculpa esfarrapada, ele me cortou — Então você se veste sempre assim para comprar livros? — seus olhos passearam por meu corpo ao mesmo tempo em que apontava para mim, o vestido de festa com certeza entregou-me.

— E você costuma vir a uma livraria encher a cara? — revidei perguntando, com um singelo sorriso nos lábios.

De repente, sua risada preencheu o espaço entre nós, tornando imprescindível não o acompanhar — Talvez — sussurrou, breves segundos passou me encarando, até que ele, inesperadamente sentou-se no chão da livraria apoiando as costas na prateleira — O que acha de me acompanhar?

♥︎

Intimidador.

É o olhar de Adam sobre mim, ao mesmo momento em que menciona a sua opinião sobre o devastador romance entre Romeu e Julieta. Estamos sentados no chão frio da livraria, e não sei exatamente quanto tempo passou, mas sendo sincera não estou preocupada com esse detalhe, e embora um tanto surpreendente minha noite esteja se saindo interessante ao lado de um desconhecido, que somente sei como se chama.

— O amor nos torna vulnerável, é uma fraqueza — ele observou com certeza, ganhando um resmungo meu, mas nada que o fizesse engolir as palavras. Adam apoiou os cotovelos nos joelhos, um tanto inquieto concluiu — O irônico é que ninguém quer se sentir dessa forma, mas são tolos o suficiente pra se entregar a esse sentimento.

Mordi o lábio inferior, enquanto em minha mente suas palavras se repetiam e eu as analisava com atenção. Embora uma parte minha procurasse entender, a outra — a maior — tinha em mente que sucumbir a qualquer tipo de sentimento não era uma escolha, simplesmente acontecia.

É inevitável.

— Você não concorda? — ele quis saber.

Soltei um suspiro embargado, endireitando-me de frente para ele, tentava organizar as palavras soltas em minha mente e erguendo minha visão, eu murmurei — Não acredito que um sentimento tão genuíno seja assim tão destrutivo, e se faz você se sentir frágil... não é amor, Adam.

Ele mudou o ângulo e em silêncio passou a me encarar profundamente, eu quis desviar porque seus olhos cor de avelã são absurdamente intimidantes, mas não consegui, era como um ímã atraindo-me severamente para si. Posso jurar que um rubor surgiu em minhas bochechas por ter toda a atenção dele voltada para mim, para o meu olhar — Você é uma romântica incurável — exclamou, com um sorriso torto nos lábios rosados.

— Como pode ter tanta certeza, hum? — questionei, dando de ombros — Você não me conhece.

Adam sorriu sutilmente, e abaixou o olhar concordando em seguida — Tem razão — comentou, e foi minha vez de sorrir. O silêncio se fez presente entre nós, por alguns segundos, mas não me incomodou. No entanto, Adam cautelosamente se aproximou, e apenas um mero espaço separava nossos corpos de tocarem-se, causando surpresa ele brincou com uma mecha do meu cabelo e o colocou atrás da minha orelha, de repente o clima havia mudado — Eu posso não conhecer você, mas os seus olhos... sinto que eles não mentem — sua voz soou baixa e rouca, e no mesmo instante uma estranha sensação invadiu o meu corpo, algo que se intensificou quando ele deslizou os dedos por meu rosto, tocando o meu queixo em seguida forçando-me a encará-lo.

Prendi a respiração em uma falha tentativa de controlar os meus batimentos cardíacos, nós dois ainda nos olhávamos sem pestanejar, de repente minha boca secou, e eu cometi o erro de umedecer os lábios com a ponta da língua, atraindo completamente a atenção dele para a minha boca entreaberta — Adam — soprei, sem ao menos ter noção dos meus atos. Eu não iria beijá-lo — Acho melhor eu ir embora — eu disse, mas não tenho certeza se foi alto o suficiente para que ele ouvisse.

Seu rosto estava a meros centímetros do meu, e eu facilmente conseguia sentir o cheiro de loção pós-barba se mesclando com seu hálito de hortelã, e seus lábios agora tinha minha completa concentração, estávamos próximos — Eu... — ele começou a falar, mas de repente o toque do seu celular preencheu o ambiente, Adam fechou os olhos e após soltar um suspiro de frustração ele se afastou, e eu finalmente consegui soltar a respiração que nem percebi estar prendendo.

Sua voz soou ríspida quando atendeu a ligação e instantaneamente falou — Desista, eu não vou voltar — notei seu semblante mais sério, diferente do Adam que estava a segundos atrás comigo. Desviei meu olhar, e tateei as mãos dentro da pequena bolsa em busca do meu celular, eu havia perdido completamente a noção do tempo. Ouvi alguns resmungos indecifráveis de Adam, enquanto juntou seus dedos entre os olhos e jogou a cabeça para trás suspirando profundamente, ele parecia nervoso quando afirmou — Estou indo, mas a quero fora no instante em que eu chegar.

Uma tensão pairou no ar, e eu não sabia muito bem o que falar, Adam ainda tinha os olhos fechados e o celular em uma das mãos — Está tudo bem? — eu perguntei, com cautela.

Ele ignorou a minha presença por algum tempo, eu já estava me preparando para levantar e sair quando sua voz mais rouca que o normal apenas falou — Eu tenho que ir.

Assenti, e então me coloquei de pé sendo acompanhada por ele — Tudo bem, já está na minha hora também — comentei, ao mesmo tempo em que já confirmava minha viagem no aplicativo, que para a minha sorte colaborou.

Adam se afastou, e caminhou até o interruptor nos deixando completamente no escuro — Vamos — tive um sobressalto ao ouvi-lo bem perto, eu não conseguia enxergar muito bem, mas acho que a sombra de um sorriso apareceu em seu rosto quando meu corpo pulou, ao sentir sua mão quente repousar em minha lombar nos guiando até a porta.

O ar forte e gelado soprou em mim, fazendo meus cabelos voarem em decorrência do vento, olhei mais uma vez para o celular certificando-me que o motorista já estava próximo, e não demoraria a chegar. Adam fechou a porta, e passou um cadeado prateado trancando a livraria, foi então que notei ser um primeiro andar e deduzi que o seu tio mora no andar de cima. Ele virou-se para mim, e com seu corpo esguio se aproximou no exato momento em que encontrei o carro que eu havia pedido — É, eu vou indo — ele sorriu, e eu dei as costas prontamente para ir.

Alguns passos à frente, sua voz grave chegou até meus ouvidos — Giulia — chamou, ganhando a minha atenção por cima dos ombros — Foi bom conversar com você — disse, e sem esperar por uma resposta se afastou, logo sumindo completamente do meu campo de visão.

E por alguma razão, eu queria saber mais do que apenas o seu nome.

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